Comportamento/Economia/Vida

A grande delinquência

Se eu fosse um tico mais esperta e sagaz não escreveria mais uma linha sobre as manifestações desse domingo 15 de março porque a cada dia mais brilhante Eliane Brum lacrou o assunto em sua coluna do El País (link no final do texto) de 16 de março. Mas como além de limitada sou teimosa tenho que tentar refletir sobre algumas das coisas que aconteceram ontem.

Parte do problema em que estamos metidos hoje passa pelo fato de só entendermos um tipo de delinquência e violência – que é aquela do pobre contra o rico (o assalto no sinal, o roubo da padaria), ou aquela do político que desvia grana pública.

Existem delinquências maiores e mais perigosas, como ir a uma manifestação carregando faixas que pedem a volta da ditadura e cartazes que ofendem o presidente de uma nação com adjetivos baixos.

E delinquências como a do mega empresário que sonega e evade – um tipo de delinquente que causa muito mais danos à nação do que o delinquente parado no sinal de trânsito e até do que o político que rouba – é o que dizem os números.

Do mesmo jeito que só entendemos um tipo de educação – aquela das escolas e universidades – e desconsideramos como pessimamente educado o “bem educado” que chama a presidente de vaca e vagabunda.

Me incomoda também chamar de manifestação um movimento que puxa o saco da polícia.

Obviamente não é preciso haver confrontamento entre manifestantes e policiais para que o movimento seja caracterizado como “pró-mudança” (ainda que os mais importantes da história tenham tido), mas sair de “não entramos em confronto com a polícia” para “tiramos foto e beijamos os policiais” é muita coisa.

Um movimento que prega mudanças profundas não anda de mãos dadas com a polícia – nunca andou na história do mundo – porque a polícia está ao lado do poder e movimentos que exigem mudança estão contra o poder porque se estão a favor do poder são movimentos que querem apenas manter tudo como está e não mudar coisa nenhuma (e quando falo de poder falo de poder corporativo, aquele que de fato manda em um país como o Brasil de hoje, e quem tiver alguma dúvida basta olhar para nosso parlamento e entender quem está lá e por que está lá).

Pensem nos movimentos sociais que mais transformaram épocas e tentem imaginar a turma nas ruas beijando a polícia. Para que se transformem hábitos e costumes e se conquistem as mudanças que nos fazem evoluir é necessário que haja pelo menos uma certa tensão entre os que querem transformar e os que são pagos para manter. Não é preciso haver pancadaria, mas é preciso que os lados estejam demarcados – ou então, outra vez – não se quer transformar, mas apenas bajular o poder e manter a estrutura (como em 64).

Por tudo isso me parece que o que vimos ontem, ainda que significativo, talvez esteja mais para o lado do poder do que para o lado do povo e das mudanças que ainda precisam ser feitas para que continuemos a evoluir e melhorar. E talvez muita gente que tenha ido ontem às ruas não tenha percebido isso.

Sair por aí gritando apenas contra a corrupção, e responsabilizando apenas um partido por ela é como vociferar contra assassinatos e responsabilizar apenas Chico Picadinho por eles.

Primeiro, me parece que protestar de forma geral contra assassinatos não tem muito efeito – o homem continuará a assassinar.

Depois, criticar apenas um partido pelos assassinatos do Brasil, ainda nesse cenário hipotético, caracteriza a pessoalidade da coisa – e quando passa a ser pessoal deixa de ser racional.

Os problemas do Brasil vão muito além do político que rouba (e a coluna da Brum passa por eles de forma sublime). O empresário que sonega, por exemplo, faz um rombo nos cofres públicos 25 vezes maior do que o politico que desvia, e o escândalo do HSBC (que facilitou a abertura de contas suspeitas na Suiça para inúmeros empresários do Brasil e do mundo) tem potencial para ter desviado 10 vezes mais dinheiro dos cofres públicos do que o da Petrobrás – mas sobre isso não se fala.

O importante é jogar nossa atenção para o político que desvia porque o poder está ao lado do mega empresário que sonega, e enquanto acharmos que é tudo culpa do político safado esse mega empresário – um sujeito fino, educado e bem vestido para o qual todas as portas são abertas e que comanda corporações que estão mais para estados totalitários do que para belíssimos exemplos de democracia – estará são e salvo da fúria popular.

