Comportamento/Economia/Futebol

Como o Capitalismo Matou o Futebol

Os times entram juntos em campo. Em perfeita ordem. Ao redor do gramado existe um estádio novo, imponente, moderno – e igual a todos os outros. Um certo exigido padrão. Corinthians e Palmeiras perderam suas malocas e ganharam arenas. Os lugares são marcados, tudo em nome da disciplina. Em volta, telões que estampam as mensagens dos patrocinadores, os verdadeiros donos da festa.

Juiz apita e sabemos que a bola será agredida por 90 minutos. A bola e o nosso amor por uma camisa. Os times jogam todos mais ou menos igual. Faltas, simulações, cruzamentos na área, umas poucas chances de gol. Há muitos anos deixamos de dar valor ao que acontece dentro de campo para voltar nossa atenção para o que se passa fora dele. Abandonado e retrancado, o futebol começou a adoecer.

Hoje trata-se de um jogo que deveria, se tivesse vergonha na cara, coisa que não tem, não aceitar mais ser chamado de futebol. É uma atividade esportiva, sem dúvida, mas virou alguma coisa entre o nosso antigo futebol e o futebol americano, esse que tão bem sabe usar a ordem e a beleza que só o lucro produz. Corre-se um pouco, falta. Bate-se, avança-se mais uns metros, outra falta. Bate-se, avança-se mais uns metros e ficamos assim até que, com sorte ou erro do rival, chega-se perto do gol, ou o adversário recupera a posse da bola e o balé se inverte.

Estive dia desses em uma arena em New Jersey para ver um jogo de futebol americano. Tudo acontece na mais perfeita ordem. O jogo rola e os patrocinadores fazem a festa do lado de fora. Até a hora em que deve-se abanar a toalhinha gentil e gratuitamente oferecida por uma empresa, com o logo devidamente estampado, é anunciada pelo alto-falante. O estádio fica bonito, todos em pé, braços erguidos, toalhinhas tremulando.

Mas nada é espontâneo, e a beleza das coisas armadas e premeditadas jamais alcançará a grandiosidade das manifestações naturais. Somos uma sociedade orquestrada, manipulada, bovina. O que colabora para que permaneçamos quietos, isolados, passivos. Aceitamos o controle de bom grado porque a alternativa – alertam os veículos de comunicação – é o terrorismo que está à espreita. Precisamos de proteção, e em nome dela temos que abrir mão da liberdade. Enquanto isso, que tal comprar esse produto aqui ou aquele ali?

No nosso futebol tudo ficou rigorosamente igual. Até o erro do juiz é igual. Não existe mais o erro original, aquele sobre o qual falaremos no dia seguinte. Os times não estão mais ali por mim ou por você. Estão ali em nome do lucro e da satisfação do mercado – e o mercado não é você ou eu, o mercado é o patrocinador, que é quem paga a festa e gera o lucro. Somos descartáveis nessa triângulação. Aliás, hoje há jogos em que somos proibidos de entrar no estádio.

O torcedor de sofá é o torcedor ideal. Não briga – pelo menos não publicamente – dá audiência – e audiência gera lucro.

Como padronizou-se tudo, não driblamos mais. O drible teve a decência de morrer abraçado à espontaneidade. Quando, num jogo, alguma coisa parecida acontece – ocasionalmente, executado por um jogador desavisado que teima em ressuscitá-lo – quem está no estádio vibra como se fosse um gol.

Mas quem está no estádio? Não mais o torcedor. Hoje estádio é feito de cliente, gente com poder aquisitivo para consumir: de camisas e bonés a comes e bebes. Esse é o fequentador que interessa. A fidelidade não está no grito apaixonado e desesperado, a fidelidade é um número. Uma medida exata. Quanto mais você consumir, mais fiel será considerado. A subjetividade foi enterrada com o drible, faleceram no mesmo acidente.

