Economia/Política

O que o confronto Petrobrás x HSBC pode ensinar

Um consórcio de jornalistas internacionais colocou os dedos naquele que tem potencial para ser um dos maiores escândalos de evasão fiscal da história do Brasil: os 7 bilhões de dólares – aproximadamente 21 bilhões de reais – que foram depositados no HSBC suiço por brasileiros. As investigações indicam que o banco facilitou depósitos de pessoas do mundo inteiro fazendo vista grossa para a origem do dinheiro. Apesar de suspeita e chocante, a informação não comoveu muito nossa imprensa, que se mantém praticamente calada.

Por que devemos nos indignar com o silêncio? Primeiro porque embora ter uma conta no exterior não seja crime, esse dinheiro precisa ter origem e, uma vez que valor tão absurdamente alto tenha sido encontrado lá fora e que tenha sido apurado que o banco não quis muito saber da origem do dinheiro, é preciso que se investigue se ele, afinal, tem ou não tem origem.

Se não tiver, é dinheiro que driblou o sistema fiscal brasileiro e, nesse caso, seu “dono” deve aos cofres públicos.

Vamos supor que metade desse dinheiro não tenha origem, e essa é uma conta muitíssimo amiga porque sabemos como as coisas funcionam e, assim, que a chance de 100% desse dinheiro ter sido ilegalmente colocado na Suiça não é pequena, mas fiquemos com esse número: 10 bilhões de reais.

Se fosse esse o caso, o rombo que o escândalo do HSBC deu ao povo brasileiro já seria maior do que os 2 bilhões de reais que até agora sabe-se da Operação Lava Jato – e tem potencial para ser duas, três, quatro, dez vezes maior.

Trata-se rigorosamente da mesma coisa em ambos os casos – Petrobrás e HSBC: dinheiro que deveria ter ido para os cofres públicos – para ser usado na construção de estradas, de escolas, de hospitais, de parques, sei lá eu mais do que, mas de coisas que sejam do bem comum – e que foi desviado.

Ainda assim, apenas a Petrobrás ocupa as manchetes. Praticamente zero de HSBC (quando alguma notícia vem à tona, ela aborda o tema de forma genérica, ignora os brasileiros e os 21 bilhões de reais depositados lá fora, aliás fala apenas em 7 bilhões de dólares porque 7 é bem menos do que 21, e faz malabarismo para tentar ligar o assunto à Lava Jato), e uma fartura de Petrobrás. Mas por que se eles são a mesma coisa e provavelmente nos lesaram (lesaram o povo brasileiro) da mesma forma?

A essa altura já haverá quem esteja postando um comentário para dizer que estou tirando o peso do escândalo da Petrobrás. Não, não estou. Estou apenas querendo usar a roubalheira na Petrobrás – uma calamidade – para jogar luz no HSBC e, assim, colocar a mídia corporativa em perspectiva e pedir que comecemos a escolher com mais cuidado a forma como consumimos notícias a fim de não nos deixar manipular.

Se o interesse da mídia corporativa fosse apenas informar e proteger o patrimônio público as duas histórias não teriam que ter o mesmo tratamento e o mesmo espaço?

Vamos tentar entender.

Do que é feita a grande mídia hoje? De corporações. E, como qualquer outra empresa, essa corporação vende um produto e, com essa venda, espera arrecadar dinheiro e lucrar. Qual é esse produto? Não, não é a notícia e não é o jornal ou a revista ou o programa – é consenso que não se ganha nada com a venda de jornal, ou de revista, da mesma forma uma emissora não ganha toda vez que ligamos a TV e a escolhemos. O que a mídia vende então? Vende audiência, esse é o produto que a mídia vende.

E, quando você tem um produto, você precisa vendê-lo para um mercado. Qual é o mercado nesse caso? O anunciante, que são apenas outras corporações.

Então o que temos são corporações (a mídia) vendendo audiências (você e eu) para outras corporações (o anunciante).

