Comportamento/Política/Vida

O novo heroi americano

Em novo recorde pessoal, essa semana inovo criticando um filme que não vi.

Falo do super campeão de bilheteria, o batedor de todos os recordes em arrecadação, aquele que pode vir a ser o filme que mais lucrou na história do cinema – American Sniper, a história do melhor atirador de elite do exército americano, e melhor deveria estar entre aspas, e do que ele fez durante a invasão do Iraque.

Aqueles que viram o filme e entendem da arte, como meu amigo Pablo Vilaça, dizem que, apesar de moralmente corrompido, se trata de um longa tecnicamente impecável. Vilaça, também corretamente, diz que precisamos separar a arte da moral, maturidade e sabedoria que eu ainda não consegui alcançar. E já que não entendo dessa arte fico com a opinião de quem sabe mais do que eu e acredito que o filme seja tecnicamente admirável.

O que me intriga, para não escrever enfurece e entristece, é perceber que American Sniper pinta como heroi um homem que matou 200 pessoas a sangue-frio. Não estamos falando aqui de 200 torturadores nazistas, o que certamente o faria ser um heroi, mas de 200 suspeitos. Iraquianos suspeitos, vamos deixar claro.

Suspeitos do que, você pergunta. Suspeitos de um dia, quem sabe, talvez, virem a cometer algum ato terrorista. Entre essas 200 vítimas havia até uma criança – ou mais de uma embora o filme pareça tratar apenas de uma – e fica bastante difícil acreditar que uma criança mereça ser assassinada por ser suspeita de alguma coisa.

Primeiro é preciso colocar em perspectiva a invasão do Iraque.

Por anos fomos convencidos por Bush e Blair de que a invasão era fundamental porque o Iraque, um país inimigo, estava se estocando de armas químicas. Apoiados pela mídia de massa, que tratou de divulgar a mensagem e a enorme ameaça que isso representava, Estados Unidos e Inglaterra tiveram apoio da opinião pública para invadir o Iraque.

Quem abrisse os jornais ou visse os telejornais à noite facilmente entenderia que Saddam Hussain era um homem diabólico – como de fato deveria ser – e que tirá-lo do poder e destruir as armas químicas era um dever dos cidadãos de bem que fariam isso em nome da liberdade do mundo democrático.

Claro que o noticiário se esqueceu de dizer que esse monstro chamado Saddam Hussain era, até alguns anos antes, muito amigo dos Estados Unidos, sendo parceiro de negócios, recebendo armas americanas – armas que ele usou inclusive para acabar com fortes protestos populares contra seu governo, protestos que poderiam tê-lo deposto, quem sabe, se os americanos não tivessem se metido para apoiá-lo – e tendo entrada livre em território americano numa época em que o nome de Nelson Mandela fazia parte da lista de “terroristas mais perigosos do mundo” organizada pelos Estados Unidos. Estamos falando dos anos 80 e 90, portanto de anos bastante recentes. Mas o noticiário não poderia falar de nada disso se a intenção era ajudar a construir a imagem do “inimigo ideal”.

Anos depois, quando ficou embaraçosamente provado que não havia armas químicas no Iraque e que a coisa toda foi uma armação, a mesma imprensa não pareceu determinada a repercutir com cores fortes o constrangimento. Até porque, quem o fizesse deveria dar motivos para a invasão e até os camelos já sabiam que o Iraque foi invadido por ter recursos naturais preciosos como petróleo e água, atrás dos quais estavam algumas das maiores corporações inglesas e americanas.

Foi nesse cenário que um atirador de elite – discutivelmente a mais covarde das funções de um soldado que, escondido, tem carta branca para matar alguém que não pode vê-lo, o que seria o equivalente ao tiro pelas costas – virou a estrela da hora.

O filme é baseado na auto-biografia de Chrys Kyle, o atirador, e no livro a primeira pessoa que Kyle mata é uma mulher que, segundo ele, tinha nas mãos uma granada.

Agora vamos tentar colocar a câmera do lado de lá. Se sua vila é invadida por um exército estrangeiro, e você vê conhecidos sendo presos e mortos sob alegação nenhuma, será que, quem sabe, você pegaria uma granada para usar contra o inimigo? Ou para proteger sua família? É muito absurdo achar que provavelmente acabaríamos entrando na luta?

Alguns relatos vindos da imprensa independente começam a contar de histórias de inocentes assassinados por Kyle, e de como famílias foram destruídas por suas ações, um debate que até agora não alcançou a grande mídia.

