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Chique é café em cápsula

“Bom dia. Queria comprar algumas cápsulas de café”

“A senhora já é cliente?”, pergunta a funcionária vestida em um tailleur azul marinho, penteada e maquiada para ir a um casamento e usando saltos sobre os quais eu não duraria dois segundos antes de romper um ligamento.

“Acho que já comprei aqui uma vez, mas não tenho certeza. A máquina de espresso não é minha, é um presente. Eu, aliás, nem gosto de espresso, só tomo café de bule”, digo tudo isso apenas para compartilhar, uma mania tão abobada quanto incontrolável que vai se acentuando com o passar dos anos.

Ela deixa escapar uma expressão esquisita logo depois de escutar “café de bule” e antes de dizer, ainda com a boca meio torta. “Então precisarei ver se tem cadastro aqui”.

“Cadastro para comprar café?”, pergunto em tom de lamento.

Ela repete a cara esquisita, que agora me parece enjoada e com boca ainda mais torcida para a direita. Se a visse assim no meio da rua, poderia jurar que estava tendo uma espécie leve de AVC.

“Não deve ter cadastro”, diz virando-se para o engravatado que está a seu lado, vestido em terno de corte impecável. Só sei que ele não é investidor do mercado financeiro mas balconista da loja de café espresso porque traz no peito uma plaquinha prateada com seu nome sobre o logotipo da marca. Ela pede meu CPF, eu digo os números e a vejo digitando enquanto encosta a barriga no balcão em frente a uma finíssima tela de computador.

“É, como imaginei, não tem cadastro”, não sei se ela agora fala comigo ou com o engravatado.

“A senhora pode se sentar ali enquanto preenche a ficha, já a atenderemos”, diz apontando para um sofá de couro preto e convidativo.

“Eu só queria algumas cápsulas de café…”, digo em voz baixa e mais para mim mesma. Mas ela escuta.

“Como a senhora vê, a loja está cheia e não faz sentido preencher a ficha cadastral de pé no balcão. Para adiantar, por favor, separe CPF, RG, comprovante de residência e depois me traga a ficha”, diz enquanto estica o bracinho com uma ficha em mãos.

“As cápsulas virão dentro de um carro zero?”, digo na tentativa de fazer graça e pegando a ficha. Ela não ri, vira as costas e me deixa ali sozinha. Dou alguns passos para o lado e apoio a ficha no balcão.

“A senhora aceita um café enquanto espera?”, pergunta um outro funcionário da loja.

“Tem de bule?”

O funcionário faz cara de nojo e me deixa ali sozinha outra vez.

“Por favor, preciso de uma caneta para preencher a ficha”, suplico ao engravatado, que me oferece uma Mont Blanc. Notadamente, tenho dúvidas durante o processo de preenchimento e mais um engravatado se aproxima.

“Posso ajudá-la?”

“Acho que sim. No campo ‘grau de escolaridade’ não há a opção ‘incompleta’”.

Ele ri debochadamente e me deixa ali sozinha outra vez. Dessa vez não era uma piada e entre todos os motivos que minha mãe me deu para que eu concluísse a faculdade poder comprar café em cápsulas não constava da lista, embora ter direito a uma cela especial estivesse. Concluo o preenchimento e me aproximo da vendedora de tailleur.

“Terminei”, digo triunfante. Ela pega o papel da minha mão.

“A senhora tem copias do RG, CPG, CNH e comprovante de residência?”

“Não”…, respondo envergonhada.

“Na rua de cima”, ela aponta para um lugar de localização incompreensível, “eles tiram xerox. Quando voltar não precisa entrar na fila”, conclui batendo em retirada. Quase choro de emoção com tamanho privilégio de escapar da fila na volta. Vou para a rua em busca do tal lugar que faz cópias. Vinte minutos depois, estou de volta cheia de papeis nas mãos.

“Pronto, está tudo aqui”, digo oferecendo ao tailleur a palelada.

Ela começa a conferir e eu, esperando pelo pior, sinto o suor escorrer pela testa. O pior, nessas horas, é sempre um “faltou protocolar no guichê 39”.

“O comprovante de residência tem que ser conta de água, luz, telefone ou gás”, ela diz triunfante.

“Não serve a conta do cartão de crédito?”

“Não. Tem que ser água, luz, telefone ou gás, como eu disse”, ela agora sorri como uma medalhista olímpica no pódium.

“Não pode quebrar um galho só hoje?”

“A loja está cheia e não posso abrir exceções. A senhora pode voltar mais tarde com um comprovante de residência válido e falar comigo diretamente. Já tenho o resto de sua documentação”. Diz isso e vira as costas.

