Comportamento/Vida

Sobre o desastroso texto da Veja ridicularizando Patricia Arquette

Estava ontem me preparando para assistir o Corinthians jogar quando vejo no Twitter a matéria que a Veja fez sobre o discurso de Patricia Arquette na premiação do Oscar. Arquette, como quase todo mundo sabe, subiu ao palco e disse que mulheres e homens devem ser igualmente remunerados, e levou Meryl Streep ao delírio na plateia.

Um discurso apaixonado e cheio de justeza, desses que deixa a gente pensando quem poderia se opor. Bem, aparentemente a Veja. Pior: além de se opor a revista achou razoável debochar do pedido de Arquette num texto que é um imenso reservatório de preconceito, ignorância e misoginia; um texto que ofende, diminui e humilha todas nós.

Na mesma hora minha amiga Rachel Juraski começou a organizar um texto-resposta à matéria, e ao lado do grupo feminista Talk Olga, do qual atua aqui como porta-voz, soltou a nota que eu reproduzo abaixo, pedindo que repassem se puderem.

Antes, deixo a palavra com duas divas feministas: a ativista americana J. Ashley Foster e Virginia Woolf, e com Nicholas Kristof, colunista do New York Times.

Foster:

“Enquanto existir uma sociedade na qual alguns homens estiverem acima de outros, e todos os homens estiverem acima das mulheres, e enquanto houver enorme disparidade financeira e desequilíbrio de poder, o fascismo será parte tanto da organização do estado quanto dos lares”

Woolf:

“Como mulher não tenho país

Como mulher não quero ter país

Como mulher meu país é o mundo inteiro”

Kristof

“A grande ameaça aos extremistas não são drones sobrevoando suas cabeças, mas meninas lendo livros”

Nota de repúdio contra a reportagem “Vamos Perguntar a Elas?”, da edição 2415, da revista Veja (por Talk Olga)

Viemos a público manifestar absoluta discordância da matéria da última edição da revista Veja. Sob o título “Vamos Perguntar a Elas?”, a publicação desqualifica e ironiza o discurso da ganhadora da categoria Atriz Coadjuvante, no Oscar 2015, Patrícia Arquette, cujo teor criticava a disparidade salarial entre homens e mulheres nos EUA, especialmente na indústria do entretenimento, e alertava para a necessidade da correção dessa injustiça.

Sem critério algum, o veículo ridicularizou toda a mobilização a favor dos direitos da mulher feita neste último Oscar, a comecar pelo título da reportagem, que faz referência à campanha AskHerMore (PergunteMaisaEla, em tradução livre, iniciada pela também indicada ao Oscar Reese Whiterspoon), esnobando o clamor das redes sociais e das próprias atrizes para que as coberturas no red carpet dessem um tratamento igual para atores e atrizes, ou seja: não oferecendo a elas a oportunidade de falarem sobre o trabalho e seus desafios, mantendo todas as entrevistas com o apelo unicamente estético, com perguntas como “Quem é o estilista responsável pelo seu visual?”.

A fala de Patricia Arquette arrancou aplausos entusiasmados de celebridades presentes na cerimônia e ecoou imediamentemente por todo o mundo, assim como nos dias que se seguiram. A revista Veja ignorou totalmente a identificação do público com as palavras proferidas por Arquette. A repercussão do vídeo do discurso aconteceu por um motivo simples e inquestionável: a existência, sem nenhuma dúvida, da situação de desigualdade salarial apontada pela atriz, que encontra paralelo em todo o mundo e em todos os setores produtivos da sociedade.

Em duas páginas recheadas de clichês e ironia de mau gosto, a revista Veja tentou desmerecer décadas de luta das mulheres e a visibilidade do tema gerado por Arquette – que, em todo o planeta, segue numa crescente de apoio, iniciativas, ações e movimentos oriúndos das mais diferentes classes sociais e culturais. Assim sendo, nos sentimos na obrigação de usar esse vergonhoso equívoco para esclarecer que a luta pela equiparidade salarial independe da classe social da mulher, e diz respeito ao fato de que homens executando exatamente a mesma função – muitas vezes com menos experiência e menor formação – ganham mais simplesmente por serem homens.

Os 10 homens com os melhores contracheques de Hollywood ganharam um total de US$ 419 milhões em 2013, enquanto as dez mulheres mais bem pagas ficaram com pouco mais da metade, cerca de US$ 226 milhões. A revista afirma que Arquette não sabe a diferença entre salário e remuneração. Primeiramente, ela não se referia apenas à situação das atrizes, mas à situação das mulheres em todas as profissões. Em segundo lugar, a remuneração não é igual para ambos os gêneros mesmo quando se trata do mesmo filme.

Quando a empresa Sony foi alvo de ataques de hackers, em novembro de 2014, o vazamento de e-mails confidenciais de executivos revelou que Jennifer Lawrence receberia quase 10% a menos que os colegas de equipe Christian Bale, Bradley Cooper e Jeremy Renner no filme “Trapaça”, mesmo sendo a única a já ter ganhado um Oscar. Na ocasião, ficou acordado que Lawrence receberia 7% dos lucros, e os colegas homens, 9%. Tanto salário quanto remuneração são díspares entre homens e mulheres. O que a revista Veja tenta ignorar ou faz parecer um problema menor é que todas as mulheres do globo, sejam elas atrizes deslumbrantes de Hollywood ou mantenedoras de famílias com 6 filhos em surbúrbios do mundo, estão cientes desse problema e exigem que essa incorreção, para dizer o mínino, aconteça imediamentamente.

