Comportamento/Futebol

Que tipo de torcedor queremos ser?

Onde você estava quando na noite de 13 de outubro de 1977 Basílio colocou a bola para dentro do gol da Ponte Preta e acabou com os 24 anos de jejum?

Eu, estranhamente, estava dentro do Morumbi. Com minha mãe, que detesta futebol, mas se sentiu obrigada a me levar porque eu, inconformada em casa, não parava de chorar dizendo que a TV não transmitiria o jogo. Eu tinha nove anos, mas já havia sido infectada pelo virus do futebol. Sob protestos de meu pai, saímos de casa, pegamos um taxi, compramos dois ingressos de cambistas e entramos.

Quem eram aquelas mais de 100 mil corintianos? Os jornais e a TV me diziam que eram pessoas que ficaram duas décadas sem gritar “É Campeão”, e que, ainda assim, nunca abandonaram o time.

E havia o bizarro fenômeno de a torcida ter crescido ainda mais durante essas décadas. Estranha essa torcida, eu pensei.

Anos depois eu entenderia que o gênio não nasce do ordinário, mas apenas do estranho. O sublime vem do que não faz parte do lugar-comum, do que recusa clichés e convenções. Era essa a torcida que eu via ali.

Muita coisa aconteceu desde o gol de Basílio: Democracia, Sócrates, títulos nacionais, mais alguns jejuns, mais alguns títulos nacionais, Série B, Tolima, Libertadores, invasão do Japão e donos do Mundo. O futebol como a vida: para cima e para baixo.

E a torcida, salvo alguns deslizes, porque não há como não haver já que somos demasiadamente humanos, justificando a fama de “a mais apaixonada do Brasil”.

Lembro no começo dos anos 2000, quando a fase era novamente ruim, de um acampamento em frente a casa de Dualib, então presidente. Torcedores putos, gritando, dizendo que iam pegar. Nada aconteceu, mas o presidente deve ter tido uma noite infernal. Lembro de ter gostado. Tipo de protesto que eu faria. Se o time era uma merda, não tinha comando, quem é o fundamental responsável: o presidente.

Lembro da confusão depois da derrota para o River no Pacaembu em 2006. Eu estava na numerada, vi o que ia acontecer e sentei sem me mexer. Eu entendi o torcedor naquela noite. Era muita dor, era muita tristeza e às vezes a dor e a tristeza extravasam na ira. Aquilo era apenas sofrimento, tanto que a PM não precisou fazer nada para que o torcedor não invadisse.

Lembro de algumas tentativas de invasão a vestiário, de quebra-quebras, de pacadarias, mas  eu conseguia entender. Não era orquestrado, não era pensado, não era planejado — era uma reação visceral depois de uma derrota. De mais uma. Fim de mais uma tentativa de Libertadores. Fim do sonho.

Mas aí o sonho se realizou, e teve o bônus de um mundial.

Lembro de ter sido visitada por uma sensação estranha enquanto ainda comemorava a conquista do mundo na avenida Paulista: e se a vitória representasse o fim de nossa esquisitice?

E se ela marcasse nosso mergulho no ordinário? Nos transformasse no torcedor que exige a vitória, e não o suor? No torcedor que ameaça em vez de apoiar? No torcedor que não mais grita alto quando o adversário faz um gol? Comentei com um amigo, que riu e disse, Deixa de ser pessimista. Nada disso vai acontecer. Aqui é Corinthians!, e voltou a pular e gritar pela avenida.

E eu deixei para lá.

Mas, pouco tempo depois, no Pacaembu, o pensamento voltou. Especialmente porque uma música cantada pela torcida me deixava inquieta. “Vamos, vamos Corinthians, essa noite teremos que ganhar”, diz a letra. Como assim “teremos que ganhar” eu pensava? Não temos que ganhar. Temos que jogar. E lutar. E tentar. E dar carrinho na bandeirinha de escanteio do adversário, e comemorar uma dividida ganha, e aplaudir mesmo a derrota mais brigada.

E eu que ria da música cantada pela torcida do São Paulo que dizia “Vamô São Paulo, vamô São Paulo, Vamô ser campeão” agora escutava um troço parecido da minha torcida.

Alguma coisa estava fora da ordem.

E aí veio o Amarilla, aquele corno cafajeste, e tudo começou a degringolar.

