Comportamento/Política/Vida

O imbecil

Meu ouvido é sensível a algumas palavras e expressões. Se, por exemplo, ouço alguém dizer “diferenciado” já fico em estado de alerta. Diferenciado me enerva. Assim como “porém”, “ordenado”, “primeiramente” e “esposa”. Mais recentemente adquiri repelência à “essa gente”. Tenho escutado muito “essa gente”. Essa gente que agora lota os aeroportos. Essa gente que quer ter os mesmos direitos trabalhistas da patroa. Essa gente que é terrorista. Essa gente islâmica que sai matando em nome de Alá. Essa gente que precisa ser eliminada da face da Terra. Essa gente.

Não há como escutar um “essa gente” dentro de um discurso de ódio e não se abalar. Não existe essa ou aquela gente. Existe a gente. E entre a gente existem imbecis. Mas, mais terrível ainda, todos nós podemos ser imbecis em diferentes fases da vida, ou até em diferentes períodos do dia. Eu, por exemplo, acordo e peço para ser menos imbecil naquele dia. É uma meta. Ser menos imbecil, menos tosca, menos preconceituosa, menos agressiva, menos impaciente.

Claro que existem aqueles que, movidos por ignorância, conseguem ser imbecis por longos períodos da vida. O sujeito que acha que matando artistas que analisam o mundo através de sua obra vai calar a crítica é um imbecil.

Durante muitos anos o papel do imbecil foi exercido pela Igreja, que achava que matando o artista e o cientista poderia impedir que a verdade viesse para a superfície. Mas o cara – ou a entidade ou o estado – que em nome de qualquer crença, seja ela religiosa, política, social ou econômica, mata o artista e o ser humano é um imbecil que precisa ser preso e julgado.

O sujeito que joga a culpa de um atentado terrorista sobre toda uma religião é outro imbecil. O cidadão que associa terrorismo a um grupo específico de pessoas é um tremendo imbecil. O cara que cria uma hashtag pedindo que matemos muçulmanos (ou nordestinos ou qualquer outro grupo de pessoas) é um enorme imbecil.

Imbecil é também aquele que acredita que assassinando o artista ele matará a crítica. Existem muitas formas de tentar podar a liberdade de expressão e tirar a vida de alguém é a menos eficiente e menos inteligente delas.

A mais eficiente e mais inteligente é concentrar o poder e o capital midiático na mão de poucos, um dos alicerces do neo-liberalismo. Essa é mais eficiente porque ela é silenciosa e sutil e, como todas as coisas sutis, nos conduz como gado sem que nos demos conta de que estamos sendo manipulados.

Se pensarmos que existem no mundo 1500 jornais, 1100 revistas, 9.000 estações de rádio, 1500 de TV e 2400 editoras que pertencem a apenas três corporações podemos ter uma ideia de como o discurso da “liberdade de expressão” vociferado por neo-liberais soa desconectado da realidade e de qualquer tipo de fundamento. Não há “liberdade de expressão” que sobreviva a esse tipo de controle e manipulação.

“O jeito inteligente de manter as pessoas passivas e obedientes é limitar ao máximo o spectrum da opinião aceitável, mas permitir empolgado debate dentro desse spectrum” (Noam Chomsky). É precisamente o que estamos vendo acontecer com o caso da Charlie Hebdo, uma tragédia que está sendo sequestrada pela liderança neo-liberal mundial que, delicadamente, faz com que o debate passe a ser sobre a beleza da liberdade de expressão no mundo democrático, esquecendo de dizer que o atual cenário do capitalismo mundial concentra tanto poder e capital nas mãos de poucas famílias que liberdade de expressão passa a ser uma utopia.

A imbecilidade não vê cor, credo, gênero, sexualidade, classe social. A imbeclilidade pode nos atingir a todos e lutar contra ela é lutar contra nossa ignorância. A única forma de sermos menos imbecis é estudar e ler. Buscar informação em fontes confiáveis e assim entender que somos todos feitos de uma mesma susbtância e que se ela é capaz de se inundar de imbecilidade é também capaz de nos inundar de beleza. Capaz de criar máquinas úteis e não apenas as que matam. Capaz de enormes gestos de generosidade e não apenas de cometer assassinatos, capaz de unir e não apenas de separar.

