Política

Gostaria de informá-la de que amanhã seremos mortos

Exma. Sra Presidenta Dilma Rousseff,

Gostaria de informá-la de que amanhã seremos mortos. Talvez nem amanhã, Presidenta. Talvez sejamos mortos hoje mesmo. Nós, os Kaíques desse país que a senhora comanda.

E gostaria também de dizer que o sangue que jorrará da brutalidade do crime vai acabar sujando seu tailler. Porque a senhora entende que ao não se colocar a favor da causa gay, ao se curvar à bancada evangélica e ao discurso homofóbico que ela promove, está incentivando esse tipo de crime, né? Desculpe lembrá-la disso, mas não há como separar as coisas.

Enquanto a senhora não se colocar, não disser claramente que homofobia é crime e que ser homossexual não é doença, enquanto a senhora permitir se violentar moralmente em troca de votos, ou se abster de lutar por uma lei que coíba esse tipo de crime, o sangue de nossos jovens gays assassinados respingará em seu tailler, que por sorte é suficientemente vermelho para não revelar o estrago. Mas já jorra muito sangue, Presidenta, e logo seu tailler vermelho já não poderá mais escondê-lo.

Vê-la subir a rampa e colocar a faixa no peito me fez chorar: uma mulher presidente do meu país. E eu, ingenuamente, pensei que a senhora faria valer os princípios esquerdistas pelos quais lutou tanto, e pelos quais estava disposta a morrer, e faria coisas boas em nome de causas femininas e homossexuais. Esperava para qualquer minuto que a senhora desse uma banana para a tal base evangélica e mostrasse suas verdadeiras cores.

Mas isso nunca aconteceu. Muito pelo contrário.

Em nome da tal governabilidade, essa palavra medonha e que deveria acabar na hora em que resvala no humanitário,  a senhora se calou. Gays continuam sendo assassinados, ou suicidados como prefere a policia de São Paulo, de forma brutal, covarde e inaceitável. E enquanto isso a senhora, calada, vai tomar café da manhã com Bolsonaros e Crivellas, esse arsenal de preconceito a quem a senhora chamou para ocupar um ministério em sua administração.

Quero acreditar que esse silêncio a incomode. Tem que incomodar, ou a senhora não é a mesma que lutou por tudo o que lutou.   Naturalmente, algum assessor já a informou que o Brasil é hoje o país com a maior quantidade de crimes de homofobia no mundo, certo? E que a cada 36 horas um homossexual é morto nesse Brasilzão que a senhora comanda. Assassinado apenas por fazer amor com pessoas do mesmo sexo. Ou por exibir trejeitos considerados anormais pelo macho-alfa dominante, esse mesmo que a torturou há tantos anos. Acontece com os gays hoje exatamente como aconteceu com negros, que já foram mortos apenas pela cor da pele, e com mulheres, queimadas em fogueiras públicas apenas por emitirem opinião. E o que a senhora fez até agora em nome dessa minha gente? Bateu continência para Felicianos e Crivellas e Bolsonaros.

A Dilma de meu imaginário não gosta de ser obrigada a fazer isso. A Dilma de meu imaginário chega em casa e chuta a parede, soca a almofada, arremessa copos ao chão toda a vez que se vê obrigada, em nome da tal governabilidade, a se curvar a essa turma de ignorantes e intolerantes. Mas a Dilma Presidenta acha que esse é o mal menor já que a Dilma Presidenta quer votos para se reeleger, mesmo que eles custem parte de seu código ético.

Deixa eu dizer uma coisa para a senhora, Presidenta. O Brasil é hoje um pais menos desigual graças às políticas sociais que seu partido implantou. O Brasil é hoje um pais levado um pouco mais a sério muito também por causa da década de comando petista. Os números são inequívocos, a senhora será reeleita, até porque, convenhamos, a oposição que se apresenta é dessas coisas doces de ser batida. Não sou estrategista de droga nenhuma, mas não seria hora de a senhora se colocar, fazer valer seus princípios?

E sempre haverá evangélico a votar na senhora, porque nem todos são ignorantes como alguns de seus líderes. Conheço muitos, aliás, que acreditam em um Deus não punitivo, em um Deus que sabe que o amor é a maior das forças do mundo e que, por isso, qualquer forma de amor jamais pode ser entendida como equivocada ou merecerá a danação.

