Comportamento/Política/Vida

Da capacidade de sentir a dor do outro

Eu tinha dez anos quando minha mãe me chamou para ver uma série na TV que, se não me engano, ia ao ar pela TV Tupi, hoje SBT. Ela disse que era uma coisa que eu precisava ver, e, como o horário de exibição era bastante além daquele em que eu podia ficar acordada, achei que seria uma grande aventura e, animada, me preparei para aquelas noites ao lado de minha mãe. Mas havia uma pegadinha, e eu estava prestes a descobrir qual era.

O título da série, Holocausto, não me disse nada, mas, enquanto víamos, ela me explicava tudo o que havia acontecido naquela época, e por que uma coisa como aquela jamais poderia voltar a acontecer, e falava de compaixão e de gentileza. Quando acabamos de ver, caí em um choro profundo e que, para desespero de minha mãe, não teve fim. É o que acontece, acho, com filhos mais velhos como eu. Sem um manual de instrução de “como criar um ser humano”, pais fazem tentativas em busca de resultados satisfatórios – e minha reação à série parecia não ser um deles.

Lembro de ter a sensação de saber que o pranto vinha de um lugar diferente daquele que me inundava quando Adriana, minha irmã, e eu brigávamos e levávamos bronca, ou daquele que acontecia sempre que alguma coisa me impedia de ir jogar bola com meus amigos. Era um outro choro, um que eu experimentava pela primeira vez na vida. Acho que durante uma semana eu chorei, a ponto de minha mãe me levar ao psicólogo.

Hoje, tantos anos depois, entendo que existe esse choro que sai de um lugar diferente do choro que vem com uma derrota do Corinthians. Um choro que parece não poder ser controlado e que talvez saia daquele lugar da alma que a gente desconhece mas que nos conecta uns aos outros, aquele lugar que, inconscientemente, sabe que somos todos partes de uma coisa só. Um choro que, afinal, nos engrandece ao eliminar, ainda que por alguns instantes, a ilusão de que somos coisas distintas. É a capacidade que temos de sentir a dor do outro, e de nos colocarmos em seu lugar.

Semana passada, vi a imagem de uma menina palestina de uns seis anos que estava sentada no meio de escombros do que um dia foi a sua casa, completamente sozinha e olhando para frente, com a expressão da mais pura dor nos olhos, e outra vez chorei aquele choro que me invadiu aos dez anos.

Ao nos darmos conta da situação de confinamento em que vivem os palestinos hoje, impedidos por soldados israelenses de deixar sua terra, impedidos de entrar no mar além de alguns poucos metros sob pena de ver um dos navios da marinha israelense, que ali ficam ancorados, disparar, impedidos de deixar aquele limite de terra – ao redor do qual Israel colocou uma cerca e postos de controle – para visitar amigos, parentes ou buscar tratamento médico, é impossível não associá-los aos judeus que durante a Segunda Guerra mundial enfrentaram a fúria psicopata de um doente mental diabólico, e, a despeito de tanta dor, saíram mais fortes do outro lado.

Ao entender que as terras palestinas foram ilegalmente ocupadas e separadas por uma Israel que se estendeu além de seus limites, e que um cidadão palestino, para ir de Gaza à Cisjordânia (a outra parte de sua terra), precisa pedir autorização ao governo de Israel, autorização quase sempre negada, é impossível não lembrar dos herois do Gueto de Varsóvia que enfrentaram o exército Nazista dizendo que poderiam até morrer, mas morreriam dignamente e lutando – e assim o fizeram.

Do mesmo jeito que Hitler, ao cometer o maior crime contra a humanidade já cometido assassinando seres humanos industrialmente, trouxe à tona o melhor de um povo, que é a capacidade de manter a alma viva e forte apesar de tanta dor e sofrimento, e de renascer ainda maior, é impossível deixar de notar que, a cada bombardeiro sobre Gaza, dezenas de prédios são destruídos e dezenas de vidas são perdidas, mas um espírito capaz de desafiar todo o mal e todo o horror que vem do céu se agiganta.

A psicopatia de alguns líderes uma hora inevitavelmente alcança a noção de que cimento e corpos e concreto e vísceras são facilmente transformados em pó, mas o espírito jamais. Uma noção que é capaz de levá-los à loucura porque esse espírito cresce em razão diretamente proporcional à destruição, e quanto mais eles destroem, mais o espírito coletivo se fortalece.

Ao ver imagens dos judeus que enfrentaram todo o horror da Segunda-Guerra, eu enxergo gigantes e encontro inspiração. Nas imagens devastadoras de seres humanos desafiando a destruição de Gaza hoje, eu enxergo gigantes e encontro inspiração. A eles, me conecto e com eles me elevo a um lugar onde a vida tem mais significado. Um lugar de união, e de entendimento de que somos todos partes de uma mesma coisa, uma mesma coisa que é indestrutível, uma mesma coisa que bombas e fábricas de queimar gente e mísseis e aprisionamentos e torturas não conseguem matar, que é o espírito de um povo.

Se judeus e palestinos percebessem como são parecidos em sua grandeza, e como têm a capacidade de inspirar multidões e gerações, líderes psicopatas e imperialistas não encontrariam espaço para separá-los e desuni-los, nem para exercer sua psicopatia.

O comando da carnificina que hoje joga seu véu sobre Gaza está com sionistas psicopatas cegos pela fúria da supremacia e da destruição. Valores que não têm nada a ver com o judaísmo, especialmente se lembramos que houve um tempo no oriente médio, antes de sionistas jogarem ali suas garras, em que judeus e muçulmanos e cristãos conviviam em paz e com dignidade.

Portanto, se há uma saída para todo o horror que testemunhamos hoje, ela passa por uma Israel em poder de judeus e livre de sionistas, e por uma Palestina em poder de cristãos e muçulmanos, mas livre das ações criminosas do Hamas. Sem seus extremistas, quem sabe, esses dois povos percebam que têm mais coisas em comum do que imaginam.

Mas talvez Einstein tenha colocado melhor do que eu, então apenas repito.

“Um ser humano é parte de um todo chamado por nós de “Universo”, uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experiencia a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos, como alguma coisa separada do resto – uma espécie de ilusão de ótica de sua consciência. Essa ilusão é uma forma de prisão para todos nós, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e à afeição por umas poucas pessoas próximas. Nossa tarefa deve ser a de nos libertarmos dessa prisão, alargando nosso círculo de compaixão para envolver todas as criaturas vivas e toda a natureza em sua beleza”

Um pensamento sobre “Da capacidade de sentir a dor do outro

  1. Querida Milly, esse choro também está em minha garganta a forma que o descreveu é incrível! Gostaria de acreditar que ele está em muitas pessoas, por mais que atualmente não tenho encontrado muito…parece que o amor que o move anda se esfriando… creio que ele pode proporcionar uma vida de mais sensibilidade e consciência, uma vida que realmente faça a diferença na vida dos outros.. Sem dúvida a alteridade é uma característica de pessoas que choram dessa forma e tem chamados incríveis para impactar vidas e quem sabe proporcionar a outros esse choro transformador..talvez a escrita possa ser a maneira que irá produzir esse efeito, assim como o filme produziu em você quando pequena…bjos

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s