Política

Que grande frustração

Quando Obama era apenas um candidato à presidência dos Estados Unidos a imagem de homem justo com consciência humanitária estava colada nele. Excelente orador, seus discursos eram ouvidos por multidões e compartilhados fartamente pelas redes sociais. Obama falava em união, em igualdade, em liberdade. E tudo fazia sentido porque, negro e filho de imigrante africano, era apenas natural que ele olhasse para questões que envolvessem grupos marginalizados – negros, imigrantes, gays, mulheres etc – de forma simpática e carinhosa. Vê-lo eleito e assistir ao seu discurso logo depois da vitória foi das coisas mais emocionantes. O primeiro negro a chegar ao cargo mais alto do país mais poderoso do mundo. Era a vitória da esperança, uma vitória de todos nós. Lembro que depois da eleição, cheguei à redação animada e conversando com o Svartman, amigo infinitamente mais inteligente do que eu, escutei ele dizer alguma coisa do tipo: não se empolga que não é bem assim.

Quase sete anos depois, Obama talvez seja a maior decepção política da história – e hoje eu raramente dou opinião sem consultar o Svartman antes. A não ser pela causa gay – para a qual Obama se mostrou de fato um homem moderno, atento e coerente – todas as demais causas o colocam no nível do tragi-cômico Bush. E, estarrecedoramente, em alguns casos ainda pior do que o antecessor.

Na lista de decepções poderíamos citar direitos civis (sua administração deu ainda mais asas à Agência de Segurança Nacional, essa que Edward Snowden expôs e que desenvolveu a capacidade para investigar, em sigilo e em detalhes, a vida de qualquer pessoa em território americano através de celulares e computadores), a imoral utilização de drones para os mais variados fins, o apoio incondicional a banqueiros de Wall Street, resgatados por ele da fracassada farra monetária com dinheiro do contribuinte, o desleixo com o meio ambiente e por aí poderíamos seguir. Mas talvez a decepção mais gritante seja aquela que diz respeito à deportação de imigrantes, até porque em seus discursos como candidato fazia questão de dizer que respeitava essas famílias, e a lutaria pela sobrevivência delas, e pelo sonho de liberdade e blablablá-votem-em-mim-porque-yes-we-can.

Se continuar no atual ritmo, no final do de 2014 a administração Obama terá deportado mais do que Bush em oito anos. Pior: o sistema de deportação foi transformado em uma máquina gigante, cruel e poderosa. Em quase cinco anos, foram 2 milhões de deportados. Em 2012, 150 mil crianças com cidadania americana (crianças que nasceram em território americano) perderam pai ou mãe por causa de deportações. Assistentes sociais dizem que, quando acontece isso, toda a comunidade fica atordoada e passa a não relatar à polícia casos de agressões e abusos de todos os tipos com medo de serem também deportados. Ou seja, quem já estava à margem vai sendo cada vez mais jogado para a beirada.

Ainda mais triste, em muitos casos nem há uma entrevista com um juiz pelo direito de explicar o caso: o imigrante é mandado embora de forma ágil graças a um sistema criado pela administração Obama que leva o nome de “expedited removal” – remoção acelerada, em tradução livre. Podem ser removidos assim os imigrantes ilegais encontrados em um cinturão de 100 milhas (pouco mais de 200 quilômetros) do limite territorial Americano.

Em um ponto remoto do Novo México, distante 300 quilômetros de uma cidade grande, foi construído um centro de detenção para mulheres e crianças que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Era para ser um centro que tratasse essas pessoas com dignidade, mas na real ficou mais para o oposto disso e de lá começam a sair histórias tenebrosas.

Em editorial, o New York Times pede que Obama interrompa essas deportações até que todos esses imigrantes possam ser escutados por um juiz e tenham seus casos avaliados. Falando a respeito do que acontece em Artesia, Novo México, o jornal relata momentos de horror, com mães tendo que prestar depoimentos sobre violência sexual e risco de vida na frente de seus filhos pequenos, falta de acesso a telefone e nenhum contato com advogados. A imprensa raramente tem autorização para entrar, mas advogados que frequentam o Centro contam histórias dramáticas de crianças sem comida há dias e de mães ameaçadas de morte em seu país de origem que são jogadas em ônibus de madrugada e levadas de volta para a fronteira sem serem ouvidas por um juiz.

O professor e intelectual Cornell West, em entrevista ao site Salon falando a respeito da revolta da população negra de Ferguson, Missouri, por causa da violência policial disse que Obama tinha tudo para ser um novo Lincoln, um líder de grandes e históricas reformas sociais porque estava com o país nas mãos e com todas as portas abertas para integrar e unir, mas que ele simplesmente não fez nada disso. A verdade é que os Estados Unidos de Obama são ainda mais segregados, desiguais e violentos do que antes. Que enorme frustração. Para West, a decepção e a desilusão com Obama são tão grandes que a América pós-Obama será uma nação com depressão pós-traumática.

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