Política

O genocídio sobre o qual não falamos

Hoje, enquanto tomava meu café da manhã, fiz o que faço todos os dias e abri o jornal. Teimosia é apenas um de meus 300 defeitos, então não desisto de ler o jornal mesmo achando que a experiência diária me faz mal. A primeira notícia que vi, antes mesmo do gole no café, falava de um professor israelense que recomendou que soldados estuprassem mães e irmãs de palestinos em nome da paz. Achando que nada poderia ser pior, segui lendo e encontrei texto de Mohammed Omer, repórter que está em Gaza, falando sobre o massacre que fingimos que não está acontecendo.

Omer conta várias coisas, entre elas algumas já sabidas e não por isso menos chocantes, como, por exemplo, que a cidade está totalmente no escuro e sem água, mas o que me comoveu foi saber dos inocentes que já morreram e que Omer cita.

Como os Abu Jameh, uma família de 20 pessoas que foi totalmente dizimada durante uma noite dessas. De uma só vez morreram todos os Abu Jameh, adultos e crianças, dentro de suas casas.

Omer conta também a história dos al-Baba, família que ele visitou dias atrás. Ao escutar o barulho de drones se aproximando, e sem saber se eram drones de vigilância ou de bombas (os dois sobrevoam os céus de Gaza e não há como distingui-los), Hani al-Baba, de 23 anos, foi à janela e olhou para cima. Nessa hora, uma bomba caiu no terreno vizinho e todos começaram a gritar. Depois disso, os al-Baba passaram a dividir as crianças por cômodos da casa para dormir, na esperança de que se uma bomba cair, alguns pelo menos sobrevivam.

Essa área, segundo Omer, é totalmente residencial e até agora ninguém sabe por que exatamente está sendo atacada.

Em Gaza, já são mais de 120 mil moradores sem casa por causa dos ataques.

O texto segue e ficamos sabendo que Omer foi ao Shifa Hospital e conheceu famílias inteiras que estão ali esperando que os ataques acabem. Ele viu uma avó tentar confortar quatro netos e duas filhas e dividir um pedaço de pão, dois iogurtes e alguns pepinos entre eles. E conta a história do dr. Khalil Khattab, cirurgião, que estava operando no Al Aqsa, que fica na região central de Gaza, quando bombas foram lançadas sobre o hospital. Ele saiu correndo da sala de operação para ver quatro colegas mortos e pelo menos 12 feridos.

Omer então argumenta que Israel não quer acabar com o Hamas, apenas enfraquecê-lo e isolá-lo, porque o Hamas dá a Israel o mais conveniente vilão, alguém a quem culpar.

E se por um lado Israel insiste em dizer que está atacando escolas e hospitais porque o Hamas usa essas instalações para delas disparar mísseis, o New York Times, um jornal conhecidamente simpático à causa israelense, reporta de Gaza que nada leva a crer que seja verdade, e que a definição de escudo humano segundo as leis internacionais – a de que civis estariam sendo obrigados a permanecer em zonas que estejam sob ataque – não se aplica.

A essa altura, já não mais interessa saber quem começou essa guerra, interessa apenas que, outra vez, estamos vendo o rico massacrar o pobre, o opressor dizimar o oprimido e não fazemos nada.

Trata-se de um estado inteiro – o de Israel – matando cidadãos palestinos que nunca os ameaçou nem agrediu, mas apenas por serem palestinos. Israel, de todos os estados, aquele que talvez melhor entenda o que é o horror e a dor e o absurdo de ser vítima de extermínio. Porque já é hora de chamarmos as coisas por seus devidos nomes, e o nome do que estamos vendo é genocídio.

O oposto disso, ou quando o mais fraco ataca o mais forte, nos acostumamos a chamar de terrorismo, e contra ele líderes do mundo chamado desenvolvido se enfurecem e se agigantam. O que me pergunto agora é que líder vai se levantar pelas crianças palestinas mortas nessas investidas genocidas?

