Comportamento/Política

O que as situações da Grécia e da França poderiam ensinar ao PT

Há na Grécia dois partidos que por décadas dominaram a cena nacional e se alternaram no poder, mais ou menos como democratas e republicanos nos Estados Unidos, e PT e PSDB no Brasil: o Movimento Socialista, de centro-esquerda, e o New Democracy, de centro-direita. Governada pelo partido de direita e mergulhada em políticas de austeridade – aquelas que diminuem o investimento do estado em bens básicos para a população e estimulam a participação do sistema financeiro e do mercado na regulação da economia -, a Grécia afundou na maior crise de sua história. Foi nesse cenário que o partido mais à esquerda – o Movimento Socialista – derrotou o partido mais à direita – o New Democracy – prometendo acabar com as políticas de austeridade e voltar a investir em bens sociais. Mais ou menos como o PT prometeu seu “Muda Mais”, ainda que ele não estivesse substituindo a oposição, mas apenas detectando a necessidade de fazer mais pelo social.

Acontece que assim que o Movimento Socialista tomou o poder ele se viu seduzido a manter a austeridade, e a se curvar às regras impostas pelo sistema financeiro europeu, de quem a Grécia é devedora, e levou a Grécia ao absurdo de ter 1/4 de sua população desempregada. Traindo o eleitorado, o partido foi criticado e devidamente humilhado na eleição seguinte, que aconteceu no começo desse ano, quando o Syriza, partido de esquerda radical, chegou ao poder de forma avassaladora. O Syriza era, até então, um partido que não conseguia mais do que 6% de votos em eleições. Ou seja, seria mais ou menos como se, na próxima eleição, o partido de Luciana Genro conseguisse elegê-la presidente tendo mais votos do que PT e PSDB somados.

Na França, François Hollande, de esquerda, substituiu Nicholas Sarkozy, de direita, com promessas semelhantes: vamos acabar com a austeridade. E, como o Movimento Socialista, depois de eleito esqueceu das promessas. Se houvesse uma eleição hoje, o partido de Marine Le Pen, radical de direita, chegaria ao poder tamanha a insatisfação popular com Hollande

(Nota de rodapé ainda que o rodapé esteja longe daqui: Le Pen mandou recado ao Syriza parabenizando-o pela vitória e desejando sorte. Esse é o ambiente político mundial, um no qual partidos pequenos e radicais começam a entender que a desigualdade é tão grande, e a insatisfação popular tão crescente, que existe uma chance real de, movidos pela enorme frustração coletiva, se elegerem — como o Podemos na Espanha, outro radical de esquerda que ganha corpo).

São dois exemplos semelhantes, que começam com o desejo popular por mudança, com uma promessa e com uma história de traição ao eleitorado, e terminam em lugares muito diferentes: um, radicalmente à esquerda; o outro, radicalmente à direita.

Na Grécia, a população entendeu que apenas o fim da austeridade a salvaria; na França a população, historicamente de esquerda, esperneia por mudanças e por melhores condições de vida e, sem saber o que fazer, olha para a direita, para o perigo do nacionalismo, do patriotismo extremista, das leis anti-imigratórias, essa ilusão que supostamente garantiria a eles as “melhores condições de vida” e “melhores empregos” – a instalação daquele clima de um contra o outro que sempre antecedeu tragédias históricas.

Tudo ficaria esclarecido se fôssemos devidamente informados que o Capitalismo chegou ao fim e que, se um dia foi um sistema econômico capaz de gerar riqueza, hoje só produz desigualdade.

