Comportamento/Universo/Vida

Por uma vida sem sentido

Em uma das últimas cenas do episódio final de Cosmos, o seriado apresentado por Neil DeGrasse Tyson, vemos uma imagem da Terra de uma distância de aproximadamente 7 bilhões de quilômetros. Dali, nosso planeta é apenas um “pálido ponto azulado” no meio de uma imensidão devastadora. Dali, tudo perde o contexto. Ou, de uma forma estranha, entra em um bizarro contexto. Quando finalmente entendemos o que está acontecendo, ou o que estamos vendo, é impossível não se emocionar.

A imagem, colhida pela Voyager 1, é de tirar o fôlego. Não por sua estética, porque ela pode ser a mesma de um raio X para o qual continuamos a olhar sem saber o que exatamente estamos vendo, mas por seu significado. O incômodo efeito que ela causa é o de nos colocar em perspectiva; o ponto azul e pálido perdido na imensidão escura é indicado por uma flecha, desenhada para que saibamos o que, afinal, temos que olhar. Ou, de outra forma, para indicar onde devemos colocar o foco, embora o verdadeiro foco seja a grandiosidade que cerca aquele minúsculo ponto perdido no Universo.

Ao conseguirmos absorver a imagem, talvez a primeira sensação que nos invada seja a da solidão. Nosso planeta está sozinho, apequenado, perdido no meio de uma brutal escuridão. Em volta, apenas mistério. É a solidão cheia de poesia e de emoção, entre a melancolia e a esperança, uma solidão que perturba e ao mesmo tempo faz sonhar como um quadro de Edward Hopper.

Mas se você continua a olhar, a solidão dá lugar a uma coisa maior e mais forte: a noção de que estamos todos em uma mesma nave, todos em uma mesma viagem, todos dentro de um mesmo ponto pequeno, desprotegido e frágil.

Carl Sagan, o cientista que nos anos 70 criou o seriado que agora Tyson recria, ao ver a imagem da Voyager 1 pela primeira vez em 1996 definiu de forma brilhante o que via: “Olhe outra vez para o ponto azul. Ele é aqui. Ele é nossa casa. Ele somos nós. Nele, todos os que você ama, todos os que você conhece, todos os que você um dia ouviu falar, todo o ser humano que já existiu, nele viveu sua vida. O agregado de nossas alegrias e dores, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todo o caçador e toda a caça, todo o heroi e todo o covarde, todo o criador e destruidor de civilizações, todo o rei e todo o trabalhador, todo o jovem casal apaixonado, toda a mãe e todo o pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, todo professor de moral, todo o político corrupto, toda celebridade, todo líder supremo, todo o santo e todo o pecador da história de nossa espécie viveu ali – em um pedaço de poeira suspenso em raios de sol”.

Quando a Voyager viajou sete bilhões de quilômetros e então parou e virou suas lentes para o nosso planeta ela talvez tenha nos apontado um enorme espelho. Ao alterar nosso ponto de vista e nos misturar ao meio de forma definitiva a imagem faz com que nos curvemos à humildade que passa a ser inescapável diante da imensidão ao redor.

Fiquei imaginando um observador espacial que pudesse estar ao lado da Voyager vendo aquele pequeno ponto azulado lá longe. Um ponto tão pequeno como qualquer outro no espaço, como as estrelas que conseguimos enxergar no céu de uma noite de outono. Dentro daquele ponto miúdo, toda a dor e todo o amor, toda a morte e toda vida, toda a tristeza e toda a beleza do que somos. É possível passar horas olhando aquela imagem, o fundo negro devastador, o minúsculo ponto azulado e solitário, e a flecha que aponta para ele dizendo “É aqui! Essa é a nossa casa, e não há outra”.

Entender que moramos todos juntos dentro de uma mesma nave-mãe pode ser uma sensação mais forte do que conseguimos suportar. Como o conceito do agora, que de tão poderoso nos faz recorrer constantemente ao passado e ao futuro, lugares nos quais normalmente nos deparamos, respectivamente, com arrependimentos e preocupações, sensações que não fazem sentido se fecharmos o foco no que está acontecendo nesse exato momento.

Olhando a imagem do nosso planeta misturado ao meio, vagando por ele, é também impossível não se perguntar qual o sentido de tudo isso, o que, afinal, estamos fazendo dentro daquele minúsculo ponto.

Horas antes de ver a imagem da Voyager tinha lido um trecho do livro de Terry Eagleton cujo título é O Sentido da Vida. Trombei com ele numa edição da revista canadense Adbusters. Fui então pegar a revista para reler o que escreveu Eagleton e entender por que eu estava associando o texto àquela imagem.

Nele, Eagleton faz um paralelo entra a banda de jazz que improvisa e o sentido da vida.

Ele diz que a complexidade da harmonia da banda que improvisa não vem do fato de que há uma melodia coletiva, mas sim da livre expressão musical de cada membro, que age como base para a livre expressão musical dos demais. E ao passo que cada músico cresce em eloquência melódica, os outros são capazes de tirar inspiração e, assim, elevam-se a lugares cada vez mais altos. Não há conflito entre a liberdade individual e o bem de todos. Existe realização pessoal, mas apenas através do ato de se perder na música como um todo. A grande realização – a música – age como o meio para o relacionamento entre os artistas.

Seria maluco propor essa situação como uma explicação para o sentido da vida, claro, sugerindo que é isso o que faz a vida ser significativa e, mais estranhamente, sugerindo que ao agirmos assim, tão livremente, acabamos por perceber nossa natureza em sua melhor forma. Mas, continua Eagleton, o objetivo seria o de construir esse tipo de comunidade em uma maior escala. Uma utopia, ele reconhece, e em seguida diz que talvez não consigamos alcançar esse estado de clímax coletivo. E conclui: “O que precisamos é de uma forma de vida que seja completamente sem sentido, exatamente como a performance da banda de jazz é sem sentido. Em vez de servir a fins utilitários ou metafísicos, é um satisfação nela mesma. Não precisa de justificativas além de sua própria existência”.

Talvez Eagleton esteja certo. Talvez não precisemos de justificativas, de explicações, de racionalizações, mas apenas de sensações, essas às quais nos permitimos elevar quando, por exemplo, somos o músico improvisando numa banda de jazz, ou a mulher apaixonada fazendo amor pela primeira vez, ou o jogador trocando com seu companheiro passes improváveis em direção ao gol adversário, ou o amigo que ri em uma mesa de bar num sábado à tarde, ou irmãos caminhando à noite em uma praia deserta sob as estrelas, ou a mãe que amamenta o recém-nascido, ou a filha que dá adeus ao pai; ou, finalmente, homens e mulheres e plantas e bichos compartilhando a vida dentro de um mesmo minúsculo e frágil ponto azulado perdido no espaço infinito.

A imagem tirada do Instagram da Nasa:

Imagem captada pela Voyager 1 e postada no Instagram da Nasa

 

 

 

5 pensamentos sobre “Por uma vida sem sentido

  1. Gostei muito do seu blog.Fiquei curioso em conhecer o blog depois de ler no Nassif o artigo que você escreveu: “A Elite que conheceu Itaquera ontem”.
    Estava com todo o noticiário engasgado na garganta e de uma certa forma, ler seu artigo me fez muito bem.
    Há muito o que explorar no seu blog, que eu vou fazer com o vagar necessário, pois seu estilo de escrever é delicioso.
    Valeu!
    Luigi

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