Ainda comemoramos uma Recopa, mas o destino estava traçado. Como lidaríamos com a fase ruim? Seríamos os de sempre, protestando e chorando e gritando e torcendo e amando, ou alguma coisa em todos nós estava para sempre alterada?

Vendo o que aconteceu nos últimos dias, sinto medo.

Medo porque faz apenas seis meses que  comemoramos o último título.

Medo porque estamos vindo de muitas conquistas. De muita alegria. Acabamos de merecer 14 páginas em uma das revistas mais tradicionais e importantes do mundo: a New Yorker. Temos estádio. Somos internacionalmente famosos. De onde vem tanta raiva, e tantas exigências? Ficamos 24 anos sem título, sem estádio, sem reconhecimento internacional e nada parecido aconteceu. Nunca esganamos jogadores e funcionários do clube para ganhar alguma coisa. Aliás, desde quando damos tanta importância a ganhar e ganhar e ganhar? O que está acontecendo? No que nos transformamos?

Hoje vou para cama pedindo ao universo que nos proteja da ordinariedade. Que nos permita ser, para sempre, aquele torcedor que diz que o gol mais importante da história foi marcado por Basílio. Aquele torcedor que leva 15 mil ao aeroporto apenas para dizer “vão com Deus”, aquele torcedor que canta “aqui tem um bando de louco, louco por ti”, e “minha vida, minha história, meu amor”.

Isso que eu vi essa semana não é Corinthians. Porque não há, nessa relação que eu aprendi a amar, espaço para o terror – cantado, falado, tramado, planejado ou encenado; quando houver, então seremos apenas mais um.

E eu não quero ser mais um. Eu quero ser aquela que troca uma Libertadores e um Mundial por um gol de Basílio, pela invasão do Maracanã, pela invasão do Japão e de Cumbica. Isso é Corinthians. A gente não ama ganhar. A gente ama um time.

Que a ditadura da vitória a qualquer custo não caia sobre todos nós. Vai, Corinthians.

9 pensamentos sobre “Que tipo de torcedor queremos ser?

  1. Putz, romantizar fatos como o de 2006, noite de ameaças a um senhor de 80 e tantos anos apenas para deixar o fato de sábado mais grave é um grande erro. Desde lá, aliás de antes de lá, eles estão dando mostras de que vão até onde deixarem. Seja lá a camisa que usem.

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    • Soou romântico mesmo 2006… mas é porque foi assim que eu vi. Sentada na numerada, olhando aquela massa se movimentar, querer invadir, eu pensei que existia uma beleza no que estava vendo. Mas por favor não me tire de contexto aqui. Existe beleza na dor, existe beleza no sofrimento, e eu entendi ali que aquela revolta vinha da dor, de uma dor profunda e angustiante, diferente dessa invasão de agora, que vem de um outro lugar. Mas, obviamente, se em 2006 a invasão se concretizasse, se pessoas fossem feridas e mortas, nada desse romantismo valeria, e essa não seria minha análise hoje.

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  2. Em 1910, um grupo de membros da classe operária fundou um clube de futebol que, em pouco tempo, se tornou o “Galo” das várzeas paulistanas: o Corinthians, que passou a ser temido por seu time de futebol aguerrido e por uma barulhenta e cada vez mais numerosa e apaixonada torcida. A ascensão do “Time dos Operários” foi irrefreável e sensacional: em 1913 ingressou no campeonato paulista, em 1914 conquistou o seu primeiro título e, na década de 1920, com a conquista de dois tricampeonatos, se consolidou como o principal clube do futebol paulista.

    A chegada do varzeano e guerreiro time do Corinthians, e de sua perturbadora (em mais de um sentido da palavra) torcida ocasionou um racha na elite dos clubes de futebol paulistas, superado apenas duas décadas depois. O que jamais parece ter sido superado é o incômodo provocado pelo Corinthians – o time “do povo”, “dos carroceiros”, “dos engraxates”, “da ralé”, “dos maloqueiros”, “dos bandidos” – e, principalmente, por sua fiel torcida.

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    1933 : Depois de uma derrota para o grande rival, Palestra Itália, por 0x8 (maior goleada sofrida pelo Corinthians em sua história), uma multidão de corinthianos – “desordeiros”, segunda definição da imprensa à época – se dirigiu à sede do clube, que foi invadida e incendiada, resultando na renúncia de toda a diretoria.

