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Quando o tiroteio for na porta da minha casa

Você chega em seu apartamento no Leblon depois de um dia cansativo de trabalho, joga a mochila no sofá, tira o sapato, abre a geladeira para pegar um copo d’água, ou uma cerveja gelada, e começa a escutar um barulho na rua. Vai à janela e vê vários camburões da PM encostando e vários policiais entrando no prédio. Armas engatilhadas, eles vão gritando e ameaçando enquanto sobem as escadas. Você começa a rezar para a babá não chegar com seu filho da praia, ou para que seus pais desistam de vir visitá-lo como haviam prometido. Tranca a porta, vai para o quarto e fica na janela para o caso de algum deles chegar e você ter tempo de gritar para que não subam. Mas não dá tempo, e seu filho chega bem na hora do tiroteio. Uma bala entra na nuca, outra no peito e o menino cai no asfalto, aparentemente sem vida.

A babá começa a gritar e seus pais encostam o carro bem nessa hora. Sua mãe desce correndo e vai em direção ao corpo do neto quando uma bala perfura suas costas e outra sua cabeça. Dois policiais, vendo os corpos no chão, abaixam-se, pegam pelos pés e pela cabeça e os arremessam no porta malas da viatura, como dois sacos de areia passando de mão em mão numa obra. Você vê tudo da janela, alheio ao fato de o tiroteio ainda não ter acabado. Em minutos, a polícia arranca de suas mãos parte da vida que você tinha, e não há nada que você possa fazer. Você ainda está na janela quando as viaturas vão embora, e com elas os policiais e suas armas e seu poder.

Nada disso, evidentemente, acontece em nossas vidas. Mas acontece semanalmente nas comunidades das grandes cidades. Como será viver assim? Como será não ter a certeza de que voltará para casa depois de um dia de trabalho e um tiroteio acabará com a jornada daqueles que você ama?

Alguns acham que a imagem é exagerada porque, afinal, nos bairros nobres das grandes cidades não vivem bandidos, esses contra os quais a polícia deve lutar todos os dias em nome da paz. Mas sou capaz de apostar essa minha miserável vidinha que qualquer varredura aleatória por condomínios chiques na Barra, ou no Jardim Paulistano ou no Leblon vai encontrar um punhado de sonegadores, e de lavadores de dinheiro, e de corruptores e até mesmo de traficantes e usuários de drogas ilegais, essas mesmas que sustentam o tráfico nas favelas, esse mesmo contra os quais os policiais e suas armas e seu poder dizem lutar, e atirar, semanalmente. O que há de diferente entre o seu prédio e a favela?

Claudia Ferreira provavelmente trabalhava mais do que você e eu. Também é provável que mais vidas dependessem da dela do que da sua ou da minha, financeira ou afetivamente falando. Claudia provavelmente acordava mais cedo do que você e eu, gastava mais tempo para chegar ao trabalho do que você e eu, trabalhava mais horas do que cada um de nós e dormia menos do que você e eu. Por que a vida dela vale menos do que a minha ou do que a sua? Vidas têm o mesmo peso, a despeito de escolaridade, da cor da pele, do gênero ou do salário. Exatamente o mesmo peso diante da imensidão do universo.

Fica muito difícil que lutemos por um mundo melhor e menos injusto enquanto não entendermos que as balas que dilaceraram o corpo de Claudia também dilaceraram o meu e o seu. Que a pessoa arremessada como um saco de areia para dentro do porta-malas da viatura era nosso filho, nossa mãe. Que o corpo arrastado pelo asfalto como um pedaço de carne podre era o seu, o meu, o de nossos irmãos.

A grande revolução só acontecerá quando a Zona Sul sair de seu berço esplêndido para ir até a favela protestar com a gente das comunidades contra o sumiço de Amarildo e contra a execução de Claudia. Do mesmo jeito que a homofobia só acabará quando os heterossexuais entenderem que a luta por igualdade é deles também, e que o racismo fere a dignidade dos brancos porque desumaniza aqueles que em nada são diferentes deles, e que o machismo é uma ofensa aos homens porque diminui aquelas que em absolutamente nada se distinguem deles.

Einstein talvez tenha alcançado com palavras toda a verdade que teimamos em não ver: “Um ser humano”, escreveu ele, “é parte de um todo chamado por nós de Universo, uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experiencia a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos como alguma coisa separada do resto – uma espécie de ilusão de ótica de sua consciência. Essa ilusão é uma forma de prisão para nós, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e à afeição por umas poucas pessoas próximas. Nossa tarefa deve ser a de nos libertarmos dessa prisão alargando nossos círculos de compaixão para envolver todas as criaturas vivas e o todo da natureza em sua beleza.”

Ou, como sugeriu o mitologista Joseph Campbell, é preciso refletir sobre o real significado de uma frase que infelizmente já foi tão gasta por uma igreja apodrecida e desmoralizada: “ama o próximo como a si mesmo”. O que talvez Jesus tenha querido dizer é:  “ama o próximo porque é tu mesmo”.

12 pensamentos sobre “Quando o tiroteio for na porta da minha casa

  1. Milly, adorei teu texto, tua análise. Imagine quantos corpos de outras tantas Claudias e Amarildos já foram parar no porta-mala do carro sem que soubéssemos? O problema que, mesmo com tantas notícias de injustiças e casos mórbido-chocante, a inoperância e incompetência da polícia carioca e da polícia paulista só aumentam. Um dos policiais desse caso está envolvido em outras 57 mortes… E continuava atuando normalmente. PQP!