O que podemos esperar de um negócio que envolve essas circunstâncias? A quem ele serve? Com que propósito? Que interesses representa? Que tipo de notícia terá espaço? E como ela será dada? O que fica proibido de ser publicado? Obviamente, nesse cenário, a boa notícia será aquela que refletir os interesses do vendedor e do comprador, e a ruim aquela que for contrária aos interesses do vendedor e do comprador.

São respostas que esclarecem muitas coisas, e o raciocínio não é meu, obviamente, porque não seria capaz de pensar com tanta clareza – é de Noam Chomsky

Então, se por um lado ficam cristalinos os motivos pelos quais a imprensa não falará nem de HSCB – ou de qualquer outra instituição privada que se meta num escândalo – nem de nome de correntista (a menos que esses nomes sejam “bons” à causa de manter vivo e forte o poder do capital concentrado), por outro ficam também evidentes os motivos pelos quais devemos consumir informação através de pólos independentes e alternativos – especialmente se os interesses forem política, economia, sociedade e, naturalmente, se você não fizer parte dessa elite que concentra o capital privado, e não estiver mais a fim de se deixar manipular por ela.

Sempre que digo isso amigos me perguntam “onde então?”.

Há várias alternativas. Algumas delas fazem até parte da mídia corporativa, que é também feita de colunistas e articulistas bons e interessados. São aqueles que chamo de “infiltrados”, gente que pensa de forma independente e não são necessariamente pessoas com as quais sempre concordo, mas que sei que não estão a fim de me envenenar.

Colunistas como Vladimir Safatle, Barbara Gancia, Elio Gaspari, Jânio de Freitas (todos da Folha), Cynara Menezes, da Carta Capital, Eliane Brum, do El País e do blog dela mesma, Xico Sá. E sites investigativos como o da Agência Pública. No canto direito baixo do blog listo a relação de “blogs que leio”, que recomendo também.

Entre os gringos, o democracynow.com, o presstv.com, o truth-out.org, e cabeças como Noam Chomsky, Richard Wolff, Chris Hedges, Jon Stewart, Norman Finkelstein, Naomi Klein.

Há, portanto, alternativas para se alcançar a verdade. Muitas, aliás, e devo estar cometendo injustiças esquecendo de algumas. Mas o mais importante é entender o seguinte: precisamos escolher onde consumir informação da mesma forma que escolhemos onde consumimos alimentos; e pelas mesmas razões: para que não nos deixemos envenenar. Que a invisibilidade midiática do escândalo do HSBC sirva para que entendamos pelo menos isso.

8 pensamentos sobre “O que o confronto Petrobrás x HSBC pode ensinar

  1. Dos “folhistas” citados por você (que são ótimos), no meu ciclo de consumo a informação eu incluo o Clóvis Rossi , a quem considero comprometido com a informação.Tratamento da mídia corporativa em relação ao caso HSBC é mais do que previsível, eu já não consigo mais ficar indignado, infelizmente o 4°poder no Brasil terá muito tempo de vida, pelo menos com o PT no poder.

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  2. maravilhoso! tão simples, claro e didático. e, pessimista que sou, se mostrasse isso pra meus coleguinhas de faculdade de jornalismo, eles ainda escolheriam a mídia corporativa pra se [in]formarem e como objetivo de vida. #choramasrosas

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  3. Vc é muito linda, Milly! Obrigado por compartilhar seus textos! Cheguei até você graças aos tweets do Pablo Villaça. Não imaginava que aquela jornalista que eu conheci no Sportv – e talvez na Record – fosse tão honesta e brilhante, apesar do curintia. Continue nos presenteando com seus pensamentos extraordinariamente interessantes! Um mega abraço

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  4. Salve Milly, sempre educativas são as tuas mensagens, obrigado. Depois no carnaval é bom retornar a realidade, e teu texto contribui significativamente, sem meias palavras, assim agora só está nos faltando a tal lista de correntista brasileiros do HSBC, quem sabe se os jornalistas e seus patrões colonizados não estariam nelas para que a Receita Federal brasileira não os perturbe. A propósito a Receita Federal brasileira não tem tempo para se ocupar destas espertezas, os cleintes do HSBC, visto que está sempre ocupada em fiscalizar os assalariados e aposentados do Brasil varonil….

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