Comportamento/Política/Vida

Liberdade de expressão e outros sonhos

Em 2006, drones americanos despacharam munição sobre uma pacata vila paquistanesa na esperança de matar Ayman Zawahiri, líder da Al-Qaeda. Na ação, 76 crianças e 20 adultos inocentes morreram, mas Zawahiri não.

Entre maio e agosto do ano passado, o exército de Israel matou dois mil civis palestinos, entre os mortos quase 500 crianças (no mesmo período, 80 israelenses morreram, sendo que 70 eram militares).

Durante a invasão do Iraque pelo exército que lutava “contra o terror”, um hospital foi tomado, seus pacientes arrancados das camas e algemados ao chão. A descrição do que ocorreu naquele dia é de indignar e enojar.

Por motivos que talvez devamos investigar não choramos por nenhum dos árabes assassinados nos três episódios acima, mas quando os terroristas entraram atirando na redação do Charlie Hebdo e chocaram o mundo reagimos em fúria.

Os terroristas ainda fugiam, e os canais de notícia já entravam ao vivo, chamando para a tragédia. Em questão de minutos, analistas politicos avaliavam o cenário no mundo: riscos de novos ataques e críticas acaloradas a respeito do aspecto violento do islamismo, ainda que não houvesse a certeza de que os assasinos eram muçulmanos e mesmo sem jamais terem lido o Alcorão para entender o que ele diz exatamente (até porque, todos os que se deram ao trabalho de estudar e comparar livros sagrados dizem que eles se repetem nas ímplicitas sugestões a violências e defesas de seus profetas e também na beleza de muitos ensinamentos).

Não demorou um dia para que a imprensa mundial jogasse a discussão para o risco de perdermos o direito à livre expressão. Jornais e redes de rádio e TV alertavam para a ameaça da censura via terrorismo, esse que é capaz de matar inocentes em Paris e tentar nos calar.

E, tocados como gado pelo poder da mídia corporativa, nos encontramos discutindo apenas isso: o absurdo de perdermos o direito à livre expressão. O que deveríamos estar nos perguntando é se existe de fato essa liberdade pela qual agora a imprensa mundial brada.

Antes de qualquer outra coisa, o que tinha que ser feito era um levantamento das charges do Charlie Hebdo para entendermos se, talvez, nos sintamos mais à vontade debochando de Maomé do que de Moisés ou de Jesus, e se, sendo esse o caso, não estaríamos submetendo os muçulmanos a uma espécie de bulling, esse mesmo que em dezenas de universidades e escolas americanas muitas vezes cria adolescentes assassinos que dizimam colegas de escola.

O que, evidentemente, não quer dizer que de certa forma entendemos os terroristas porque não há como entender ações de dizimam inocentes, mas para buscar explicações que talvez ajudem a nos tirar desse estado de conflito eterno.

De todas as charges do Charlie Hebdo, quantas eram de críticas ao judaísmo, quantas ao cristianismo e quantas ao islamismo? Não sabemos.

Depois é preciso que nos perguntemos se o fato de termos ignorado ações terroristas de americanos, ingleses e israelenses, mas chorado pelo Charlie Hebdo talvez não signifique que a tal aclamada liberdade de expressão exista apenas parcialmente nesse nosso universo ocidental chamado de democrático.

Vejamos.

Alguém ficou sabendo dos drones americanos sobre a vila paquistanesa? O número de inocentes mortos em Gaza e na Cisjordânia foi alardeado pela mídia de massa? Vídeos de bombas caindo sobre hospitais em Gaza, e de crianças sendo degoladas nas explosões, foram replicados pelos portais? Ficamos sabendo que os homens do primeiro-ministro Israelense assassinaram 17 jornalistas na Palestina e mataram com eles a tal liberdade de expressão? Lemos ou vimos depoimentos de pacientes do hospital Iraquiano em Falllujah que foram torturados pelos homens que estavam “lutando contra o terror” em seu nome e no meu? A operação de drones comandada por Obama, que semana passada Noam Chomsky chamou de “talvez a maior operação terrorista da história”, é divulgada e debatida pela imprensa ocidental? O que sabemos sobre ela? Quantos inocentes os drones americanos já mataram?

Vocês não acham que se esse material tivesse sido exposto fartamente com foi o do Charlie Hebdo teríamos chorado por esses árabes mortos, e nos indignado pelo terrorismo cometido contra eles? Por que quando um muçulmano se explode no meio de Telaviv damos a isso o nome de terrorismo e quando um soldado israelense abre fogo contra um grupo de crianças palestinas que joga bola na praia, ou bombas caem sobre um hospital em Gaza, o mundo fala em contra-terrorismo?

