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O contrário do amor

No metrô, a voz no alto-falante avisa que sua mochila poderá ser revistada a por um policial por razões se segurança. Na rua, cartazes incentivam o cidadão a reportar qualquer atividade suspeita. Andar por Nova York é ser constantemente lembrado de que você tem o que temer. Um novo ato terrorista pode estar a espreita, é preciso vigilância, atenção e dedo-durância.

Em nome da liberdade, pseudo-razão pela qual há tantos anos nos entregamos a guerras, precisaremos revistar sua mochila. Em nome da liberdade, a agência de segurança nacional tem recursos tecnológicos para saber tudo o que você faz durante o dia, onde vai, com quem fala, o que fala. Basta que tenha com você seu celular, ou use um computador.

A quarta emenda da constituição americana diz que invadir dessa forma a privacidade de alguém é crime, mas já não importa mais porque até que se prove o contrário, todos são suspeitos. Uma inversão do mais básico conceito de liberdade previsto há quase mil anos: todos são inocentes até que se prove o contrário.

Não mais. Somos todos suspeitos. E suspeitos, na maioria das vezes, passam a ser culpados sem que haja um julgamento.

Em Guantánamo, há inúmeros suspeitos que talvez nunca passem por um julgamento. Mas estão presos há mais de uma década. Israel bombardeia casas de palestinos suspeitos de praticar ou tramar terrorismo. Não importa que sejam suspeitos, não importa que haja dúvidas, nem que na casa morem crianças e outras pessoas. Mais do que suspeitos, são culpados e merecem ser executados – até que se prove o contrário.

Para muitos, George Orwell falava em sua obra apenas de estados totaliários, e não de estados corporativistas, aqueles considerados livres. Mas ele falava de ambos, apenas fazendo a ressalva de que em um país como a Inglaterra, por exemplo, você poderia ser vigiado e censurado sem nem saber que estava sendo vigiado ou censurado. A doutrinação faz isso com todos nós.

Em democracias corporativistas não se convence a população dizendo: “você deve pensar assim e assado”. Isso quem faz são as ditaduras. Em democracias corporativistas você doutrina pela propaganda. É sutil, mas é uma doutrinação aplicada em doses diárias, feita para ser internalizada, para fazer parte de sua configuração-padrão; e, por isso, tão eficaz.

A propaganda está a serviço da classe dominante e da opinião consagrada, e de mais nada.

A propaganda precisa convencê-lo de que o adolescente Michael Brown, que foi assassinado por policiais na cidade de Ferguson, nos Estados Unidos, representava uma ameaça à população. De fato, há suspeitas de que ele tenha cometido um crime ao roubar alguma coisa equivalente a um chiclete. Winona Ryder, uma celebridade, comprovadamente cometeu crime ao furtar roupas de uma loja de departamento, e pagou com serviços comunitários. Já Brown, negro e pobre, pagou com a vida, antes mesmo de haver qualquer julgamento. Foram seis tiros, dados à queima-roupa. Por uma polícia que anda armada como o exército.

Por que a polícia precisa se armar como o exército?

Oferecemos segurança à nossa população, explica o Estado. Mas aí precisamos fazer a pergunta que ninguém faz: segurança para quem e segurança contra quem?

A polícia em qualquer lugar do mundo protege o rico do pobre, o opressor do oprimido. Para qualquer governo, o maior inimigo é sempre a população. Ou melhor: a parcela pobre da população, uma parcela que a cada dia cresce mais.

Os governos se protegem da população protegendo os interesses dos muito ricos, e garantindo que continuem a ganhar, seja através de corte de taxas, de incentivos fiscais ou do aumento dos juros. É importante que continuem a circular livremente nossos amigos, os ricos. E para que isso aconteça é preciso limitar a circulação dos pobres, e mantê-los separados uns dos outros. Segregação, mas não podemos chamar assim porque isso despertaria a atenção de todos.

Nelson Mandela estava na lista de terroristas do governo americano até um par de anos atrás. Saddam Hussain foi tirado da lista de terroristas por Ronald Reagan em 1982 porque a administração Reagan precisava fazer negócios com o Iraque de Saddam. Não se fala sobre isso. Não interessa falarmos sobre isso. Lembrar você de que as coisas se deram dessa forma não é seguro.

Seguro para quem? Seguro contra quem?

Diante da doutrinação, dar uma opinião que contararie o que Noam Chomsky chama de “consenso fabricado” é jogar seu corpo contra a correnteza, e nem sempre valem as desesperadas braçadas que precisamos dar para chegar a algum lugar.

