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Que os negros me guiem

Racismo é talvez o mais detestável dos preconceitos, se é que podemos estabelecer um ranking para preconceitos. Mas, como lésbica, abriria mão de lutar contra a homofobia para me posicionar contra o racismo se um dia essa absurda e hipotética escolha de “pegue um, e apenas um, preconceito para lutar contra” fosse obrigatória.

Claro, o Holocausto foi grotesco e triste e inaceitável e desumano e nojento, mas talvez ele seja o crime contra a humanidade que mais mereceu destaque e pelo qual mais choramos. Os genocídios africanos, e são muitos, mataram tanto ou mais do que o holocausto e raramente foram filmados por Hollywood ou chorados pelo mundo. Por que? Porque na África vivem negros, e crimes contra negros não são assim tão comoventes para o homem branco que domina a máquina econômica.

Durante séculos negros foram tratados como mercadorias. Objetos que, como uma calça jeans, um carro ou um saco de arroz, podíamos comercializar. A escravidão demorou para ser abolida porque mesmo quando finalmente todos entenderam que se tratava de um crime e que além de ilegítimo ela deveria ser ilegal, o homem branco dominante foi fazer as contas e, meu Deus, abrir mão dessas mercadorias todas vai ser um prejuízo tremendo para nosso negócio. Ah, o capitalismo.

Mais ou menos o motivo pelo qual, hoje, o mundo continua a ser poluído mesmo quando a ciência já mostrou e re-mostrou e tri-mostrou que se continuarmos a emitir carbono com essa fúria acabaremos com o planeta. Em algumas décadas. Não séculos, mas décadas. Aquecimento global: o maior fracasso mercadológico da história do capitalismo.

Sim, o planeta está morrendo, mas e a margem de lucro? E os acionistas? É preciso mantê-la e mantê-los satisfeitos, a despeito da ilegitimidade do processo.

Então, as leis seguem sendo feitas para que o planeta continue a ser (legalmente) poluído e desmatando. Não é legítimo, todos sabem, mas ainda é legal. Como foi tudo o que Hitler fez: legal. Porque seu partido fazia as leis que eram necessárias para que ele continuasse a executar judeus. E como foi a escravidão por séculos: legal. Nunca legítima, mas legal.

O holocausto durou alguns anos. A escravidão durou séculos.

Foram séculos tratando seres humanos de pele mais escura como mercadorias, pessoas sem alma, sem direito à vida. Simplesmente pelo excesso de pigmentação da pele. Ah, a ignorância.

A gente não acerta séculos de desumanidade em alguns anos. E nem de forma branda. É preciso medidas afirmativas como as cotas. É preciso campanhas. É preciso tudo o que pudermos fazer para corrigir centenas de anos de erros grotescos.

Olhem em volta e vejam quantos negros são médicos e advogados e empresários e engenheiros. Vão às comunidades e vejam quem as habita. É possível dizer que o racismo acabou? É realmente possível dizer que a questão já foi acertada e que agora fica por conta deles ascender socialmente?

A dura realidade mostra que o racismo só acabará quando houver equilíbrio econômico. Apenas mais uma das mazelas do capitalismo. Foi assim com judeus, vai ser assim com as mulheres e com qualquer outro grupo vítima de intolerância: sem poder econômico, a luta fica mais no verbo e menos na realização.

Por isso, digo outra vez, a importância das cotas.

Essa semana nos Estados Unidos dois episódios de racismo balançaram o pais.

O primeiro, o de um fazendeiro texano dizendo na TV que o mundo era melhor com a escravidão, antes de repetir olhando para a câmera: “Mas eu não sou racista”.

O segundo, o do dono do time de basquete losangelino, o Clippers, sendo flagrado em gravação pedindo à mulher – mulata – que não levasse negros aos jogos do time para não ser vista e fotografada ao lado deles. Quando ela estranhou, até porque quase todos os jogadores da liga americana de basquete são negros, ele respondeu: “Mas eu dou roupa para esses caras, eu sustento eles, eu dou comida… não sou racista”.

Claro que é o time de basquete, e os atletas (a maioria negra), que sustentam o cara (Donald Sterling, e, para registro, um dos mais ricos dos EUA), mas tanta arrogância e preconceito não o deixariam ver a verdade.

Jon Stewart, em seu programa diário, disse que Sterling se trata de um racista diferente: “Sou racista, mas meu pênis e minha carteira não são”, debochou o apresentador de TV. Uma prova de que capitalistas libertários entendem que devem ser contra o racismo, apenas não entendem o que é o racismo.

Mas claro que é necessário que o homem branco entre nessa briga e, ao lado de negros, lute pelo fim do racismo. Só acho que são os negros que devem liderar essa marcha. Assim como a luta contra a homofobia deve ser liderada por gays, e a luta da mulher pelo direito de escolher por mulheres etc etc etc. Por que se não for assim soa falso e ilegítimo e, portanto, perde a força.

E o que estamos vendo são homens brancos tentando pegar essa bandeira e dizer “Deixa comigo. Vou acabar com o racismo”. Justo o homem branco, aquele que historicamente é o que menos sofre preconceito. Especialmente se for hétero e magro e tiver alguma grana.

