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Obrigada, Pacaembu

Domingo a gente faz nosso último jogo no Pacaembu, ou no Paca como você gostava de dizer. Voltaremos a jogar nele eventualmente, mas domingo a gente oficializa o fim. Só que você sabe melhor do que eu que toda a morte é também um nascimento para outra coisa, e nós renasceremos em Itaquera. Pois é. Nosso estádio ficou pronto, Rob. Eu sei, eu sei. Lembro com detalhes daquelas tardes e noites em que íamos andando da sua casa até o Paca e você dizia que achava que o Corinthians deveria comprar o Pacaembu e não fazer um estádio novo. Você adorava aquele lugar, aquelas nossas idas vespertinas e noturnas, o picolé de limão no intervalo e a cerveja gelada na saída. Você adorava tudo a respeito do Paca, especialmente as noites de lua cheia, quando a tínhamos como companhia por ali, brilhando sobre nossas cabeças e sobre o gramado. Como é lindo o Pacaembu em noite de lua cheia.

A primeira vez que você me levou foi naquele jogo contra o Paysandu, lembra? Eu nem corintiana era. Fui porque você queria muito que eu conhecesse de perto a torcida. Mas fui desdenhando, eu lembro. E aí aconteceu o improvável: o Paysandu fez um gol e eu vi, pela primeira vez na vida, uma torcida cantar mais alto tendo levado um gol. Eu não te falei na mesma hora, mas aquilo me arrepiou. E, arrogante que sou, o que eu disse para você naquele instante debochadamente foi: “Que isso? Vocês tomam um gol e comemoram?”. Você tentou me explicar sobre a relação entre torcida e time, sobre como a Fiel crescia na dor, sobre como a Fiel era capaz de se agigantar nas situações mais difíceis, e eu balancei a cabeça fingindo que estava entendendo, mas eu não estava. Essa relação entre time e torcida corintiana a gente não assimila racionalmente, a gente apenas sente, mas eu precisaria de mais algumas idas ao Paca com você para sacar isso.

E quantas vezes não saímos de lá tristes pelas ruas? Quantas vezes não nos arrastamos a pé de volta para casa? Como é penosa aquela subida do cemitério em dia de derrota. Mas como a mesma pirambeira é doce e leve nas vitórias!

Lembra quando voltamos daquele jogo contra o Cianorte? Era mais de meia-noite e a gente corria e gritava. Como você estava feliz. Como aquele time e aquele lugar te deixavam feliz. E que bom que eu fiquei com essas memórias, e que aquele lugar foi tão seu por 39 anos. Por elas eu agradeço imensamente. Por elas, pelas tardes e noites que passamos e vibramos e sofremos juntas no Paca, pelo amor que herdei do time que você amava sobre todas as coisas na Terra.

Queria te contar que sua voz ainda ecoa pelo Paca, comemorando um gol, xingando o juiz e cantando com a torcida. Sua voz está lá, forte e apaixonada, e eu sei disso porque a escuto até hoje quando entro sozinha naquele lugar que já foi tão nosso. É o que me faz superar a dor de não ter mais você ao meu lado e retornar: saber que um pouco de você, e do que fomos, vive no Pacaembu.

Hoje seu corpo está naquele cemitério ao lado do qual tantas vezes passamos juntas na volta para casa. Mas eu ainda não fui ali visitar o túmulo. Talvez eu nunca vá. Porque a verdade é que sua alma não está ali, e eu sei disso. Sua alma está livre, passeando por outras dimensões, testemunhando a vida nesse planeta maluco e violento de lugares onde as coisas têm mais significado.

Mas talvez nesse domingo você faça uma visita ao palco no qual tantas vezes fomos felizes e nos emocionamos. Depois disso, eu encontro você em Itaquera, Rob. E no nosso novo estádio a gente vai estabelecer uma outra forma de ver juntas os jogos do “meu Timão”, como você gostava de se referir ao time. Porque os verdadeiros relacionamentos não são interrompidos por uma bobagem como a morte. E vamos seguir assim até o dia em que, finalmente, a gente vai se abraçar outra vez, como tantas e tantas e tantas vezes fizemos dentro desse lugar que você me ensinou a amar, o Pacaembu.

 

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