Economia/Política/Vida

Quando o comunismo salvou os Estados Unidos

Estamos em 1933, Franklin D. Roosevelt é o presidente americano e uma crise pior do que a de 2008 varre o país. O nível de desemprego atinge 25% e a miséria está por todos os lados. E então uma coisa inusitada começa a acontecer: frustrados e revoltados, aos milhões, desempregados e sub-empregados associam-se a sindicatos.

Dois partidos socialistas, um partido comunista e uma união de trabalhadores conhecida como CIO – Congress of Industrial Organizations – conseguem ser atendidos por Roosevelt e explicam que a situação é grave e que o descontentamento com a desigualdade e com a miséria é tão grande que uma revolução não está descartada. Sugerem que o Presidente faça alguma coisa, ou o povo fará.

Roosevelt sabe da força dos partidos comunista e socialistas e do CIO, e convoca seus amigos industriais, a elite, para explicar o que está acontecendo. Diz que o Governo está quebrado porque com o desemprego ninguém paga impostos, e que os únicos com dinheiro são eles, que, portanto, serão eles que precisarão ajudar ou haverá uma revolução.

Metade dos industriais se comove e aceita o apelo, a outra metade diz “nem a pau” e dá as costas.

Com o apoio dessa metade rica, Roosevelt então inicia ele mesmo uma revolução. Vai às radios e avisa que está criando o Seguro Social – que não existia até ali – e que a partir de agora pessoas com mais de 65 anos passam a receber ajuda mensal do governo sem precisar trabalhar. Cria também o Seguro-Desemprego para ajudar aqueles que estão sem trabalho, cria o salário mínimo (em valores reais maior do que o praticado hoje) e, ainda mais chocante, cria 15 milhões de empregos alegando que se o setor privado não consegue abrir vagas é dever do estado fazer isso.

De onde veio o dinheiro? Aí é que a coisa fica bacana: de uma taxação de 97% sobre grandes fortunas, ou, mais exatamente, da invenção do “salário-máximo”.

Como Roosevelt fez isso?

A princípio, ele propôs que quem recebesse mais de 25 mil dólares por ano (uns 400 mil dólares em dinheiro de hoje) seria taxado em 100%.

Ou seja, para cada dólar ganho acima dos 25 mil, o cidadão devolveria tudo ao Governo. Houve, como vocês podem imaginar, esperneios, choradeira, histeria. Mas, com o apoio dos democratas – e Roosevelt era um deles – um acordo foi alcançado e ficou estabelecido que a partir de 25 mil dólares/ano o sujeito pagaria 97% de imposto – ou seja, praticamente passaria a haver um salário máximo (afinal, que outra forma existe para que se acabe com uma abissal desigualdade?)

Idem para as corporações. Para cada dólar recebido em impostos do cidadão comum, a corporação pagaria 1,50, ou 50% a mais do que você ou eu, supondo que você e eu existíssemos nessa época (não, eu não existia).

Iniciou-se então um período de glória. Com dinheiro em caixa, os 15 novos milhões de trabalhadores federais ajudaram a construir a maioria dos parques nacionais americanos, estradas, escolas e uma infinidade de outras coisas sempre necessárias a qualquer nação. Com o povo empregado, o consumo aumentou, e com ele, empresários ganharam mais e investiram mais.

A taxação nos estados Unidos seguiu alta nos anos 50, 60 e, na década de 70 ainda girava em torno de 70%, mas já havia uma pressão crescente de Republicanos, e da metade da elite que havia sido contra o acordo inicial de Roosevelt, para que ela fosse revista. E ela foi.

Em 2011, Warren Buffet, um dos homens mais ricos do mundo, pagou 11% de imposto, enquanto o americano comum pagou 39%. Hoje, para cada dólar em imposto que o governo recebe de Zé Manés como você e eu, ele recebe 0,25 centavos da Corporação.

Até um paralelepípedo como eu entende que alguma coisa está muito errada com a cena atual e estava muito certa com aquela estabelecida por Roosevelt.

Mas se as coisas já não andam como antes é importante saber que elas vêm mal há 40 anos, embora apenas com a crise de 2008 tenham ficado escancaradas. Apesar de os cada vez piores índices de desenvolvimento humano do país não serem divulgados, basta que se ande pelas ruas das grandes cidades americanas para que se constate o declínio: a desigualdade é enorme, o desemprego alto, a quantidade de sub-empregos colossal, o imoral poder político das corporações escandaloso, o número de sem-tetos só aumenta, os abrigos estão lotados, o sistema de transporte público é precário, o de saúde é corrompido etc etc etc.

