Comportamento/Economia/Política/Vida

Tem uma outra coisinha que precisamos falar sobre a Petrobrás

Acho que passou da hora de a Petrobrás vir para o centro do palco e ser discutida. E embora a atual discussão seja inevitável e necessária, existe uma outra que envolve essa milionária empresa e que é evitada faz tempo.

É triste e lamentável que o PT, tendo assumido o poder há quase 14 anos, não tenha pensado em formas alternativas de produzir energia. Que um partido de direita como o PSDB ignorasse por completo a questão ecológica da exploração de combustíveis fósseis é de se entender – trata-se de uma ideologia (e aqui uso a palavra de forma abusiva, porque não há na verdade uma ideologia no PSDB a não ser a de proteger a concentração de poder do capital privado) que privilegia o explorador, o empresário, o lucro. Mas um partido que se coloca à esquerda simplesmente fechar os olhos para o aquecimento global e para o papel de uma indústria como a da Petrobrás nisso causa desespero.

O ritmo de destruição de espécies hoje está no mesmo nível de 65 milhões de anos atrás, quando um asteróide se chocou com a Terra e colocou fim a milhões de anos de domínio dos dinossauros, abrindo a chance para que vingássemos. Dessa vez, como gosta de repetir Noam Chomsky, o asteróide somos nós. A catástrofe não se dá ao acaso, ela é responsabilidade de ações humanas, mais especificamente da combustão frenética de óleos, gases e carvão, esses que fazem carros andar, aviões voar, embarcações navegar, fábricas funcionar. Um modelo que nasceu com a Revolução Industrial e, portanto, com o Capitalismo.

Ao tirar do solo essas reservas naturais para alimentar a fúria do mercado estamos jogando na atmosfera uma quantidade de CO2 muito maior do que a que a terra pode absorver, e isso retém os raios de sol por aqui, porque o CO2 funciona como um “cobertor” que impede o calor do sol de bater e sair. Ou uma parte dele, pelo menos. Um pouco de CO2 na atmosfera é fundamental para que o planeta não congele, mas muito pode fazer com que a vida como a conhecemos tenha fim. É por causa de nossas ações que a temperatura média, da terra, do ar e do mar, aumenta continuamente há décadas.

Cientistas de todos os cantos avisam que estamos muito perto do que eles chamam de “point of no return”, ou daquele ponto que, uma vez alcançado, vai nos conduzir à destruição a despeito do que tentemos fazer para impedir. E muito perto quer dizer “ a duas ou três gerações”.

Ainda assim, o Brasil investe pesadamente numa indústria que tem como meta furar o solo e tirar de lá o que não deveria mais sair em nome da continuidade da vida na Terra. E dessa empresa, nos avisam pelas propagandas emotivas na TV, devemos nos orgulhar. Não era preciso que um escândalo de corrupção envolvesse esse titã para que começassemos a pensar a respeito do que estamos fazendo, ou do que faz a Petrobrás.

Que o Brasil tenha erguido uma empresa estatal do tamanho da Petrobrás, e com a capacidade da Petrobrás, é de fato motivo de pompa. Quando a Petrobrás nasceu não sabíamos que a exploração de combustível fóssil era tão predatória e capaz de destruir a vida na Terra. O que temos que lamentar é que, depois de tomarmos conhecimento do tamanho do problema, não tenhamos usado tanta capacidade para criar semelhantes empresas que se dedicassem à exploração de energias alternativas. Há três administrações no poder o PT jamais puxou esse debate.

Claro, nações como Estados Unidos e China, não deixaram de explorar o solo predatoriamente, muito pelo contrário, então por que deveríamos? Primeiro porque é o correto, moralmente falando – e eu sei que “moralmente falando” pouco importa no mundo corporativo. Só que, mesmo que pressões de mercado nos empurrasem para o abismo, era pelo menos necessário que começassemos a debater alternativas, como fazem por exemplo a Bolívia e o Equador – não por acaso dois países com elevado número de populações indígenas, historicamente mais preocupadas em proteger o meio ambiente do que o “homem branco”. E, puxando essa carroça, estão países como Dinamarca e Alemanha, já se preparando para não depender mais de energia predatória.

Mas o debate político brasileiro hoje não trata de temas relevantes, apenas da mesmice modorrenta de sempre, como vimos na última eleição.

E não é alegar que faltam alternativas: energia solar e aeólica estão aí, são infinitamente mais baratas e quinquilhões de vezes mais limpas. Um porcento do que vento e sol geram de energia seria suficiente para alimentar toda a nossa necessidade de energia do planeta. Mais energia solar cai na terra em uma hora do que aquela que usamos em um ano. E a tecnologia para usarmos energia solar em escalas industriais, por exemplo, existe desde 1913.