E não coincidentemente são esses que, no caso deflagrado pela atitude de Daniel Alves, estão tentando assumir o controle dessa marcha. Meu medo é que, ao deixar que o homem branco lidere e transforme a ação em uma jogada de marketing, conferindo a ela pieguices e um véu de ilegitimidade, percamos uma tremenda oportunidade de mudar a história.

Como podemos, por exemplo, dizer o que deve e o que não deve ofender um negro se não somos negros? São eles, e não quem não é negro, que devem dizer se ser chamado de macaco ofende, e usar bananas em campanhas contra o racismo é uma boa ideia. Se não for assim, vai sempre soar oportunista e mercantilista e, portanto, cheirar à falsidade.

Outro dia um colunista da Folha de S. Paulo, supostamente hétero, dedicou uma coluna inteira para justificar que usar a palavra “homossexualismo” não devia ser ofensivo aos gays. O sufixo “ismo”, segundo ele, poderia e deveria ser usado. Passou longe de explicar por que não se usa heterossexualismo, mas saiu justificando semanticamente suas razões em defesa do uso de “homossexualismo” em espaço nobre.

Se para acabar com o preconceito bastasse a gente fazer uso de semantiquices estaria tudo resolvido há muito tempo. “Macaco não pode ofender porque, afinal, somos todos macacos”, é o que dizem. Não, não somos todos macacos porque quem nunca foi chamado pejorativamente de macaco não tem como saber o que sente quem já foi. Infelizmente, não acredito que essa gente que se pega na semântica seja apenas ingênua e fico aqui achando que fazem malabarismos para justificar e esconder os preconceitos que carregam.

“Sou homem e nada do que é humano é alheio a mim”, disse Terêncio há séculos.

Todos temos preconceitos com as mais diversas coisas e nossa obrigação é detectá-los e trabalhar para acabar com eles.

Conheço dezenas de gays que são homofóbicos. Gays que não se assumem, por exemplo, carregam com eles um preconceito enorme. Há negros racistas. Há mulheres que aceitam elegantemente religiões que colocam a mulher como subalterna.

“Sou homem e nada do que é humano é alheio a mim”.

Claro que todos dizem ser contra o racismo, mas alguns parecem de fato não entender exatamente o que é racismo. E para que a gente entenda, é preciso que não fujamos da luta, mas que deixemos que os negros nos guiem. Não homens brancos e endinheirados que nunca foram vítimas de preconceito algum.

Toda essa lenga para dizer que é fundamental que a gente se posicione contra o racismo e dentro desse contexto qualquer manifestação é bem-vinda. Mas se os negros estão dizendo que usar as palavras macaco e banana não ajuda em nada, por que insistir? Para que ficar usando argumentos científicos e semânticos para justificar o somostodosmacacos?

Com todo o respeito ao homem branco e rico, o mundo tem sido liderado por vocês há alguns milênios e deu no que deu. Que tal aceitar passar o bastão, pelo menos para causas que digam respeito a preconceitos que vocês nunca experimentaram?

Que se criem campanhas publicitárias contra o racismo, que ofereçamos os ombros para o fato de o Neymar posar para uma foto contra o racismo exibindo seu filho loiríssimo, que aceitemos ajuda do mundo corporativo e capitalista sempre disposto a lucrar com qualquer coisa. Nada disso me incomoda muito porque o fundamental agora é manter o foco: nosso problema é o racismo e contra ele precisamos nos unir.

O que me incomoda é ver a marcha começando e Hucks e Loduccas, ou homens brancos e bem sucedidos que nunca experimentaram o preconceito e vivem das delícias do capitalismo, pulando à frente da massa para pegar a bandeira e dizer: “Deixa comigo”. Não. Não pode ser assim simplesmente porque desse jeito o movimento perde legitimidade e força, e a oportunidade vai para o beleléu. Hucks e Loduccas são bem-vindos, naturalmente, mas gostaria que os negros, e não o empresário branco e bem sucedido sobre quem, a despeito das boas intenções, sempre recairá a suspeita de estar nisso apenas para lucrar, nos guiassem em direção a um mundo menos injusto e mais colorido.

Só com a liderança dos negros poderemos chegar a um lugar onde viveremos de fato em igualdade. Um lugar que está além do marketing e do lucro e do verbo e das camisetas e das hashtags.

3 pensamentos sobre “Que os negros me guiem

  1. Adorei o posicionamento. Até agora o que se destaca é a onda “somostodosmacacos” sem a mínima reflexão/propriedade sobre o assunto.

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  2. Tem uma campanha sobre a presença feminina no legislativo. A cena abre com uma mulher falando e sendo dublada por uma voz masculina e comentando ao fim, já com a própria voz, mais ou menos isso: “até quando vamos deixar que falem por nós?”.
    Acho que esse deve ser o mote de todas essas lutas. Não faz sentido ser diferente, não faz sentido haver outra voz que não seja a daquele que conhece a dor da discriminação.

    P.S.: Gosto muito da sua escrita.

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