Não é possível que a história do assassinato-suicidante do garoto Kaíque não a tenha comovido, ou é? A senhora leu a respeito, certo? Viu as fotos? A idade do menino? O que disse a polícia paulista? Não é hora de dar um basta nisso, presidenta? Não é hora de bater no peito e chamar essa para a senhora, para aquela Dilma que não se deixou matar por torturadores porque queria lutar por um país livre? Pois está em suas mãos nos libertar agora. De que lado a senhora está? Do dos torturadores ou do lado de suas vítimas?

O Brasil precisa de um presidente que se coloque pelos gays, que são os negros e os judeus de hoje. O Brasil precisa de um líder que nos humanize, que nos veja, que nos reconheça. O Brasil precisa disso tanto quanto de geladeiras e de aparelhos de TV e de escolas e de hospitais.

Iniciar uma batalha pelo fim da intolerância é o maior dos legados que a senhora pode deixar. A senhora sabe a importância do pioneirismo de uma atitude como essa. E a senhora sabe que ter uma mulher que se coloque à frente dessa intolerância ancestral seria um passo gigantesco para mais de uma causa apenas. Por que não? Por que não agora? Por que não a senhora? Estamos sendo assassinados, Presidenta. Nossos jovens estão sendo assassinados, e não há sequer uma lei que nos proteja de agressões, sejam elas verbais ou físicas. Vamos lá, Presidenta, não nos deixe aqui à deriva.

Os grandes heróis, Presidenta, nascem nas horas de maior sofrimento coletivo porque são feitos de um material que sabe desde sempre que somos todos iguais, a despeito da cor da pele, do órgão sexual, da crença religiosa, da orientação sexual. Os grandes líderes dão esse recado a seu povo, e depois, como heróis, conduzem sua gente para o entendimento da nova ordem. O grande líder entende que, como escreveu Einstein, “um ser humano é parte de um todo chamado por nós de Universo, uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experiencia a si mesmo,  seus pensamentos e sentimentos como alguma coisa separada do resto – uma espécie de ilusão de ótica de sua consciência. Essa ilusão é uma forma de prisão para nós, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e à afeição por umas poucas pessoas próximas. Nossa tarefa deve ser a de nos libertarmos dessa prisão alargando nossos círculos de compaixão para envolver todas as criaturas vivas e o todo da natureza em sua beleza”. Estamos aqui precisando de um grande líder, que interrompa essa matança, Presidenta. Porque amanhã, ou hoje mesmo, seremos mortos.

A primeira frase desse texto, Presidenta, foi roubada do título de um livro sensacional, escrito pelo jornalista americano Philip Gourevitch, que passou três anos em Ruanda e saiu de lá com uma obra-prima a respeito da infinita capacidade que o ser humano tem para odiar e dizimar: “Gostaríamos de informá-los de que amanhã seremos mortos com nossas famílias”. Trata do genocídio em Ruanda na década de 90, um dos crimes contra a humanidade mais perversos já cometidos, comparado apenas ao Holocausto, mas não tão comentado e chorado porque, afinal, é uma história cujos protagonistas são negros e africanos e… a senhora sabe… mas preciso deixar isso para lá porque o preconceito sobre o qual quero falar aqui é outro. Em todo o caso, fica a dica, Presidenta: “Amanhã seremos mortos”

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3 pensamentos sobre “Gostaria de informá-la de que amanhã seremos mortos

  1. Vou compartilhar com sua permissão. Nem sei dizer de que pedaço desse “escrito” gostei mais porque me fez pensar profundamente. Você escreve muito bem. E digo isso não porque gramaticalmente é um texto correto. Afirmo que está muito bem escrito pela forma como a verdade de que trata é colocada: dentro de um contexto atualíssimo socialmente, politicamente, humanamente.

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  2. Hoje, dia 16/04/16 acho que qq voto contra o impeachment será válido não?
    Isso é política, isso é democracia, todos devem ter suas vozes aceitas e o bem da maioria deve ser prevalecer, resguardado os direitos das minorias que sempre devem valer.

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