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Como matei meu pai

Durante muitos anos fui idiota. Como um dos sintomas da idiotice é a arrogância, durante muitos anos fui arrogante. A arrogância se manifestava em mim na forma de muitas certezas e poucas dúvidas.

Minha cretinice perdeu um pouco da força quando meu pai morreu e me deixou como herança a obra completa de Machado e Eça (além de algumas dívidas de jogo). Devorei a obra desses dois achando que fazendo isso teria meu pai um pouco de volta, o que não passou muito longe de alguma verdade.

E embora ele tenha sido meu heroi, era, como todos nós, um homem cheio de falhas (talvez o vício no jogo a maior delas). Mas é difícil enxergá-las quando tudo o que fazemos é venerar porque a veneração empobrece o caráter – são poucos, aliás, os que suportam a liberdade optando por se deixar escravizar por algum tipo de devoção. E foi preciso que eu deixasse de venerá-lo e fosse capaz de humanizá-lo para perder um pouco mais de minha idiotice.

Meu pai era um homem de direita. Votava na Arena, apoiou o golpe de 64, achava Maluf um bom político, queria o estado ausente de todas as coisas e a iniciativa privada metida em tudo o que pudesse colocar as mãos. Adolescente, fiz com ele uma aliança forte porque, ao contrário de minha mãe, ele não me julgava, não julgava meu jeito amolecado, nem minha preferência por mulheres. Nosso pacto silencioso dizia: “se você me ama e me aceita desse jeito estranho e desencaixado, eu fecho com você em todas as áreas da vida”.

Essa aliança se manifestava política e futebolisticamente. Eu não ousaria questioná-lo em nenhuma das duas frentes. Então, aos 18 anos votei em Maluf e depois em Collor.

Com menos idade do que isso me meti num dabate na escola (que eu venci, que fique como registro) para defender Jânio Quadros, de quem meu pai era amigo. Meu pensamento carregado de verdades neo-liberais me levava a demonizar toda e qualquer estatização, e a venerar toda e qualquer privatização, mas sem entender muito bem por que.

Me levava a debochar do fracasso do comunismo, sem que eu jamais tivesse lido a obra de Marx, e como se pudéssemos reduzi-lo à ação de Stálin e de Mao, dois psicopatas que assassinaram não apenas milhões mas também a chance de experimentarmos uma nova uma filosofia política (o equivalente seria julgar o Capitalismo pela obra de Hitler e Mussolini, mas isso ninguém faz porque se trata, obviamente, de uma brutal estupidez).

Meu pai morreu no ano 2000 e desde então, ao me afastar dele ideologicamente, acabei me aproximando de sua alma, o que pode parecer contraditório, mas muitas vezes as melhores coisas da vida são exatamente assim.

Ao ser capaz de substituir a figura masculina em minha vida, e de estabelecer novos arquétipos, me permiti ler coisas que jamais havia lido, explorar territórios que jamais havia explorado e, assim, me livrar de detritos, de ideias que se perpetuam sem enfrentar questionamentos porque tudo o que se quer é manter o estado das coisas (que só interessa à classe dominante, essa mesma que defende o mercado-livre como o único caminho para a salvação, o mesmo mercado-livre que conduziu a sociedade à atual e absurda desigualdade – 1% dos homens dorme em cima de 40% da riqueza do planeta). A verdadeira liberdade, escreveu David Foster Wallace, está em educar o pensamento, e é o que há alguns anos tento fazer.

Mas a grande transformação só foi oficializada quando entendi que todas a pessoa que eu considerava muito inteligente e interessante tinha uma coisa em comum: não cabia no status-quo. Eram homens e mulheres que lutavam por um mundo menos desigual e injusto com armas que agora me pareciam mais eficientes do que as de meu pai. Eles eram, eu não demorei a notar, simpáticos a um discurso político que pertencia às esquerdas.

No começo, entender que meu pensamento se alinhava ao deles foi chocante. Eu, a filhinha-do-papai que cresceu cercada de gente rica e poderosa e sendo servida e paparicada, me descobria esquerdista. Como lidar com esse barulho?

Meu pai era um homem bom, um intelectual, alguém que me respeitou como ser humano desde muito cedo, e que jamais me traiu. Dele herdei os olhos, o amor por Proust e pelo Fluminense. Por isso hoje sei que mesmo aqueles que estão bem mais à direita e parecem ser proprietários de conceitos equivocados podem ser bons e justos – ainda que seja difícil entender isso olhando para a direita brasileira como ela se desenha hoje.

