Comportamento/Vida

Caetano e eu numa noite chuvosa em Nova York

Ontem eu fui a um show do Caetano Veloso no Brooklyn, e, como acontece muitas vezes por dia, acabei nocauteada por minha própria ignorância. Onde eu estava quando Caetano Veloso virou cantor de rock? Admito que as respostas mais prováveis são: “vendo um jogo do Corinthians” e “no Twitter xingando o juiz por causa de um jogo do Corinthians”, mas o fato é que eu me preparei para ir ver um espetáculo “banquinho&violão” e entrei numa balada metal para a qual não estava preparada.

Logo de cara fui chacoalhada por “A bossa nova é foda” (imagino que seja esse o título da música porque era essa basicamente a letra toda), com muita guitarra, baixo e luzes piscantes. Ok, pensei, ele está mandando uma novidade mas na próxima vai voltar às raizes. Enquanto ele repetia que a bossa nova era foda eu me permiti, como escape, avaliar a roupa dele.

Nesse ponto é justo alertar vocês que me interesso por música e por moda mais ou menos como Marina Silva por darwinismo. Alerta feito, Caetano estava vestido com uma calça que parecia de couro – meu lugar era suficientemente em conta, portanto distante, para eu não saber sobre o material da roupa, ainda que, mesmo na primeira fila eu provavelmente não soubesse distinguir linho de tactel por pura ignorância e não apenas porque minha visão perde um tico de foco a cada dia –, com uma camisa social que parecia ser de seda e com um tênis ultra novíssimo. Para ficar completamente dentro do que minhas amigas Silvia e Carolzinha chamam de “estilo Álvaro Garnero” faltava apenas o casaquinho amarrado nas costas.

Finalmente a bossa nova é foda acabou, mas os solos de guitarra e baixo não, assim como as luzes piscantes. Seria isso até o fim?, me perguntei, já relativamente apavorada. O público, majoritariamente brasileiro, parecia estar adorando, o que apenas comprova que apenas eu não sabia que Caetano agora fazia rock. E rap. Porque posso jurar que rolou um rap ali no meio, já perto do fim da primeira hora.

Enquanto da guitarra saía um som metálico e agudo, e meu tímpano e eu sofríamos porque chegamos ali de metrô e no caminho tivemos nossa dose de sons metalizados da noite, lembrei que antes do show começar uma voz no alto falante anunciou alguns nomes dos responsáveis pelo espetáculo daquela noite, tipo um “sobe créditos” falado. Nunca vi isso em show aqui na gringa, então me causou estranhamento. Nos shows que já fui, e teve até David Byrne, o troço começa com música e não com uma voz falando quem são os bacanudos que nos oferecem a algazarra. Se não estou enganada, a última coisa que a voz anunciou é que aquele show era uma produção de Paula Lavigne.

Eu ouço Paula Lavigne e penso “abaixo a biografia não-autorizada” e “quem quiser fazer uma biografia não-autorizada tem que dar um troco para o biografado”, então, na minha cabeça, é um nome que não vem sem julgamento ou uma leve bufada. Enquanto guitarra-bateria-baixo faziam a festa no palco, e Caetano ficava cantando músicas novas que eu nunca tinha escutado – uma sobre o comunismo que até agora estou tentando entender se era uma crítica ou uma ode – fiquei a matutar se a neoliberalíssima Paula Lavigne havia matado o Caetano que eu esperava encontrar.

Naturalmente, quando nossas expectativas são assassinadas o problema é apenas nosso. Quem sou eu para dizer que esse novo e barulhento Caetano é ruim? Vai ver que nem novo é e eu, atrasada, só descobri esse cara ontem. Se Caetano está feliz e se continua a fazer sucesso – como claramente é o caso porque as pessoas ao meu redor pareciam delirar, em especial uma menina que repetiu com furor um refrão que dizia “eu odeio você, eu odeio você, eu odeio você” – do que importa o que eu, que não entendo nada de música, penso?

Entre a terceira e quarta música ele saudou o público com três frases curtas (“Obrigada por estarem aqui”, “Thank you for being here” e “Shana tová”, em referência ao ano-novo judaico), e, sempre risonho, deu sequência ao espetáculo. Esse Caetano politicamente correto é um artista financeiramente mais bem sucedido do que aquele Caetano cabeludo do banquinho&violão, imagino. E, a bem da verdade, além desse processo natural de encaretamento em nome do sucesso comercial não podemos deixar de pensar que existe o amadurecimento que vem com os anos, esse que acaba afastando quase todo mundo da desobediência civil de um dia.