E assim, manipulados pela mídia corporativa, somos jogados uns contra os outros. Direita e esquerda. Bons e maus. Certos e errados – e aqui vale citar o professor e pensador e ativista Noam Chomsky, 86 anos : “O propósito da mídia de massa não é informar, mas dar forma à opinião pública de acordo com interesse do poder corporativo” (aliás, sobre o tema, vejam vídeo que a revista Trip fez na Paulista ontem e que serve como ilustração para o que diz Chomsky: o que está no vídeo da Trip foi omitido por todas as emissoras de TV).

De suas salas de mármore, com ar-condicionado e segurança particular na porta, o grande e impenetrável Poder olha a multidão se digladiando nas ruas e sorri aliviado.

Link para o fundamental texto de Eliane Brum: “A mais maldita das heranças do PT

Link para o fundamental vídeo da Trip: “Por favor, chamem o alto comando

25 pensamentos sobre “A grande delinquência

  1. Milly,

    A gente pode dizer o que for, mas qualquer governo com um mínimo de noção sabe que tem que parar e fazer um balanço do que está acontecendo a sua volta quando 2 milhões de pessoas vão as ruas em um país como o Brasil, e sobretudo em um Domingo que não é dia de manifestação.

    As pessoas ali queriam somente uma coisa: que a Dilma saia e que leve o PT com ela.

    Cada um expressava isso da forma que sabia ou achava melhor, pois o direito a expressão é livre.

    O PT não inventou a corrupção. Mas a praticou em escala industrial.

    Destruiu a principal empresa brasileira.

    Mas errou feio na política economica e nos colocou em uma recessão. E vem para a TV nos pedir sacrifícios, sem abrir mão de alguns dos 39 ministérios e nem dos empregos da cumpanherada. Ou seja, o sacrificio é nosso.

    Destruiu o setor elétrico, quando a Dilma colocou o dedo lá por 12 anos.

    E corremos um serio risco de racionamento.

    Como pode um pais voltar a crescer sem luz para a industria?

    Não precisamos usar palavras de baixo calão para com a Presidenta, mas ninguém realmente acha que a Mãe de um juiz de futebol seja o que chamam quando estão se referindo a ele durante uma partida de futebol.

    Ela merece respeito. Mas deveria respeitar a nossa inteligência e não nos tratar como verdadeiros idiotas.

    So queremos que ela saia pois lhe falta competência.

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  2. Sim é verdade, mas porque ir contra a polícia? Porque chamar de puxa sacos? Não generalizo. Já vi manifestações em países onde a policia dava segurança e era bem recebida. Só não era pelos blacks blocks e/ou bandidos de esquerda ou direita. Sim claro, a policia defende o poder, perfeito( vemos isso no Brasil, Venezuela, E.U, França, China, para citar apenas alguns). Ontem vimos que a coisa não é maniqueísta, existe um leque de demandas (certas ou erradas). Não sou a favor do impeachment, da volta da ditadura, da intervenção militar, de ofender a presidente(admito a vaia) Sou a favor das mesmas coisas de sempre: que meus impostos sejam bem usados, que eu não precise pagar por educação, saúde e segurança. Que o transporte funcione para a população, elite ou não. Ontem teve um pouco de tudo. Infelizmente, como alguém já disse, a liberdade é a de quem discorda de nós. Virtude não tem partido. Acredito que a democracia brasileira é nova, estamos aprendendo ainda, enquanto não votarmos o mais corretamente possível( não estou me referindo a presidencial nesse caso). Quando sairmos as ruas pedindo serviços padrão FIFA, por exemplo, não elegermos um Tiririca “da vida” na sequencia! Ou um Bolsonaro, esse ainda representa uma parte do pensamento da população(fazer o que? Só lamentar) Tiririca foi voto de protesto? Não creio… Não quero denegri-lo( já o fiz) uso-o como exemplo para qualquer outro. Temos que entender que os mesmos que hj são oposição e, se sentem indignados, faziam o mesmo quando eram poder, e vice versa. As brigas nas redes são simplistas e débeis; a turma dos certos vs a turma dos errados. Acredito que o que estamos vivendo entrará nos livros de historia como o momento de aprendizagem do povo brasileiro. Nesse quesito é que apoio as manifestações pró e contra. Na minha visão, limitar a uma luta de classes, é não enxergar o tamanho real da situação. Meu espaço amostral não é grande mas ouvi, por exemplo, auxiliares de caixa de supermercado, falando mal do ex presidente Lula, dizendo que ele não aparece “porque está preocupado em esconder o dinheiro roubado”. E olha que o ex presidente teve grande apoio popular e entregou o pais com crescimento de 4% no PIB. Na minha visão a presidente perdeu uma grande oportunidade para desenvolver um bom governo. Não votei na presidente, mas gostaria que ela conseguisse a governabilidade, será bom para população, consequentemente será bom para mim também. Não é justo só porque sou contra a maneira que o país foi politicamente conduzindo nos últimos 4 anos, ser considerado, de maneira pejorativa, de direitista, elite branca, etc… Não existe a elite de esquerda, seja ela caviar ou não? Ser governo já é ser elite, pois tem o poder.(a exceção é o ex presidente Mojica rsrs) E isso não é pecado. Concordo quando se diz que a maioria é influenciada pela mídia, pelo governo, pela propaganda etc… Quando educarmos mais o povo, diminuiremos os cabrestos.
    Viva nossa democracia com seus erros e acertos, estamos aprendendo.
    E por favor peça para o sr. Kfoure, lhe dar credito quando faz sua crônica politica. Pelo menos dizer que inspirou-se em vc. Ele não teve a sua competência.
    Vc eu respeito por seus excelentes textos. Mesmo quando discordo.
    Valeu.