Uma coisa comum ao astronauta que vê a Terra de longe é a noção de que estamos todos dentro de uma mesma nave-mãe. Lá de fora não se enxerga países, bandeiras, povos ou raças porque na verdade essas divisões foram criadas por nossa ignorância para nos separar, e não há nada criado pelo homem que possa nos separar uns dos outros. Trata-de de um depoimento quase unânime do astronauta que volta à Terra: o de que esse planeta, e todos aqueles que o habitam, são uma mesma coisa, uma mesma substância.

Joseph Campbell escreveu que quando Jesus disse “ame ao próximo como a si mesmo” o que ele queria dizer é “ame o próximo porque é tu mesmo”. Se finalmente entendermos isso não haverá mais o seu deus ou o meu deus. Não haverá mais o seu país ou o meu país. Não haverá mais o “meu” e o “seu” porque seremos invadidos pela consciência de que a única salvação possível para tanta dor e tanta miséria é o amor – uma lei tão fundamental para a vida na Terra e para a existência do Cosmo quanto a lei da gravidade.

E se amar aqueles que nos fazem bem e estão perto da gente é louvável e fundamental, amar aqueles que nem conhecemos é o verdadeiro resgate e a mais profunda e pura manifestação do divino.

Eu adoro as palavras “talvez”, “resistência” e “compaixão”. Acho que “talvez” dá a medida de que embora tenhamos uma opinião existe a chance de não estarmos certos. “Resistência” fala de união para que lutemos contra imposições e opressões e assim cheguemos a um lugar mais justo, e “compaixão” oferece a noção de que o ato de “sofrer com” outra pessoa – que é o que a palavra significa – é de todas as manifestações de amor a mais sublime. Sofrer com.

O atentado cometido por imbecis à revista em Paris é um atentado contra todos nós que, em qualquer cantinho desse planeta enorme, tentamos viver da arte e de fazer com ela uma pequena crítica da vida e da condição humana. Que a imbecilidade não nos cale, nos nos impeça de continuar resistindo, não nos deixe usar o “essa gente” e nem nos conduza a gestos de imbecilidade ainda maiores.

20 pensamentos sobre “O imbecil

  1. Ah Milly chorei de novo, de manhã por causa dessa atentado imbecil que tragou vidas inocentes e há pouco com você que verbalizou com muita clareza e fluidez sobre a tal imbecilidade.
    Boa Tarde.
    di

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  2. Engraçado, foi esta a palavra que usei hoje para descrever o atentado e os assassinos.

    Imbecil aquele que acredita que vai calar qualquer expressão com a violência. Mais imbecil ainda quando dá um tiro no pé da religião/credo/filosofia que professa, criando ainda mais animosidade contra essa que, no caso específico de hoje, no caso específico do Islamismo, já é tão rejeitada e detestada por muitos que não a compreendem. Talvez eu não tenha suficiente conhecimento para opinar, mas arrisco dizer que muitos dos próprios muçulmanos não entendem bem os fundamentos da própria religião, confundem as ideias originais – fato que se repete em tantas outras religiões.

    Mais, a respeito de religiões, não opino. Paro por aqui, para não correr o risco de ser, também, imbecil.

    Seu texto é maravilhoso, Milly.

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  3. Sempre me impressiono com o “talento” que nós humanos temos para desumanizar o outro. Uma imagem que acabo de ver no instagram diz: “Je suis Charlie – lembrando que nem todo terrorista é islâmico e nem todo islâmico é terrorista”. Nestas poucas horas de “debate” sobre o episódio, seu texto é uma ilha de alento num mar de ódio religioso e anti-religioso, de xenofobia e racismo.

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  4. Sou um ser humano, por via de regra, irascível, impaciente e ao mesmo tempo movido a paixões – paradoxal, não?! Um dia me disseram que eu era personagem de mim mesma – dona das minhas proprias verdades… Parabéns, Milly! Amei! ; )

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