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Trezentos motivos para chorar hoje

Hoje cedo, depois da Yoga, fui tomar meu café-da-manhã no local de costume e com o jornal debaixo do braço. Parecia ser apenas mais uma quarta-feira de hábitos ordinários (e sempre que penso em hábitos me lembro de uma passagem linda de Proust que vou, sem nenhuma razão aparente, colocar no final desse texto porque é dessas coisas que a gente não esquece jamais e sempre emocionam) não fosse o fato de ser dia de convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo. Não torço para a seleção da CBF, mas como bom espírito de porco pretendia acompanhar a bagunça pelo twitter. Só que antes mesmo que meu yogurte com granola chegasse à mesa eu já estava engasgada com o editorial do New York Times sobre o sequestro das quase 300 garotas nigerianas.

A história se fosse contada como ficção geraria comentários do tipo, “que absurdo, isso jamais aconteceria nos dias de hoje”. Mas o diabo é que a realidade, ao contrário da ficção, não precisa fazer sentido.

Ao absurdo: Quase trezentas nigerianas em idade escolar foram arrancadas do colégio durante as aulas por guerrilheiros armados e levadas ninguém sabe para onde. O presidente do país balança os ombros e diz não ter ideia do que possa ter acontecido com as meninas. A polícia faz o mesmo e até agora o que temos são 300 famílias em pedaços por não saberem onde estão suas filhas.

Vamos fazer um exercício de “eu no lugar deles” apenas por algumas linhas.

Sua filha está na escola e você recebe a notícia de que ela foi sequestrada por guerrilheiros e, provavelmente, vendida. O grupo que se responsabilizou pelo sequestro se chama Boko Haram, ou, em tradução livre para o português uma coisa como, “educação ocidental é pecado”. Você vai à polícia e percebe que eles pouco farão. Apela para o Governo e recebe o mesmo tratamento. Recorre à ONU e ainda assim pouca coisa acontece. Acho que não temos como calcular o tipo de desespero que sentem os pais dessas crianças.

Para piorar, o líder do grupo apareceu ontem em vídeo dizendo “sequestrei suas crianças e vou vendê-las em nome de Alá”. O grupo terrorista é contra a educação de meninas, especialmente uma educação que alimente sonhos como o de crescer para ser médica, engenheira ou advogada. As imagens das famílias nas ruas, chorando e pedindo ajuda, são o mais honesto e cruel retrato da angústia e de como a experiência humana pode ser dolorosa e perversa.

A notícia deveria nos deixar arrasados e nos levar às ruas chorando por algum tipo de atuação internacional na Nigéria. Mas não se cutuca diplomaticamente um país a troco de uma bobagem dessas, como sabemos. Invade-se um país por coisas como “parece que lá tem armas químicas, estamos achando isso, não temos muita certeza, na verdade é um chute, mas precisamos invadir ou eles destruirão o mundo e é nossa missão salvar o planeta!”, mas 300 garotas sequestradas e vendidas não requer mobilização internacional.

Ou, se alguma nação der abrigo a alguém acusado de espionagem, como Edward Snowden, aí vale matutar formas de ameaçar essa nação com restrições econômicas. Mas a respeito das quase 300 sequestradas na Nigéria, as autoridades dizem que, bem, talvez possamos pensar numa hashtag que demonstre todo o nosso horror pelo que aconteceu. Quem sabe até postar algumas fotos com celebridades segurando cartazes pedindo gentilmente que as meninas sejam devolvidas. Algum movimento assim.

Os Estados Unidos dizem estar há muitos anos em guerra contra o terrorismo, uma guerra que todos os dias, em nome da segurança, tira um pouco mais de liberdade do cidadão, mas vamos combinar que não serve lutar contra qualquer terrorismo. Terrorismo só é terrorismo quando praticado em solo americano, e de preferência por gringos ou imigrantes.