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    • Oi, Carlos. Muito obrigada pelo comentário, pelo tempo que foi dedicado à leitura e por tanta generosidade comigo. O problema é mesmo complexo, vale reflexão. Acho que você tem razão em muita coisa, e concordo que nossa democracia tenha que ser celebrada. Seu posicionamento crítico é perfeito e se todos fizessem oposição como você já estaríamos em um lugar melhor. O mundo está mudando, acho que o sistema econômico que há 300 anos nos embala está esgotado e passaremos por grandes mudanças. Será preciso muita consciência para que saiamos dessa inteiros. Muito obrigada por aparecer por aqui. Pessoas como você me dão esperança. Beijo.

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  3. Milly do teu texto deduzo que – assim só resta nos DIVÓRCIARMOS DO BRASIL!!! Que, teus “links”, também lembram dois momentos da História do século XX, e perpassa o XXI, do qual fazemos parte – direta ou indiretamente – do TERROR das duas gerras com a era Macartista (Joseph McCarthy) e que já no século XXI, num mundo dominado pelo “tio sam” com os Georg’s Bush’s, e o (prémio Nobel da PAZ) Barak Obama’s da vida, e do Revisionismo a partir da era Khrushchov (Nikita Khrushchov) que durou até a farra dos: Gorbachev / Iéltsin (Mikhail Gorbachev) / (Boris Iéltsin) … Para que isso não ocorra, … o negócio é ir morar numa cabana no meio do mato (tipo … na Região da Mata Mineira) e ficar convivendo com a natureza e suas borboletas, besouros, luares, alvoreceres, entardeceres e se precaver dos mosquitos que querem o nosso sangue como no cenário atual da política brasileira o mundial, que Tu expressa com TEXTOS muito competentes, e que a política do mundo nunca foi diferente, ao menos eu nunca vi outra, assim …. “… a gente vai levando …” senão vamos ter que consumir (prozac) e eu prefiro tomar uma (caipirinha)… Valeu Milly!!!

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  4. Como sempre, palavras perfeitas, assino embaixo de tudo. Só um adendo: o problema não é tirar foto com a PM, é tirar foto com ESTA PM, que só cumpre o seu dever contra uma determinada parcela da população.

    No vídeo da Trip tem um careca fortinho no metrô falando “eu não fumo maconha, não preciso ter medo da PM”. Me lembrou o poema clássico do Brecht, Intertexto: “Primeiro levaram os negros, Mas não me importei com isso, Eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, Mas não me importei com isso, Eu também não era operário. Depois prenderam os miseráveis, Mas não me importei com isso, Porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados, Mas como tenho meu emprego, Também não me importei. Agora estão me levando, Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, Ninguém se importa comigo.”