10 pensamentos sobre “O genocídio sobre o qual não falamos

  1. Milly, gosto do que vc escreve, respeito teus pontos de vista e, neste caso, mesmo procurando entender a violenta defesa/ataque do Estado de Israel, abomino o que está acontecendo. Mas, por favor, procure carregar menos nas tintas (“Trata-se de um estado inteiro – o de Israel – matando cidadãos palestinos que nunca os ameaçou nem agrediu, mas apenas por serem palestinos.”). Você, por acaso, já leu os pontos sagrados da constituição do Hamas? Você sabe que eles (e provavelmente, cada vez mais, todos os palestinos) não descansarão enquanto o Estado de Israel não for completamente aniquilado? Ou seja, que Israel seja varrido do mapa, desapareça, se exploda. Que os 8 milhões de civis inocentes morram. Está lá escrito. Como você reagiria sabendo que seu(s) vizinhos(s) – Argélia, Bahrain, Egito, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Líbia, Marrocos, Omã, Catar, Arábia Saudita, Sudão, Síria, Tunísia, os Emirados Árabes Unidos, e Iêmen, fora a Autoridade Nacional Palestina e os grupos TERRORISTAS, contando mais de 150 milhões de pessoas, nem todas tão pacíficas quanto gostaríamos de acreditar -, na maioria, querem que você morra? De jeito nenhum procuro justificar a violência do exército, mas apenas contextualizar o conflito e alertar que existe muito mais por baixo das mortes de civis do que nos querem fazer crer.

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    • Antes de mais nada, obrigada pelo elogio, Mauro. Agora aos argumentos: Não li o que diz o Hamas, mas o Hamas não é a palestina, nem define todos os seus cidadãos. O que estamos vendo é um Estado poderoso e armado massacrar inocentes. Já não mais interessa Hamas ou qualquer outro argumento diante desse genocídio. É preciso que essa matança de inocentes acabe, e então poderemos todos conversar a respeito dos riscos que Israel corre, se é que corre. Mas o que estamos vendo é crime, e não podemos concordar com isso.

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  2. Milly, concordo que antes é preciso parar os ataques, já e unilateralmente! Mas forçar os terroristas, que infelizmente guardam armas em hospitais (procure no Google) e proíbem civis de deixarem seus lares, a acatar um pacto de não-violência é imprescindível. Desculpe, mas você ainda duvida que Israel corre riscos? Não acredito que você esteja falando sério. Só falta dizer também que não existe anti-semitismo no mundo ocidental!!??

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    • Oi, Mauro. Acho que existe anti-semitismo, e existe anti-islamismo e existe todo o tipo de preconceito religioso no mundo. Mas acho que esse “risco” é superdimensionado pelo Governo para que a população viva sob o manto do medo e apoie eventuais guerras porque guerras geram muito dinheiro para as classes dominantes. Como o povo de Israel poderia ser dizimado hoje? Já passamos pelo horror do holocausto e jamais voltaremos a viver uma coisa dessas. Também não vivemos mais na idade média, quando era possível dizer: “vamos eliminar o povo daquele feudo ali porque eles juraram nos eliminar”. É um raciocínio muito encurtado, claro, mas dá uma ideia do que penso. Israel deveria lutar para que a Palestina fosse um estado reconhecido porque Israel sabe melhor do que ninguém o que é não ter a dignidade de não ser reconhecido como um povo. O Hamas não é a Palestina, embora queiram nos fazer acreditar nisso. Sobre as armas que eles colocam em hospitais, hoje o NYT, um jornal claramente pró-Israel, tem matéria de capa duvidando disso. Se até o NYT anda duvidando dessa tese de escudo-humano é porque a coisa chegou a um ponto muito, muito, muito além do que podemos aturar.

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      • O Mauro praticamente macaqueou os argumentos do “IDEÓLOGO” João Pereira Coutinho, este colunista que é praticamente o epítome do posicionamento reacionário da Folha de S. Paulo, de modo que só nos resta rir de sua indubitável dedução quantos aos riscos de Israel, o vínculo entre Hamas e Palestina etc e tals. Caro Mauro, tu, embora já aparente estar contaminado, ainda tens tempo de te livrar destes embustes intelectuais chamados jornalões. Abs.