Depois de duas horas parada no trânsito consigo ir e voltar com uma conta de luz nas mãos. Vou direto ao balcão e, esbafordida mas vitoriosa, entrego a ela a conta de luz para ser anexada ao meu número de processo. Ela recomeça o conferimento, papel por papel.

“Falta o dígito do RG”, diz, vitoriosa mais uma vez.

Retiro da bolsa o RG e confiro o dígito.

“Quatro”, digo ainda esbaforida antes de suplicar: “Eu queria um copo d’água, por favor”.

“Claro. Vamos providenciar”. Ela chama uma moça vestida em avental e pede meu copo d’água. Em seguida começa a digitar meus dados no computador.

“A senhora sabe quais aromas vai querer?”, pergunta ainda digitando e sem me olhar, dando a entender que meu cadastro será aprovado. Bate uma felicidade.

“Dois de cada”.

“Temos novos aromas”.

Faço cara de interesse, mesmo sem saber quais eram os velhos aromas. O copo d’agua chega e me é oferecido em uma bandeja. Bebo e faço careta; é água com gás. Acho prudente não reclamar e ao ver o olhar da balconista cruzar com o meu faço expressão de “que água deliciosa”.

“Quais são os aromas novos?”, pergunto tentando parecer intrigada.

“Agora temos baunilha com toques de açafrão, muito leve ligeiramente adocicado”.

“Hummm”, murmuro para não deixar passar em branco

“Temos também de chocolate branco com linhaça, kombusha e sementes de ishi, uma erva oriental usada por monges tibetanos para a meditação”.

“Hummmmmmm”, repito acentuando o eme.

“E temos ainda o arábico com toques de trigo, coalhada seca, hummus e berinjela. Esse já é para paladares bastante apurados porque o gosto é distinto e exuberante”.

“Hummmmmmmmmm”.

“Ah, preciso lembrar que só aceitamos cartão. Nem dinheiro, muito menos cheques”, ela diz voltando a parecer triunfante.

“Claro, claro”, concordo abrindo a bolsa para deixar evidente que possuo um cartão.

Ela sai e volta com vários tubinhos coloridos. Dentro deles, as desejadas cápsulas de café. Movida pela empolgação dos que acabam de entender que agora pertencem digo:

“Vou levar dois tubinhos de cada”. Ela sorri largamente.

“Vou fazer sua nota”, fala enquanto empacota numa sacola meus tubos. “O total é R$ 890,00”.

Engulo seco, mas não deixo transparecer. Entrego a ela o cartão, sem ter certeza de que meu limite será ultrapassado na compra de café espresso.

“Quer dividir?”. A pergunta soa como uma benção, mas tento manter o controle e não parecer extasiada.

“Pode até ser, pode até ser”.

“Em quantas vezes?”

“Trinta?”, pergunto rindo para deixar no ar a possibilidade de soar como uma piada, embora não seja.

“Três é o máximo”, ela diz sem revelar que entendeu como piada.

“Três então”.

“Sua nota está sendo impressa”, ela diz me oferecendo a sacola. Minutos depois, coloca a nota em envolope e me entrega. Considero guardar com cuidado para fins de imposto de renda.

“Vou acompanhá-la até a porta”, diz saindo de trás do balcão. Sou varrida por um sentimento de alegria e pertencimento.

Já na rua, olho para trás e estico o bracinho para dar a ela um tchau efusivo. Mas o tailleur não vê porque já virou as costas e entrou no ambiente civilizado da loja outra vez.

14 pensamentos sobre “Chique é café em cápsula

  1. Eu tbém prefiro “café de bule”, apesar de tomar mais café em cápsula. Só de ler o seu texto dei uma “suada” rs…as minhas cápsulas são mais “populares”…compro no mercado mesmo rs

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  2. Correndo o risco da pergunta parecer idiota, mas esse texto é completamente ficcional né? Digo isso porque tem tantas ofensas ao CDC que eu nem saberia por onde começar.

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  3. Oi, Milly!

    Você está mesclando textos já publicados com outros inéditos? Porque esse daqui eu já conheço, e sempre me diverte… rsrsrs!

    Adorei a novidade do blog!! Alimente-o sempre, porfa!!!

    Grande abraço e beijo!

    Kati

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  4. Eu amo café coado em qualquer coisa mas jamais me atrevi pagar por ele em capsulas. Meu vicio não comporta.Seus textos são muito bons. Parabéns. Moça eclética todo tanto sô. Vim aqui só ler um texto que um amigo compartilhou e não consegui sair até agora.

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