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Para nosso futebol renascer a CBF tem que morrer

Quem me acompanha com alguma regularidade – minha mãe e mais duas pessoas –, sabe que a estupidez é uma de minhas características mais latentes. E ela normalmente se manifesta como uma espécie de coragem da ignorância.

É movida por ela que quero falar algumas coisas a respeito da seleção brasileira.

Escrevo isso logo depois do jogo com o México. Portanto, muito antes do final da Copa das Copas. E quero também dizer que se você é o tipo de leitor ou leitora que gosta do futebol de resultados, esse texto não vai levá-lo a lugar nenhum. Por favor, desista aqui.

Os que continuaram a ler, imagino, são pessoas que sabem que se futebol fosse apenas resultado, bastaria pegarmos o placar depois do jogo e nada mais. Nem seria preciso ver a partida, aliás. Mas para mim futebol é muito mais a experiência do jogo do que o placar. É um minuto depois do outro até que os 90 e poucos se completem. Porque neles a gente sente uma infinidade de coisas, muitas boas, outras nem tanto, mas é sobre a experiência de sentir que quero falar.

O futebol brasileiro não faz mais sentir. Não provoca muito mais do que sensações rasas como um “uhhhh” aqui e é isso. Raiva sim, mas outras sensações que nos eram tão íntimas não mais. Não há uma triangulação, não há toque de bola, não há conjunto, não há ritmo. E não há faz décadas. Nosso jogo é hoje tão criativo e eficiente quanto o mexicano – e não quero aqui faltar com respeito ao mexicano.

Claro que o México melhorou muito, mas, ainda assim, deveríamos continuar a ser melhores. Não somos. Podemos até seguir para ganhar essa Copa – porque nossa camisa ainda impõe respeito ao adversário e porque a juizada simpatiza bastante com ela – mas é prudente que a gente entenda de uma vez por todas que hoje somos tão bons quanto o México.

Que a imprensa ao final do jogo coloque o goleiro deles como herói não me surpreende. A discussão é rasa há anos. Ochoa jogou muito, evidentemente, mas não foi porque fez duas ou três defesas brilhantes que o Brasil não ganhou.

O Brasil não ganhou porque não jogou o futebol brasileiro, jogou o futebol pragmático e careta que quase todos os times jogam atualmente.

Há um responsável por isso, e ele é a CBF.

Nosso futebol é comandado por uma velharia carrancuda e careta que busca uma coisa apenas: o lucro. Por isso, trata-se de uma corporação riquíssima administrando um futebol paupérrimo.

Não há interesse em se investir, em bancar algumas derrotas necessárias, em manter uma filosofia de jogo que seja representativa da nossa cultura: importa vencer para lucrar. Ou, mais ainda, importa não perder. Os fracassos, nesse mundo corporativo, não são bem vistos.

A aura de elitismo, soberba e arrogância que inunda a CBF passa para a comissão técnica – e como poderia ser diferente? – e, em cascata, para o campo. Num estágio final, ela pode ser sentida nas entrevistas coletivas, sempre constrangedoras e pernósticas. Quando há alguma gracinha, ela é entre as pessoas da panela e soam mais como piadas internas.

Claro que todos os jogadores do time vieram de baixo e sabem melhor do que eu o que é pertencer a uma classe oprimida, mas dentro do manto da CBF eles apenas respondem ao comando deles, e o lema é fazer com que acreditem no “com a gente ninguém pode, somos a seleção brasileira de futebol, mais respeito aê”.

Vivem dessa imagem torta há anos. Somos o Brasil, o pais do futebol. Que nos respeitem. E às favas com a humildade. É o reverso nocivo do complexo de vira-lata.

Movidos por esse lema, saem dando patada em qualquer um que não seja da panela: patrocinadores, agentes de jogadores (que, afinal, fazem a grana girar) e a Globo. Basicamente, são esses os que têm acesso à seleção da CBF.

Uma seleção que em campo reflete a corporação que a comanda: joga de forma careta, esnobe, dissimulada, individualista e desnecessariamente violenta.

Ao ver Fred se atirar no chão contra a Croácia de forma teatral, o narrador da ESPN americana disse: “O Brasil não precisa disso”. Trata-se, na verdade, de alguém que não acompanha o futebol dessa seleção há muitos anos porque hoje o Brasil precisa disso. Não deveria, claro, porque agir assim é pequeno, além de ser atitude covarde e desleal. Mas há alguns anos jogamos dessa forma: mais preocupados em enganar o juiz do que em produzir alguma coisa nobre e criativa em campo.

E, com tantas mazelas, o time vai se afastando do povo.

Esse não é o futebol brasileiro; esse é o futebol da CBF.

Fora de campo chegamos ao ponto de gritar quando o goleiro adversário bate tiro de meta. Essa não é a torcida brasileira. Essa é uma torcida que, inconscientemente, entendeu que é preciso buscar referências lá fora porque as nossas desapareceram.

Até a forma bélica como essa seleção tem cantado o hino me soa piegas. Fecham os olhos, uivam a letra, gritam como animais ferozes quando a música acaba. Alguma coisa nessa imagem me parece fora de tom e forçada.

É um enorme clichê, mas vou dizer mesmo assim: ganhar não é o mais importante; aliás, são as derrotas que nos formam e nos agigantam porque poucas coisas ensinam mais do que o fracasso.

O mais importante seria deixar que uma de nossas maiores identidades nacionais – o futebol – refletisse quem somos. E isso só vai acontecer se a CBF morrer e levar com ela toda a filosofia corporativa com a qual infectou o jogo.

