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O Mauricio Torres que conheci

Era um de meus primeiros dias de trabalho na Record, e Eduardo Zebini, Diretor da emissora, me chamou para uma reunião com os narradores da casa, Mauricio Torres e Éder Luiz. Porque estava trabalhando com futebol na TV há quase dois anos, inserida como invasora num mundo machista e misógino, já tinha aprendido que deveria me preparar para ser recebida de duas formas: ou me tratariam com aspereza e desdém, deixando claro, muitas vezes através de piadas preconceituosas e grosseiras contadas entre eles e para fins de me intimidar e constranger, que aquele ambiente não me comportava, ou agiriam com a condescendência e a gentileza dos cavalheiros – uma forma mais elegante de machismo, mas, ainda assim, apenas mais uma faceta do machismo.

Edu Zebini não havia me preparado para aquele encontro, e eu também já sabia que esse tipo de estratégia é comum em TV; um meio no qual sobrevivem os que conseguem passar por situações de alta tensão para as quais não foram preparados.

Acho que quando cheguei, Éder e Maurício já estavam com Edu, e havia uma terceira cadeira vazia, na qual, depois de cumprimentá-los, me sentei. Não precisei de cinco minutos para entender que havia uma terceira forma de ser tratada – apenas como uma colega de trabalho. Uma forma que eu, aliás, já havia experimentado na Globo, com Milton Leite, Mauricio Noriega e Jota Junior, para falar apenas de meus companheiros da bancada do Arena Sportv. Uma forma rara, mas que agora eu entendia, seria a usada por Éder e Maurício – e por Edu, que me contratou.

A partir daí, e durante um ano, eu via Mauricio todos os domigos à noite quando, juntos, apresentávamos um programa de fim de rodada na RecordNews. Nunca o encontrei mal-humorado, mesmo quando seu Botafogo perdia – o que era bastante comum. Antes do programa começar, falávamos besteiras, ríamos de alguma barbaridade da rodada, ele me contava da semana que havia passado no Rio e falava da filha; ele adorava falar da filha. Nos intervalos comerciais, eu mostrava a ele meu celular com as mensagens de minha mãe, que variavam entre reclamações a respeito da minha maquiagem (“muito pesada hoje”, “pede para colocarem menos batom”) e elogios à camisa que ele usava, ou a alguma coisa que ele havia dito no ar. Mauricio ria como uma criança, e pedia que eu respondesse agradecendo.

Na saída, ficávamos um pouco mais no estúdio porque ele sempre se lembrava de uma piada que precisava contar. Depois, já no estacionamento e bem tarde, conversávamos sobre a profissão, sobre o futuro, sobre relacionamentos. Quando eu me preparava para entrar no carro, ele abria minha porta – uma atitude que pode soar cavalheiresca, mas que, vinda dele, era apenas elegância. Mauricio era um menino alegre, brincalhão, cheio de energia, e um homem de alma educada e sofisticada; um cara engraçado, leve, companheiro e, especialmente, leal. É isso o que vou guardar dele para sempre.

Chegamos a sair para beber juntos, ele, Éder e eu. Foi uma noite dessas noites de “fechar o bar” na qual falamos sobre tudo, sobre todos e, claro, sobre futebol. No ano em que convivemos semanalmente, me acolheu como um igual, como alguém que sabia de futebol tanto quanto ele, embora ele soubesse muito mais do que eu. E ele, aliás, entendia de todos os esportes; nunca tinha conhecido alguém que pudesse saber sobre tantas regras a respeito de tantos variados esportes como Mauricio.

Não faz muito tempo me mandou uma DM pelo Twitter dizendo que estava com saudade e que gostaria de me ver. Respondi que também sentia saudade e ficamos de marcar. Não aconteceu. Não ainda. Mas logo mais a gente se revê, Maurício. Enquanto isso, vai em paz nessa derradeira viagem. E obrigada por tudo.

 

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