Uncategorized

Quem vai nos libertar?

Os sinais estão por todos os lados, mas a imprensa fala pouco, e consolida menos ainda seu significado.

Vamos falar de dois deles, dois dos mais recentes.

O primeiro é a explosão de uma mina de carvão na Turquia na primeira quinzena de maio que deixou 301 trabalhadores mortos.

Logo depois da explosão, enquanto voluntários ainda tentavam localizar sobreviventes, veio a notícia de que os trabalhadores há muito lutavam por mais segurança, e alguns, antes do acidente, acusavam a corporação proprietária da mina de abrir mão de segurança em nome do lucro. O New York Times entrevistou um senhor cujo filho morreu soterrado e ele disse: “Não tivemos escolha. Tentamos trabalhar em campos de tabaco, mas nada completava a renda que precisávamos para viver”.

A industria da mineração, como sabemos, lucra extraindo substâncias minerais do solo. A despeito de todas as evidências que apontam para o aquecimento global, e para uma iminente catástrofe climática que pode acabar com a vida na Terra, o solo continua a ser financeiramente estuprado porque a mineração é, afinal, um dos negócios mais lucrativos do mundo.

Ou, como disse o jornalista Paul Street, já era hora de entendermos que o verdadeiro inimigo é o CEO que contrata lobistas e empresas de relações públicas para negar descobertas científicas a respeito de aquecimento global e de catastrofes ambientais ligadas a ele.

O economista recém-elevado à categoria de rock-star, Thomas Piketty, começa as 700 páginas de seu revolucionário Capital in The Twenty-First Century com a seguinte história:

Em agosto de 2012, na África do Sul, a polícia foi chamada para intervir em um conflito entre os operários de uma mina de platina perto de Johannesburgo e os proprietários da mina: acionistas de uma empresa com sede na Inglaterra. A polícia abriu fogo; 34 mineiros morreram. O conflito começou quando os mineiros pediram um aumento para os proprietários: ganhavam 500 euros por mês, e reivindivacam mil. Depois das mortes, um acordo foi fechado e os mineiros foram aumentados em 75 euros por mês.

Outra história recente, essa nos Emirados Árabes Unidos, o sexto país mais rico do mundo.

Segundo matéria publicada nessa segunda-feira, 19 de maio, no New York Times, a construção de uma filial da Universidade de Nova York em Dubai, capital do país, apresenta vestígios de escravidão: imigrantes que chegam ao país com a promessa de salário digno e trabalho na construção, têm seus passaportes confiscados e passam a morar em condições sub-humanas, apinhados em quartos pequenos com uma dúzia de outros trabalhadores, baratas pelas paredes e comidas estocadas entre as camas, que é o que os sustenta entre um dia e outro de trabalho. As fotos que ilustram a matéria são devastadoras.

Não é preciso dizer que a reportagem apurou que o salário pago não é o prometido (400 dólares por mês era o prometido; 200 dólares por mês é o pago), assim como a carga horária, que pode chegar a 12 horas por dia, seis ou sete dias por semana.

Entrevistados dizem que chegaram ao país atraídos pela vasta oportunidade de trabalho e seduzidos por propagandas, mas dizem que não encontraram o que buscavam. Os trabahadores em Dubai até tentaram uma greve, mas greves nos Emirados Árabes são proibidas, e os líderes foram presos, espancados e deportados – o que a essa altura do campeonato soa como uma benção.

Piketty, ainda no primeiro capítulo de seu livro, lembra episódios que aconteceram em 1886 e 1891, nos Estados Unidos e na França, quando a polícia também abriu fogo contra trabalhadores em greve que lutavam por melhores salários e pergunta: será que esse tipo de conflito entre capital e trabalho pertence ao passado, ou fará parte da história do século 21?

Mas, claro, ainda há aqueles que argumentam que a pobreza está diretamente ligada à preguiça ou a uma certa falta de vontade de trabalhar ou procurar emprego.

Semana passada, numa convenção em Nova York, dois políticos americanos de direita, Paul Ryan e Jeb Bush, deram declarações comoventes a respeito da pobreza.

Para Ryan, basta ter amigos, ser responsável e saber amar o próximo para escapar do estado de desespero que a pobreza provoca. Para Bush, uma família que se ama dentro de um casamento tradicional (homem e mulher, naturalmente) é capaz de fazer mais do que qualquer programa social bancado pelo governo”.

Charles Blow, articulista do Times, completa: “Tocante, mr. Ryan, mas infelizmente o pobre não pode simplesmente abraçar a pessoa que está no caixa em sinal de afeto e sair do supermercado sem pagar”.

Se o pensamento conservador de direita começa a ser ridicularizado até pelo maior jornal do maior país capitalista do mundo talvez então exista esperança.

“O limite final do capitalismo é o próprio capital” — como discordar de Marx diante de acontecimentos como esses?

Ou, como preferiu o professor marxista Terry Eagleton: As nações capitalistas modernas são fruto de histórias de escravidão, genocídio, violência e exploração que não deixam nada a desejar à China de Mao ou à União Soviética de Stalin.

Não por acaso, Marx tem sido ressuscitado mundo afora. Em Nova York, algumas livrarias reservam prateleiras para as obras dele, e para a interpretações da obra dele, e expõe o livro de Piketty ao lado – o marxismo começa a ser defendido como uma crítica ao capitalismo acima de qualquer outra coisa.

“A valorização do mundo das coisas cresce em razão diretamente proporcional à desvalorização do mundo do homem”, Marx escreveu há mais de 100 anos, e já imaginando um planeta globalizado e alienado.

Mas já que algumas pessoas (movidas por cinismo ou ignorância) tremem e hiperventilam ao escutar o nome de Marx, vamos tentar não mencionar mais Marx ou socialismo ou comunismo, muito menos sugeri-los como solução.

Deixando tudo isso de lado as perguntas que ficam são: o que faremos com o capitalismo? Até quando vamos fingir acreditar que sua infinita capacidade de gerar riqueza vai também ser capaz de distribuí-la de forma minimamente justa? Vamos esquecer que atualmente os 85 homens mais ricos têm mais do que os 3 bilhões mais pobres e seguir vivendo?

E mesmo se fecharmos os olhos para a escravidão moderna sustentada pelo modo de vida capitalista, ainda assim teremos que olhar para o planeta e perceber que esse estilo de vida capitalista está prestes a destruí-lo.

Se depois de tudo isso não conseguirmos sair do conforto de nossos castelos para reconhecer que alguma coisa precisa mudar urgentemente, então só nos resta sentar e esperar pelo fim. Nas palavras de Neil deGrasse Tyson, o cientista que alcançou o estrelato apresentando o remake de Cosmos: “Os dinossauros não viram aquele meteoro chegando. Mas e a gente? Qual será nossa desculpa?”

 

 

4 pensamentos sobre “Quem vai nos libertar?

  1. Pingback: hubert

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s