Não importa que dezenas de relatórios internacionais e historiadores especialistas na região digam que Israel comete massacre e genocídio na Palestina há décadas.

Não importa que em encontro oficial entre nações o representante de Israel tenha se referido aos regulares bombardeios sobre Gaza como “necessidade de aparar a grama de temos em tempos”.

Não importa que Israel desobedeça há anos e anos dezenas de resoluções da ONU, nem que continue a ocupar ilegalmente terras palestinas. Se o governo de Israel diz que está apenas se defendendo, a notícia é a de que ele está apenas se defendendo, e nenhuma outra além dessa é válida ou crível. (Repassem).

Para que a população de Israel continue a apoiar as ações imperialistas de seus líderes é preciso doutrinar o medo entre eles – ou eles jamais aceitariam que saíssemos matando vizinhos a esmo.

Então, muita atenção: o mundo árabe nos odeia e a qualquer mínima chance vai nos destruir. Antes que isso aconteça, precisamos destruí-los. Fazemos isso para a sua proteção, não por mais terra, ou por mais poder, ou por água, ou em nome de mais riqueza para nossa elite, nem porque detestamos esses miseráveis, os palestinos. Fazemos isso por você, e por sua família, e para que nunca mais voltemos a ser dizimados. (Repassem).

Tendo experimentado o maior crime já cometido contra a humanidade – o Holocausto – o israelense acredita que o perigo é de fato real e imediato (e quem duvidaria de uma ameaça tão possível nesse mundo repleto de intolerância e preconceito?), e, em nome de proteção, avaliza e autoriza o massacre de inocentes na Palestina – seja através de bombardeio ou bloqueio, como é em Gaza, ou através de expulsão dessa gente perigosa de suas casas, como é na Cisjordânia.

A escolha é clara: a gente ou eles; o bem ou o mal; os que têm direito divino sobre a terra e os que não têm. De que lado você está? Com Deus ou contra Deus?

Como se colocar contra o povo de Israel, que apenas luta por seu direito de existir como nação? Não estamos interessados no direito do palestino de existir como nação porque já está provado, por tudo o que diz o noticiário, que são terroristas. É um povo programado para matar, para odiar, o noticiário não cansa de avisar.

É uma pena que, nessa guerra disputada entre o segundo exército mais poderoso e bem equipado do mundo e um bando de descamisados armados com alguns facões e foguetes de baixo alcance, haja casualidades, como crianças, estudantes, enfermos, senhoras que cuidam de seus netos, atletas, músicos, poetas, médicos, assistentes sociais, professores… uma pena que, por questões de força bélica, todas essas mortes estejam do lado palestino, uma pena que tenhamos que matá-los para poder tirar a vida de um terrorista, mas fazemos isso para a sua segurança, para a sua liberdade, pelo seu direito de existir livremente. (Repassem).

Morreram dezenas de inocentes, mas morreu também aquele árabe que era suspeito de atos terroristas, então consideramos que a operação foi bem-sucedida. (Repassem).

Convencer o mundo de que qualquer crítica à Israel é um ato de anti-semitismo é uma propaganda que tem funcionado há décadas, usada para jogar uns contra os outros, para dividir todos nós entre “pró-Israel”, “contra-Israel”. Não há outra opção se a intenção apenas doutrinar e jamais informar: ou estão com a gente, ou estão contra.

Não importa que quando se critica Bush ou Blair – dizendo que são monstros e que deveriam responder por crimes de guerra – ninguém seja acusado de criticar o povo da Inglaterra ou dos Estados Unidos. Não importa que quando criticamos o deplorável Berlusconi ninguém ache que estamos criticando o catolicismo. Nesses casos, dá para entender que a crítica é ao governo e aos líderes desses países, não à população ou à religião. Mas qualquer crítica às ações Israel deve ser descartada porque é movida pelo ódio e pelo preconceito. (Repassem).

Danem-se os quase dois milhões de palestinos que segundo relatório de órgãos humanitários já morreram desde que a ocupação ilegal começou.

Dane-se que a população de Gaza viva em uma cidade cercada por terra, mar e ar, com controle de toda a comida que entra, sem autorização para deixar o limite da cidade, sem autorização para entrar no mar além de três milhas náuticas, sem direito a porto ou aeroporto.

A propaganda é feita para convencer você de que Gaza é berço de terroristas, pessoas capazes de se explodir em território israelense e tirar a vida de inocentes, e alguns de fato já provaram que são mesmo capazes, está na capa de todos os jornais, passa à noite no tele-jornal, você não viu o terrorista islâmico que se explodiu dentro de um ônibus? Eles fazem isso. Todos eles, todos eles. (Repassem).