Então por que não usar?

Porque a indústria que explora predatoriamente o solo é milionária, e precisa continuar a lucrar, apenas por isso. A ExxonMobil é a corporação mais lucrativa da história do lucro, segundo a revista Adbusters. “Em 2013 embolsaram 44.9 bilhões de dólares”, diz a matéria. E boa parte desse dinheiro foi usado em campanhas críticas contra a “ciência do aquecimento global”. Tática conhecida como “abrace a incerteza de todas as coisas”, ou uma estratégia de guerrilha que visa confundir a opinião pública para que a noção de que estamos perto de uma tragédia climática não seja dada como certa. Como o pessoal que prega o ensino do criacionismo nas escolas; é o método “se não pode convencê-los, confunda-os”.

Segundo Chomsky, esse tipo de tática faz com que sempre que um texto crítico sobre o aquecimento global for publicado em um jornal de grande circulação ele seja rebatido com alguma outra análise que diz, por exemplo, que o aquecimento global é cíclico, culpa de atividades vulcânicas, e que não temos com o que nos preocupar. Assim, planta-se a dúvida e escapa-se da certeza, que é a única coisa que essa indústria pode fazer dado o nível avassalador de provas científicas de que estamos chegando perto do precipício.

A verdade é que a revolução industrial e o capitalismo, esse que visa o lucro certo e rápido, desenvolveram uma gigantesca capacidade para que destruamos a vida humana na terra. E a mudança climática que estamos testemunhando, que pode ser a derradeira, é o maior e mais colossal fracasso do “deus mercado” de que se tem notícia.

Mas, claro, a corrupção na Petrobrás é lamentável, e Paulo Francis já dizia isso nos anos 90, ou há duas décadas, embora ali ele tivesse sido chamado de maluco e desonesto.

A Petrobrás, uma estatal administrada com toda a tirania de uma corporação – essas empresas nas quais o lucro rápido é o único fim e para se chegar a ele as decisões são tomadas por uma dúzia de pessoas, impostas de cima para baixo, num sistema que descarta a participação do trabalhador nos processos decisórios e ignora danos à natureza ou a outros seres humanos -, não estaria imune ao imoral poder da grana e do enriquecimento ilícito.

Trata-se de uma estrutura empresarial que por causa da combinação entre organograma corporativista e proximidade com o Estado convida largamente ao exercício da corrupção, e achar que o PT inventou esse esquemão é demonstração de colossal ignorância. Se a Petrobrás fosse administrada com a participação dos trabalhadores, nos moldes da co-operativa espanhola Mondragon, a corrupção certamente encontraria portas fechadas – se não todas, quase todas. Mas, enfim, parece que finalmente começamos a fuçar a roubalheira, e temos que torcer para que seja investigada, controlada e punida. Tudo isso a gente espera que aconteça.

Só que seria também prudente que usássemos a oportunidade para discutir coisas maiores – como o poder das mega-corporações (como as empreiteiras) nas atuais “democracias”, que estão mais plutocracias do que democracias se por democracia entendermos um sistema que defenda o interesse da população como um todo e não da parte mais rica dela, e a voracidade com que estupramos o solo em busca de lucro e mais lucro –  a despeito de estarmos destruindo a possibilidade de uma existência decente para nossos filhos e netos.

Hora de repensar a Petrobrás, sua estrutura corporativista, seus métodos de trabalho, seus benefícios à população e suas funções. Se dela o povo brasileiro deve se orgulhar, como pede a propaganda estatal, então seria bacana se a mega empresa começasse a proteger de fato os interesses do povo brasileiro, que inclui a conservação do meio ambiente e a possibilidade de um futuro decente para as novas gerações, e não apenas o trabalho para a proteção dos interesses do capital privado.

Então, passou mesmo da hora de falarmos sobre a Petrobrás.

12 pensamentos sobre “Tem uma outra coisinha que precisamos falar sobre a Petrobrás

  1. Outro olhar sobre o tema, olhar responsável, comprometido com o ser humano e a terra e o Brasil. Vamos falar mais Milly, vc tem o dom de descortinar a realidade e nos ajudar a ver as mil e uma faces de um problema e/ou solução. Estou sinapseando o tema, bora lá ver o que podemos fazer.