Poderia ter acontecido com Lennon, Hendrix e Morrison se eles tivessem vivido o suficiente, claro. Por outro lado, não existe nada mais sedutor do que aqueles que mesmo depois de chegarem ao topo continuam a criticar o estabelecimento em vez de se misturar a ele, e continuam a falar em nome do oprimido. Alguém como Roger Waters, do Pink Floyd, que aos 72 anos não se deixou inundar pelo discurso conservador e continua a remar contra o status-quo como ativista alertando para o sofrimento do povo palestino.

Mas não precisa ser o extermínio do povo palestino, essa questão que me é tão cara e que eu escolhi para chamar de minha; o mundo está cheio de injustiças e de necessidade de gente que tome partido. Pode ser contra o racismo, a homofobia, Wall Street, a desigualdade, o sexismo, os drones, as guerras lutadas em nome da paz, a invasão de privacidade… são mesmo muitas e eu poderia continuar a listá-las, mas você pegaria no sono – se ainda não pegou.

Não vou colocar o Bono na lista porque a causa africana que o vocalista do U2 encampa me soa bastante embrulhada em marketing e, falando francamente, não há nada de polêmico em chamar a atenção para as crianças que morrem de fome na África de um lado e pagar pau para as grandes corporações globais do outro.

A circunstância que talvez melhor defina a imagem que faço de Bono vem de um episódio contado pelo professor britânico Terry Eagleton: durante um show em Londres, Bono começou a bater palmas, pegou o microfone e disse: “a cada palma que bato uma criança morre de fome na África”, e alguém na plateia gritou: “Então para de bater palma, ô idiota!”. Se considerarmos coisas assim, Caetano tem pelo menos a decência de se assumir como elite e, vestido como tal, cantar para ela.

Óbvio que não é obrigação de ninguém tomar partido e se manifestar de forma apaixonada e embasada – embora as pessoas mais interessantes que eu conheço façam isso. É totalmente possível entreter sem criticar o sistema, o opressor, o estabelecimento, a condição humana; o que não é possível é fazer arte sem criticar todas essas coisas. E o Caetano de ontem, ao contrário do antigo, estava ali exclusivamente para entreter, enquanto minha expectativa e eu esperávamos que ele fizesse arte.

Mas a elite, como sabemos, não está muito a fim de crítica, não faz questão de ser convidada a pensar ou questionar, a elite quer mesmo é diversão. Até porque um mundo totalmente entretido jamais terá tempo ou interesse em se politizar a ponto de perceber que o atual sistema econômico, que busca o lucro a todo o custo e em curto prazo, está nos conduzindo para a extinção. Ah, mas quem se importa? O que vale é lucrar mais e mais e mais para assim acumular mais e mais e mais, a despeito dos danos causados ao planeta e da acentuação da desigualdade social.

Perto das dez da noite, o primeiro bis. Caetano entrou sozinho no palco e, basicamente à capela, cantou Luna Llena. Se em algum momento da noite de ontem anjos resolveram passar por ali foi certamente nessa hora. Sozinho, sem luzes piscantes, sem bateria, baixo ou guitarra, apenas com um violaozinho, Caetano nos elevou a um lugar de mais significado e mostrou que nada é mais elegante e rico do que a simplicidade; e nada mais vulgar e pobre do que o acúmulo (de sons, de luzes, de propriedades, de carros, de calças jeans…)

Depois, quando quase um terço do auditório já havia saído, ele voltou para um segundo bis, oferecendo aos guerreiros que como eu continuaram por ali Leaozinho e Força Estranha, sem excessos e sem rococós. Outra vez, lindo e tocante.

No final, apesar da pancadaria metálica, saí feliz inspirada pelos últimos acordes e grata ao Caetano de antes ter feito aquela rápida aparição – tardia, mas gigantesca.

17 pensamentos sobre “Caetano e eu numa noite chuvosa em Nova York

  1. Olá, Milly, tudo bom?
    Eu gosto muito deste blog e concordo com muitas das coisas que você escreve.
    Nesse texto, isso aconteceu em algumas partes, mas achei esquisito você ter ignorado a possibilidade de o Caetano simplesmente estar interessado em experimentar outras coisas. O cara está aí há, sei lá, 50 anos (?) fazendo música, e me parece natural que ele esteja explorando ritmos que não explorou antes na sua carreira. Isso pode significar que ele se rendeu sim a uma acomodação elitista, mas mostra que ele não é esteticamente limitado e que tem liberdade artística não tocar Leãozinho todas as noites até o fim de sua vida.
    E faço minhas suas palavras sobre Paula Lavigne.
    Um beijo.