Claro que, por princípio, todo o suspeito é também inocente até que se prove o contrário, mas essa parte do direito de qualquer ser humano parece ser um conceito que, nos Estados Unidos, já não vale mais, e que, por isso, nem entra em pauta durante eventuais discussões sobre o filme.

É, portanto, esse o novo heroi americano, protagonista de um filme que o New York Times chamou de “patriota” e “pró-família”, o que apenas nos faz temer por essa tal família a que o poderoso jornal se refere.

Lembro de ter lido uma vez que a falência moral de uma sociedade poderia ser demonstrada quando ela começasse a confundir celebridade com heroi – coisa que já fazemos há muito tempo. Mas o que dizer de uma sociedade que agora confunde perturbação patológica com bravura e é capaz de aplaudir o assassino durante a exibição do filme? (É o que tem acontecido nas salas de cinema americanas).

Jeff Stein, colunista da Newsweek e repórter investigativo que esteve no Iraque, lembrou em artigo recente que visitou um nightclub para os atiradores de elite americanos em Bagdad e que as paredes estavam cheias de imagens nazistas, uma observação tão repugnante quanto coerente com o que sabemos hoje sobre algumas das ações dos soldados americanos no Iraque.

Eis aí o filme que tem tudo para ser o mais visto da história do cinema – e cuja crítica, seguindo como sempre o New York Times, está abraçando como “patriota” e “pró-família” (pró-família americana, claro, já que esse novo heroi dizimou pelo menos 200 famílias iraquianas). E filme que constroi um tipo de heroi que, num mundo um ticozinho só mais justo, seria apenas um psicopata.

Por tudo isso acho que o fato de American Sniper ter sido executado com primor pelo republicaníssimo Clint Eastwood é apenas mais uma coisa a se lamentar.

21 pensamentos sobre “O novo heroi americano

  1. Vi o filme…É ruim !
    Sylvester Stallone faria melhor.
    O “herói” vai para o Iraque, mata a criança, e fica pensando na criança “branca” que ficou em casa…Nada mais imbecil e piegas.
    A mulher dá um telefonema e percebe que o “herói” está em apuros…Começa a choradeira! Claro que o personagem escapa…sem um arranhão.
    Árabes são tratados como filhos da puta. Em nenhum momento se aborda o motivo da guerra. O que interessa é tiro e sangue… nos árabes, claro.
    Decepção maior é pensar que concorre ao Oscar, com chances de ganhar a estatueta de “melhor filme” .
    Comprovem essa idiotice aqui: http://www.filmesonlinegratis.net/assistir-sniper-americano-legendado-online.html .

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  2. Pq nazistas podem ser mortos? Pq o matador de nazista seria um heroi??? A partir do momento em q vc decide q uma pessoa pode morrer por fazer parte de um grupo, sua maneira de pensar é exatamente a mesma dos nazistas, de quem apóia a guerra contra o terror, de quem apóia o fundamentalismo. A única diferença é q vc quer se fazer de moderninha. Os nazistas já não existem mais como antigamente, então tdo bem matá -los, porém, provavelmente, se vc fosse filha da sociedade aristocrática de 1860 no Brasil, acharia tdo bem ter uma ama, escrava, mas a trataria bem, daria todos os seus restos a ela. E, provavelmente hj, vc se espanta com a escravidão. Pensar fora da caixa as vezes faz bem… fogo não se apaga com fogo e ignorância não se corrige com ignorância…

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      • Se vc entende q um grupo pode ser morto, integrantes de um grupo pode ser morto, vc está fazendo uma generalização, é exatamente a mesma coisa q falar q todo árabe é fundemtálista. é a mesma coisa sim.

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      • Eu concordo com sua reflexão, mas não acho que você tenha me entendido. Eu não quero dizer que entendo pessoas serem mortas, mas que entendo que transformemos em herois alguém que mata pessoas realmente ruins, como os nazistas.

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      • Q bom q vc concorda. Mas preocupa esse tipo de discurso q vc assume no texto. Acho q deveríamos tomar mais cuidado. Vc, de Mtas formas, é uma formadora de opinião, é algo pode fazer eco na cabeça de alguem q quer validar um discurso de ódio. Por exemplo, depois dos ataques de paris, vários muçulmanos franceses tiveram a casa queimada, carros destruídos, perderam empregos. Pq um grupo matou friamente algumas pessoas. toda a “classe” foi punida. Os próprios acusados foram executados sumariamente, como os cartunistas, sem direito à defesa, explicação, sem direito ao estado de direito. assumindo q matar ser humanos é errado, vc deve assumir q matar qquer ser humano é errado, senão vc se torna hipócrita. ..

