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Pelé com a palavra: até quando acerta ele erra

Referindo-se à morte do operário da construção civil Fabio Hamilton da Cruz Pelé disse que acidentes fatais em construções são normais. Ai, Pelé…

O que você talvez pudesse ter dito é que essas mortes, embora altíssimas e parte do triste cotidiano brasileiro, não são aceitáveis. Mas isso você não disse, e, ao tratar a morte de Fabio como “normal” banalizou de forma grosseira o acidente que tirou a vida dele e de tantos outros operários.

No Brasil, a cada seis mil operários da construção civil, um morre no trabalho. É muita gente. É muito trabalhador. E não pode ser banalizado. Na Inglaterra, o número de acidentes fatais em obras é de 1 a cada 50 mil, e nos Estados Unidos é de 5 a cada 50 mil. Ou seja, nossas obras matam oito vezes mais trabalhadores do que as inglesas.

Mal-comparando, um dos esportes considerados mais arriscados do mundo, o paraquedismo, tem 0,12 mortos a cada mil saltos, segundo matéria publicada na revista Superinteressante. Se a gente considerar o número de mortos na construção civil no Brasil (que tomando-se por base o dado acima é de 0,17 a cada mil), trabalhar em uma obra por aqui é praticamente tão perigoso quanto saltar de para-quedas, com um agravante: o paraquedista está fazendo o que gosta e por prazer. Já o operário está fazendo o que faz para colocar comida na mesa.

E se esse fio continuar a ser puxado teremos que chegar à outra dura e triste realidade: é a construção civil um dos segmentos que mais explora o trabalhador brasileiro. Em 2011, aproximadamente 700 trabalhadores morreram em obras pelo Brasil. Isso dá mais ou menos duas mortes por dia dentro de uma indústria que fatura R$ 180 bilhões por ano. A pergunta que fica é “quanto vale uma vida para as empreiteiras?” Imaginando que elas pensem mais ou menos como Pelé, a resposta é “uma vida vale pouco”. É bastante provável que saia mais em conta absorver o custo das mortes, e as indenizações quer porventura tiverem que ser negociadas, e manter ou aumentar a margem de lucro do que investir alguns desses bilhões em mais treinamento e segurança.

Recentemente, um ranking lançado pela Walk Free Foundation, ONG internacional que identifica países e empresas responsáveis pela escravidão moderna, colocou o Brasil na 94 posição entre 162 possíveis , e citou as indústrias madeireira, carvoeira, de mineração e de construção civil, além das lavouras de cana, algodão e soja, como as que mais “escravizam” por aqui. São, segundo a mesma ONG, quase 30 milhões de pessoas vivendo em situação análoga à escravidão no mundo, um número absurdamente alto e que devia indignar muito mais do que indigna, mas o caso aqui é outro e fala de uma das indústrias mais ricas do país.

É claro que, como me lembrou uma amiga muito mais lúcida que eu, – temos que considerar que 5% dos brasileiros estão na construção civil, que é a atividade que mais emprega no país. Ou seja, se o setor vai mal, aumenta o desemprego. E, naturalmente, o setor não constroi apenas estádios, mas também, por exemplo, ergueu milhares e milhares de casas para pessoas que não tinham moradia. Só no Minha Casa Minha Vida foram mais de dois milhões de casas.

Mais: a indústria é responsável por 9% do PIB, e, como muito bem observou minha amiga lúcida e antenada, a indústria da construção civil brasileira vive o auge há uma década, enquanto a inglesa segue firme e forte desde a revolução industrial.

Além disso, como ela inteligentemente colocou, “se os três milhões trabalhadores da indústria civil pularem ao mesmo tempo de para-quedas, o número de mortes deve aumentar. E se não existem três milhões de para-quedistas saltando ao mesmo tempo durante 24 horas, existem três milhões de brasileiros trabalhando em obras ao mesmo tempo, o que aumenta a probabilidade de um erro fatal acontecer”.

Ela tem razão, e tudo deve ser considerado. Mesmo assim, minha amiga lúcida concorda comigo quando digo que uma morte não pode jamais ser banalizada, ainda mais por alguém que, quando abre a boca, é escutado pela nação – e até pelo mundo.

Por isso, quando um operário morre trabalhando como morreu Fábio, e o microfone é entregue a Pelé, como é quase todos os dias, o ídolo dos Josés e Marias das construções em vez de banalizar a morte deveria aproveitar para exigir melhoras, para dizer que não aceitamos, para tentar diminuir os abusos cometidos pelas empresas de construção civil no Brasil. Os José e Marias das construções quase não são ouvidos, mas Pelé sempre é, e poderia ter falado por eles, e para eles. Mas não foi o que ele fez. Com o microfone na mão, Pelé falou pelos empresários, e para os empresários.

Como o microfone continuará a ser entregue a Pelé, deveríamos então fazer o que ele fez há muitos anos: separar completamente o Pelé do Edson. O primeiro será genial para a eternidade. Já o segundo, a cada dia que passa, se mostra mais e mais boçalizado.

 

 

4 pensamentos sobre “Pelé com a palavra: até quando acerta ele erra

  1. Olá Milly, Boa noite.

    Sensacional este post, afinal vc sintetizou de maneira elegante sobre a carência de caráter no homem público de nome Edson.

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  2. sempre que o vejo falando essas barbaridades, me pergunto o que aconteceu com aquele pelé que, ao fazer o milésimo gol, chorando, disse: “pelo amor de deus, vamos ajudar nossas criancinhas”.

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