    Deu uma folguinha aqui, agora me aguenta que vou comentar em todos os seus textos.

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  5. Milly, vejo muitas pessoas com uma vontade enorme de participar, que possuem energia para levar este país a um estado incrível de saúde e bem comum. Mas este mesmo povo me preocupa, vejo minha família e pessoas muito próximas, com o discurso: contra a corrupção e portanto contra o Pt. E isso é muito perigoso, porque mudar a roupa não muda o interior e a intenção de ninguém. O próximo partido esconderá as falcatruas, como sempre foi feito, e aí não será submetido a lava a jato? E os intocáveis que aí estão, protegidos pela mídia? Estão feito urubu a espreita da carniça. Estão louquinhos para derrubar a democracia e entratem pela outra porta, já que por esta não conseguiram entrar.
    Tem muito mato neste coelho…
    E lá vamos nós usando este caminho das redes sociais e das rodas de conversa(onde nem sempre somos bem vindos), com a nossa vontade, que os brasileiros tenham um olhar contextual sobre o país, os partidos, o passado, presente e futuro, e depois concluam com um pouco mais de isenção qual a melhor forma de protestarmos e ajudarmos o Brasil.
    Só vejo por aqui o contraste, o favor ou o contra. E assim, proponho um caminho lateral, marginal, diferente disso tudo. Mas não sou política, nem popular. E também não sei como seria na prática este caminho lateral. Mas se o ver passando, se sentir o seu cheiro, de alguma forma perceber a sua presença, saberei que será ele o melhor para escolher. Não sei se me entende, mas a eu ando muito pensativa e reflexiva com tudo isso.
    Parabéns pelo seus textos, me servem com um gerador de reflexões.

    Katia Torres

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    • Muito obrigada, Katia. Você tem razão e a Eliane Brum falou sobre essa polarização na coluna dela no El País. É leitura obrigatória. De certo mesmo é que o momento pede reflexão e calma, você tem toda a razão nessa também.
      Beijo

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  6. Milly

    Concordo que a corrupção não é culpa de um partido e que começou agora no governo PT. O que incomoda é a maneira como é tratada. O governo afirma que facilita a ação da PF e por isso está se descobrindo os casos de corrupção, isto não é verdade. O governo há quase dois anos vem falando em medidas anti corrupção e nada foi feito. O que vemos foram manobras no STF para redução de penas dos condenados no mensalão. A tentativa de culpar o setor privado por toda corrupção na Petrobras também é um erro. A fala do ex presidente da Petrobras tentando justificar a corrupção foi patética. Fica difícil se manter ao lado de um governo que trata estes assuntos só com blá blá blá. Mais ação e menos conversa é isso que o povo quer. Infelizmente a tentativa de separação entre esquerda e direita, ricos e pobres foi pra mim um grande legado deixado nestes últimos anos.

    Para completar, espero que um dia a polícia seja motivo de orgulho para a maioria da população brasileira. Tenho certeza que quando este dia chegar estaremos em outro nível.

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    • Oi, Rodrigo. Obrigada pelo comentário. A administração da Dilma deixa muitíssimo a desejar. Muito mesmo. Mas acho que a escolha era entre modelos de governos e nada de bom viria de Aécio ou do PSDB. Acho que nos livramos do pior, e agora temos que olhar criticamente para Dilma e não parar de apontar erros. Em relação à polícia, ela é paga para defender o poder e não o povo. É assim no mundo inteiro, por isso um dos maiores problemas hoje no mundo é a militarização da polícia, que deixa claro que os inimigos somos nós. Não é culpa de quem está dentro dela, mas culpa da estrutura montada e do sistema que nos rege. Enfim. Outra vez obrigada por ler e me dedicar esse tempo.
      Abraço.

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  7. Milly, vejo algumas falácias no seu texto:

    “Parte do problema em que estamos metidos hoje passa pelo fato de só entendermos um tipo de delinquência e violência – que é aquela do pobre contra o rico (o assalto no sinal, o roubo da padaria), ou aquela do político que desvia grana pública.”