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    • Oi! Obrigada pelo comentário e por frequentar o blog 🙂
      Você tem razão: acho que toda a experimentação é válida. O problema de minha expectativa ter sido frustrada é apenas meu; Caetano tá na dele. Mas quis usar o que senti vendo Caetano mandar aquele rock, e aquele acúmulo de tudo no palco, para refletir sobre a cultura do exagero x a beleza da simplicidade.

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  2. Ótimo texto e percepção.
    É este o ponto que poderia transformar muito a realidade.
    Seu exemplo foi o Caetano mas a quantidade de artistas ( na música principalmente ) que se transformam quando determinados tapetes e portas se abrem impressiona.
    Os da minha geração então nem se fala.
    O fazer artístico/musical vem a reboque do $uce$$o rebocado pelo Deus Mercado.
    Mas bora resistir!

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  3. Caraca, ao terminar de ler seu texto, fechei os olhos e revivi o dia em que estive nesse show. A sensação foi exatamente igual. Pensei: ” Caceta, a Adriana Calcanhoto comeu o Caetano”. Enfim, respirei, me satisfiz também com as poucas aparições do velho Caetano, e, voltei para Salvador com a certeza de que, o meu amor e predileção pelo Chico Buarque estava ali naquele momento justificado.
    Obrigada pelo texto! E, vc é foda, como a bossa nova! haha

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  4. Discordo. Caetano está fazendo esse trabalho com a banda Cê desde 2006! Ele conseguiu uma sintonia com uma novíssima geração renovando seu público. Gravou três discos meio experimentais e que passam bem longe do sucesso comercial. Provavelmente quem estava adorando o show deve ser gente bem mais nova que você.

    Caetano, assim como Roger Waters, tem mais de 70 anos. Podia ter se acomodado e ficado cantando Leãozinho para uma platéia cinquentona, mas preferiu arriscar.

    Sou da mesma geração que você e nem gosto tanto desses trabalhos recentes do Caetano, mas querer ir a um show dele esperando ouvir as músicas da sua juventude é tão careta quanto criticar a roupa que ele usou.

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  5. Não sei onde você estava, mas de fato você não conhece a discografia e a obra do Caetano.
    A primeira crítica ferrenha que Caetano sofreu meados de 1968 a 1079 foi pelo uso de guitarras. A sua Bahia disse que ele estava renegando o berimbau.
    A canção Divino e Maravilhoso gantado por Gal é puro rock e sempre digo, que Rita Lee equivocadamente ganhou o primeiro título de roqueira, enquanto Gal, diva da MPB cantava esta canção do caetano ao som de Rock.

    E ainda na década de 80 vá ouvir Eclipse Oculto, em todas as suas várias versões antigas e a atual.

    Cazuza, enlouqueceu a pensar em cantar Caetano então.

    Caetano nunca se propôs a nada e por isso faz tudo, em música muito bem.

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  6. Prefiro o Caetano de tempos, tempos, tempos,…….atrás. Era verborrágico mas questionador.
    O Gil nunca mudou, pelo menos, não piorou!
    Ah, chegue a uma conclusão: ” A verdadeira inteligência não morre”! Hahaha!!

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  7. Quanta bobagem. Você não entendeu absolutamente nada. Tudo bem que você avisa que não entende nem se interessa por música, mas exatamente por causa disso deveria tomar cuidado para não falar tanta besteira. O exemplo de Roger Waters foi pavoroso. O cara toca há mais de 30 anos o The Wall, só para ganhar dinheiro e ele é que continua remando contra a maré do status quo? O último disco de estúdio dele é de 1992. De lá para cá, Caetano já lançou mais discos do que a discografia completa do Pink Floyd. E essa história de Bono!!!! Isso é uma piada, e você usa como exemplo para explicar sei lá o que. Desculpe, nunca li o seu blog, caí nesse texto por acaso, numa pesquisa para outra coisa, lembro de você na Sportv, comecei a ler e não acreditei nos absurdos que iam se sucedendo. A história do fazer arte, da elite????

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  8. Mas sempre foi assim. como ele mesmo disse: ” eu já andava de limousine na década de 60 e vem esse povo dizer que eu encaretei”. rsrsrsrsrs. Ninguém pode dizer que ele encaretou, o Caetano e o marcado são irmãos siameses desde sempre. Além de ser um gênio, gosta charme da burguesia…rsrsrs

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