Comportamento/Futebol

Às favas com a obrigação de vencer

Olhando em retrospecto, o primeiro sinal de que alguma coisa estava errada veio com a cantoria ao hino. Não há seleção no mundo que uive a letra de um hino como os jogadores da seleção brasileira estão fazendo.

Talvez porque tenham sido influenciados pela torcida que resolveu puxá-lo à capela, os jogadores hoje entendam que está no hino a verdadeira ligação que podem fazer com a torcida. E não está. Nem no hino, nem na bandeira de cores estranhas que exibe orgulhosamente um pavoroso “ordem e progresso”. Aqueles que adoram uma certa ordem estabelecida no muque adoram também fazer uso desse tipo de nacionalismo que vem com paixões tortas a hinos e bandeiras. Nacionalismo nunca foi bom para nenhum povo, e me arrepia achar que há quem goste da ideia de usar desses garotos bons de bola vestidos em amarelo para politizar a coisa toda.

De qualquer forma, vê-los berrar como malucos o hino é um sinal. Um sinal de que alguma coisa está fora de sintonia.

Felipão, o rei da motivação, o talento-máximo em doping psicológico que a CBF foi resgatar para formar um time com arranque de campeão, dessa vez errou a mão. E errou porque resolveu acreditar que nada além da vitória importa.

E, ao passar isso para o grupo, a coisa parece ter espanado, e os garotos, muito antes da hora, quebraram emocionalmente.

A maior prova de que dessa vez até Felipão parece estar fora de giro é o fato de ter escolhido Thiago Silva como capitão. Porque o problema não é e nunca será Thiago chorar. Homens choram e não há nada de errado com isso, muito pelo contrário. O problema é ele ter escolhido para capitão um rapaz tão sem condições emocionais de segurar a onda. Se Felipão não conseguiu ver isso, que tipo de leitura terá feito desse grupo?

A ditadura do “temos que ganhar”, do “ganhar em casa é obrigação” talvez tenha inundado a concetração brasileira de modo a afogar qualquer chance de vitória. E a obrigação de vencer veio com campanhas publicitárias ultranacionalistas, e pegou carona nas colocações “a Copa é nossa” de Parreira, nos discursos de Lula e Dilma que acharam bacana sair por aí dizendo que a organização da Copa nunca meteu medo, que e a única coisa que mete medo é não ganhar a Copa, e culminou com um abobado pensar a frase “Preparem-se, o hexa está chegando” e estampá-la no ônibus da seleção.

E culpa da mídia Pacheca, que ajudou a parir esse futebol feio e truncado e retranqueiro e agora o mima como mimamos um filho problemático vociferando ao mundo que ele continua lindo e encantador e que não mexam com ele porque somos o maiores e melhores, e que sai pra lá viralatisse dos infernos porque somos enormes. 

Ainda somos enormes sim, mas nossa camisa pesa a despeito das últimas seleções e graças à Pelé e Garrincha e Jairzinho e Sócrates e Zico e Éder, e Zé Sérgio ( Zé Sérgio sim) e Rivelino e tantos outros gênios que mostraram ao mundo que futebol é uma expressão artística.

Então, alguém precisa ir bater na porta do quarto desses meninos para dizer que ganhar nunca é obrigação. Que ser o vencedor, que chegar em primeiro lugar, que arrasar com os rivais são conceitos de uma sociedade adoecida que não têm valor nenhum no mundo real. 

As obrigações do mundo adulto no qual alguns deles ainda nem entraram são outras. Ou deveriam ser.

Obrigação de ser ético, de se entregar, de não enganar o adversário, de não simular falta, de não sair rolando e estrebuchando pelo gramado depois de uma canelada ordinária, de não levar a mão à boca e despencar no gramado depois de ter recebido um toque involuntário no peito.

Obrigação deveríamos ter de representar o povo brasileiro e sua identidade cultural, que é alegre, solta, e tem ginga, e tem arte e tem música. Também obrigação de acabar com essa gestão elitista e exclusivista da CBF, e com gestores do nível de Marins e del Neros.