Não somos carrancudos como um dirigente da CBF. Nem caretas, nem covardes. Somos um povo que ginga, e dança e vibra e que – acima de tudo – sabe sofrer e não tem medo da dor.

Então, essa seleção cebeéfiana pode até ganhar o caneco no fim das contas, e nesse caso vai ter um monte de chato que não entendeu esse texto me enchendo o saco, mas não terá representado nosso futebol nem a nossa cultura nem o nosso povo.

E talvez a gente consiga mostrar ao mundo quem somos de verdade se a seleção brasileira for desclassificada precocemente e, ainda assim, essa seguir para ser a Copa das Copas simplesmente porque, nas ruas e nas arquibancadas, que, quem sabe, fiquem menos branquelas e elitizadas com a saída do Brasil, a festa e a vibração continuarão a emocionar.

11 pensamentos sobre “Para nosso futebol renascer a CBF tem que morrer

  1. Milly,

    Entendi a sua ideia da seleção e acho realmente muito interessante. Também sou contra esta CBF que aí está e concordo que o “nosso” futebol, agora é mais o futebol “deles”. Tanto q nossos amistosos agora são disputados na Suíça, EUA, Qatar, EAU, e etc.
    Porém, nosso padrão de jogo está mais enraizado na nossa torcida. A ideia de perder, qualquer que seja a equipe, está fora de cogitação. Para o torcedor, não importa que o adversário jogue melhor, mais bonito. Tem que ganhar, seja num penalti roubado, seja agredindo, seja simulando lesão no segundo tempo inteiro, seja até a cartolagem fazendo atos ilícitos. Logo, não acho que nosso “futebol resultado” seja culpa apenas dos cartolas. A culpa é de nós mesmos, que jogamos para o ralo o espírito esportivo. Nós, que temos q pensar duas vezes antes de sair com a camisa da clube, ou de brincar sobre futebol ou até falar sobre ele. Nossos cartolas não merecem estar onde estão, mas neste caso eles não estão sozinhos. Parabéns pela proposta do tema. Um abraço.

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  2. Muito bom este texto! É realmente desesperador e vergonhoso ver/ouvir a “torcida” cantando “eu sou brasileiro, com muito orgulho…” Falta alma de estádio! Hoje sobra um nacionalismo barato, travestido de patriotismo, e quem critica esta postura acaba sendo taxado como anti-Brasil. Pois bem, se é para torcer por esse Brasil representado pela CBF, representado por pessoas como Marin e Del Nero, então eu passo…

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    • Vergonha alheia com o “sou brasileiro, com muito orgulho…”. Musiquinha chata! A gente pode (ou podia, no passado) fazer melhor.

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  3. Gostei do texto, e concordo com vários pontos. Em tempos de torcida que comemora valor do patrocínio master e tamanho de cota de TV, e que curte mais a Champions League do que o campeonato regional, não dava para esperar comportamento muito diferente do que temos visto até aqui nos estádios.

    Agora Milly, sobre a questão técnica, o que mudou deste time em relação à Copa das Confederações? As atuações do ano passado, contra grandes times, não foram convincentes? Ou foram exceções? Pergunto mais por ignorância mesmo (não acompanhei tão de perto os jogos da seleção no ano passado).

    Vc disse muito bem, com essa mentalidade de que “vale tudo para não perdermos”‘, vai demorar para vermos algo diferente e mais agradável no futebol brasileiro.

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  4. Quem começou a ofender o goleiro adversário no tiro de meta foi a gloriosa gaviões contra o Rogério Ceni.
    Tirando Marcelo Oliveira todos os técnicos vivem na retranca, e se Tite for o treinador da seleção o futebol será ainda mais feio.
    Lembrando que o treinador da deleção sub 20 é o Gallo, uma espécie de Pierre dos anos 90.
    Por falta de bons treinadores na base é que vemos Jô numa copa.

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  5. Milly vc é a unica pessoa que escreveu o algo corretissimo, mas infelizmente nem todas as pessoas entendem, eu estou falando desde 2006 que eu já sabia muito além que o culpado é da federação brasileira seja a CBF que é culpado de tudo isso !!!! para derrota-lo realmente esses bandos de hipocritas só tem uma solução !!! Pega fogo realmente, e eu acredito que no futuramente vão abrir os olhos …… tomará que aconteça realmente …. porque se não mudar a mentalidade e as funções …. a seleção brasileira va ser comandata para sempre a CBF e perdendo da nossa filosofia de futebol brasileiro ….. pena que as outras federações tipo alemã agora que a itália que está mudando depois do grande fracasso de 2010 ….. belgica espanha que agora saiu mas no futuro va modificar pra investir os jovens etc etc …… só a federação brasileira não ve isso ……… é uma pena realmente estamos perdendo tudo ………

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  6. Belo texto, somente um comentário: Futebol pragmático é o da Alemanha. Pragmatismo: A valorização da prática (pela prática continuada), a “filosofia de resultados”. A Alemanha joga neste formato há décadas, com sua eficiência comprovada. Abraço.

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    • Concordo, Cristian. A diferença é que o deles representa uma cultura pragmática e dura e sólida. E o nosso deveria nos representar. Somos alegres e temos ginga. O jogo deve ser uma expressão cultural, e não se deixar levar pela ordem do dinheiro e do mercado. Deveria ser assim, eu acho. Obrigada pelo comentário.

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