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Aos meus amigos judeus

Sei que muitos de vocês, mais do que podemos supor, são contra as ações praticadas pelo governo de Israel, mas sei que muitos outros conseguem ainda encontrar justificativas. O argumento é o “direito de defesa do povo judeu”.

Entendo que o trauma do Holocausto, ainda bastante vivo mesmo para aqueles que nasceram depois dos anos 50, faz com que o medo de que alguma coisa parecida, ou até ligeiramente parecida, volte a acontecer. Estamos falando do mais cruel e nojento crime já cometido contra a humanidade, ao lado da escravidão, e é apenas natural que essa dor continue forte em todos nós.

E também sei que habitamos um mundo que ainda é infestado de organizações neo-nazistas, que não apenas se colocam contra judeus, mas também contra gays, e negros, e ciganos e outros tantos grupos. Todos os dias atentados e crueldades são praticados contra minorias. Todos os dias pelo menos uma vida inocente é perdida por preconceito e ódio e intolerância. Sei que isso ainda existe. Contra judeus, e muçulmanos, e negros e gays e deficientes mentais e físicos.

Mas, felizmente, o mundo hoje é povoado por pessoas que não deixariam que um segundo Holocausto voltasse a acontecer. Não contra judeus.

Apesar disso, a ditadura do medo imposta à população de Israel, e a todos os judeus do planeta, é bastante conveniente para que o Estado continue agindo como um grupo terrorista, e alegando para isso o “direito de defesa”, e a necessidade de proteção ao povo judeu, que, eles precisam que você acredite nisso, vive em eterno risco de ser outra vez massacrado.

Os meios de comunicação e de propaganda contam com a divulgação e assimilação dessas mensagens de medo e paranoia. Porque só assim eles podem continuar a agir com a força que vêm agindo, e só assim seguiremos aceitando ter liberdades roubadas em nome da alegada segurança que nos oferecem.

Claro que direito de defesa não significa direito de matar crianças e civis às centenas, nem de bombardear escolas e hospitais, ainda que seja isso o que o estado de Israel venha fazendo há décadas.

Tão importante quanto isso é entender que criticar o Estado de Israel não pode ser sempre confundido com uma crítica ao povo judeu, ou ao judaísmo, ou ao direito de existir de Israel.

Argumentar dessa forma é atitude baixa e leviana porque ela impede que avancemos o debate e nos joga em um lugar de eterna vitimização.

É como se eu, todas as vezes que alguém me critica por, por exemplo (vou pegar apenas um de meus milhares de tropeços) ter me engalfinhado com Rogério Ceni me defendesse dizendo: tá me criticando porque sou gay.

Eu não errei porque sou gay, errei porque fui burra, e minha burrice não tem nada a ver com minha homossexualidade. Minha burrice é a pior parte de mim, a homossexualidade eu considero uma das melhores (ao lado de meu corintianismo).

Mas, claro, é muito conveniente sempre que me encontrar num lugar de ser alvo de críticas, sair dizendo: não gosta de mim porque sou gay.

Ou, usando outro exemplo ridículo e tosco, como se eu tivesse sempre que concordar com as ações imperialistas de uma hipotética ilha de lesbos apenas porque sou lésbica. As ações do governo paranoico, psicopata e genocida de Israel não são ações do povo judeu, muito menos podem ser justificadas por livros sagrados.

O judaísmo é uma religião riquíssima, cheia de rituais belíssimos e que não tem absolutamente nada a ver com as atitudes políticas de um estado apodrecido e tresloucado pela ânsia de dizimar “a raça mais fraca” – ou o povo palestino -, usando como desculpa para isso a “ameaça” que organizações terroristas palestinas representam ao sagrado direito de existir de Israel.

Existe uma passagem do Talmud que diz: Não julgue seu vizinho antes de ter se colocado em seu lugar.

Talvez seja a hora de fazer exatamente isso: de se colocar no lugar de quem mora em Gaza, de quem perdeu suas casas por causa dos assentamentos ilegais praticados pelo governo de Israel, de quem acorda e dorme sendo vigiado por um solado do exército israelense, de quem está separado de sua antiga terra por uma cerca, de quem não tem uma pátria.

A solução para essa barbárie que estamos vendo é judeus do mundo todo entenderem que estão sendo usados como massa de manobra para, ao se sentirem eternamente ameaçados, apoiar atitudes de um governo psicopata que tem o único objetivo de varrer o povo palestino do mapa, e de conquistar o apoio da opinião pública israelense e judaica pregando o medo e, com ele, a falsa necessidade de proteção.