Talvez obrigação devêssemos ter tido de dar continuidade ao trabalho de Telê Santana na seleção. Criar a partir dele uma filosofia de jogo, uma da qual não abriríamos mão nem em caso das derrotas mais doloridas.

Mas nunca obrigação de vencer porque o conceito de ser vencedor nesse nosso mundo apodrecido vem com uma certa esperteza que apenas nos deteriora como seres humanos.

No mundo atual os homens considerados bem sucedidos são aqueles que conseguiram acumular coisas. Um acúmulo que não faz sentido porque vivemos em uma época na qual poucos têm muito e muitos não tem nada. Por isso, um acúmulo de imoralidades e obscenidades. Acúmulo de jeitinhos e de objetos e de terras e de bens.

São esses homens brancos e “bem-sucedidos” que capitaneiam a sociedade em que vivemos e decretam que vencer é obrigação. Tudo torto e sem sentido.

Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente, disse o indiano Jiddu Krishnamurti. E não é mesmo, tanto que os gênios nascem apenas nos esquisitos e nos desencaixados e nos desajustados.

Mas nós não os temos na seleção porque ser genial envolve mais do que ter habilidade com a bola. 

O que temos são garotos que cumprem ordens com o objetivo de vencer e vencer, a despeito dos métodos. Vale simular, e se jogar, e fingir, e passar o outro para trás, e bater, e se vestir de arrogância e de orgulho ferido. Vale eleger um inimigo imaginário, a imprensa ou um outro Iraque qualquer que possamos invadir e dizimar e depois voltar para casa com mais troféus e bens e posses. Essa seleção foi criada à imagem e semelhança de uma elite abrutalhada, decadente e acovardada, e ganhar a Copa apenas acelerará a decadência do futebol brasileiro.

Eu fui à Europa em 1987 e coloquei na mala uma camisa da Seleção. Tínhamos sido eliminados em duas Copas seguidas, mas por onde eu ia com minha camisa recebia cumprimentos. Lembro de usá-la de peito empinado, deixando muito claro que dela me orgulhava. Fui elogiada por argentinos, ingleses e italianos. Um inglês, não lembro onde, me agradeceu pelos momentos de emoção que a Seleção tinha dado a ele, como se eu tivesse alguma coisa a ver com aquilo. Mas a verdade é que eu tinha.

Aqueles caras me representavam. Aqueles caras jogavam para mim. Jogavam por música. Jogavam para encantar, e, fazendo isso, estabeleciam com todos nós uma ligação que não dependia de palavras, de puxa-saquismo, de hipocrisia, e nem cantorias tresloucadas em campo. Nenhum daqueles caras tão bons de bola jamais precisou uivar o hino nem sair se esmurrando como um orangotango prestes a ser abatido quando a música acabava.

Eles sabiam que jogavam para mim, para você, para todos nós, e que a única dívida que tinham era com o destino, uma que era paga todas as vezes que entravam e campo e, como artistas, nos faziam sentir.

 

 

 

7 pensamentos sobre “Às favas com a obrigação de vencer

  1. Primeiro, adorei a menção ao Zé Sergio, era fã dele e poucos se lembram desse fantástico ponta-esquerda. Depois, concordo com tudo, com a mensagem do texto principalmente. Só um detalhe: acho que dar continuidade ao futebol que o Telê pregava é difícil. Não temos mais jogadores daquele calibre, como Zico, Sócrates, Junior, Falcão, Leandro, Cerezo… Por melhor que o Felipão fosse e por mais que se quisesse cultivar durante todo esse tempo uma escola brasileira de futebol baseada na filosofia genial do Telê, sem matéria prima fica difícil. A ideia é ótima, duro seria por em prática, especialmente hoje em dia. Tivemos uma leva boa, com o Fenômeno, o Gaúcho, o Rivaldo e o Kaká. Mas depois, acabou. Hoje é triste.

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  2. … verdade é que com Parreira e Felipao, tudo o q vc disse e acompanho o mesmo pensamento, nao passa de um discurso romantico e anacronico totalmente ultrapassado neste mundo competitivo que vivemos. Uma pena…

    E quando via as pessoas encantadas com o Barcelona de Guardiola, dizia a mim mesmo: Nao inventou nada !! O Flamengo de Zico, Adilio, Junior, Leandro, Lico fazia a mesma coisa na década de 80. A receita estava lá e a perdemos… a perdemos com aquela conquista completamente murcha que serve apenas como dado estatistico (94).