O que mudou ao longo dos anos?

Antes de mais nada, depois de Roosevelt – reeleito três vezes – o país foi varrido pela propaganda.

Por todos os cantos espalhava-se que o comunismo se instalaria, e que, entre outras tolices, comunistas eram pessoas ruins que fariam várias famílias morarem juntas em uma mesma casa. O medo sempre é bastante útil para fins de manipulação, e funciona bem até hoje porque uma população amedrontada aceita ser vigiada e controlada.

Em pouco tempo, o Partido Comunista Americano já era tratado como criminoso e começava-se a prender e executar suspeitos de colaborarem com a União Soviética, e de serem simpáticos ao regime (o Brasil da ditadura, uma colônia americana, apenas replicava hábitos e costumes).

Depois, a mesma propaganda tratou de “instruir” que comunismo e socialismo eram rigorosamente a mesma coisa (mais tarde a noção se alargaria para comunismo = socialismo = anarquismo = Marxismo = terrorismo = islamismo, e até hoje o americano não sabe muito bem a diferença entre uns e outros). E, dessa forma, foi possível que se varresse do mapa os dois partidos socialistas que havia.

Claro que quando psicopatas como Stalin e Mao sequestram o comunismo e fazem o que fizeram a propaganda americana ganha uma ajuda bastante grande. Também por causa desses dois malucos pouca gente sabe o que de fato é o comunismo e como, apesar de ter bases sólidas e humanas e de não comer criancinhas nem propor que mais duas famílias passem a morar com a sua, ele nunca foi sequer idealizado por Marx, mas esse é assunto para outro texto.

Outra grande mudança na cena sócio-econômica de Roosevelt foi a quase criminalização dos sindicatos, cortesia de Ronald Reagan. Hoje praticamente não existem sindicatos nos Estados Unidos, e há inúmeras histórias de corporações que se recusam a contratar trabalhadores que pertençam a algum sindicato (Quem tiver interesse em saber mais sobre o tema, que é espinhoso e importante, pode acessar a coluna de Nicholas Kristof, do New York Times, do dia 19 de fevereiro, cujo link está no final desse texto, ou assistir o documentário Inequality for All, de Robert Reich, que foi secretário do trabalho de Bill Clinton).

Com o mundo entregue a uma obscena e imoral desigualdade, em 2014 o economista e pesquisador francês Thomas Piketty lançou obra de quase 700 páginas para mostrar, desenhar e provar que se grandes fortunas do mundo não forem taxadas de forma rigorosa a vida como a conhecemos nesse planeta provavelmente deixará de existir.

Neo-liberais de todos os cantos escutam a sentença, esperneiam e dizem: “jamais”, “isso é coisa de comunista”, “isso quem faz são estados-babás e não precisamos do governo metendo o bedelho em nossas vidas” — talvez por que não saibam que a menina-de-ouro do capitalismo, agora um império em acelerada decadência, já fez exatamente isso e, muito por causa da criação do salário máximo e de políticas altamente socialistas, cresceu para ser a potência que um dia já foi.

A história de como Roosevelt reinventou os Estados Unidos tem sido contada e recontada para americanos pelo professor de economia Richard Wolff em palestras pelo país. Eu estive em uma delas e só por isso agora também sei.

Aqui coluna de Nicholas Kristof sobre os sindicatos nos Estados Unidos.

Notinha de rodapé: O título é um exagero, claro, e também uma ironia. Não sei se funcionou porque já recebi algumas críticas, então aceito sugestões para um melhor, ou menos pior.

