Comportamento/Política/Vida

O homem morto na esquina

Estava voltando para casa hoje de manhã quando vi o homem caído na esquina da rua 14 com a 1 avenida. Não é especialmente uma novidade encontrar sem-tetos caídos pelas ruas de Nova York; quem vem à cidade percebe facilmente como aumentou a população de mendigos nas calçadas, e, se a simples constatação não for suficiente, basta que as muitas pesquisas sobre isso sejam lidas. Os abrigos estão lotados e faltam camas, o que, com temperaturas negativas, deixa a situação ainda mais dramática.

Mas o homem caído na esquina me chamou a atenção porque ele não me parecia estar dormindo nem bêbado. Sou dessas pessoas que se impressionam com sangue e gente machucada então evito olhar. Por isso, andando na direção do homem e vendo a horda de pedestres que passam por essa esquina todos os minutos do dia indo e vindo dizia a mim mesma “não olha, não olha”. Mas, claro, olhei. E o que vi foi um homem morto.

Não tenho experiência com cadáveres, mas acho que quando o corpo de alguém está completamente roxo não há mais circulação e se não há mais circulação não há mais batimento cardíaco e, portanto, vida. E, assim como eu, muitas pessoas olhavam e não paravam, com exceção do rapaz que parou, olhou e começou a fotografar.

A cena inteira, assim como minha reação diante do homem morto, me chocaram por horas. Embora eu acredite que a morte, dada sua inevitabilidade, deva ser considerada banal e corriqueira, uma vida não pode ser considerada banal e corriqueira. E a imagem de um homem morto na esquina, irremediavelmente ignorado por dezenas e dezenas de pessoas numa das maiores e mais movimentadas cidades do mundo, indica em cores muito fortes que alguma coisa está muito errada com a forma como vivemos hoje.

Não pode ser normal que pedestres passem sobre um corpo e sigam suas vidas como se nada tivessem visto, como se nada tivessem sentido. O diabo das distopias é que elas parecem saltar aos olhos apenas nos filmes; quando nos achamos vivendo dentro de uma tudo parece normal e, ocupados e entretidos com o corre diário, acabamos demorando para entender que já estamos mergulhados no absurdo.

Há alguns dias fui a uma aula de economia do professor americano Richard Wolff, um dos maiores e mais eloquentes críticos do capitalismo e também o maior especialista em marxismo no mundo. Não é novidade para ninguém que vivamos em um mundo no qual os 70 mais ricos concentrem tanta riqueza quanto metade da população do planeta, e antes mesmo que o livro de Piketty chocasse a todos ao escancarar o tamanho da desigualdade e prever que se nada for feito dias muito piores virão, o bom observador já teria sido capaz de entender que o capitalismo, assim como o homem da esquina, morreu. E, também como o pobre coitado da esquina, continuamos a fingir que nada aconteceu com o capitalismo (não custa repetir para que o absurdo seja fincado: 70 homens e mulheres, e mais homens que mulheres, têm tanto dinheiro hoje quanto 3,5 bilhões de pessoas) .

Na aula que eu assisti, Wolff deixa pouco espaço para que o sistema econômico que substituiu o feudalismo consiga se reinventar, e ele explica por que: A morte do capitalismo se deu em 2008, quando bancos, seguradoras, montadoras etc quebraram. O cataclismo levou aqueles que durante 30 anos amaldiçoaram o governo dizendo que o governo jamais deveria regular a economia, que jamais poderia se meter, que deveria ser quase invisível, recorressem ao governo de joelhos implorando pela salvação.

E é nesse ponto que o capitalismo escancarou toda a sua esquisitice.

Diante do pedido para que os governos salvassem essas corporações, politicos de todos os cantos disseram: tomem aqui o dinheiro. Querem mais? Tomem mais. Não se preocupem, vamos salvá-los. Foram trilhões de dinheiros nesse processo de salvamento coletivo. Wolff pergunta: vocês sabem de onde veio esse dinheiro? Sim, sabemos, dos governos. Mas de onde os governos tiraram? E a resposta é bastante perturbadora.

Para poder emprestar esse dinheiro às corporações os governos emprestaram esse dinheiro das corporações porque não é exatamente que elas não tivessem esse dinheiro, é que, diante da quebradeira geral, quem não havia quebrado não queria fazer o dinheiro circular por medo de que ele jamais fosse voltar. E, claro, para pegar emprestado esse dinheiro o governo pagou juros às corporações, aumentando sua dívida em bilhões e bilhões.

E o que fazem governos endividados? Primeiro, cortam programas sociais, deixam de construir abrigos e hospitais e escolas e rodovias. Depois, aumentam a taxação. Mas aumentam a taxação sobre quem? Bem, não sobre as corporações e os grandes empresários porque, afinal, eles geram empregos e devem ser poupados. Aumentam sobre você e sobre mim.

E aqui damos a volta completa. Quem, então, salvou as grandes corporações e deu sobre-vida ao capitalismo? O povo. Você, eu, sua irmã, sua mãe, seu cunhado… Nóis.

