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New York Times demite a primeira mulher a comandar o jornal; em seu lugar assume o primeiro negro

Um texto na capa do New York Times dessa quinta-feira, dia 15, que me chamou a atenção mais do que os outros: “Times demite editora-executiva”, dizia a manchete. Nós, brasileiros, não estamos acostumados com esse tipo de jornalismo que estampa na capa uma matéria a respeito da demissão do próprio editor, por isso li três vezes para ter certeza que era aquilo mesmo. E era.

Tentei imaginar um texto na capa do Estadão explicando a demissão do chefão e não consegui. Quando Pimenta Neves, então ocupando o maior cargo no jornal – o de diretor de Redação -, assassinou a namorada com tiros pelas costas o Estadão mal tocou no assunto, imaginem como seria então num caso de demissão. Talvez até dessem por dever de ofício, mas acredito que esconderiam numa editoria menor e que teria cara de texto bajulador escrito por assessor de imprensa.

Jornalisticamente a notícia do New York Times tinha peso porque a demitida, Jill Abramson, foi a primeira mulher a comandar o Times na história (assumiu em 2011), e também porque seu substituto, Dean Baquet, é negro (mulato para nossos padrões, ‘african-american’ no politicamente correto do americano) e, portanto, o primeiro negro a comandar o jornal.

O texto é extenso e da capa vai para o caderno de negócios. Lá, de forma bastante detalhada, ele explica que Abramson foi demitida por ter um estilo muito duro de comandar e também por polarizar o time (o famoso conceito romano de “dividir para reinar” tão utilizado por chefias corporativistas). Fala ainda que Baquet e ela não se davam bem e expõe algumas vísceras do jornal e de sua rotina diária. É uma reportagem completa, que cita fontes e procura apurar como era, afinal, esse criticado estilo de Abramson e por que e como ele não foi assimilado. Há fontes defendendo o estilo e a paixão de Abramson, outras criticando. Enfim, há os dois lados.

O New York Times está longe de ser um jornal perfeito, claro, mas é mais interessante do que os nossos. Ao contrário do que acontecia quando eu lia o Estado, O Globo ou a Folha durante o café-da-manhã e saia quase tão oca quanto entrei, ler o New York Times me faz pensar e refletir e querer saber mais (salvo, sejamos justos, com os Safatles e as Gancias da vida, que valem a compra do jornal, mas que não escrevem todos os dias. E, outra justiça que precisa ser feita é o fato de a Folha, sem dúvida o melhor entre os três citadoster Ombudsman).

A imprensa alternativa americana chegou a criticar a cobertura que a grande mídia deu da demissão de Abramson, considerada fraca, tendenciosa e mal apurada. Mas para esta caipira aqui, foi coisa acima do esperado.

Claro que há no periódico americano idiotices e patriotadas como insistir em chamar o grupo terrorista Boko Haram, responsável pelo sequestro das 300 estudantes nigerianas, de ‘grupo islâmico’ e não de “grupo terrorista’, ou como a cobertura anti-chavista e míope da crise venezuelana, mas no geral o saldo ainda é bastante positivo.

Todos os dias, por exemplo, tem ali uma (ou mais de uma) grande matéria sobre a desigualdade que assola o país. E em todas fica bastante explícita a posição do jornal, que não se permite sentar confortavelmente em muros de hipocrisia, nem perde tempo elaborando editoriais elitistas, preconceituosos ou chapa-branca.

O economista Thomas Piketty, que lançou recentemente aquela que tem sido considerada a nova bíblia econômica – Capital in the Twenty-First Century -, durante quinze dias foi assunto farto no jornal, que chamava a atenção para o que o francês, um homem de esquerda e que prega algumas reformas bastante duras, diz. Recentemente, quando o estado de Massachusetts aboliu o sistema de cotas, um editorial implacável colocou o jornal a favor das cotas e contra a atitude da Suprema Corte. O aquecimento global está também diariamente na pauta, e a direita americana, que ainda teima em dizer que não existe aquecimento global, é duramente criticada.

O fato de o jornal não se omitir e nem buscar imparcialidade mesmo nas pautas mais simples pesa a favor. Numa época na qual somos todos os dias assolados, via mídia, por mentiras e meias-verdades faz bem ler o Times.

Mas o texto sobe a inesperada demissão de Abramson é mais revelador do que parece. Porque é quando o jornal ousa arreganhar algumas de suas mazelas que fica ainda mais sedutor. Hoje em dia, a coragem de se mostrar vulnerável é sinal de força e motivo para admiração. Vale para jornais e seres humanos.

 

 

 

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