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  3. Mauro, basta uma análise histórica recente para ver que parte das muitas nações islâmicas que defendiam a “Jihad” contra o estado de Israel e a favor da Palestina no passado, oferecendo apoio militar, humanitário e econômico, como o Egito de Nasser, a comunidade Libanesa, etc…hoje estão amparados por milionários acordos comerciais americanos. Tais acordos por uma questão estratégica, limitam as forças palestinas, (se é que a possuem), a guerrear solitariamente. Com exceção da Siria, contraria aos interesses norte-americanos, grande parte da comunidade Árabe, deixou de apoiar, ou se “absteve” da Palestina para não abalar a entrada de petrodólares.
    Com isso, entende-se, que desde de que Israel não assuma mais territórios ou colônias além de Gaza ou Cisjordania, ela é um mal necessário e o status quo é interessante PARA ESSAS NAÇÕES ÁRABES. Amparada ou não pelo seu guarda-costas yankee, Israel sabe que hoje, não é mais UM FLAGELO para a região. Com exceção da “sufocada Palestina” guerrear contra seus “amigos diplomatas árabes” (como o fez na Guerra dos Seis dias, a investida libanesa ou Yom Kippur) é desfavorecer a geopolitica, e consequentemente a economia do Tio Sam.

    Portanto, adotar invariavelmente, essa “vitimização” recorrente do Estado de Israel, para justificar suas investidas militares contra os Palestinos, como uma ação preventiva envolta a uma cova de leões famintos Arabes que a desejam destruir, é o mesmo que negar, que o anti-semitismo foi erradicado do ocidente, como você mesmo citou.

    Israel sim, poderia reduzir tamanho massacre, se desejasse.

    Ps: Cabe aqui,um adendo considerável: Grande parte do eleitorado, e da população israelense e comunidades judaicas internacionais, são contrárias a essa postura incisiva do Estado de israel junto a Palestina. Porém, uma minoria dominante da politica do Estado, é extremista e sionista, e não se sentimentalizam com as mortes inocentes de Gaza.

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  4. Acredito que Mauro não tenha compreendido o que foi dito. Israel está SIM dizimando os palestinos simplesmente por serem palestinos. Todos os integrantes do Hamas são palestinos, mas todos os palestinos não são integrantes do Hamas. Portanto, seja lá qual seja a conduta desse grupo abominável, estão sendo punidas as pessoas erradas. As mais vulneráveis, que nada tem a ver com a polêmica, como qse sempre acontece com as guerras. Morrem as mulheres, as crianças, os pais de família que se duvidas nunca seguraram uma arma na vida. E não é um civil ou outro, grande parte dos ataques estão dizimando famílias. 😦 Gente que não pode nem se refugiar em outro lugar, estão cercados, sendo mortos como nem pombos deveriam ser. Se isso não é injustiça, sabe-se lá o que é então.
    ” Israel deveria lutar para que a Palestina fosse um estado reconhecido porque Israel sabe melhor do que ninguém o que é não ter a dignidade de não ser reconhecido como um povo”, este trecho para mim diz tudo. 2014 e as pessoas se matando por tudo, por nada, em nome de Deus, do diabo ou de interesses que nem desconfiamos, mas que tenho certeza do quão sórdido devem ser.
    Se nem o próprio povo que sofreu o holocausto pode aprender com tamanha dor, não sei mais quem pode.

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  5. Muito bom o texto. O Hamas é muito conveniente para Israel. De que outra forma um genocídio poderia ser “legitimado” pelo resto do mundo? Infelizmente, acho que daqui a alguns anos os palestinos serão um povo extinto e o grande império israelense estará bem mais extenso…

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  6. VOCÊS TODOS, PORQUE NÃO FAZEM ALGO DE PRÁTICO AO INVÉS DE FICAREM DEBATENDO O PROBLEMA DA REGIÃO? USEM SEUS ARGUMENTOS FLOREADOS DE PAZ E AMOR, E ARREGACEM AS MANGAS EM PROL DA PAZ! VOCÊS ESTÃO NO MESMO CAMINHA DA ÉPOCA DO HOLOCAUSTO NA ALEMANHA QUANDO MUITOS SILENCIARAM AO MESMO TEMPO QUE CRIANÇAS ESTAVAM NAS CÂMARAS DE GÁS, OU QUANDO OS GOVERNOS APENAS DEBATIAM AS CAUSAS DO GENOCÍDIO. SE É PARA DETECTAR SOLUÇÕES PARA O CASO ISRAEL-PALESTINA, FAÇAM ALGO DE PRÁTICO, POR FAVOR!

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