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Chamem o psiquiatra

Não tem sido um espetáculo bonito de ser ver essa entrevistas coletivas dos funcionários da CBF depois do vexame histórico na semi-final da Copa. Era apenas esperado que eles não quisessem explicar o fiasco, mas negá-lo é atitude patologicamente desagradável.

Mesmo depois da catástrofe, que serviria para talvez colocar os mais nobres de alma em um lugar de humildade, não foram perdidas de vista a arrogância e a empáfia das últimas décadas, décadas durante as quais essas entrevistas foram transformadas em espetáculos de constrangimento. Atualmente, claro, esses papos são protocolares para todos os times, e é de se entender o tédio com que alguns jogadores, treinadores e jornalistas se encaminham para eles. Mas nada explica a violência moral com que elas são conduzidas pela CBF há anos.

E não importa quem seja o treinador, Felipão ou antecessores, ou o jogador que esteja sendo entrevistado – absolutamente todos seguem a cartilha do “faz logo sua pergunta estúpida para eu dizer logo que estou muito feliz, e que confio em Deus e em seguida fazer uma piada sem graça e poder ir embora”.

Ainda mais vexatório do que as repostas estúpidas dadas a perguntas muitas vezes pouco elaboradas é a intimidade abobada que nos é revelada entre jogadores e alguns poucos jornalistas considerados parceiros, talvez por jamais lançarem algum tipo de olhar crítico sobre qualquer coisa que envolva a CBF.

De qualquer forma, esse show de horrores que são essas coletivas conseguiu cruzar uma nova fronteira do bizarro desde que a derrota para a Alemanha passou a ser tratada como acidente de percurso.

Não fica claro se os protagonistas acham que podemos acreditar nisso e, movidos pela arrogância de sempre, insistem no absurdo, ou se estão apenas sofrendo de um tipo de alienação profunda e, desconectados da realidade, saem dessas entrevistas para levar um papo com Napoleão ali pelos jardins da Comary.

A imagem do decadente José Maria Marin cercado por torcedores mirins com placas de apoio à seleção depois do vexame me fez sentir por ele uma mistura de pena, raiva e vergonha. Até onde eles conduzirão essa encenação?

Corta para o estúdio, dentro do qual apresentadores paternalistas tentam transformar a derrota em “grande dor nacional”, uma dor tão colossal que repórteres choram (ou melhor: limpam do rosto uma lágrima que não vemos escorrer) ao vivo. Como uma grande dor a gente não critica, apenas sente, então, nada de avaliar o ocorrido, vamos apenas chorar ao vivo aqui e em seguida mostrar para esse brasilzão de gente de fé como disputar o terceiro lugar pode ser uma coisa bacana para nossas vidas e para o nosso futebol.

Alguém lê aí para o povo, por favor, a cartilha da dona Lúcia, que é quem melhor entendeu tudo o que aconteceu até agora e sacou que precisamos de colo e não de pedras.

O fato é que parte da mídia escolhe levar a sério o que dizem os funcionários da CBF a respeito de “apagões” e outras cretinices, e joga a notícia para o telespectador/leitor sem uma gota de crítica, numa tentativa dissimulada de, em nome dos números de audiência, transformar a alienação em verdade para o público.

A despeito de todas as evidências de que nosso futebol apodreceu, alguns insistem em dizer que tudo anda bem, como o leproso que finge não ver o corpo estragado e mal-cheiroso e, envaidecido diante do espelho, se veste para ir a uma festa de gala alheio ao horror com que todos olham para ele.

A empáfia com que o código moral da CBF recomenda que ajam seus funcionários é a mesma que leva Felipão a não analisar adversários antes das partidas. Por que o Brasil, o país do futebol, precisaria fazer isso? Os outros nos imitam e nos temem, eles é que devem analisar a forma como jogamos. Com isso em mente, há três décadas não evoluímos taticamente, ou sequer em fundamentos. Coisas simples como cruzar e chutar a gol faz tempo não constam do treinamento baseado em rodas de bobo e coletivos jogados campos divididos à metade. É o que basta porque, afinal, somos a seleção brasileira de futebol, a melhor e mais respeitada da história.

Mas a imagem de seleção toda-poderosa que a CBF, apoiada pela mídia de massa, tentou até o dia 8 de julho vender para o resto do mundo já não cola mais. Por isso, ver e ouvir Felipão&Cia seguirem com o discurso arrogante e alienado é um espetáculo de decadência e horror. Um horror tão grande e profundo que já é hora de entregarmos esse assombro a psiquiatras.

4 pensamentos sobre “Chamem o psiquiatra

  1. Milly, não acredito não só na imprensa que diz ter sido um acidente, que culpa o apagão, etc…, como também no Neymar. Não acredito em uma palavra do que esse menino fala hoje. Pra mim, nem o choro dele é real. O menino é manipulado, ele é sempre orientado por outros em tudo, absolutamente tudo. Seu pai e seus assessores controlam tudo. E pra mim, devem ter dito que convinha a ele “chorar” naquele momento. Ele soa falso, ele é puro marketing. Um excelente jogador, claro. O único de nível verdadeiramente top nesse grupo. Mas não é ainda o que essa mídia e seu staff querem e supõem que ele seja. Falta muito pra chegar aos pés do Fenômeno. Pode chegar… Mas ainda não é o que pintam. Agora, quanto à postura inda arrogante dos funcionários da CBF depois da humilhação, é coisa pra psiquiatra explicar mesmo.

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  2. Eu reconheço a importância dos jornais brasileiros!! Depois dessa Copa, pelo menos para quem não acreditava, deu pra notar claramente que eles têm exercido ainda uma importante função para a sociedade, principalmente no campo da cidadania: ajudar a limpar as bostas de cachorro de madame que ficam largadas pela calçadas.

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  3. Realmente você abordou algo que sempre notei na seleção brasileira nos últimos tempos: a arrogância. Sempre tiveram muita resistência em encarar de frente as falhas. Adorei o texto!

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