Já imagens de Gaza sob escombros, de crianças palestinas degoladas por bombas, de hospitais lotados, de corpos de bebês armazenados em geladeiras de sorvete porque não há mais onde colocá-los, de senhoras chorando desesperadas sobre os corpos de seus netos, de escolas destruídas, de camponeses berrando com as mãos para cima enquanto o exército de Israel demole suas casas na Cisjordânia ocupada… bem, essas imagens não nos interessa mostrar a você. Não é o tipo de informação que devamos divulgar porque elas não são seguras para a manutenção da opinião consagrada. Mas assim que um míssil cair em solo israelense, faremos questão de mandar a imagem para as agências internacionais.

A definição de terrorismo dada pela corte internacional: mirar ou executar civis e/ou estabelecimentos civis – mesmo durante uma guerra.

Drones israelenses bombardearam nos últimos 40 dias centenas de casas, sem falar em escolas, abrigos e hospitais em Gaza. Quinhentas crianças morreram. Duas mil pessoas no total. São drones de última geração, capazes de mirar o umbigo de uma só pessoa se assim quiserem. Mas miraram em estabelecimentos civis, em crianças, em doentes.

Não é terrorismo, é direito de defesa. (Repassem).

Terrorismo é quando o muçulmano se explode, nada além disso. Quando países ricos matam inocentes em países pobres o nome disso é contra-terrorismo, tratam-se de casualidades; uma lástima, nossos corações estão com esses inocentes, mas não havia o que fazer, precisávamos nos defender da ameaça que eles representam. (Repassem).

Gaza, uma cidade cercada, vigiada e miserável, é o berço de terroristas, gente que é capaz de perder a própria vida para tirar a vida de um inocente em Israel. (Repassem).

O Hamas tem em seu estatuto que Israel não pode existir. Verdade. Mas não é conveniente que você saiba que o Hamas não é a Palestina, e sim um partido político da Palestina. Esse tipo de informação não é enfatizada porque não é segura para a opinião consagrada. O ideal é que ao escutar “Hamas” você pense “Palestina” ou “Gaza”, e vice-versa.

Muito menos conveniente é informar você que o partido de extrema-direita de Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense, tem em seu estatuto que um estado Palestino não pode existir na palestina. Essa informação não é dada porque é preferível para o consenso fabricado que você não saiba dela. (Não repassem, por favor não repassem).

Em Israel, a definição de terrorismo se estende até o palestino flagrado atirando pedras em tanques israelenses. Não importa que esses tanques estejam em terras palestinas, nem que o menino esteja tentando defender, com pedras, sua casa da iminente demolição que antecede a ocupação. São terrorista com pedras na mão. Há centenas de palestinos com menos de 16 anos presos em Israel por atirarem pedras contra oficiais do exército de Israel. São terroristas. (Repassem).

Entendemos os crimes de nossos inimigos, mas não enxergamos os nossos. Somos capazes de acreditar em tudo o que a imprensa diz, mas não somos capazes de sair em busca da verdade. Somos capazes de nos convencer que o perigo é real e imediato e que, por isso, precisamos de um governo que nos proteja, mas não somos capazes de entender que qualquer governo está apenas se protegendo, ou protegendo o seu 1% – a parcela da população que tem 80% da riqueza.

Se protegendo de quem? De você, e do enorme risco que é você ser livre e pensar por conta própria.

Somos mantidos quietos e calados pelo véu do medo. Justamente o medo, de todos os sentimentos o único que é o oposto do amor, embora tendamos a achar que esse seja o ódio. E, escravizados pela doutrina do medo, clamamos por proteção. Justamente por proteção, o contrário da liberdade.

O medo paralisa, e por isso é eficaz. Uma população paralisada é uma população conivente e conveniente. E o medo é real.

Tenho medo, por exemplo, quando recebo ameaças por email ou pelo twitter.

Tenho medo quando amigos me dizem que seria melhor parar de falar porque estou colocando minha carreira em risco.

Tenho medo quando colegas de trabalho dizem que foram banidos daqui e dali porque de alguma forma defenderam o povo da Palestina.

Tenho medo quando pessoas da minha família começam a ser vítimas de represálias por opiniões que são apenas minhas.

Vou dormir com medo, pensando que talvez seja melhor parar de tentar fazer com que os outros vejam o que eu vi, ou saibam o que eu li, mesmo que sejam fatos e dados provados e comprovados. Mas no dia seguinte acordo e penso: preciso falar só mais isso.

Escrevo, publico; o medo volta.