    A terrível crise vivenciada no início da era profissional começou a ser superada no ano seguinte, com a chegada do lendário Teleco, e foi definitivamente superada com o tricampeonato de 1937/38/39.

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    1974 : Após a derrota por 0x1 para o Palmeiras, na final do campeonato paulista (a mais doída derrota da história do Corinthians), completando 20 anos de jejum de títulos, foi preciso se eleger um bode expiatório para mitigar a imensa dor da nação corinthiana. O escolhido foi Rivelino – jogador com mais de 10 anos de clube, maior craque a vestir a camisa corinthiana -, que foi praticamente banido do clube, e só teve a importância de seu nome no clube reconhecida anos depois.

    O Corinthians perdeu seu maior craque, e foi um time sem craques, em 1977, que libertou a Fiel do martírio de mais de 20 anos sem um título do campeonato paulista.

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    1997 : Depois de uma derrota para o Santos, 0x1, na Vila Belmiro, torcedores do Corinthians fizeram uma emboscada para o ônibus do time, na subida da Serra, na Rodovia dos Imigrantes, em plena madrugada. O ônibus foi cercado, apedrejado, e sofreu tentativa de invasão, com os jogadores e comissão técnica vivendo momentos de terror.

    Logo após o episódio deplorável, e ainda contando com grande parte do elenco que o vivenciou, teve início, em 1998, uma das melhores fases da história corinthiana: o bicampeonato de 1998/99 no Brasileirão e a conquista da 1° Mundial de Clubes, em 2000.

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    2000 : Após a segunda eliminação consecutiva, frente ao Palmeiras, por pênaltis, na Libertadores, a torcida corinthiana invadiu o clube para protestar. Edilson, um dos maiores ídolos de então, eleito melhor jogador do Mundial, foi agredido e acabou saindo do clube.

    Com um elenco renovado, o Corinthians conquistou títulos nos três anos seguintes: 2001/02/03.

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    2011 : Após eliminação na Libertadores, perante o Tolima, o CT corinthiano é invadido por torcedores revoltados, que vandalizam carros ali estacionados, vários deles pertencentes aos jogadores. Temerosa do que poderia ocorrer (e, de fato, ocorreu), a delegação desembarcou, de volta da Colômbia, em Viracopos, e não se dirigiu ao CT para pegar os carros.

    Mantido no cargo, a despeito da crise, o técnico Tite ganhou o Brasileirão no mesmo ano, a Libertadores e o Mundial, em 2012, e o Paulistão e a Recopa, em 2013, tornando-se o técnico com o maior e mais valoroso cartel de títulos da história corinthiana.

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    Os fatos acima destacados dão mostras da passionalidade que envolve o Corinthians. A Fiel faz do Corinthians o maior clube do futebol brasileiros, e faz com que o profissional que envergue o escudo do clube esteja sempre no fio da navalha, na iminência de tocar o céu e prestes a sentir as chamas do inferno.

    Os alvos da invasão ao CT corinthiano, no último dia 1°, deram-se conta disso – eles que, em sua maioria, vivenciaram e se impressionaram de outra maneira com outra invasão da torcida corinthiana, no Mundial de 2012.

    Pode-se concluir que a expressão corinthiana “Aqui é Corinthians!”, não é mera retórica, é rica de significados, e de significados extremos.

    Ser do Corinthians não é algo que se faça sem comprometimento e sem respeito. Em outras palavras, e fazendo citação de outra máxima da torcida corinthiana:

    “Não é mole, não! Tem que ser homem pra jogar no Coringão!”

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    • Eu sei e entendo, Luiz. Não sou a torcedora mais calma do mundo, muito pelo contrário. E o futebol é isso aí mesmo. Tampouco sou daqueles que execra a Gaviões. A Gaviões já me fez chorar de emoção muitas vezes na vida. Tá tudo certo. Minha reflexão é a seguinte: todas as colocações de seu comentário dizem respeito a fases temerosas do time. O que não é o caso agora. Estamos vindo de conquistas importantes, temos reconhecimento internacional e um estádio. Baixamos a bola, ok. Protesto são válidos, claro que são. Tem gente ali que tá jogando com o nome e isso irrita. Mas era para usar essa força? Cruzar essa fronteira? Tocar o terror desse jeito? Furtar, esganar, quebrar? Fico com medo de estarmos nos tornando mimados.