E toda a vez que me lembro que a subjetividade morreu, penso em Eça de Queirós e em suas Cartas à Fradique Mendes: “Apesar de séculos de geometria me afirmarem que a linha reta é a mais curta distância entre dois pontos, se eu achasse que para subir da porta do Hotel Universal à porta da Casa Havanesa me saía mais direto e breve rodear pelo bairro de São Martinho e pelos Altos da Graça, declararia logo à secular geometria que a distância mais curta entre dois pontos é uma curva vadia e delirante”. Hoje não nos permitimos mais fazer curvas vadias e delirante, mas apenas a corretíssima linha reta, previamente traçada, calculada e aprovada por especialistas.

No mundo ideal, um mundo que levasse o subjetivo na mais alta conta e não oprimisse multidões em nome da fúria do lucro, um estádio construído exclusivamente para o Corinthians seria 80% feito de geral. Uma obra arquitetada filosoficamente para o time do povo. Uma casa, como sempre quisemos. Um estádio para o Zé Mané, esse ilustre, que estaria ali todas as semanas, a despeito da posição do time na tabela, do frio ou da chuva (às favas com a cobertura, as melhores chuvas que tomei na vida foram dentro de um estádio) para incentivar. Mas não se incentiva mais.

O que vale agora é o “essa noite teremos que ganhar”. Até o “bando de louco” foi devidamente embalado e virou produto de marketing. Pelo que sei, seu criador, um apaixonado de arquibancada, nem foi levado em conta nessa coreografia pornô que fazemos todos os dias para o prazer hedonista do Deus Mercado. Produto bom vai logo para as mãos de quem pode lucrar em massa com ele, a despeito do pontapé moral que tenhamos que dar no apaixonado que o inventou. Ganhar é obrigação, e o xingamento a forma de fazer com que nos escutem.

O capitalismo só quer saber de vencedores, não há espaço para derrotados e fracassados, muito menos para o espontâneo, ainda que só a derrota e o fracasso ensinem e formem caráter. Mas não pode mais. Perder é uma vergonha. Time que só perde não fatura muito em direito de imagem, não vende produtos, não conquista patrocinadores polpudos. Os jogadores entram juntos, em perfeita ordem, e sabem que estarão se apresentando para o patrocinador, não mais para você ou para mim. A verdadeira relação entre o autêntico futebol brasileiro e o atual sistema capitalista sob o qual vivemos – e morremos – se chama contradição.

Quando eu era pequena me ensinaram que o comunismo era horrível porque ele deixava todo mundo igual. Era uma uniformidade miserável esse troço de comunismo, por isso era urgente evitar. Mas hoje entendo que o que uniformiza é o capitalismo, esse que vive do padrão, das planilhas e dos cálculos exatos para se chegar ao lucro e à fórmulas vencedoras. O futebol não é mais sentido, apenas estatisticamente analisado. Time A fez X cruzamentos na área. Time B teve 52% de posse de bola. Time A nunca venceu time B jogando com uniforme 2 em jogos das 16h. Time B tem 32% de aproveitamento em partidas fora de casa… Até que mudemos o sistema econômico que nos embala o futebol continuará a morrer, um domingo por vez.

