Comportamento/Política/Vida

O erro dos outros

Meryl Streep é a prova de que nem toda a unanimidade é burra. Há alguém que não goste? Se sei que um filme tem Meryl Streep no elenco já me meto na fila do cinema. Não apenas porque Meryl Streep é de fato tecnicamente brilhante, mas porque é simpática e fofa e está sempre rindo, e é linda… Deus, que mulher.

Então, quando ela entrou em cena na cerimônia do Oscar para apresentar o obituário do ano – sempre uma das partes de maior emoção – me ajeitei no sofá. E ela já chegou em grande estilo, citando Joan Didion: “Uma única pessoa falta para você e o mundo todo está vazio”, uma tradução livre para “A single person is missing for you, and the whole world is empty”. Foi nessa hora que Meryl Streep, sem querer, me ofendeu.

Didion, como apenas os bons fazem, colocou em poucas palavras um sentimento impossível de ser medido, ou represado, ou acomodado. Até aí, tudo lindo. O problema é que eu não conseguia esquecer que aquela era uma cerimônia que, entre outros filmes, acabaria premiando de alguma forma a história do atirador de elite americano que, durante a invasão do Iraque, matou mais de 200 iraquianos.

Claro que todos os anos há o obituário do Oscar e, também todos os anos, há chacinas e genocídios pelo mundo. Mas com o propagandista American Sniper concorrendo a muitas estatuetas as coisas foram arremessadas em perspectiva. Era a morte de 40 cineastas contra os mais de 200 iraquianos bem ali na minha cara, mortes que, apresentadas daquele jeito, parecem ser coisas muito diferentes umas das outras, mas que Didion fez o favor de mostrar que não são.

Naturalmente há quem acredite de verdade que os 200 iraquianos mortos eram 200 terroristas – o que não é absolutamente verdadeiro. Eram, se tanto, 200 suspeitos de não sabemos o que, entre eles crianças — e suspeitos são, por princípio, inocentes.

E existe essa enorme chance de serem, na maioria, iraquianos reagindo a uma invasão mentirosa e escandalosa, baseada em engodo contado ao mundo por Bush e Blair. Eram, quem sabe, mães e pais defendendo suas terras, suas famílias, sua história.

Bastante provável, claro, que entre esses 200 houvesse gente ruim, mas se a partir de hoje formos sair assassinando aqueles que achamos que são maus faremos poucas coisas além disso na vida. Então, a Academia estava numa mesma noite glorificando o americano que assassinou 200 iraquianos e chorando pelas dezenas de cineastas mortos de causas naturais, e ninguém pretendia comparar as coisas.

De uns anos para cá estou com essa mania de achar que somos todos iguais e de não ver diferença entre uma vida americana e uma vida iraquiana (ou afegã, ou palestina, ou nigeriana), e assisti o obituário pensando nas 200 famílias iraquianas que perderam alguém para as balas do atirador de elite e para as quais o mundo estava agora vazio, e tentando imaginar o que sentiam eles, o pessoal do lado de lá do planeta, assistindo a linda e acima de qualquer suspeita Maryl Streep apresentar uma homenagem como aquela – justa, necessária, mas dolorosamente unilateral.

Na mesma hora tuitei o que estava sentindo (“Vão falar das pessoas que morreram em Hollywood. Choro. Os 200 iraquianos que o sniper americano matou: aplausos. Choremos por todos”). Como frequento essa rede social há muitos anos sei exatamente quando vou ser apedrejada por causa de um tweet. De fato, segundos depois já estavam me acusando de defender terrorista, a lógica sempre tão vulgar daquele que ou não está bem informado ou não entendeu a colocação, e, pegando uma carona na oportunidade, no mesmo tweet me chama disso e daquilo, me manda fazer isso e aquilo.

No começo, saía bloqueando os agressivos, até que um dia decidi que não bloquearia mais. Alguns, claro, são insistentes nas ofensas e não param nunca, mas ainda assim resisto ao block, tentando exercitar o direito à liberdade de expressão já que, segundo Noam Chomsky, liberdade de expressão é dar voz aqueles que desprezamos (porque dar voz aos chapas e parceiros de ideias é a coisa mais fácil do mundo e até Stalin fazia).

