Comportamento/Vida

A história do Zé

Eu não assisto TV aberta a não ser em duas circunstâncias: quando o Corinthians joga, por motivos de paixão, e quando Fernanda Lima aparece, por motivos de Fernanda Lima. Mas sábado passado, por motivos de família, tive que ver um trecho de Caldeirão do Huck.

O programa ia contar a história de um amigo de minha irmã: o Zé Carlos, ou apenas Zé, como é conhecido. Morador do Capão Redondo, Zé é confeiteiro. Minha irmã, que também é confeiteira, conheceu o Zé há alguns anos quando foi comer em uma padaria dos Jardins, bairro chique de São Paulo, e o viu na cozinha, que era aberta, fazendo bolos. Entretida com o jeito apaixonado como ele trabalhava, puxou conversa.

Comovida, já que para ela a arte de confeitar sempre foi um ato de amor, saiu dali pensando no Zé e em como a cena de o ver fazendo bolos com tanta dedicação havia mexido com ela. Estava disposta a não perdê-lo de vista. Assim, minha irmã e Zé travaram uma amizade que se transformou em parceria anos depois, quando ela o convidou para passar alguns dias da semana em seu ateliê de bolos desenvolvendo novas receitas e dando vida à tanta criatividade e ao afeto pela arte. Lá, formariam uma inusitada dupla de criação.

Com o relacionamento, minha irmã, a mais fresca da casa quando éramos pequenas, começou a frequenter a comunidade do Capão Redondo. E aqui a tentação é escrever que ela estava ajudando o Zé, mas a verdade é que, como em qualquer relação de iguais – e por iguais precisamos desconsiderar a divisão de classes que segrega separando o mundo entre ricos e pobres, entre os que mandam e os que obedecem, essas divisões que nos fazem entrar em delírio achando que elas também separam o superior do inferior  – eles estavam se ajudando mutuamente.

Minha irmã, recém divorcidada depois de 20 anos e de quatro filhos, encontrou no Capão e no Zé um pouco da verdade que nos faz tanta falta aqui pelos lados dos Jardins e do Morumbi. E o Zé encontrou em minha irmã uma oportunidade de mostrar para além do Capão um pouco do talento que herdou da avó, e também mostrar, meio sem querer, do que são feitas as verdadeiras comunidades – de união, de parceria, de simplicidade e de paixão. Tudo junto e misturado, como ele diz.

Então, por motivos de Zé e de Nininha, assisti o Caldeirão do Huck: Zé e Bruno, seu irmão, participariam do quadro Mandando Bem, que, pelo que saquei, premia com muitos produtos e incentivos aqueles que se esforçam e têm talento a fim de que se lancem como empreendedores.

Normalmente esse tipo de programa, famoso no mundo inteiro, não me atrai, mas, afinal, boas histórias são sempre boas histórias e devem ser contadas – e a do Zé é uma delas. E a verdade é que eu estava assistindo o programa para ver minha irmã dar o depoimento – que foi lindo, edificante e comovente, diga-se – e para ver o Zé, que conheço pessoalmente.

E, enquanto via e chorava – porque é impossível não se emocionar com a história do Zé – escutei quando Huck perguntou se ele era casado, e Zé respondeu que estava num relacionamento complicado. Huck então perguntou o nome dela, e o Zé disse com a maior naturalidade do mundo: “É Diego. É ele.”

Zé disse isso em rede nacional de TV, na maior emissora da América Latina, para milhões de pessoas. O Zé, que nasceu e cresceu no Capão, que amassa a massa, que teve sete irmãos, que viu a mãe trabalhar 15 horas por dia como doméstica para colocar comida na mesa; esse Zé teve a honra e a dignidade de fazer o que muita celebridade se nega a fazer, que é tratar a homossexualidade como a coisa mais natural do mundo – que é o que ela é.

Huck, por sua vez, teve a elegância de lidar com a situação de forma igualmente natural – perguntando interessada e genuinamente sobre a relação – e de não cortar o trecho da parte que foi ao ar, o que eleva o debate porque o programa é visto por milhões de pessoas. Então, ao dialogarem sobre homossexualidade como coisa natural em rede nacional de TV, Zé e Huck prestaram à nação um enorme serviço, um serviço que muitos em situação bem mais privilegiada do que o Zé se omitem de prestar.