12 pensamentos sobre “Como o Capitalismo Matou o Futebol

  1. Esse negócio de te elogiar já tá repetitivo rs. Então vou começar a usar palavrões, pq tem coisas e/ou pessoas que são tão boas nessa vida que só um palavrão pra poder explica-las: E vc Milly, é foda pra caralho! coisa tb que usamos muito no calor da emoção do futebol…pq ô coisinha boa é a emoção que o futebol nos dá!
    Uma pena que as emoções estão sendo engessadas… tudo ficando automatizado. Mas, olha, ainda há lugares aqui no Nordeste em que o capitalismo não chegou (no futebol), e isso tem o lado bom e o lado ruim.
    O lado ruim é que não se mostra nenhum time, não se aparece nada na TV, pq nao vende, nao se investe em muitos times nordestinos e consequentemente não tem retorno econômico. Os coitados são deixados de lado…
    O lado bom… pense num povo que torce por amor? que ama a camisa do time? é esse povo sofrido e esquecido até no futebol! Se emocionam numa pelada de fim de tarde como se fosse a final do campeonato brasileiro, que, diga-se de passagem, tem ficado cada vez menos emocionante com esse negócio de pontos corridos, e times ganhando matematicamente bem antes do término do campeonato.
    Aqui não tem isso não…aqui tem emoção na veia. Não se quer saber de Libertadores, primeira ou segunda divisão. Se quer saber da bola e dos homens correndo atrás dela, dos olhares fixos de quem os assiste, do coração acelerando, da emoção… pura emoção!
    Aqui no Nordeste, Milly, uma partida de Futebol ainda é como você, FODA PRA CARALHO!
    Beijos, e obrigada por mais um texto!

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  2. Perfeita sua postagem.
    Acertou na mosca ao mostrar o que se passa com o nosso futebol;
    Lembro Caetano: “Da força da grana que ergue e destrói coisas belas”.
    Parabéns!

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  3. SÓ VC PARA EXPRESSAR TÃO BEM O QUE VENHO PENSANDO HÁ TEMPOS – E TEM MAIS – A QUANTIDADE DE JOGOS, CAMPEONATOS… NOS DIAS, QUE ANTES SERIAM DE TREINOS E DESCANSO, NÃO IMPORTA A QUANTIDADE DE LESÕES QUE ISTO PROVOCA… CADA VEZ ME ENCANTO MAIS COM O QUE VC ESCREVE – MORRO DE INVEJA…RS

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  4. Penso assim também. O Maracanã, idealizado por Mario Filho para abrigar classes distintas (tinha espaço para todo mundo), foi extinto. Hoje pertence aos mauricinhos comportados e sem emoção. Volta Geral já!

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  5. “O capitalismo só quer saber de vencedores, não há espaço para derrotados e fracassados, muito menos para o espontâneo, ainda que só a derrota e o fracasso ensinem e formem caráter”

    —- neste caso, times como Red Sox, 86 ANOS sem ganhar nada, ou o Chicago (105 anos, ou coisa assim, e ainda não ganhou), no berço do malvado capitalismo (olá, ensino médio!), com fãs ardorosos e fanáticos, com ídolos e vilões, são puras fantasias.

    “No mundo ideal, um mundo que levasse o subjetivo na mais alta conta e não oprimisse multidões em nome da fúria do lucro, um estádio construído exclusivamente para o Corinthians seria 80% feito de geral”

    Num “mundo ideal”, essa coisa impossível POR DEFINIÇÃO, todos os presentes seriam servidos de comida e bebida, churrasco e lagosta, caviar e tropeiro, blue label e skol, assim como acesso a bandeiras e cabines silenciosas, e escolheriam entre sentar, deitar ou ficar em pé.

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  6. Sempre que visito seu blog, não consigo ler apenas uma de suas publicações. Tudo que leio aqui parece que foi tirado do meu subconsciente. Pensamentos que eu poderia perfeitamente ter, mas que não afloraram e não encontraram meios para se expressar tão bem como você os descreve aqui. Com estas palavras só quero dizer o quanto concordo com você. Parabéns Milly!

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  7. Por que intelectuais como Vladimir Safatle desprezam a receita mais eficaz, testada e aprovada para a redução de pobreza? Falo do crescimento econômico. Qualquer país que vive uma ou duas décadas de altas consecutivas do PIB vê massas humanas deixarem a miséria.

    China: 680 milhões de miseráveis a menos desde que as fábricas capitalistas apareceram, há 35 anos. Indonésia: redução de pobreza de 54% para 16% em 18 anos. Coreia do Sul: tão pobre quanto a Índia em 1940, virou um dos países mais ricos do mundo depois de crescer em média 8% ao ano entre 1960 e 1980.