Mas falar do sistema capitalista é o maior tabu de todos os tempos, e por isso é importante que continuemos a ser manipulados a pensar que se falta água é porque Deus está nos castigando por tantos pecados e não porque a Sabesp decidiu beneficiar acionistas distribuindo lucro em vez de beneficiar a população reformando o sistema, e se falta emprego é porque imigrantes saem de suas terras devastadas e vêm aqui tirar os nossos, e se as terras de certos povos são devastadas é porque eles não souberam cuidar dela e não porque foram explorados por um país rico, e se os salários são baixos é porque o patrão já não consegue pagar decentemente devido aos altos impostos cobrados pelo governo, e se há muitos pobres é porque eles não se esforçaram o suficiente já que quem se esforça muito sempre chega lá (ainda que eu não conheça uma pessoa pobre que seja preguiçosa).

A explicação para todos esses problemas é o esgotamento do capitalismo, mas sobre isso não se fala e, para que não seja preciso entrar nesse debate, a mídia corporativa faz ginástica para encontrar e propagar outros culpados, nem que para isso seja preciso perpetuar preconceitos e jogar uns contra os outros.

Os que têm preguiça de pensar escutam alguém falar que o capitalismo morreu e imediatamente entendem que se trata de uma pregação ao comunismo. Uma coisa não tem a ver com a outra e seria importante abandonar esse pensamento simplista e escasso de informação para que assim pudéssemos começar a pensar num outro sistema econômico que venha a substituir o atual e distribuir a riqueza de forma mais justa.

Se tem uma coisa que a história mostra é que sistemas econômicos morrem e são substituídos: da escravidão para o feudalismo, do feudalismo para o capitalismo. Houve melhora de um para o outro, então podemos imaginar que está em nossas mãos encontrar um novo sistema econômico que seja melhor do que o atual. Não falar sobre isso apenas nos conduzirá mais rapidamente à extinção, já outra característica do capitalismo além da falta de capacidade de distribuir riqueza é a de devastar o meio ambiente em nome do lucro rápido.

Mas voltemos ao Brasil, onde ainda não há uma esquerda organizada e coesa que possa se unir e tentar ocupar o lugar deixado pelo PT. Mas há uma direita, feita de políticos conservadores, intolerantes e amantes da austeridade (ainda que no mundo inteiro ela tenha se provado um fracasso – fracasso para a população, naturalmente, não para CEOs ou para o restante da classe dominante). Uma direita radical e fanático-religiosa, alheia a qualquer causa humanitária ou ambientalista, que defende coisas como o ensino do criacionismo nas escolas, e que já chama o Congresso de seu.

Então, a falta de pulso e a sonolência de Dilma no começo dessa segunda administração talvez custem muito caro. Vocês podem não gostar do que veem à esquerda, mas olhem para a direita radical – Bolsonaros, Cunhas e Crivellas – e tentem imaginar um cenário mais trágico.

Que Dilma leve a história recente como exemplo, tome tenência, se aprume, encare de frente a morte do sistema econômico que até agora nos embalou, volte a investir pesado no social, pare de se aconchavar e curvar ao poder corporativo, olhe para o meio-ambiente, para a população indígena… enfim, que se comporte como a respeitável líder de um partido de esquerda e honre aqueles que a elegeram. A alternativa é assustadora.

4 pensamentos sobre “O que as situações da Grécia e da França poderiam ensinar ao PT

  1. Muito bom o seu texto, faz pendar,mas discordo da parte de chamar o Crivella de radical: só por que ele é religioso que pode ser comparado a Bolsonaros e Felicianos da vida? Sem parec

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  2. Ola querida.. a Dilma não é de esquerda, pois as decisões políticas no Brasil recente sempre foram de um governo autocrático burgués (bancos empresa e mídia). Ela so tem um viés de esquerda com algum problemas sociais. Sobre o caso da Grécia é um exemplo de um caso equivocado de adoção ao Euro, muitos países não adotaram, como por exemplo a Inglaterra, o Euro apesar de ter pontos positivos restringe o país na adoção de políticas monetárias, o que acaba com os países deficitários. O caminho recente de sucesso encontrado pelos países desenvolvidos, com os bons crescimentos deste ano, têm sido de um capitalismo bem regulado. bjs.. acho que você lembra de mim .. rs M A Gelpi

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