Economia/Política/Vida

O pesadelo americano

Semana passada o noticiário brasileiro manchetou sem parar a tempestade de neve que cairia sobre a costa leste americana, especialmente sobre Nova York. Dos periódicos ao Jornal Nacional o espaço foi tomado pela iminência de uma nevasca histórica.

Somos tão bovinamente influenciados pelo noticiário que em nenhum momento fazemos a pergunta: “E eu com a possibilidade de nevar pra burro em Nova York? Por que isso me interessaria?”, e diante da manchete apenas repetimos: “Caraca, como vai nevar em Nova York!”, sem nos darmos conta da inutilidade de uma informação sobre a tempestade de neve que, aliás, jamais chegou.

Se a intenção é destacar os Estados Unidos há muitos assuntos mais fundamentais do que a tempestade que nunca houve. Por exemplo: o impacto da crise de 2008 – cujos efeitos continuam a ser sentidos a despeito de o noticiário repercutir o que diz a assessoria de imprensa do governo americano ecoando “estamos em ampla recuperação” – e como ela mudou a sociedade americana.

Eu, que ando evitando o noticiário e por isso tenho tempo sobrando, escutei outro dia uma entrevista numa rádio alternativa com uma assistente social, psicoterapeuta e especialista no impacto que mudanças sócio-econômicas têm sobre a família americana chamada Harriet Fraad que me arrepiou os pêlos.

Fraad falava sobre a atual situação das crianças americanas e sobre como a crise de 2008 afetou suas vidas, e algumas das coisas que ela disse talvez interessem se a gente quiser entender o que o atual sistema econômico está fazendo com o mundo.

“Com todo o aumento de desemprego existe um proporcional aumento de casos de recém-nascidos que, depois de serem chacoalhados com muita força, ficam cegos, retardados ou morrem”, ela explicou antes de dizer que é esse precisamente o caso nos Estados Unidos hoje: crianças muito pequenas internadas com traumas tão severos que acabam, na melhor das hipóteses, ficando cegas ou retardadas. Resultado, ela continuou, da ação de pais frustrados e desmoralizados, que, sem emprego, ou com empregos que pagam mal e estendem-se por longas horas, acabam descontando em quem está mais perto e é mais frágil.

A partir dos seis anos de idade essa violência doméstica diminui, mas a informação não é tão boa quanto soa porque o número de crianças que abandona voluntariamente a casa dos pais, ou é expulsa por eles, não para de crescer. Entre os 12 e 18 anos, essas crianças se entregam à prostituição como uma das únicas fontes de renda, e mesmo aquelas que querem continuar estudar não podem porque não têm mais endereço residencial e, sem ele, ninguém é matriculado em escolas públicas.

O que Fraad disse que está acontecendo cada vez mais é essas crianças se juntarem em grupos de 15 ou 20 para viverem nas ruas. Assim ganham força para escaparem de cafetões e da polícia. São, como ela chamou, coletivos de crianças abandonadas.

O número de crianças sem-teto nos Estados Unidos passou de 1.6 milhões para 2.5 milhões desde a crise de 2007. Ou seja: uma em cada 30 crianças americanas não têm um lar ou porque os pais são muito pobres, ou violentos, ou perderam a propriedade para um banco durante a crise, ou não podem mais pagar os cada vez mais altos alugueis…

Dezesseis milhões de crianças passam fome nos Estados Unidos. Uma em cada cinco em 37 estados, segundo Fraad. O resultado disso é que, mesmo aquelas que estão matriculadas em escolas, não conseguem se concentrar. Cada vez mais professores levam pão e leite para a sala de aula, e pagam de seus bolsos porque muitas dessas escolas públicas não oferecem programa de merenda, subsídio que desde a gestão Ronald Reagan, o ídolo dos neo-liberais, vem sendo cortado.

Mas vamos em frente.

Uma em cada cinco crianças americanas come pizza como refeição pelo menos uma vez por dia. Pizza, Fraad lembra, é gordura, carboidrato, sal e açúcar, mas é um alimento barato e rápido, portanto ideal para que pais exaustos e pobres ofereçam a seus filhos.

Por causa disso, uma em cada três crianças americanas está acima do peso. Muitas estão desenvolvendo tipos de diabetes antes só encontrada em adultos. Estudo recente mostrou que o que as crianças americanas comem em junk food é nutricionalmente equivalente a uma xícara de lentilha ingerida por uma criança faminta na Nigéria. “As crianças americanas estão, portanto, famintas e obesas”, conclui Fraad.

Enquanto isso, a sra. Obama pode ser vista na TV e nos jornais pedindo que os pais deem alimentos saudáveis a seus filhos. Mas alguém precisa dizer à sra. Obama que esses alimentos são caros e não estão disponíveis nos bairros mais pobres, onde pode-se, por outro lado, encontrar muitas e muitas cadeias de fast-food – essas que pagam mal a seus funcionários e que lucram zilhões por ano. Fraad também lembra que nos Estados Unidos, para fins de políticas governamentais de nutrição, desde a gestão Reagan o ketchup é considerado um vegetal – e eu sei que soa apenas comicamente fictício, mas é verdade.

Fraad cita exemplos de países como França e Noruega que subsidiam a educação e a alimentação de suas crianças, mas nos Estados Unidos as palavras subsídios federais quando colocadas lado a lado provocam revolta porque elas remetem, santa ignorância, ao comunismo, à Cuba, ao que eles chama de “nanny-state”, ou “estado-babá”.

Por isso, Congresso e Senado continuam a negar que o estado participe de ações que subsidiem ensino, saúde e alimentação para os mais pobres, sugerindo que a pobreza é, na verdade, resultado de uma certa falta de iniciativa para procurar trabalho ou para trabalhar duro, e jamais, em hipótese alguma, efeito de um sistema econômico que não funciona mais.

São esses os mesmos que gostam de discursar muito sobre a importância de se respeitar os valores da família americana, sobre o maior fundamento de uma sociedade, que é a família tradicional, e também sobre a beleza da meritocracia. Mas não falam sobre a imoralidade do seguinte dado recém divulgado pelo britânico Oxfam Institute, que, entre outras coisas, mede a desigualdade no mundo: em 2016, se continuarmos nessa toada, o 1% mais rico terá mais riqueza do que os outros 99%.

Há sim, portanto, uma recuperação econômica nos Estados Unidos. Para acionistas e CEOs.

Então, se você estiver passando pelo noticiário e escutar alguém falando na “maravilhosa recuperação da economia americana” ou na “possibilidade de nevar historicamente em Nova York” fuja para as colinas. Mas, antes, escute a íntegra da entrevista que Harriet Fraad deu ao economista e professor Richard Wolff aqui.

3 pensamentos sobre “O pesadelo americano

  1. E a nossa mídia “colonizada”, assim como os seus leitores, que se consideram “bem informados” acham que os ianques tem o modelo perfeito e por isso devem dominar o mundo, inclusive o Brasil através de golpes via judiciário apoiados pelo PIG, udn e outros reacionários e coxinhas… não dá para entender???

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  2. Oi, Milly.
    Nada melhor para encobrir uma catástrofe real que uma ideal. Os norteamericanos são especialistas nisso.
    Parabéns pelo texto e obrigado pela informação.
    Um abraço.

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