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  3. Andei lendo seus textos hoje, não tinha noção do seu paradeiro desde que saiu da televisão aberta.Eu fiquei impressionado, pq apesar de saber que era uma pessoa que gosta de debater e questionar, não sabia que se tratava de uma fanática de extrema esquerda.

    Primeiro para ESTE texto:querer vencer e colocar isso na cabeça das pessoas não tem nada de sintomático com relação a sociedade ser doentia.Foi através da forte competição sadia que o ser humano evoluiu ao longo dos anos, e o futebol é uma competição sadia na maioria das vezes.Aliás, uma coisa é pilhar os jogadores para que eles vençam, outra é colocar a hipótese de derrota como sendo um terror total.E eu não acredito que o Felipão esteja fazendo isso.Eu não gosto dessa seleção não por causa dos convocados é por jogar feio, eu não gosto pq ela é desorganizada.

    Sobre trechos de outros textos, a quantidade de erros e falácias me assustou.Vc não sabe o que é conservadorismo, e fala que o PSDB é um partido de direita conservadora.Isso é sinal claro de analfabetismo político.Vc, assim como todos indivíduos de extrema esquerda, não conhece russel kirk e nem thomas sowell, por exemplo.PSDB é no máximo um partido de centro, que aliás, colocou um ex-motorista do guerrilheiro Marighella para ser vice na chapa de Aécio.Vc fala mal do capitalismo e livre mercado a todo momento, mas não sabe que vários países ficaram ricos e tem índices sociais elevadíssimos dentro desse paradigma.Ah sim, vários deles nunca exploraram ninguém, isso é uma falácia em caso de generalização.Enfim, vc fala mal da direita a todo momento, mas não sabe nada da nossa ideologia e nem respeita.Nós vimos no século 21 o quanto a ideologia “avançada” e “moderna” de vcs ajudou o mundo, com figuras maravilhosas como Mao, Stalin, Fidel, inúmeros governos de cunho socialista na África(ninguém lembra disso e depois quer culpar somente “europeus” pelas mazelas africanas).Lugar que deu certo, realmente não sabemos.Por fim, sabe quando o seu PT vai abrir mão da governabilidade?A não ser que dê um golpe(bem típico de vcs, basta ver na América Latina), nunca.Isso se não perder o governo, o que está longe de ser impossível.

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  4. Ps:ficou faltando outra crítica.Vc fala como se o New York Times criticar alguém de direita ou capitalista fosse algo demais, pq é o maior jornal do grande país capitalistas.O NYT É um jornal de ESQUERDA, sempre foi.Uma coisa não tem absolutamente NADA a ver com a outra.Pior é falar em thomas pikkety(que já declarou acreditar no capitalismo e criticou a obra de Marx) e Paul Krugman, como se Nobel fosse atestado para alguma coisa.Economisra a favor do livre mercado e com Nobel é o que não falta, minha amiga.

    Ps-pode deletar, só queria que vc pudesse ver mesmo, quem sabe adquire algum senso crítico ao invés de repetir toda cartilha de esquerda.

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  5. Felipão, Parreira, Murici, Mano, Tite são adeptos da marcação forte e de jogar por uma bola.
    Seus times jogam no 4-2-3-1, onde os 3 marcam os laterais e o volante do adversário e o centroavante morre de fome.
    Scolari é um arrogante com limitações táticas, achou que 2002 ele foi o ”cara”. Se esqueceu do juiz na estreia e nas oitavas, de Marcos pegando tudo de Ronaldo e Rivaldo decidindo, coadjuvado por Ronaldinho.
    Scolari esqueceu que vivemos num mundo globalizado, que Guardiola montou um time com jogadores baixos, mas talentosos, que era possível vencer e convencer, que podia atacar com 8 jogadores sem correr riscos.
    Scolari deve estar sentindo falta dos gandulas do Palmeiras, que aos 45 chutavam 2 bolas no campo.

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