Comportamento/Futebol/Vida

2014, mais um ano de glória para o futebol da razão

Neymar fez o 200* gol da carreira; Guerrero está quase completando o 100* jogo pelo Corinthians; no primeiro turno do Brasileirão o ataque do São Paulo ficou 60 vezes em impedimento; o Santos completou 505 desarmes em 19 jogos. Para meu sobrinho Marcelo, 8 anos, são-paulino e passando por aquela fase em que futebol é a única coisa que importa na vida, essas informações são fundamentais.

O futebol é para ele um esporte matemático. Quando nos sentamos para ver juntos uma partida temos experiências completamente diferentes – e não apenas porque torcemos para times rivais. Enquanto Marcelo quer a análise pela estatatística eu quero a avaliação subjetiva, essa que vem com sensações e emoções.

Aprendi a amar o jogo nos anos 70, época em que mesmo quando o recém-inventado vídeo tape provava que houve penalti contra nosso time tínhamos o direito de concluir que o vídeo tape era burro (ah, Nelson Rodrigues, nunca haverá outro reacionário tão genial quanto você).

Vejo meu sobrinho, inundado pela forma como o futebol é comentado hoje, racionalizando o jogo e sinto uma pontada no peito. Será que um dia ele se permitirá apenas experimentar a sensação? Será que saberá gastar a calça na arquibancada e sair sem voz de tanto gritar depois de uma vitória aos 45 do segundo tempo ou preferirá aplaudir o time e, na volta para casa, ver quantos passes certos foram dados? Será que conseguirá abraçar o estranho sentado ao lado depois de um gol improvável e inexplicável? Onde haverá lugar para toda a abstração do futebol na forma como ele está aprendendo a amar o jogo? Como aprenderá a sofrer e, mais do que isso, como absorverá a beleza que só existe no sofrimento? Como não se curvará diante da ditadura da vitória? Como aprenderá que algumas derrotas não se explicam? Que o jogo é injusto e que é apaixonante porque é o único que é tão injusto – e sublime – quanto a vida?

Outro dia o irmão dele e eu entramos numa discussão sobre quem era o melhor jogador do mundo. Eu dizia Messi e ele Cristiano Ronaldo. Por que, perguntei? Porque ele ganhou a eleição da FIFA, respondeu. Mas eleições não medem emoção, respondi. Ele me olhou por alguns segundos e depois pediu um sorvete.

Sei que é difícil escapar da imposição social que nos obriga a ser o melhor, a ser bem sucedido (em outras palavras a “ter dinheiro”), a ser sempre vitorioso, mas eu tinha a ilusão de que o futebol poderia continuar a ensinar que, na vida, se ganhar é bom, perder é fundamental. E esse jogo de estatísticas que hoje nos inunda não comporta o subjetivo.

É, outra vez, importar o modelo americano de “ver a vida” sem levar em consideração que esportes como baseball e basquete são muito mais estatísticos do que o futebol, e que eles  são uma sociedade prática e nós somos românticos. É, outra vez, deixar que o jogo nos transforme culturalmente, quando a cultura é que deveria se impor sobre o estilo – e a análise – do jogo.

Talvez Marcelo e eu nunca vejamos o mesmo jogo, e talvez ele nunca saiba que um dia o futebol não se explicava, apenas se sentia.

5 pensamentos sobre “2014, mais um ano de glória para o futebol da razão

  1. Em 2011, quando a Lusa se classificou para as finais do Paulistão ganhando do São Bernardo de 1 x 0, escrevi isso:

    VALE MUITO

    Aí, aos 44 do segundo tempo, o rapaz de nome Ananias fez o gol, e meus moleques pulam como nunca, gritam como nunca, abraçam o pai e os desconhecidos na arquibancada, e têm o diazinho mais feliz de suas vidas.

    Aí eu abro os jornais no dia seguinte, e ouço as rádios e as TVs, e leio e ouço e vejo que esse campeonato não vale nada, que os grandes estão cheios de tédio, que isso tudo acabe logo para começar o que importa, o que vale.

    E então percebo que estão, estamos, talvez, totalmente descolados da realidade. Como assim, não vale nada?

    Vou contar uma historinha.

    Meus meninos têm 12 e 11 anos. Vão aos jogos do seu time desde quando não conseguiam andar direito e eu tinha de carregar cada um num braço, e subir os degraus até lá no alto, porque eles gostavam de ver aquele campo enorme, um mundo novo e verde estava se revelando, com onze de cada lado, e uma porção de gente assistindo, e gritando, e xingando. Aprenderam a assistir, a gritar, a xingar, a cantar, aprenderam as regras sozinhos, tomaram posse daquele mundo que, no começo, era apenas uma imensidão verde que se via lá do alto, do último degrau.

    Ontem, na arquibancada quente, de cimento, havia dezenas, centenas de garotinhos como eles. E eu vi seus olhinhos brilhando. Eu ouvi do meu mais novo, já no carro, voltando para casa, que ontem ele ia dormir mais leve.

    E vêm os escribas e os locutores do alto de seus púlpitos e de sua pequenofobia para afirmar que não, isso não vale nada.

    É uma espécie de bullying, uma crueldade talvez involuntária, mas ainda assim uma crueldade.

    Que direito tem alguém de ir aos jornais ou à TV e dizer para uma criança de 11 ou 12 anos que sua alegria, sua felicidade, não vale nada? Quem foi que nos deu, a nós jornalistas esportivos, essa prerrogativa divina e sacra de dizer a uma criança qual o tipo de coisa pela qual vale a pena ficar feliz e chorar de alegria?

    Eu vi os olhinhos dos meus meninos brilhando. Discretamente, um deles até enxugou algumas lágrimas. Eu até chorei, pai, disse no carro, e o outro disse que não chorou, mas quase.

    Elas, essas lágrimas, valem muito. Mais do que todos os reais versus barcelonas desta e das próximas semanas, e de todos os que ainda hão de acontecer até o fim dos tempos.

    Elas valem mais do que as cifras repletas de zeros que os jornais e as TVs brandem quando tratam do preço de um ganso, ou do valor de uma arena (arena?), ou dos direitos de transmissão.

    Sobram números frios aos meus colegas, mas falta a eles o calor de uma arquibancada de cimento duro num domingo de sol. Falta a eles, e tem faltado a muita gente, olhar nos olhos de uma criança quando ela vê o goleiro do seu time subir no alambrado para olhar nos seus olhinhos. Falta ver de perto um garotinho arrancar a camisa suada e abraçar o pai com a cabecinha colada no peito junto ao distintivo.

    Ninguém tem o direito de dizer que isso não vale nada. Ninguém tem o direito de dizer a uma criança que sua felicidade não vale nada, só porque ela eclodiu de repente num estádio antigo num torneio menor, e não diante de uma tela de LCD, com transmissão em HD, numa arena climatizada igualzinha às dos videogames.

    A vida real, o futebol de verdade, não está num playstation, nem pode ser visto em HD. Na vida real, os olhinhos das crianças brilham no cimento duro da arquibancada quando seu time faz um gol, e dizer que aquele gol não vale nada é coisa de quem não está entendendo mais nada.

    Curtido por 1 pessoa

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