Embora você provavelmente nunca tenha ouvido falar neles, como eu não tinha, hoje soube que essa não é a primeira vez que o Boko Haram faz isso. O grupo atua com regularidade na Nigéria, mas dado o absurdo número de 300 estudantes sequestradas de uma vez, a grande mídia está dando destaque.

Se o Boko Haram fuzilasse uma estudante dentro de uma sala de aula de qualquer minúscula cidade americana no mesmo segundo ficaríamos sabendo, e muita gente choraria por ela e juraria de morte o líder do grupo terrorista. Se 300 labradores fossem assassinados na África em um só dia, na mesma hora o ocidente se mobilizaria em solidariedade ao crime bárbaro e uma chuva de dólares inundaria a África em nome da caçada ao responsável pelo crime. Se a Nigéria tivesse armas químicas ou estivesse construindo uma bomba atômica uma invasão já estaria sendo estudada pelos países aliados. Mas mais de duzentas meninas negras sequestradas e vendidas, talvez até assassinadas e Deus sabe o que mais, não comove tanto assim. Nessa hora chega-se à conclusão de que é preciso que se respeite a soberania da Nigéria, mesmo se estivermos assistindo calmamente à completa falta de interesse das autoridades em investigar e localizar essas crianças.

A ONU até agora limita-se a dizer: “Que absurdo! Não pode isso, gente”, e enquanto assistimos passivamente a barbárie, setecentas mães vão para a cama hoje sem saber onde ou como estão suas filhas, sequestradas porque ousaram sair de casa de manhã para ir à aula.

Aqui o trecho de À Sombra das Raparigas em Flor, segundo volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, que veio à minha cabeça hoje de manhã e que, agora percebo, pode se encaixar ao texto.

O trecho foi traduzido livremente por mim, então qualquer eventual erro terá sido meu e não de Proust porque Proust era uma espécie de avatar, anjo, arcanjo, sei lá, e não errava nunca. Pelo menos não com a palavra escrita.

O hábito enfraquece todas as coisas; mas as coisas que melhor nos lembram uma pessoa são aquelas que, por serem insignificantes, nós as esquecemos e que, por estarem esquecidas, não perderam nada de sua força. Por isso, a melhor parte de nossa memória existe fora de nós mesmos, numa brisa de chuva, num cheiro a quarto fechado ou no de um primeiro fogaréu, coisas através das quais podemos recuperar qualquer parte de nós mesmos que a razão, não tendo nenhum uso para elas, desdenhou; o último vestígio do passado, o melhor dele, a parte na qual, depois de todas as nossas lágrimas terem secado, pode nos fazer chorar outra vez.”

 

 

6 pensamentos sobre “Trezentos motivos para chorar hoje

  1. A omissão da ONU e a retaliação de fatos desastrosos mediante algum interesse econômico mostram o “pau de galinheiro” que reina na mentalidade das grandes nações: só se defende por interesse próprio, nunca pensando coletivamente no bem-estar da sociedade em geral.

    Abração, Milly.

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  2. é muito absurdo, Milly, e as coisas nem mais repercutem, são tratadas como banais… Você já mudou? Boa sorte, querida, sempre!!beijao pras duas

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  3. Parabéns pelo texto, Milly. Poucas vezes li algo tão sensato e, consequentemente, de partir o coração e fazer refletir sobre que raios acontece com as prioridades da grande mídia, dos órgãos governamentais e principalmente, com os nossos valores e reações, como pessoas, diante desses fatos escondidos mas tão presentes na vida cotidiana. De se pensar. Obrigada pela leitura.

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  4. Parabéns pelo texto e pela lucidez das palavras, Milly. Faz refletir sobre a vida, em vários sentidos, e pensar em que raios acontece com as prioridades da grande mídia, dos órgãos governamentais, e, principalmente, sobre o que fazemos com o nosso papel, reações e valores diante de tristes fatos como esse – escondidos mas tão presentes no cotidiano. Obrigada pela leitura.
    Abraço.

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  5. Pingback: Ross

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