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A grande seca

São Paulo, abril de 1364 AC

Era uma noite fria de outono, e Huga e Tonga faziam fogo à beira da caverna, esperando pela chegada dos convidados.

“Ainda bem que descobriram esse negócio de fogo semana passada. Não fosse ele estaríamos congelando”.

“Que você acha de eu jogar dentro do fogo uns pedaços do mamute que cacei?”

“Ué, sei lá. Joga, Tonga. Vai que fica bom. Mas não deixa passar do ponto”.

Enquanto Tonga cortava o mamute com seu facão, invenção também recém-chegada àquelas cavernas, os convidados já podiam ser vistos descendo a colina.

“Lá vem eles, Tonga. O que vamos beber? Pena que ainda não inventaram aqueles gelos em cubo, né?”

“Gelo, Huga? Tá doida! Para inventarem isso precisam primeiro inventar a geladeira. E outra: não chove há meses. Como vão inventar o gelo em cubo? Aliás, melhor não bebermos nada além do sangue do mamute”

“Tem razão. Tem razão. Eu até escutei o Zica dizer que vai faltar água, que o lance é bem grave”.

Nessa hora os convidados finalmente chegam: Inga, Zica e José Oriovaldo dão um oi geral e se aboletam nas pedras ao rodor do fogo.

“Zica, tava contando pra Huga aquilo que você falou da água”, disse Tonga enquanto esquartejava o mamute.

“É, galera, a coisa tá feia. Vai faltar água mesmo. Eu ia até sugerir de a gente parar de tomar banho uma vez por mês. Topam tomar agora só no primeiro dia da nova estação?”

“Claro, claro”, disse Inga, que não gostava mesmo de tomar banho. “Eu fecho”.

“Ei!, pensei em jogar o mamute no fogo e ver como fica. Quem quer?”

Todos quiseram experimentar a novidade. Empolgado, Tonga colocou o avental e começou a atirar pedaços do bicho no fogo enquanto falava.

“Vocês já tinham visto fogo, gente? Consegui fazer porque peguei o tutorial com a empresa que inventou”.

“Foi caro?”

“Um pouco, mas parece bom investimento porque que esse troço de fogo vai pegar”, disse Tonga sem se dar conta do trocadilho.

Todos riram.

“Esse negócio de fogo tá rolando faz tempo numas cavernas longe daqui, não é nada coisa da semana passada, a gente nesse fim de mundo é que só ficou sabendo agora”, disse Inga, já meio puta e antes de completar: “Essas nossas cavernas são muito atrasadas.”

“Tanto faz, Inga, o importante é que uma hora chega e que a gente tá bem melhor hoje do que no paleolítico”, disse Zica.

“Eu tô é com um pouco de medo dessa falta d’água”, disse José Oriovaldo, sempre o mais calado do grupo.

“Não fica, Zé”, disse Huga. “A gente vai dar um jeito”.

“Não é isso, eu sei que a gente não vai morrer. É que já estão começando a culpar a administração”.

“Ah, os caras adoram colocar a culpa na chefia. Relaxa que não vai sobrar pra você”.

“E outra Zé”, disse Tonga, empavonado com a invenção do churrasco, “a gente pode espalhar que a culpa é de quem não economizou água”.

“Isso!”, concordou Inga sabendo que ela mesma tinha economizado bastante.

“Não é uma ideia ruim”, disse Oriovaldo olhando para o horizonte, que naquela época era bem longe.

“Vocês começaram a trabalhar nas obras para melhorar a infra estrutura do reservatório, Zé?”, perguntou Zica.

“Claro que não, né, Zica”, interrompeu Tonga. “Você quer seu dividendo ou não?”

Todos riram, menos Zica.

“Mas relaxa que isso a gente não espalha. Ah! Já sei, Zé! Podemos dizer que essa é a maior seca da pré-história”, disse Inga.

“Boa! Vamos dizer que um período como esse só, sei lá, vou chutar… ah! um igual a esse só em 4742. Quatro mil setecentos e quarenta e dois antes de cristo, naturalmente”.

Todos riram, mas uma dúvida logo martelou o tutano de Oriovaldo.

“Vocês acham que alguém vai acreditar nisso?”

“A gente pega algum órgão técnico para comprovar, aí fica bonito”, disse Tonga servindo a carne.

“Podemos tentar”, rendeu-se Oriovaldo.

“Zé, tá feito, relaxa. A gente cuida disso amanhã. Agora senta aí e come essa carne que tá delicia. Mas tá sem sal, tá? Quanto mais sal, mais água a gente bebe, então achei melhor tirar”.

Emburrado, Zica disse que não ia comer o mamute.

“Qué isso, Zica? Tá doido?”

“Não sei como ainda sou amigo de vocês. Vocês só fazem besteira”

“Ihhh, lá vem o Zica defensor dos pobres e oprimidos. Daqui a pouco ele levanta e manda um: “E falo mais: vai ter Copa!'”, disse Inga.

Todos riram.

“Só um problema”, disse Oriovaldo.

“O que agora, Zé?”

“Se a gente fizer isso os caras lá no futuro vão achar que a gente passou mesmo por uma puta seca. Sacanagem com os registros históricos, né?”

Todos riram, até Zica.

“Qual a graça?”, quis saber Oriovaldo.

“Sério, Zé. Tu acha que daqui a três mil anos alguém vai acreditar nisso? Não é assim, cara. O homem vai evoluir, ter mais neurônios, fazer mais sinapses, saca? Só alguém muito otário para tentar engambelar os caras do futuro com uma cretinice dessas. Isso é coisa da pré-história, seu Zé”.

Oriovaldo pensou, pensou e finalmente relaxou. Animado, deu um tapa com as mãos nas próprias pernas, levantou, foi até o fogo e levou o mamute à boca.

 

 

 

 

 

 

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