E “nóis”, sem conseguirmos aumentos, mas pagando mais impostos, passamos a ganhar menos. Ganhando menos, e sem acesso a saúde, transporte, educação e moradia achamos que a saída era trabalhar mais, acumular empregos. Com isso, a vida entrou em decadência. Vivemos hoje em constante estado de stress, melancolia e desespero.

Voltamos portanto ao homem morto na esquina.

Ele devia ter uns 50 anos, era branco e parecia bastante forte. Um homem assassinado pela esquizofrenia do sistema econômico que nos embala; um homem que, assim como o capitalismo, morreu mas ninguém percebeu.

12 pensamentos sobre “O homem morto na esquina

  1. Enquanto não vermos e reflertirmos sobre a morte do homem, viveremos na ilusão de que os sistemas econômicos nos salvarão de morrermos também!

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  2. Milly, eu não sei… Concordo que o capitalismo desenfreado causa grandes males, mas não consigo enxergar soluções no socialismo também.
    Acredito que um capitalismo moderado, aonde o estado de bem-estar social sja a prioridade, seja a grande solução. Mais ainda: que exista algum tipo de auxílio para essas pessoas que estão sob total estado de miséria, morando embaixo de viadutos e na rua.

    Adoro seus textos! 🙂
    Abração.

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    • Muito obrigada, Lucas. Também não sei muito sobre como sair disso, mas o que precisamos é reconhecer que esse sistema morreu e, a partir disso, criar um outro.

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  3. Oi, Milly.
    É, realmente, uma pena que você não escreva com mais frequência, mas, entendo perfeitamente.
    Suas postagens são excelentes: sensíveis e altamente realistas.
    Passo diariamente por aqui.
    Em 1989, em conversa com um padre amigo meu sobre a queda do Muro de Berlim, disse a ele que nós estávamos presenciando, com esse fato, o início da derrocada do capitalismo.
    Obrigado por me fornecer a data do falecimento.
    Parabéns!
    Um abraço.

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  4. Oi Milly, suas reflexões nos fazem pensar profundamente sobre este “modelo perverso”, e o quanto ele influencia nas nossas vidas cotidianas, e o pior é que nem nos damos conta disso. Então, esta relação que fazes do “O homem morto na esquina” vem bem a calhar neste momento de tantas indagações sobre os modelos sociais, políticos econômicos e os nossos futuros… Obrigado pela “aula de hoje”. Valeu! Tu me fez lembrar dos tempos de criança que viamos os pintinhos mortos no galinheiro, e aqueles vivos continuavam siscando o solo e bicando a ração no entorno como se nada tivesse acontecendo de extraordinário, cruz credo é arrepiante!!! Será que estamos involuindo como seres humanos???

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  5. Há muitos anos, meu sogro, que já se foi, tb há muitos,dizia que os planos de aposentadoria privada com o tempo, quebravam, os empresários depositavam o dinheiro no exterior e o governo é que tinha de arcar com o prejuízo. Meus pais que morreram na década de 70, tinham apólices de seguro de vida. Quando precisaram eu as achei e constatamos o absurdo – cada apólice valia 10 centavos.

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  6. Milly adoro quando textos mudam meu olhar sobre as coisas cotidianas. Vocé faz isso. Me ajuda a parar, pensar e tentar mudar alguma coisa pra salvar esse mundo (na minha humilde contribuição). Beijos

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  7. Engraçado…esse pessoal da “esquerda” vai passar um tempo fora justamente nos Estados Unidos, berço do Capitalismo e das ideias liberais….passar uns meses em Havana ou Caracas ninguém quer…

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    • Junior, isso acontece principalmente porque a qualidade de vida que o capitalismo porporciona ao pessoal de “esquerda” e maravilhosa. Afinal, se em NY a blogueira viu um cadaver, em Caracas a probabilidade de ver cadaveres é muito maior.
      É só levar em conta que enquanto NY, com quase 9 milhões de habitantes, teve 328 homicídios em 2014, Caracas, com uma população de 4 milhões, teve 5 mil homicídios no mesmo ano. Quer dizer, com um volume de cadáveres tão mais alto, a probabilidade da blogueira encontrar um motivo para se indignar com o “sistema” local, também é mais alta.
      Por mais romantico que seja odiar o capitalismo e os EUA, fica difícil para a esquerda construir qualquer argumentação racional que proponha uma mudança de fato. A realidade é que por mais imperfeito que seja o capitalismo em países como EUA, Canada, Australia, Inglaterra, nesses lugares onde há mais liberdade de expressão, mais liberdade economica, melhor estado de welfare, melhores níveis de educação e etc do que outros países que adotam sistemas “social-bolivariano” ou qualquer outra porcaria sugerida pelos defensores do socialismo (que alias hoje em dia mais reclamam do que sugerem mudanças viáveis).
      Para quem acha que níveis de violência, educação, saúde, infraestrutura, cultura, direitos sociais são próximos entre países bolivarianos e os países citados acima, não existe nem debate. Primeiro deve se conhecer os fatos, para depois formar uma opinião.

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