E, depois desse arsenal de perguntas, temos que fazer uma outra e mais fundamental: Por que, então, esse tipo de notícia não nos alcança?

Na resposta está contida a hipocrisia de líderes ocidentais marcharem em Paris em nome da liberdade de expressão: não nos alcança porque esse tipo de notícia não interessa ao capital privado concentrado. Não interessa às corporações (e nelas estão incluídos os grandes grupos de mídia) ou às elites ou ao poder estatal. Tirar da nossa frente o arquétipo do inimigo – hoje tão bem representado pelo árabe muçulmano – é diluir o poder de nos manipular.

Como somos manipulados? Pela comercialização do medo. Com medo, nos entregamos àqueles que nos protegem e vigiam. É, por isso, importante que sintamos medo do terror islâmico. Medo de explodir na próxima esquina por causa da ação religiosa de algum terrorista que sai às ruas para defender a honra do profeta

Se um norueguês sai de casa e assassina 77 inocentes, como aconteceu em 2011, ele era apenas um maluco doente. Se um negro faz a mesma coisa, todos os negros são colocados sob o holofote porque ele representa uma raça desencaixada. Se um árabe faz a mesma coisa, ele agiu em nome de uma religião.

Para manter o estado das coisas isso precisa ser divulgado porque essas histórias perpetuam o mito do terrorista que quer acabar com a liberdade no ocidente, uma liberdade que dizem que é muito nossa, mas que não temos tempo de questionar porque acordamos cedo para ir trabalhar e pagar todas as contas e empréstimos que fizemos porque o salário não dá conta de comprar o que precisamos e o que é ofertado como “você precisa ter isso” pelos anúncios na TV, e quando voltamos para casa estamos exaustos e queremos apenas ligar a TV e ser entretidos, seja pelo noticiário ou por algum programa estúpido que nos faça esquecer dos problemas. A isso chamamos liberdade. Tudo é vendido a você, e você consome e, sem questionar, digere como verdade.

Liberdade de expressão não é apenas ter o direito de debochar de profetas, mas tratar fatos e vítimas com o mesmo peso, a mesma intensidade e a mesma indignação a despeito de crença, cor da pele, sexualidade etc. E terrorismo é tirar a vida de civis inocentes sejam eles parisienses, israelenses, palestinos ou paquistaneses. Uma criança afegã não vale menos do que uma criança americana e só nos agigantaremos enquanto comunidade – que é o que somos – quando formos capazes de chorar igualmente por todas elas. Nesse dia teremos entendido que não existem raças, existe apenas a raça humana, feita do mesmo material, tendo os mesmos sonhos e desejos e dores. A imperial noção de que somos uma coisa só, ligados a uma mesma fonte.

8 pensamentos sobre “Liberdade de expressão e outros sonhos

  1. Achei muito bom esse texto e várias das indagações.
    Unica coisa que não concordo (ou não entendi talvez) é quando vc diz que temos que fazer um levantamento sobre quantas charges ironizavam Maomé, Jesus ou outra figura sagrada. Me parece irrelevante esse tipo de levantamento em relação a todas as outras perguntas. Pode ser que o jornal faça piada todo dia somente com Maomé que não muda em nada, achei meio desconxa essa sua preocupação com bullying com mulcumanos.

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  2. Você dá a entender que os soldados que mataram inocentes agiram de maneira deliberada, com a mesma intenção que os terroristas que atacaram as torres gêmeas e os cartunistas do jornal francês.
    O maior culpado da morte desses inocentes são dos Zawahiri da vida, que os usam como escudo.
    No mundo encantado de Milly, os terroristas continuariam a explodir aviões, matar cartunistas, judeus e continuariam soltos no oriente médio.
    Se o governo da Colômbia pensasse igual a você , Pablo Escobar(narco terrorista) estaria vivo.
    E você está mal informada, no Rio também falta água.
    Só falta dizer que a falta de água na ”cidade maravilhosa” é do PSDB

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  3. Esse artigo reflete meu pensamento. A midia manipula a humanidade mostrando sòmente as verdades que lhe interessa. Isso, na minha forma de entender, tambem é uma forma de terrorismo que ceifa consciências. Parabéns a cronista.

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  4. Olá, Milly!
    Que maravilha ler seus textos!
    Tudo o que você disse, concordo plenamente.
    Esse noticiário seletivo, que gera uma indignação seletiva, é um dos maiores culpados pela quase impossibilidade de superação desses ódios e deformidades morais e éticas.
    Parabéns pela coragem de nadar contra a corrente!
    Abraços.

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