20 pensamentos sobre “Quando o comunismo salvou os Estados Unidos

  1. Obrigado, Milly. Ufa,… assim dá para iniciar melhor a semana e o ano de 2015. Finalmente, sempre existe um “anjo da guarda para iluminar a toca brasileira”, e assim continuarmos acreditando no círculo virtuoso. O Sr. Roosevelt foi um bom “pregador” e conseguiu conduzir o “rebanho” para a sobrevivência por um bom período até o “partido da guerra” retomar o poder, e aí não interessa quem preside a nação porque “a coisa” é sempre a mesma, ou seja, a culpa sempre será dos comunistas, seja aí nos EUA, na América Latina, Brasil, África ou UE, inclusive agora, também na Ucrânia, os culpado são (evidentemente) os comunistas…!!! É mole ??? Pois é Milly, teu texto me faz pensar que este mundo está sendo governado pelos psicopatas do partido da guerra, que são aqueles que não aceitaram a proposta do Sr. Roosevelt, e assim temos os que temos…

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  2. Acho que todos, que são racionais e pensam um pouco, entendem que o ideal para um país igualitário e desenvolvido é a mistura das duas ideologias: socialismo e captalismo. Tanto que no seu próprio texto você sinaliza ações captalistas para enaltecer uma manobra socialista do governo do Roosevelt: “Com o povo empregado, o consumo aumentou, e com ele, empresários ganharam mais e investiram mais.”
    Parabéns pelo texto.

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    • Então, Rafael. No meu blog eu me manifesto sobre as coisas que quero. Sei quase nada sobre os jovens na Venezuela, sei pouca coisa da Venezuela do Maduro, e não sou a Anistia Internacional. Portanto, não. Mas você pode escrever sobre isso em seu blog, né? Aí me manda para eu ver como ficou.

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  3. Os jovens da Venezuela não lhe causam curiosidade, que pena. Prefeito de Caracas preso e nada. Mas mesmo não sendo da Anistia Internacional, você discorre sobre os jovens palestinos.
    Polícia bolivariana pode tudo, certo?

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  4. O comentário é bem atrasado mas não posso deixar de lembrar do filme clássico “Vinhas da Ira” de John Ford .Retrata magistralmente o período pós 29 nos campos americanos.

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  5. Conheci o blog hoje – indicação de amiga – e pretendo continuar conhecendo. Quanto ao texto, simpatizo enormemente com o que me pareceu tua simpatia em relação ao comunismo. Sei que pode parecer pretensioso – desejo que pareça – mas acho que raríssimas pessoas se dispuseram a entender, conhecer e refletir sobre a ‘possibilidade comunista’, ou seja, mundo sem patrões (não sem empresas, mas sim sem corporações). Dito assim (e a esta hora da manhã – aqui) tudo parece conto de carochinha. Que seja, mas me parece importante considerar que igualdade, liberdade e qualidade de vida são coisas muito mais substanciais e complicadas de combinar do que parece supor a imensa produção de palavras e ideias correntes.
    Enfim… (ia dizer ‘parabéns’, mas ficou parecendo coisa professoral, na verdade eu é que fiquei feliz – e grato – pelos textos lidos).

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    • Que mensagem linda, Alexandre. Muito obrigada. Acho que existe uma enorme má vontade para se entender o comunismo. As pessoas tê, claro, o direito de simpatizar ou detestar, mas não deveriam ter o direito de falar se saber do que se trata. E é o que fazem. Muito obrigada outra vez.

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  6. Todos os primitivos e criminosos comunistas ocidentais aplaudiam o comunismo desde 1917 ate 1989, que era certo e que era o “paraíso na terra”, hoje, os mesmos criminosos comunistas ocidentais mentem criminosamente que aquilo não era o comunismo de Marx!

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      • Olá Milly. Eu já li cada letra do que Marx falou, acho que você não correto ? Não leu quando marx escreveu: “As classes e as raças fracas de mais para conduzir as novas condições de vida devem deixar de existir. Elas devem perecer no holocausto revolucionário”. Isso de graça para você estudar um pouco mais tá ? Fico extremamente triste, irritado, e ainda não consigo acreditar que uma pessoa que se diz “humana” gosta de assassinos. Hitler Lia Marx, ele próprio admitiu. Molotov(não me surpreenderia que você não saiba quem é) disse que as Ideias de Lenin e Hitler só eram diferentes em pequenos detalhes, mas em suma eram as mesmas. Para você não passar mais vergonha com esse público que ainda não aprendeu a ler e não costuma andar em livrarias, assista então um resumão no Youtube, chama-se “A história Soviética”. Seja mais humana, você não merece nem a casa que dorme, nem a comida que come, hipócrita, se Hitler estivesse vivo, você seria Nazista. – Vai censurar ? Pessoas como você ama fazer isso.