A sexualidade do Zé passou pela tangente durante a matéria toda, mas foi fundamental para que tantos outros Zés, no Capão ou fora dele, entendam quem são e que não há nada de errado com isso. Trata-se de um impacto que não podemos medir, de uma ação social e civil, de um gesto de elegância tão profundo que pode acabar salvando vidas.

No final, Bruno, Zé e tanto esforço e talento foram premiados com carros e equipamentos para darem uma alavancada na produção dos pães de mel cuja receita o Zé inventou. Eles vão ser capazes de montar um ateliê em um espaço no Capão, onde continuarão a trabalhar e a inspirar. E Huck foi premiado com uma excelente e comovente história de vida que ajuda a humanizar a marca de seus patrocinadores.

Tudo muito bacana, mas o que importa é reconhecer o tamanho da dignidade do Zé. É na presença de gigantes como ele que precisamos nos agigantar também para não fazer feio. São pessoas como o Zé que nos fazem querer ser melhores e maiores. Então eu agradeço a ele pela colossal dignidade, pela elegância e pela nobreza. Se houvesse mais Zés no mundo viveríamos em um lugar muito mais bonito, tolerante e saboroso.

Aqui o link para o Mandando Bem que conta a história do Zé e que inclui o comovente depoimento de minha irmã

 

19 pensamentos sobre “A história do Zé

  1. Parabéns pelo blog, você tem uma inteligência e uma firma de escrever incomum, fique a vontade para escrever todos os dias.

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  2. Muito legal e comovente seu relato, assim como a história do Capão de mel. Eu fiquei muito impressionado com os irmãos e a vontade deles em ajudar a comunidade não só em questões de cidadania mas, também, em oferecer acesso às coisas boas que – muitas vezes – são escassas na periferia. Fiquei com essa história na cabeça desde sábado e que bom que você comentou este assunto!

    Assisti ao programa com minha mãe, de 70 anos, e minha filha de 7. Quando o Zé mencionou sua homossexualidade, criou-se uma (feliz) saia justa com minha filha. Ela perguntou se a namorada dele se chamava Diego. E falei que Diego era um rapaz e eles se gostavam como amigos… (tema difícil para abordar com uma criança…) Ela, de bate-pronto, comentou: – Se eles fossem namorados, seriam gays! Achei brilhante. Mostrou minha ignorância e subestimação e, ao mesmo tempo, sua visão de mundo sem preconceitos.

    Outro ponto que acho importante ressaltar é que Bruno agradeceu ao Luciano Huck e ao Universo pela oportunidade. Sensacional! Num país laico é preciso respeitar aqueles que não têm religião ou, simplesmente, acreditam mais no trabalho que na intervenção divina.

    Gostaria muito de comprar e experimentar o agora famoso Capão de Mel. Pelo pão e pelos irmãos.

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    • Que mensagem bacana, Renato. Muito obrigada por compartilhar. E você tem total razão nessa do “universo”. Na hora eu saquei, mas depois esqueci. É mesmo sensacional. Agora é esperar pelo Capão de Mel 😉

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  3. Milly, a autenticidade e sensibilidade com que você escreve, me encantam! Parabéns! Sou sua eterna leitora! Espero que o mundo nos dê cada vez mais Zés, precisamos de pessoas assim para viver! Beijo

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  4. Vc sempre – sempre – me deixa com um misto de identificação, emoção, alegria, perseverança no ser humano… Dona de um toque de midas, descreve situações cotidianas de forma impar e deliciosamente incríveis! Meu respeitoso beijo!

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  5. Poxa MILLY, que história linda. Foi difícil ler tua postagem como também assistir o video e secar as lágrimas ao mesmo tempo. Por me identificar afetivamente com o grande “Zé” sem esquecer a superação de seu mano e o depoimento de tua mana, bem como o projeto social que sonham desejo que consigam êxito nas suas jornadas. Parabéns a você pelo carinho da matéria. Abraço fraterno. Bob.

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  6. Sim, é impossível não chorar vendo esse tipo de programa, é impossível não chorar quando a gente sente que mais um pedacinho de liberdade é conquistada (o que é direito meu!)…
    O mundo não acabou, as criancinhas não foram abocanhadas pelo bicho papão e as famílias continuam existindo, cada uma com a sua configuração.
    Tenho fé no futuro!
    Obrigada por fazer a minha segunda começar com um sorriso! 🙂

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