Economia/Política/Vida

Os Novos Estados Totalitários

A edição de 22 de dezembro do New York Times publicou editorial com o título “Direitos do Trabalhador do Mc Donald’s”. Quando o New York Times, que a cada dia parece guinar mais à direita, se sente no dever de criticar a mega corporação em relação a direitos trabalhistas é porque o caso é muito mais grave do que podemos supor.

A história é a seguinte: Há dois anos os trabalhadores do Mc Donald’s nos Estados Unidos decidiram ir à publico com reivindicações. São dois os pedidos. O primeiro é para que o salário mínimo seja de 15 dólares por hora. O segundo é para que eles possam se unir em um sindicato sem sofrer retaliações por parte da corporação.

O movimento que começou em Nova York já se espalhou por mais de 100 cidades americanas. Na sexta, dia 19, o governo federal validou algumas das preocupações dos trabalhadores em relação à forma como são tratados pelo Mc Donald’s, entre elas a da violação dos direitos dos funcionários de lutarem por melhores salários e condições de trabalho. Ou seja: a corporação não apenas se nega a negociar um maior salário e condições de trabalho como, na surdina, retalia quem tenta fazê-lo. Como? O New York Times explica.

As violações, segundo o jornal, envolvem conduta coerciva contra os trabalhadores que suportam os protestos, incluindo ameaças, sistema de vigilância sobre o trabalhador, interrogatórios, demissões, disciplinas discriminatórias, horas de trabalho reduzidas e restrições excessivas sobre conversas que dizem respeito a sindicatos e condições de trabalho. O New York Times pergunta: Não seria mais fácil simplesmente negociar termos e condições de trabalho com os trabalhadores?

E como continuar a forçar a mão por salários miseráveis, negando um mínimo de 15 dólares por hora diante do lucro cada vez maior que a corporação apresenta a seus acionistas ano após ano?

Claro que colocado dessa forma o caso já é absurdo. Mas vamos tentar ver sob outro ângulo e piorar um pouco as coisas.

Se fosse um país o Mc Donald’s seria a 70* maior economia do mundo (a medida pode variar, mas ele estaria por aí nesse ranking hipotético). Algumas das maiores corporações do planeta são também, seguindo esse raciocínio, as maiores economias do mundo, e o argumento é usado com fervor e devoção por todos aqueles que se curvam ao neo-liberalimso e às belezas do Mercado e da falta de regulação, que são os mesmos que dizem fazer isso em nome da democracia. Mas acontece que essas corporações não funcionam de forma muito democrática: uma dúzia de pessoas, nomeadas por uns poucos, decide tudo a respeito da empresa e dá as ordens que devem ser cumpridas por dezenas de milhares.

E embora seja assim há muitas décadas o que estamos vendo essas corporações fazerem com os funcionários nunca foi alcançado por nenhum estado totalitário na história: câmeras que vigiam seus passos, trabalhadores revistados na saída para que se tenha certeza que não roubaram nada (no esquema “primeiro bate o ponto depois entra aí na fila e fica mais uns bons minutos aqui até que chegue sua vez de ser revistado”), ameaças, interrogatórios, manipulações para que não se unam em sindicatos… a lista é tão grotesca que Mao e Stalin, que tanto nojo causam à causa neo-liberal, se fossem vivos poderiam buscar ensinamentos junto às grandes corporações para aprimorar técnicas de patrulha, coerção e censura.

Aqueles que defendem tanto a democracia talvez devessem começar a pensar em que tipo de emprego tem sido oferecido à população pelo mundo, e refletir se esse tipo de trabalho não se assemelha mais a uma escravidão porcamente remunerada. E essa é boa hora para dizer que as diferenças entre os que ganham menos e os que ganham mais dentro de uma corporação como essa pode chegar a 400 vezes, o que já diz muito sobre a desigualdade que não para de crescer.

Mas aí me perguntam: então o que você propõe? Eu não proponho nada porque sou uma anta, mas sugiro que olhemos, por exemplo, para a Mondragon, um conglomerado de 120 empresas e 25 bilhões de dólares em vendas anuais e cuja sede fica no País Basco, Espanha.

A Mondragon tem 85 mil membros, ou funcionários, sendo quase metade deles mulheres. Todos os 85 mil são donos da empresa e administram o conglomerado através de conselhos realizados periodicamente, sendo um deles maior, que é o anual. Nesse encontro anual todos os funcionários decidem coisas como: o que será produzido, como será produzido, em que quantidade, qual o preço e para onde será vendido. E também avaliam a performance do gerente geral, ou CEO, e decidem se ele continua no cargo.

A diferença entre o maior salário (o do CEO) e o menor salário não pode ser superior a quatro vezes. O conglomerado inclui indústrias, um banco, supermercados, laboratórios, sem falar em uma universidade e em uma escola. No final do ano, 10% do lucro é colocado em um fundo, 45% é reinvestido e os outros 45% são distribuídos entre todos, mas da seguinte forma: o dinheiro vai para um fundo de pensão em nome de cada membro e será usado para a aposentadoria, mas entre esse bolo 7% é dado, em dinheiro, ao trabalhador no fim do ano. E todas essas regras podem ser mudadas a qualquer instante se assim for decidido pelos 85 mil.

O total de assets da Mondragon é de 40 bilhões de dólares. Até uma anta como eu entende que um esquema como esse se parece mais com uma democracia, certo? Apesar do sucesso e de existir desde 1956 a Mondragon permanence sendo quase um segredo, por razões óbvias.

Fica a cada dia mais difícil aceitarmos a desigualdade e o totalitarismo das grandes corporações sem tentarmos encontrar uma saída. Será que não passou da hora de olharmos para a podridão do sistema capitalista, reconhecermos que ele fracassou e começarmos e falar sobre o tipo de possibilidade que a Mondragon oferece?

10 pensamentos sobre “Os Novos Estados Totalitários

  1. Olá, Milly!
    O grande problema da democracia na prática (para os arqueo e neoliberais) é sua incrível semelhança com o socialismo.
    Um abraço.

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  4. Em primeiro lugar, trabalhar no Mc Donalds é um emprego para quem está começando sua vida profissional. Não faz sentido um jovem inexperiente querer já começar faturando alto em seu primeiro emprego, assim como também não faz sentido que um cidadão experiente e competente esteja trabalhando em um fastfood, com 30 ou 40 anos de idade. Um salário de US$ 15,00 a hora daria, ao fim de um mês, o equivalente a US$ 2.400,00, se considerarmos apenas 20 dias de trabalho, com 8 horas diárias. Vejo aqui no Brasil gente com nível superior que rala pra ganhar isso. Vejo muita gente, principalmente esquerdista, sendo a favor de aumento de salário em vez de projeção de carreira. Se a pessoa quer ganhar bem, estude, evolua e consiga um emprego melhor.

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