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      • Preciso fazer um pedido de desculpas, foquei numa parte de seu texto e deixei o lado de lado. O debate sobre arte e moral é realmente complexo. Mas na minha opinião a arte não tem a necessidade de ser moral, po e ser um conceito relativo, voltamos a desconsiderar o multiculturalismo e acharmos q o nosso modo de vida é perfeito. A arte não tem compromisso com a moral, por fazer parte de um mundo diferente. Rubem fonseca fala de uma síndrome da confusão com o que o autor cria e oq o autor pensa, não falerei sobre isso, mas o nome do livro é diário de um fescenino. Porém, na minha opinião, a arte não tem compromisso com a moral, pq a moral é relativa, e a partir do momento q começa a criar para defender certa moral, e não seus personagens, a obra passa ser engessada. Acredito q isso deve ter acontecido no filme, tb não assisti, mas a técnica perfeita, e, quem sabe, o “enredo” artístico deve ter sido amarrado pelo estudio, q quer defender os milhões de dólares q investe. Mas enfim, mostra uma obra, se o público se identifica com o herói assassino, a culpa não é do roteiro e do diretor, mas do q se vende na mídia para o consumidor médio acreditar. A sociedade está doente, e, quem sabe, uma das únicas válvulas q nos resta é a arte, bem ou mau feita. Tb, discordando de vc novamente, não por implicância, mas por debate, o q dizer de uma sociedade paupérrima, q sofre mando, desmandos, preconceito social, racial, de gênero, q precisa beber diariamente para enfrentar o dia a dia, elege (como deputados mais votaods) pessoas q defedem a cura gay, volta da ditadura, criação de partido militar, entre outros absurdos. Acredito q a arte não tenha responsabilidade nenhuma com a moral, acredito q o artista precise se expressar, e provocar na população ignorante, carente si básico, o efeito catártico q pode aliviar a atenção. Repito, a arte é isenta da moral. A moral deve ser construída através da educação, da menos manipulação da mídia e de exemplos das novas gerações. Pq, no pé q as os coisas andam, no Brasil e no mundo todo (corrupção, xenofobia, preconceito e, se me permite a ironia, a obsessão por auto retratos) discutir a moral da arte surte o mesmo efeito q discutir se o céu é azul por causa do mar ou o contrário. Infelizmente, acho q o mundo já deu errado. O após da liberdade (França ) mata dezenas de suspeitos pq a população clamava vingança, é a prova q os valores desmoronaram. E a arte, q sempre teve a obrigação de transgredir, paga o pato do caos. Se torna o bode expiatório do deus q exige vingança e do estado de direito q executa sem julgar. (Pensando apenas nos ataques da França, q ilustram tudo oq eu disse ) prometo não te incomodar mais.

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      • O corretor do celular atrapalha o andamento do meu texto, ele extirpa palavras q só percebo depois de publicado, se ficou confuso, e vc tiver interesse, reclame q eu escrevo do PC, q é meu instrumento de trabalho. Abraço.

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  3. “Vilaça, também corretamente, diz que precisamos separar a arte da moral”…

    Esse é o maior problema de tudo. De tudo!
    Estamos sempre separando a moral, enquanto, na verdade, ela deveria ser o essencial.
    Veja os resultados da economia separada da moral, por exemplo. Veja os resultados da liberdade de expressão separada da moral.

    Agora, não entenda mal, pois quando digo moral, quero dizer apenas “Não faça aos outros o que não quer que façam com você”… ou então “Não cause sofrimento”, e mais nada além disso.

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    • Oi, João. Obrigada pelo comentário. Acho que o debate é bom e de fato acho que o Pablo tem razão, embora eu tenha dificuldade em separar. Um exemplo ruim, mas que talvez ajude no debate: Pelé. Pelé tem se mostrado o oposto de um gênio com a palavra. Quando fala, fala besteira. Grandes besteiras. Tantas que já ficou claro que, com a palavra, ele é apenas um abobado. Mas por isso deixa de ser um gênio com a bola? E há inúmeros exemplos de escritores que eram monstruosos na realidade, mas produziram grandes obras. O que fazer com isso?

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  4. Me lembrei de um bate papo com Wagner Moura, onde ele disse que o que mais temia, ao fazer o Tropa de Elite I e o II, era das pessoas verem o Capitão Nascimento como herói. Bingo! Esse é o grande problema, conseguir separar a arte da história.
    Belo texto, Milly!