    Essa receita deu tão certo que levou o mundo a superar, cinco anos antes do previsto, a meta estabelecida pela ONU, em 2000, de cortar pela metade o número de pessoas que viviam com menos de US$ 1,25 por dia. Quase tudo isso aconteceu sem cotas sociais, sem Bolsa Família, sem alta de impostos. Só com geração de riqueza.

    É uma excelente notícia, que deveríamos comemorar –mas por que Safatle não participaria da festa conosco? No artigo “Demagogia” (29/4), na Folha, ele reclama de quem prefere discutir o crescimento econômico em vez de se concentrar no “caráter insuportável” dos arcaísmos brasileiros (mas a expansão da economia é melhor arma contra esses arcaísmos!). Noutro artigo, diz que a atividade econômica só faz produzir desigualdade.

    Dá pra entender o desprezo. Admitir a importância da alta do PIB na redução da pobreza implica em reconhecer verdades dolorosas. A primeira é que quem atrapalha o crescimento da economia atrapalha os pobres. Afugentar investidores resulta em menos negócios, menos vagas, menores salários.

    Outra é que os interesses das classes nem sempre divergem. PIB em alta faz bem para pobres, remediados e magnatas. Os anos recentes do Brasil são um exemplo disso. Entre 2007 e 2012, vivemos uma impressionante redução da miséria. Enquanto isso, o número de milionários subiu de 120 mil para 165 mil. Não há motivo para fomentar conflito entre motoboys e donos de jatinhos.

    Mas o fato mais difícil de reconhecer é que os filósofos de palanque e os bons mocinhos tiveram um papel irrelevante na redução da pobreza. Se crescimento da economia ajuda os pobres, isso se deve a seus protagonistas, ou seja, os homens de negócio, alguns deles ricos, quase todos interessados somente em botar dinheiro no bolso.

    Pior ainda, Safatle teria que admitir que os negociantes aliviaram a condição dos pobres fazendo justamente aquilo que mais incomoda os intelectuais ressentidos: lucrar explorando mão de obra barata. Capitalistas costumam atrair competidores, criando uma concorrência por empregados, elevando salários.

    Intelectuais costumam reservar para si um lugar mais elevado que o de comerciantes na sociedade. É difícil terem generosidade para admitir que uma de suas causas mais nobres depende de negociantes mundanos. Por isso, o filósofo prefere ficar do lado da ideologia, e não do lado dos pobres, o que me faz acreditar que ele é movido por um ressentimento contra os ricos, talvez um desejo puritano de conter seus excessos. E não uma vontade genuína de reduzir a pobreza.

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  8. Aconteceu comigo recentemente… ao entrar na Arena do Palmeiras (para o show do Paul McCartney, pq se vc não é sócio-torcedor e não paga todo mês uma quantia vc não consegue mais ir em jogos importantes), minha primeira reação foi ficar maravilhada… como tudo era organizado, bem feito, bonito e moderno. Já a segunda reação, que dura até hoje, foi chorar escondida. Passei anos bradando um “que saudade do Palestra!”, e de repente entedi que o Palestra nunca mais vai voltar. As arquibancadas, os “jardins suspensos”, as luzes piscando no prédio ao lado… E tudo isso em nome de quê, né? Toda uma história terminando em forma de entulho no estádio do rival, com muitas gozações e, aparentemente, a tristeza de poucos como eu.

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  9. um texto meramente sem sentido, pois um torcedor como eu ama seu time, vibra a cada dibre, a cada gol, e sente felicidade em cantar juntamente com sua torcida. O capitalismo veio não somente em visão de matar o futebol , ele que nôs da uma estrutura de estádio, de patrocínio para que nosso time consiga novos jogadores, que resultarão em titulos e titulos que resultarão em nossa felicidade. Felicidade essa a qual você não teve a escrever um texto desse quase completamente nexo, se vivesse a real emoção que é amar um clube não teria escrevido tanta asneira.

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