Não há, tecnicamente falando como um míssil sair de Gaza e cair em solo israelense sem que Israel os destrua antes de chegarem. Não sou eu que estou dizendo, claro, até porque sou uma leiga e minha palavra nisso não vale nada. Quem diz isso são renomados especialistas na região. Israel tem toda a logística e todas as armas para interceptar todos os mísseis contra ela lançados.

E, outra vez amparada por especialistas na região, o que se vê o Hamas fazer é em ato de represália por Israel não respeitar o cessar fogo – muitos deles, aliás. Leiam Noam Chomsky, para citar apenas um pensador e especialista na região, talvez o mais respeitado, e entendam como o Estado de Israel se comporta de forma hipócrita, dissimulada, genocida e mentirosa há anos e anos e anos.

A solução é o povo de Israel perceber que a única luta pela paz possível é uma que ofereça dignidade ao povo palestino.

Não se trata mais de reconhecer o estado de Israel porque o mundo inteiro já fez isso (inclusive o Hamas, ainda que, em 2006, Israel não tenha aceitado assinar o acordo de paz no qual, entre outras coisas, o Hamas reconhecia o estado de Israel), mas de se reconhecer o estado Palestino.

Façam-se as seguintes perguntas:

Por que não há ainda o Estado Palestino?

Por que sair dizendo todo o problema está no fato de o Hamas ter em seu estatuto uma cláusula que prega o fim de Israel se essa não é mais a real questão já que o Hamas se propôs a assinar acordo que reconhece Israel?

Por que não ficamos sabendo que o Hamas aceitou aceitar Israel em acordo de paz proposto em 2006?

A quem interessa manter a falsa informação de que o problema é o Hamas não aceita Israel?

A quem interessa manter o Hamas como inimigo universal?

Por que exige-se do Hamas o reconhecimento do estado de Israel se o Hamas já se propôs a fazer isso? (Volto a pedir, leiam Naom Chomsky, por favor. Não sou eu que estou dizendo essas coisas, é ele)

Por que a mídia de massa continua a esconder informação?

A quem interessa que essa guerra continue?

Interessa ao Hamas seguir lutando, dado que, como alegam, seu único objetivo é a extinção de Israel, se já ficou mais do que provado que Israel jamais sairá do mapa?

A quem então interessa que a guerra continue?

Como vivem os Israelenses? Falta em Israel vida cultural? Falta água? Falta luz? Faltam bons restaurantes?

E como vivem os Palestinos? Como é a vida em Gaza?

A quem, me digam por favor, interessa que essa guerra siga sendo lutada?

Como a guerra afeta o dia-a-dia de quem mora em Israel? Deixam de ir ao teatro, ao cinema, à escola?

Como a guerra afeta o dia-a-dia de quem mora em Gaza ou na Cisjordânia? Existe por lá teatro? Cinema?

Quantos civis israelenses o Hamas mata por ano?

E quantos civis palestinos o exército de Israel mata por ano? (Vou apenas dizer que a diferença fica na centena de milhares).

Quem é o grande terrorista nessa história?

Não é possível seguir indiferente diante de tudo o que estamos vendo acontecer em Gaza. São mais de 400 crianças mortas em 21 dias. Quatrocentas crianças.

Não tem mais nada a ver com religião; e aliás nunca teve, embora o governo israelense queira que acreditemos nisso. O que estamos vendo se chama limpeza étnica movida pelo delírio financeiro de se conquistar território para adquirir mais poder econômico. Precisa parar.

Dar dignidade ao povo palestino passa por Israel sair das terras ocupadas, devolver esse território a quem de direito, reconhecer o direito de existência de um estado palestino e entender que nem judeus são melhores do que palestinos, nem palestinos melhores que judeus, que todos têm os mesmos direitos sobre essa região do planeta e que Israel e Palestina devem existir como nações, e em situação de igualdade, lado a lado.

Porque não há a raça certa, ou religião certa, ou etnia certa, ou a cor de pele certa. Aliás, nem raças há. O que existe é apenas uma raça: a raça humana. Somos todos absoluta e irremediavelmente iguais, e temos todos os mesmos direitos e os mesmos deveres. O direito de existir plenamente, e o dever de não nos assassinarmos uns aos outros.

3 pensamentos sobre “Aos meus amigos judeus

  1. Milly como sempre escreve muuito bem,sempre quis ter mais informaçoes sobre o assunto,vou seguir suas indicaçoes de leitura

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  2. Quanta frase boa colocada junto e dando um sentido tão ruim…
    Sendo Israel um estado nazista, tenta ir morar lá e veja o que te acontece.. NADA. Cruza a fronteira, para qualquer lado… e me escreve….
    e de novo, coitada da Daniela que vai usar voce como fonte correta de informação, espero que ela não tenha seguido seus conselhos e ido pegar as armas junto com o Palestinos

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