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  2. Milly, você conseguiu traduzir em texto o sentimento que aperta na garganta diante de tanta barbaridade. E no caso da Claudia, só estão dando atenção porque o corpo caiu do carro, senão seria apenas mais um caso em mais um dia comum em algum bairro que não é o Leblon. A angustia da impotência só aumentando…

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  3. Olá Milly, parabéns pela forma intensa com que escreve, conduzindo-nos ao exercício de que temos que pensar que é conosco mesmo, pois dificilmente nos colocamos no lugar do outro, já que o nosso lugar, por egoísmo, sempre nos é mais confortável.

    Transcrevo abaixo um trecho do pensador humanista Gonzalez Pecotche, criador da Logosofia, extraído de uma de suas conferências ministradas em Montevideo, em 1946, sobre Princípios Éticos da Convivência Humana, constante na pág. 188 de seu livro, publicado e disponível para dowload, Introdução ao Conhecimento Logosofico, que ilustra bem seu texto.

    “O que acontece e o que sempre aconteceu, em todos os momentos cruciais da história humana, é que o não consegue encontrar a si mesmo e, muito menos, completar sua vida com aquilo que lhe falta. Daí que se tenha chamado o ser humano de ente imperfeito, porque requer aperfeiçoar-se, isto é, chegar a completar-se, pois não é mais que um fragmento de uma figura que é necessário terminar.
    Isto acontece com todos, sejam ricos ou pobres, belos ou feios. Uns têm o que falta a outros, e o que a uns falta, outros têm; e assim sucessivamente. Mas o grande problema reside em que ninguém quer dar ao outro o que tem, porque pretende que o que tem seja melhor do que o que lhe falta e outro tem. É nesse verdadeiro labirinto de cotações dos fragmentos humanos onde se encontra a cau- sa maior de todas as dissensões, e é, ao mesmo tempo, de onde parte a equivocada posição de todos os seres, sem exceção, que poderia ser definida com uma só palavra: incompreensão.”

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  4. Gosto muito dos teus textos Milly! Obrigada por me beliscar hoje com essa mensagem. Às vezes tenho sensação de que estamos anestesiados na nossa realidade minimamente confortável.

    É necessário entendermos que não é possível avançar nesse mundo se ficou alguém pra trás. Mais do que nos protestos das ruas, acredito em protestos em forma de atitudes transformadoras. O que cada um pode fazer para melhorar esse mundo? É trabalho de formiguinha mesmo…

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    • Ele não se chama “Amarildo”, não é bailarino do programa Esquenta e não é cantor de funk.
      Sua morte não será matéria de destaque no Fantástico.
      A presidente Dilma não publicará nenhuma mensagem em sua homenagem.
      Ninguém irá se vestir de branco e pedir justiça na Av. Paulista.
      Nenhuma pomba branca foi solta no Masp pela paz.
      É só mais um policial que foi torturado e morto.
      Foi sequestrado no dia 20, o policial Rodrigo Lucca Fonseca, de 28 anos, bom caráter, amigo, que pertencia a Força Tática do 17º BPM e foi encontrado morto apenas no dia 24, ele foi abordado por dois criminosos de 21 e 25 anos e como estava armado e com agasalho da PM foi morto com 2 tiros na cabeça e 2 tiros na costa, antes foi torturado e severamente machucado, com várias marcas pelo corpo, teve nariz arrebentado por socos, marcas de corte na cabeça, abertura na região da boca,teve seus dentes quebrados, ficou quatro dias amarrados e parte do corpo carbonizado… ele foi abordado quando chegava em sua casa em Mogi das Cruzes, teve seu veículo Citroen C 3 jogado em um córrego em Suzano… os vermes usaram sua senha para saques em caixas eletrônicos, fizeram compras com seu cartão de crédito de bicicleta, tênis, perfumes e roupas.
      Procure saber de fato o que ocorre nas ruas para depois criticar!

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  5. Foi sequestrado no dia 20, o policial Rodrigo Lucca Fonseca, de 28 anos, bom caráter, amigo, que pertencia a Força Tática do 17º BPM e foi encontrado morto apenas no dia 24, ele foi abordado por dois criminosos de 21 e 25 anos e como estava armado e com agasalho da PM foi morto com 2 tiros na cabeça e 2 tiros na costa, antes foi torturado e severamente machucado, com várias marcas pelo corpo, teve nariz arrebentado por socos, marcas de corte na cabeça, abertura na região da boca,teve seus dentes quebrados, ficou quatro dias amarrados e parte do corpo carbonizado… ele foi abordado quando chegava em sua casa em Mogi das Cruzes, teve seu veículo Citroen C 3 jogado em um córrego em Suzano… os bandidos usaram sua senha para saques em caixas eletrônicos, fizeram compras com seu cartão de crédito de bicicleta, tênis, perfumes e roupas….
    Ele não se chama “Amarildo”, não é bailarino do programa Esquenta e não é cantor de funk.
    Sua morte não será matéria de destaque no Fantástico.
    A presidente Dilma não publicará nenhuma mensagem em sua homenagem.
    Ninguém irá se vestir de branco e pedir justiça na Av. Paulista.
    Nenhuma pomba branca foi solta no Masp pela paz.
    É só mais um policial que foi torturado e morto.
    Mas nós, policiais, não vamos esquecer.
    É só pra que vocês reflitam antes de criticar!

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