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      • Só que não leu o Comunismo de verdade fala besteiras, “Deturparam Marx”, ai quanto analfabetismo. Professores de Moscou, Stanford, Oxford, Bucareste, etc., já fizeram devenas de livros falando sobre Marx, falando quanto ele era assassino, quanto era mentiroso, Marx no AIT mentiu para chegar até lá, ameaçou, é esse cara que presta ? É o cara que quer matar civilizações inteiras ? o homem que disse: “Para o advento do socialismo será necessário exterminar povos e nações inteiras”. Milly, por que você simplesmente não estuda antes de falar ? Faça o mínimo, aprenda a falar inglês e leia algum livro em Inglês sobre isso, alguns não chegam até o Brasil analfabeto, aqui só tem esquerdismo, por isso que estamos nessa merda. – Enquanto os imperialistas americanos vivem muito bem, ganham salário em dólares, e pagam 126 dólares em IPVA de uma lamborghini, pagam 15 dólares na carteira de motorista, a classe C, D dos EUA é a que tem melhor qualidade de vida do MUNDO, mais até que a Classe B aqui do Brasil.

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      • Milly, por que você não fala sobre o que Fidel fez em cuba, o que aconteceu no Camboja ? Um dos maiores genocídios contra Negros aconteceu em Cuba, mas isso você não fala nada né ? Me diz um governo comunista que deu certo. Na sua visão de gente louca, TODOS regimes existentes “deturparam o comunismo”. WHHHAAAAAAT ? Quer dizer, eles podem matar 400 milhões de pessoas, e tranquilo, vamos tentar novamente, é incrível. Se alguém chegasse hoje e falasse, “deturparam o Nazismo”, a pessoa seria presa, mas quando vem socialistas falarem que “deturparam o comunismo” ai sim pode né ? Seja menos assassina, gosta de comunismo ? Por que não muda para cuba ? Por que não muda para Coreia do Norte ? Por que não muda pra Venezuela ? Esquerda Caviar, compra iphone, TV a cabo e fala bem do comunismo, quanta hipocrisia. – Vai me censurar ?

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  7. Me atrevo a sugerir 2 títulos para esse excelente texto: “Quando as bases do Keynesianismo salvou EUA” ou “Quando EUA agiu como se fosse a Escandinávia”.
    Milly, juro que não entendo porque os capitalistas são tão obtusos, está mais que provado que esse sistema quando é exacerbado se torna uma aberração ou um fim em si mesmo e a os Escandinavos estão aí mostrando o caminho das pedras, só não segue quem não quer.

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  8. É sempre o mesmo mimimi! A culpa fica nas costas dos grandes empresários, dos detentores da riqueza, das instituições ou seja do capitalismo, como se isto fosse a causa da desigualdade social. A todos os comunistas desejo-lhes Venezuela, Cuba, Coréia do Norte. Lá acontece o que vocês merecem, aqui não! São estudantes que não gostam de estudar, um proletariado que não gosta de trabalhar ( e pseudointelectuais que não gostam de pensar). Querem igualdade social, mas igualdade na miséria, como em Cuba e Venezuela. O capitalismo quer igualdade social, mas na riqueza (aí os consumistas exacerbados e perdulários nunca conseguem enriquecer (não tem educação financeira), colocam a culpa no capitalismo e tornam-se comunistas)), juntam o que chamam de minoria (que nem vou citar senão far-se-ão de vítimas novamente escondendo atrás da palavra preconceito) e novamente temos mais MIMIMI .

    “Me poupe né”

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  9. A crise de 1929 não foi provocado pelo capitalismo liberal; foi provocado pela ações do governo americano que liberava crédito sem nenhum controle no mercado. O “New Deal” retardou, em anos, a recuperação econômica nos EUA. Milly, você é o que a elite comunista chama de “idiota útil”. Comunismo é um esquema de poder totalitário que tem como objetivo escravizar totalmente uma sociedade. Qual seria o legado que “socialismo real”, não o “socialismo utópico”, deixou para a humanidade ? Responderei para você: crimes, terror, repressão, fome, estado policial, etc. Os livros, “O Livro Negro do Comunismo”, http://www.alertatotal.net/2014/10/o-livro-negro-do-comunismo.html e “Cortando o Mal pela Raiz”, http://www.saraiva.com.br/cortar-o-mal-pela-raiz-historia-e-memoria-do-comunismo-na-europa-1446566.html, mostram do que realmente gostam os comunistas: eles gostam é de matar. Se você só tivesse uma opção, onde você moraria ? Na Coreia do Norte ou na Corei do Sul ?

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