Mas existem direitas e direitas: meu pai nunca discriminou, ou foi intolerante, ou classista, ou sexista, ou deixou de reconhecer o humano no outro. Certamente acharia Constantino um imbecil, e ridicularizaria os ex-roqueiros que viraram baluartes do conservadorismo. Ainda assim, era um capitalista convicto, coisa que deixei de ser há alguns anos.

O que penso hoje do mundo, e a lente marxista que uso para entender a condição humana, é fruto de leitura e de associações e de algum estudo. Não é mais apenas um eco desorientado das posições daquele que foi meu arquétipo em tantos sentidos. Ao tentar desvendar a obra de Marx, até a fim de poder criticá-lo com algum mérito, fui por ela seduzida e agora tive que assimilar essa ruptura com o passado.

Hoje, em vez de certezas, tenho dúvidas.

Me pego pensando, por exemplo, por que continuamos a acreditar que a incrível capacidade que o capitalismo tem para gerar riqueza vai, um dia e finalmente, estar disponível para todas as pessoas sobre a face da Terra? Até quando acreditaremos nesse mito? Por que não admitimos que a história do Capitalismo, assim como a do Comunismo de Stalin, é uma história de escravidão e violência e genocídio e exploração? O sistema capitalista, que há tantos séculos explora a natureza em nome do lucro, está destruindo o planeta e não vamos questioná-lo nem em nome de nossa sobrevivência? Que tipo de crescimento queremos? O que é ser rico? O que essa riqueza fará por nossas vidas? Ou, nas palavras de Krishamurti, é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente?

As dúvidas são tantas que seria preciso um livro para contê-las todas, mas talvez uma delas defina de forma mais absoluta o que entendo por capitalismo hoje: grandes fortunas são construídas com o comércio de alimentos que nos deixam gordos e doentes e menos longevos. E o mundo capitalista coloca o dado na conta do “crescimento econômico”, a despeitos dos altíssimos gastos com saúde pública. Minha cabeça idiota começou a achar que alguma coisa estava muito errada com essa imagem.

Com tudo isso, como não se deixar levar pela ideia marxista que entende o trabalho como aquilo que nos define como seres-humanos, e não aquilo que nos define como operadores do mercado financeiro, ou corretores de imóveis, ou dentistas, ou escritores? Uma definição de trabalho que envolve gênero, gentileza, sexualidade, sentidos, cooperação social e prazer. Como não se emocionar com isso?

E se mais nada na obra de Marx fosse capaz de me seduzir, o conceito de que a boa vida não é uma de trabalho mas de lazer bastaria: para ele a auto-realização é uma forma de produção. E eu, a mãe de toda a preguiça do mundo, me identifico amplamente com a definição.

Enquanto isso o que faz o capitalismo pelo lazer? E em nome do trabalho além de criar a necessidade da propriedade (seja de uma terra, de uma casa, de um carro novo ou do Iphone mais recente) e, com ela, todas as chances para que nos endividemos a fim adquiri-la para que, a partir daí, nos tornemos escravos da dívida, e da obrigação de trabalhar para pagá-la? Nesse sentido, o sistema capitalista liberta ou cria formas sedutoras de escravizar?

Muitas das catástrofes capitalistas foram, como escreveu o professor inglês Terry Eagleton, resultado do dogma do mercado-livre, aquele que é capaz de elevar o preço dos grãos a limites tão altos que as classes mais baixas se tornam incapazes de comprá-lo (Em 1845, na Irlanda, um milhão de pessoas morreram quando o mercado não reduziu o preço, mas continuou a exportar grande quantidade de grãos para a Inglaterra. O episódio ficou conhecido como The Great Famine).

E a noção que se repete sem que venha de estudo próprio (o que fatalmente levaria ao conhecimento de que o marxismo celebra o indivídio e suas diferenças, o que é o oposto da uniformização), mas apenas de dogmas, de que o marxismo uniformizará a humanidade me faz rir toda a vez que vou a uma festa da alta sociedade paulistana, na qual as mulheres e os homens são sempre assustadoramente iguais: o mesmo cabelo, o mesmo botox, o mesmo silicone, as mesmas roupas, a mesma magreza, os mesmos assuntos, a mesma hipocrisia. Quem, então, nos uniformiza, o comunismo ou o capitalismo?

Ao entrar em todas essas reflexões e romper com meu heroi, ao humanizá-lo, fui capaz de crescer e de mudar. E essa é uma forma dolorida de transformação porque ela requer que, outra vez, matemos o pai, mas é também uma das mais eficientes.