    Curtir

  2.       Sim minha cara Milly, precisamos falar sempre mais sobre a Petrobrás e outras mazelas indecentes que campeiam soltas por esse Brasil de meu Deus…!!! Li e tornarei a ler esse oportuno texto que gentilmente me enviou, pois ele é de uma atualidade sem igual…!!! Muito obrigado.

    Curtir

  3. Há muito tempo venho acompanhando o seu blog e esse post me surpreendeu, afinal por aí só se encontra discussões superficiais demais. O projeto de vida e de desenvolvimento almejado pelo povo brasileiro, ou a maioria, é o modelo estadunidense e isso não tenho dúvidas: CONSUMO, CONSUMO e CONSUMO. E nisso entra os nossos recursos dito naturais, que vão acabar um dia. Falta muita consciência humana e ambiental sobre o progresso desenfreado propagado por aí e que culminará com uma grande catástrofe em moldes hollywoodianos. Uma pena…

    Curtir

  4. O pior são as pessoas que ainda acreditam que o PT é um partido de esquerda. Gostaria que enumerasse as ações do governo que, de fato, representam a esquerda. Aguardo.

    Curtir

    • Não sou uma dessas pessoas, Diego. O PT se transformou em um partido de direita com bons programas sociais. Ainda assim, infinitamente menos pior do que o neoliberal e ultradireitista PSDB.

      Curtido por 1 pessoa

  5. Por que intelectuais como Vladimir Safatle desprezam a receita mais eficaz, testada e aprovada para a redução de pobreza? Falo do crescimento econômico. Qualquer país que vive uma ou duas décadas de altas consecutivas do PIB vê massas humanas deixarem a miséria.

    China: 680 milhões de miseráveis a menos desde que as fábricas capitalistas apareceram, há 35 anos. Indonésia: redução de pobreza de 54% para 16% em 18 anos. Coreia do Sul: tão pobre quanto a Índia em 1940, virou um dos países mais ricos do mundo depois de crescer em média 8% ao ano entre 1960 e 1980.

    Essa receita deu tão certo que levou o mundo a superar, cinco anos antes do previsto, a meta estabelecida pela ONU, em 2000, de cortar pela metade o número de pessoas que viviam com menos de US$ 1,25 por dia. Quase tudo isso aconteceu sem cotas sociais, sem Bolsa Família, sem alta de impostos. Só com geração de riqueza.

    É uma excelente notícia, que deveríamos comemorar –mas por que Safatle não participaria da festa conosco? No artigo “Demagogia” (29/4), na Folha, ele reclama de quem prefere discutir o crescimento econômico em vez de se concentrar no “caráter insuportável” dos arcaísmos brasileiros (mas a expansão da economia é melhor arma contra esses arcaísmos!). Noutro artigo, diz que a atividade econômica só faz produzir desigualdade.

    Dá pra entender o desprezo. Admitir a importância da alta do PIB na redução da pobreza implica em reconhecer verdades dolorosas. A primeira é que quem atrapalha o crescimento da economia atrapalha os pobres. Afugentar investidores resulta em menos negócios, menos vagas, menores salários.

    Outra é que os interesses das classes nem sempre divergem. PIB em alta faz bem para pobres, remediados e magnatas. Os anos recentes do Brasil são um exemplo disso. Entre 2007 e 2012, vivemos uma impressionante redução da miséria. Enquanto isso, o número de milionários subiu de 120 mil para 165 mil. Não há motivo para fomentar conflito entre motoboys e donos de jatinhos.

    Mas o fato mais difícil de reconhecer é que os filósofos de palanque e os bons mocinhos tiveram um papel irrelevante na redução da pobreza. Se crescimento da economia ajuda os pobres, isso se deve a seus protagonistas, ou seja, os homens de negócio, alguns deles ricos, quase todos interessados somente em botar dinheiro no bolso.

    Pior ainda, Safatle teria que admitir que os negociantes aliviaram a condição dos pobres fazendo justamente aquilo que mais incomoda os intelectuais ressentidos: lucrar explorando mão de obra barata. Capitalistas costumam atrair competidores, criando uma concorrência por empregados, elevando salários.

    Intelectuais costumam reservar para si um lugar mais elevado que o de comerciantes na sociedade. É difícil terem generosidade para admitir que uma de suas causas mais nobres depende de negociantes mundanos. Por isso, o filósofo prefere ficar do lado da ideologia, e não do lado dos pobres, o que me faz acreditar que ele é movido por um ressentimento contra os ricos, talvez um desejo puritano de conter seus excessos. E não uma vontade genuína de reduzir a pobreza.

    Curtir

  6. Pingback: A bizarra ideia de que um gestor nos salvará | Blog da Milly

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s