É hipócrita notar que, só agora temos vozes que se fazem ouvir e endereçam problemas da desigualdade de gênero – esse, em específico. Não só a revista esnobou tais iniciativas, tão custosas para umas e tão necessárias para outras, como ainda colocou no mesmo balaio a campanha #AskHerMore.

A reportagem foi extremamente infeliz ao usar os altos salários da indústria do cinema norte-americano para desqualificar o discurso da atriz vencedora e os aplausos das artistas presentes na plateia, sendo que o estava em questão nunca foi a vulnerabilidade social das profissionais, e sim o fato de que não importa o lucro que retornem aos estúdios, ou o sucesso que atinjam seus filmes, nenhuma atriz tem seu rendimento igual ao de um homem na mesma posição.

O machismo mata pelo menos 5,5 mil mulheres todos os anos no Brasil segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Somente isto deveria colocar como um dos princípios de uma publicação do peso da revista Veja – carro chefe da Editora Abril, que investe firmemente em produtos de educação – agir sempre para dar fim ao feminicídio e a todos os os tentáculos que o mantém, principalmente em uma época de obscurantismo político, quando um representante eleito e sustentado pelo povo, em um país onde 51,3% dos habitantes são mulheres, declara ser justificável “uma mulher ganhar menos que um homem porque ela engravida”.

A luta da qual a Veja fez tão pouco e à qual prestou tão grande desserviço não diz respeito a contas de bancos infladas, e sim a sermos tratadas intelectualmente inferiores ao gênero masculino ou como uma mão de obra menos qualificada somente por sermos mulheres.

Alguns números que embasam a situação desigual que vivemos hoje:

– Segundo um relatório publicado pelo The Hollywood Reporter, entre junho de 2013 e junho de 2014, o ator mais bem pago foi Robert Downey Jr., que ganhou US$ 75 milhões de dólares enquanto a representante feminina na mesma posição, Jennifer Lawrence, embolsou US$ 35 milhões no mesmo período. Ou seja, menos da metade.

– Em uma lista mista com os dez nomes mais bem pagos do cinema americano, segundo a revista Forbes, Sandra Bullock ocuparia a terceira posição (US$ 51 milhões), mas só haveria apenas mais uma mulher, Jennifer Lawrence, com um rendimento de US$ 34 milhões.

– Segundo o estudo Gender Inequality in 500 Popular Films, apenas 15% dos 500 filmes mais populares já realizados conta com uma protagonista mulher.

– No Oscar de 2015, nenhum dos indicados a Melhor Filme trazia uma mulher como protagonista

– Segundo as Nações Unidas, independente de nacionalidade, cultura, religião ou condição social, 70% de todas as mulheres do mundo já sofreram ou sofrerão algum tipo de violência em, pelo menos, um momento de suas vidas

– De acordo com um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2013, a cada noventa minutos, uma brasileira é vítima de violência.

– Entre 2001 e 2011, ocorreram mais de 50 mil mortes de mulheres por causas violentas. Em média, 5.664 feminicídios a cada ano, ou uma morte a cada 1h30, segundo o instituto.

Esta nota de repúdio foi elaborada por algumas pessoas, mas representa milhares, milhões de outras. Se você também concorda com a nossa absoluta discordância da matéria publicada na Veja, reverbere esta nota, viralize-a, compartilhe-a. Colabore para que esta voz seja ouvida e, nossos direitos, garantidos.

12 pensamentos sobre “Sobre o desastroso texto da Veja ridicularizando Patricia Arquette

  1. Desde sempre sabemos dos malefícios desta coisa que se chama (revista veja), que aqui no Brasil, infelizmente é usada como referência por inúmeros leitores e pasmem, pela própria imprensa – PIG, como fonte para justificar o seu perfil preconceituoso sobre qualquer tema que tenha algum interesse social. Então, dentro do meu espaço democrático nesta sociedade em que vivo, proponho que este planfeto pernicioso, preconceituoso e que deseduca seus leitores, de qualquer idade, que o mesmo seja extinto em favor da Paz, da Harmonização Social e do meio ambiente pois estão utilizando bens da natureza como o papel, tinta, energia e outros para poluir as mentes com inverdades sobre a condição humana e pregando SEMPRE a mentira, o medo e a desarmonia em favor do “partido da guerra” em todas as situações, assim – fora revista veja – hora bolas!!!

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  2. Completamente equivocada. Por acaso a melhor jogadora de cutebol do mundo ganha igual ao cristiano ronaldo? A mvp da wnba ganha igual ao ao le bron james? Nao e isso é devido ao fato deles renderem aos seus clubes muito mais que elas. A jennifer lawrence nao ganha igual ao downey jr por causa da bilheteria que seus filmes geram. Nao estou com isso dizendo que nao existe preconceito contra o trabalho feminino, cla ho que existe sim e deve ser combatido, so estou dizendo que esse e exemplo do cinema nao é o melhor pra mostrar esse preconceito.

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  3. E nada sobre o jovem venezuelano assassinado.
    Nada sobre as pessoas degoladas ou queimadas pelo ISIS.
    Nada sobre o silêncio da ”presidenta” .
    Mas porque se importar com um jovem venezuelano,
    quando se há algo mais importante a se tratar: o ”baixo”
    cachê de uma atriz americana e as ironias da Veja?

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  4. ah, realmente as mulheres engravidam, e amamentam, e cuidam dos filhos, e pagam por colocarem cidadãos, trabalhadores, eleitores e pagadores de postos no mundo!!!!
    Sociedade inóspita p a mulher e a criança… Suicida???

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