Para o bem ou para o mal não tenho como ler todas as agressões diárias, mas algumas se repetem e por isso posso aqui citá-las, tirando as ofensas.

“Você não gosta de católicos ou do catolicismo” (nada contra, até porque fui criada no catolicismo. O que realmente não curto é a Igreja Catlólica enquanto instituição e organização);

“Você só mete o pau em judeu” (nunca fiz isso, até porque tenho algumas muitas horas de curso de Kabbalah e aprecio os ensinamentos, para não falar da comida e do humor, mas certamente meto o pau na política imperialista israelense, que são coisas muito diferentes);

“Quero ver você chorar por um policial morto e não só por bandido” (nem toda a pessoa que um policial mata é bandido, ainda que a manchete do jornal diga isso. E para cada policial que um “bandido” mata, há dezenas de “suspeitos”  — portanto inocentes até que se prove o contrário — que um policial mata, o que isoladamente já justificaria minha insistência no tema);

“Fica aí defendendo terrorista” (não podemos mais usar a palavra terrorista sem contextualizar. Por definição reduzida terrorismo é o uso calculado de violência ou ameaça com objetivos políticos, religiosos ou ideológicos. Sendo assim, não apenas o homem bomba que se explode no meio de uma metrópole democrática e mata inocentes é terrorista, ou assassinos que invadem a redação de uma revista e atiram a esmo são terroristas, mas é também terrorismo a atual campanha de drones de Obama, que já matou centenas de inocentes no Oriente-Médio, e os mais recentes bombardeios de Israel sobre Gaza, quando 500 inocentes morreram, entre eles uma centena de crianças. Portanto, não defendo terroristas, apenas não faço distinção entre os imbecis que mataram os jornalistas da Charlie Hebdo e a campanha de drones de Obama. Quem não consegue enxergar que o imperialismo americano faz uso de práticas terroristas é que está, na verdade, defendendo o terrorismo, que parece valer desde que seja praticado contra inimigos).

E tem o querido grupo daqueles que não importa o que eu tuíte, sobre Palestina, Dilma ou Downton Abbey, agradecem ao Ceni por ter me destruído ao vivo, um erro pelo qual estarei condenada eternamente.

Encarar esse tsunami de ódio me fez pensar. Eu também já detestei muitas pessoas mesmo sem as conhecer e apenas por emitirem opiniões com as quais não concordo. Nada mais humano e natural, ainda que imaturo. Aí cheguei à conclusão que não é exatamente que essas pessoas me odeiem, o que elas odeiam é uma ideia que fazem de mim. E nesse dia as coisas perderam o peso.

A ideia que fazem de mim não sou exatamente eu, nem jamais serei eu porque eu não me limito a uma dúzia de ideias – aliás, mudo bastante de ideia e por causa disso posso amanhã mesmo sair bloqueando pessoas no Twitter feito uma maluca -, e a liberdade de expressão deve ser o bem maior. O exercício é difícil porque eu também ainda me pego odiando alguém que não conheço apenas por uma opinião emitida, e todos os dias me esforço para focar a raiva na opinião e não na pessoa. Nem sempre consigo, e o esforço é enorme.

Outro exercício diário e esgotante é o de aplicar a mim mesma as exigências morais que faço aos outros, um princípio básico de moralidade mas estupidamente duro de ser executado. Ser tão rigoroso com os erros que cometemos quanto com os erros que o outro comete é para nobres e, ainda que eu esteja longe de ser um, é o que busco fazer – nem sempre com bons índices de sucesso.

Por outro lado é evidente que eu adoraria ser como Meryl Streep, jamais contestada, adorada e cortejada mesmo quando tropeça, mas não é esse meu destino, como também parece não ser meu destino pensar de acordo com a opinião consagrada. Então a gente segue, desviando de tanto ódio e tentando melhorar.

Um pensamento sobre “O erro dos outros

  1. “Há quem não goste?” Hmm… inocente, não sabe de nada.
    Minha cara, não existe coisa mais irritante na face da terra do que o perfeccionismo interpretativo exacerbado daquele rostinho choroso. E posso lhe garantir, não estou sózinho nessa implicância 😉

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