Não quero dizer com isso que aqueles que se colocam mais à direita das coisas sejam todos cretinos como um dia eu fui. Tenho amigos de direita, amigos que admiro e respeito, ainda que a cada dia me afaste mais deles no campo político. A idiotice a que me refiro era exclusivamente minha, por ter demorado tanto para começar a pensar por conta própria.

E não que tenha deixado de ser uma idiota, isso talvez jamais aconteça, mas hoje sei que minha cretinice tem menos a ver com a forma independente com que tento entender o mundo e a realidade ao meu redor do que com qualquer outra coisa.

12 pensamentos sobre “Como matei meu pai

  1. Pra mim foi o contrário. Meus pais sempre foram de Esquerda, e crescendo no meio da classe média nova rica da Zona Norte de São Paulo, eu não podia deixar de querer com todas as forças que eles fossem de Direita, pra que eu pudesse, então, fazer parte, pertencer, ser igual. Como foi bonito o dia em que eu percebi que eles estavam me mostrando desde que eu nasci que ser diferente valia muito mais. Te amo, Milly, de idiota você não tem nada.

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  2. Hoje vi que um estudo apontou que em 2011 40% dos alunos de universidades não podiam ser considerados plenamente alfabetizados. Enquanto isso comemora-se o aumento nos números de acesso ao ensino superior. Não faz o menor sentido, assim como o crescimento econômico a partir de uma indústria que nos mata aos poucos e a elite “alternativa” que não vê que, dentro de si mesma, não tem nada de alternativa, é só mais uma forma de padronização.

    Tem horas que não sei se esse mundo realmente não faz sentido ou se fui eu que nasci no lugar errado. 😦

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  3. Hoje vi que um estudo apontou que em 2011 40% dos alunos de universidades não podiam ser considerados plenamente alfabetizados. Enquanto isso comemora-se o aumento nos números de acesso ao ensino superior. Não faz o menor sentido, assim como o crescimento econômico a partir de uma indústria que nos mata aos poucos e a elite “alternativa” que não vê que, dentro de si mesma, não tem nada de alternativa, é só mais uma forma de padronização.

    Tem horas que não sei se esse mundo realmente não faz sentido ou se fui eu que nasci no lugar errado. :(
    

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  4. Excelente crônica, Milly! 🙂

    Eu sou aquele famoso Liberal Clássico, defensor do capitalismo e da Direita. Não nego as mazelas que a ganância pela obtenção do capital econômico atraem, mas prefiro uma desigualdade do que a racionalização de alimentos cubana, ou a ilusão norte-coreana.

    Beijos!

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  5. Caminho se faz caminhando, educar para a liberdade, leitura do mundo, ensinar e aprender com sentido. Algumas frases de Paulo Freire que me impulsionam a viver um outro mundo possível.

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  6. Comigo foi o contrário pela vivência do atual desgoverno, programas populistas de voto comprado como o bolsa-família, mensaleiros sendo defendidos e favorecidos num STF já devidamente comprado pelo governo de esquerda, tribunais de contas e polícias apartados de investigar corrupções. Hoje sei quem foram os verdadeiros golpistas. Tornei-me de posicionamento político de direita.

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  7. Eu acho que a esquerda é uma “feliz ilusão” que um dia deve acabar na vida de todas as pessoas . Fui de esquerda até 2 anos atrás , quando reingressei na Usp e percebi que o discurso de “democrática” e “aberta a pluralidade de idéias” é só isso mesmo : só discurso . só aparência (enganosa) Tou pro lado liberal e capitalista hoje em dia .

    Outro conceito que eu tinha muito forte que em teoria é da Esquerda era o existencialismo , que hoje questiono fortemente . Eu gostaria de conhecer a Obra verdadeira de Marx , mas não , não acredito que seja “muito mais bonita e humanitária” do que foi o que chamamos de “comunismo na prática” que existiu no séc XX .

    Eu não quero me iludir com ideologias furadas por que percebi que todas elas colocam a confiança no ser humano como fator essencial para seu funcionamento . E entre os seres humanos , SEMPRE vão existir os F.D.P. que , adquiridno algum poder , vão se corromper e trair os que neles confiaram , vão explorar , vão manipular pro seu bom proveito e serão egoístas e cruéis . Isso sempre se repetiu na história e por isso procuro buscar sentido pra vida na Espiritualidade , e não (mais) em política , especialmente em ideologias baseadas em Utopias .

    Um texto meu sobre o perigoso (e enganoso) conceito de “equidade” : https://vk.com/topic-111625721_33534786

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