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  5. Milly, assistiu Bastardos Inglórios do Tarantino?
    Assisti mais uma vez nesse fim de semana. Se assistiu, lembra do personagem nazista apaixonado pela judia dona do cinema? Ele vira filme após ter matado 300 italianos sozinho na torre de um prédio com sua espingarda. Hitler ria a cada inimigo abatido. Qualquer semelhança com a realidade…

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  6. Fico imaginando se a ideia desse filme surgiu de outro filme ‘bastardos inglórios’, pois nele é contada a história de um soldado nazista que mata não sei quantos…

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  7. Milly, parabéns pela coragem de expor-se e relatar fatos distorcidos pela velha e safada mídia. Também, que de uma certa forma nada mais nos surpreende de todas estas atrocidades cometidas, visto que elas são muito rentáveis e hollywood é extremamento competente em deseducar para a humanidade, pois o partido da guerra é um grande negócio. Me atrevo a dizer que talvez saia um filme mostrando o obama com um grande pacificador e humanitário – ganhou até um prémio nobel da paz, quer mais??? De qualquer forma seus textos sempre contribuem para refletirmos sobre as chances do esperado e utópico “círculo virtuoso da humanidade”…

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  8. O problema não é se a arte é ou não moral, mas que reação ela vai provocar na sua moral particular.
    O filme pode ser tecnicamente bem feito, eu posso inclusive gostar do filme (não sei, também não vi), mas isso não quer dizer que eu precise aprovar o que o personagem faz.

    Isso me lembra a discussão pós-Tropa de Elite, quando muita gente passou a apoiar a abordagem policial do Capitão Nascimento, quando não era – de longe – a intenção do argumento. Mas a partir do momento em que a arte foi “jogada aos leões”, isso não importa mais, cada um vai analisar sob o seu próprio ponto de vista.

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  9. Eu já tinha lido seu artigo e estava decidida a não assistir o filme porém, acabei sucumbindo aos apelos da minha turma e fui. É um filme bem produzido e conduzido para você concordar e apoiar com a forma com que aquela invasão foi tratada. O contexto histórico é pós-11 de Setembro. O Chris Kyle sendo um exímio atirador, resolveu integrar o SEAL e ajudar seu país a ganhar a guerra contra o terror. Minha conclusão do filme é: toda guerra é injusta. Muitos inocentes vão morrer e fica aquele pensamento, “quantos inocentes é aceitável morrer em troca de se eliminar os criminosos?” Independente da motivação da invasão em si, todas as situações em que o Sniper entrou em ação, o “inimigo” estava armado e os atacando. Mas aí vc pensa, “eles que estão invadindo o país dos cara e quer ser tratado como”. Esse país e vários outros “ali daquela região” é conhecidamente por conflitos e “fãs de uma bomba, um atentado”…Acredito que o EUA pagam o preço por se “intrometer” com países que tem sua guerra particular e ninguém quer meter o dedo. Em partes, eu prefiro assim. Países que tem cacife devem intervir sim quando o conflito interno mata inocentes. Se iranianos, iraquianos e qualquer outra nacionalidade invadisse meu país, claro que eu apoiaria que meu país fosse lá tirar satisfaçõ e interromper o ciclo de ataques. Bem, é isso. Desculpe o comentário gigante. Gosto tanto do seu blog que sinto que posso comentar como se estivéssemos conversando e discutindo pessoalmente, mesmo que tendo opinião contrária.

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    • Obrigada pelo comentário, Rody. É isso mesmo o que penso. O filme é feito para que a guerra, que não foi uma guerra mas uma invasão covarde, seja justificada. Nada melhor do que contar uma história mentirosa através de um personagem vestido de heroi. É como as pessoas se emocionam e como deixam de querer buscar a verdade. É uma obra de propaganda muito bem feita e, por isso, ainda mais perigosa. Beijo.

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  10. Eu gostei. Apesar de ver que o cara era um patriota cego e disposto a tudo para defender o seu país, aos poucos ele é confrontado pela realidade e humanidade que ainda existe nele. Podemos ver isso (Spoiler!) na cena em que ele não deseja que a criança pegue o lança foguetes. E o fato de desejar voltar pra família (mais Spoiler!) após a morte da seu atirador inimigo. No fim, vejo que ele se dedicou mais à guerra por querer vingar os amigos mortos do que pelo patriotismo em si. mas os EUA adoram criar heróis, não é mesmo? Nem que pra isso, seja necessário passar uma borracha nos erros cometidos.

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