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      • Milly, a agressão ao Edilson, em 2000, ocorreu poucos meses depois da conquista do 1° Mundial, o qual veio na esteira do bicampeonato brasileiro, em 1998/99.

        Por mais estúpida que tenha sido a invasão ao CT no último dia 1°, ela não contradiz, e, sim, reafirma a passionalidade exacerbada (fonte de muitas coisas belas e algumas feias) que caracteriza a história e a torcida do Corinthians.

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  3. Muito bacana!

    Tenho o mesmo sentimento. Parece que o corinthiano quer trocar o Corinthians pelo São Paulo ou Real Madrid.

    Na sutileza da música que obriga a vitória, no enaltecimento do “estádio ostentação” ou no terrorismo como forma de protesto, vai se revelando um novo perfil de torcedor mais alienado, mais vendido ao negócio. Um idiota completo.

    Oxalá a gente volte a fazer aquelas palmas sincronizadas da década de 80: “Pá-pá-pá-ra-pá-pá, TIMÃO!”.

    Isso me basta.

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  4. De novo este discursinho picareta, demagogo e principalmente hipócrita que afirma “que não vivemos de títulos…”, “a gente não ama ganhar”, e outras bobagens. Pior ainda, é acreditar nisso! Milly, aprenda uma regra básica do futebol, desde que foi inventado: TODA TORCIDA de time grande acostumado a títulos (principalmente de grande expressão) é “mimada”, inclusive a do Corinthians, que muitos acreditam pertencer uma categoria “distinta”. Fala sério… Esse papinho de “não vivemos de títulos” cabe à torcida da Ponte, da Lusa, do América, etc. Aí sim, soa mais honesto e legítimo. Ora, o que forja a história de um grande clube é a alegria e tristeza de se ganhar ou perder uma competição, de dar a volta por cima, seus grandes jogadores, etc.

    Nenhum corintiano discute num boteco com o seu amigo, se a torcida do seu time “invadiu” o aeroporto, o Maracanã ou o quer que seja. Desculpa, vamos acordar pra realidade, nenhum corintiano numa discussão com qualquer rival, fala do gol antológico do Basílio em 77. Nenhum torcedor que se preze, diz: “a gente não ama ganhar, ama time tal…”. Percebe o ridículo? E qual a surpresa em 2006? Aquela revolta toda não foi depois de ser eliminado em uma… Libertadores? Não podemos omitir esse detalhe fundamental. Normal, haja vista que os maiores rivais haviam ganho tal competição naquela época, e era uma taça cobiçadíssima pela torcida. Mas não é a mesma torcida das “invasões” e que não vive de conquistas?

    Estamos falando da mesma torcida acostumada a expulsar jogadores e ídolos (que o diga Rivelino em 74), depois de uma eliminação ou perda de um título (jogar garrafas em campo também). E temos exemplos disso em outras torcidas e clubes. Repito, TODA torcida de time grande e vitorioso é mal acostumada ou mimada. E a maioria tem cânticos que remetem à títulos ou sanha de ser campeão. A do Flamengo mesmo bradava: “Vamos Flamengo… vamos ser campeão, vamos Flamengo…” –> http://www.youtube.com/watch?v=nL3DdU9xjy8

    De modo que, a meu ver, não existe “crise de identidade” na torcida do Corinthians ou do próprio clube. Isso é uma falácia, que muitos alimentam para massagear o ego dessa torcida. Times grandes historicamente, tem uma missão, aqui ou em qualquer lugar do mundo: lutar para ser campeão. Pergunta pro velho corintiano que viveu o período da fila de 22 anos o que ele mais queria. Sem mais…

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    • Típico discurso de quem carrega um profundo recalque anticorinthiano, de quem não suporta o reconhecimento da unicidade que é ser Corinthians, de quem sabe que título nenhum supera a glória de se ser o Time do Povo, de quem sabe que, a despeito do Corinthians ser o Campeão dos Campeões (maior campeão paulista – 27 títulos; maior campeão brasileiro – 8 títulos (5 Brasileirões e 3 Copas do Brasil); maior título da história da Libertadores (invicto, em 14 partidas, ganhando a final contra o Boca Jrs); 1° e um dos dois únicos clubes bicampeões do Mundial), o que faz do Corinthians o clube mais importante do Brasil é o fato de o Corinthians ser o clube da Fiel.

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