Tenho medo de minha mulher cansar, tenho medo de aceitar viver essa distopia e tomá-la como real, tenho medo de, por medo, desistir de buscar a verdade.

Tenho, aliás, medo de ter medo de buscar a verdade; algumas verdades são inflamáveis porque desafiam a opinião consagrada e esse tipo de verdade não interessa. Interessam menos ainda seus mensageiros, especialmente os mensageiros miúdos.

Todos os dias abrimos mão do amor e da liberdade em nome de seus opostos: o medo e a proteção. Somos obedientes, queremos o bem de quem está muito perto da gente e sentimos dor quando vemos a imagem de uma criança sem braço ou sem perna ou sem rosto que perdeu a vida em um atentado terrorista – seja ele praticado por palestinos ou israelenses.

Não somos maus, nem perversos, não se trata disso. Somos apenas aquelas pessoas que preferem não se meter. Somos, como escreveu Rania, a rainha da Jordânia, aqueles figurantes comendo amendoim na arena de Jogos Vorazes.

9 pensamentos sobre “O contrário do amor

  1. Muito bom seu texto, mas me parece que você está vendo os israelenses da mesma forma que os israelenses vêem os palestinos (ou como você acha que os primeiros vêem os segundos). Acho que, neste caso, quem erra mais é o Hamas que usa a população civil palestina como escudo para seus mísseis. Não dá para encarar a situação como uma questão de certo ou errado. Talvez ambos os lados estejam certos e errados ao mesmo tempo.

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    • Ederson,

      Essa história de “escudo humano” é um exagero de Israel. Ora, e os civis mortos nos bombardeios de hospitais e das escolas da ONU (não havia presença de armamentos nem de militantes do Hamas nestes lugares), por exemplo? E as crianças que são mortas a tiros por jogarem pedras nos carros do exército israelense? Detalhe, os próprios soldados israelenses usam o sistema de alto-falante do carro para insultar e provocar os palestinos, para, uma vez sendo atingidos por pedras, terem a “justificativa” para atirarem nestes. Parece inacreditável? Pois jornalistas já presenciaram tal cena.

      Israel pune coletivamente uma população inteira por um crime cometido por alguns (nesse caso o sequestro e morte de 3 jovens israelenses), o que é classificado como crime de guerra. Não faz qualquer esforço para poupar a população civil de sofrimento, preferindo na verdade propositadamente infligir esse sofrimento, o que é crime de guerra. Mas ninguém faz nada, afinal de contas os EUA estão do lado de Israel. Inacreditável que um povo que foi oprimido durante tanto tento em tão pouco tempo virou um opressor tão cruel.

      o governo de Israel trata o povo palestino como sub-humanos. Faz de tudo para que a vida em Gaza seja a mais miserável possível (estudos apontam que Gaza, dessa maneira, se tornará inabitável até 2020): acesso restrito à água potável, 10 horas por dia sem eletricidade (e agora nem isso, pois o exército fez questão de bombardear a única usina elétrica de Gaza. Pra quê?), dificulta a entrada de medicamentos, de aparelhos médicos, de comida (mais da metade das crianças palestinas são desnutridas), demolem as casas de palestinos sem aviso prévio por motivos esdrúxulos, algumas vezes com pessoas dentro. Isso sem falar dos assentamentos ilegais, essencialmente um roubo de terras.

      Israel é uma força de ocupação e de opressão, que transformou a Faixa de Gaza em uma prisão ao livre, que nega aos palestinos (expulsos de suas próprias casas em 1948) o direito a controle de seu próprio território, que dirá voltar às suas antigas casas dentro do território israelense, antes conhecido apenas como “Palestina”.

      Na verdade não, não é difícil saber quem está certo e quem está errado.

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  2. Que alivio, ainda tem gente consciente. Deveríamos criar a comunidade “os não-semíticos” uma minoria em termos de poder, dinheiro e influencia para defender nossos direitos de expressão, sem medo de sofrer represálias.
    “NÃO AO ANTI NÃO-SEMÍTICOISMO” “ESTAMOS CANSADOS DA PROPAGANDA USARELENSE” . Deveríamos levar a corte da Haia os ministros da propaganda universal (A maioria dos produtores e diretores de Hollywood) por crimes de manipulação da opinião publica.Todo dia e feito um novo filme sobre algum semítico sofrendo nas mãos de um ariano. Em fim, sera que ha como parar esta queda livre na direção de um totalitarismo ideológico judeu cada vez menos sutil? Que a ausência do deus dos ateus nos ajude. O Obama não tem vergonha de ser uma marionete,?
    Inventou uma briga de bar em Iraq para distrair a atenção do extermínio. oh my.

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