    Apesar de concordar com você que a sociedade tende a julgar crimes do “colarinho branco” com menos rigor do que crimes violentos, seu parágrafo beira o absurdo. Primeiro, começamos do fato que a grande parte dos homicídios ocorridos no Brasil (o país dos homicídios), não tem como vítima os “ricos”, mas sim os “pobres”. E nesse caso, o exemplo da padaria se enquadra perfeitamente. Desde quando padeiro da periferia que morre no assalto é rico? O outro absurdo do seu parágrafo consiste em classificar o crime do “político que desvia grana pública” como um crime de pobres contra ricos. Num país onde o salário médio não chega a dois mil reais mensais, todos os políticos são ricos! E ainda mais absurdo é você não perceber que a grana pública é tanto dos ricos quanto dos pobres.

    Outro ponto que é, no mínimo ilógico: “Existem delinquências maiores e mais perigosas, como ir a uma manifestação carregando faixas que pedem a volta da ditadura e cartazes que ofendem o presidente de uma nação com adjetivos baixos.”

    Então ir a uma manifestação portando um cartaz com o nome do presidente do país vinculado à um adjetivo baixo é, na sua opinião uma deliquência maior do que roubar dos cofres públicos? Porque, se for, deveríamos alterar a constituição, que prevê liberdade de expressão e, concomitantemente prevê a criminalização do roubo. Apesar disso concordo que, mais do que não aderessar palavras de baixo calão à Presidentes, não deveríamos usar o recurso com ninguém.

    Por fim, gostaria de comentar isso: “Um movimento que prega mudanças profundas não anda de mãos dadas com a polícia – nunca andou na história do mundo – porque a polícia está ao lado do poder e movimentos que exigem mudança estão contra o poder porque se estão a favor do poder são movimentos que querem apenas manter tudo como está e não mudar coisa nenhuma”

    Concordo com a ideia geral, com a teoria do protesto, mas não vejo a necessidade de se entrar em confronto com a polícia. Acredito que em sociedades mais desenvolvidas (que óbviamente não é o caso dos Estados Unidos) a relação da população com a polícia se dá de forma muito mais harmônica e pacífica do que no Brasil. Você pode achar isso um absurdo, mas pense na situação de um polícial que trabalha em péssimas condições, ganha um salário baixo, se expõe à inúmeros riscos e ainda, para se desenvolver em sua profissão e tentar diminuir o seu risco de morrer, tem que comprar com o próprio dinheiro o colete que usa. A instituição “polícia” é formada por seres humanos. Tente enxergar, mesmo que por um minuto, as coisas sob o olhar desses seres humanos.

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    • Aliás, Milly, fiquei intrigado com duas coisas:

      1) Se o movimento social que bajula a polícia lhe é “incomodo”, o que pensar então de um movimento social que bajula a Presidenta?

      2) Tratando de “bajulação”, qual é a função social do jornalista que só faz bajular os governantes?? Se quiser posso inclusive fazer uma lista desses aqui. Se o governo já conta com uma máquina publicitária enorme e com uma série de assessores de imprensa, qual é o motivo de um jornalista decidir espontaneamente “defender” os governantes?

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      • Oi, Bruno. Obrigada por ler e comentar.
        Eu acho que pregar volta da ditadura é uma delinquência maior do que roubar no sinal e equivalente a desviar grana pública. É apenas minha opinião, tão importante quanto qualquer outra.
        E não acho que tenha que haver confronto com a polícia, por isso escrevi “Obviamente não é preciso haver confrontamento entre manifestantes e policiais para que o movimento seja caracterizado como “pró-mudança”, e pensando bem essa palavra confrontamento talvez nem exista, mas a ideia existe: a de que é preciso, como escrevi, haver uma tensão entre os que querem mudança e os que querem manter a ordem. Se não há tensão, não há o desejo de mudança. Pense em todos os grandes movimentos sociais e nas imagens que vêm à mente. É a do manifestante encarando o policial bravo ou a do manifestante fazendo selfie com ele? Lembra-se do homem parado em frente ao tanque na Pça da Paz Celestial na China? É disso que estou falando. Não precisa haver pancadaria, mas é preciso existir tensão. Outra vez, apenas minha opinião.
        Quanto às perguntas acima,
        1) Bajular presidente nunca é a coisa certa a ser feita. O presidente defende interesses que muitas vezes não são os nossos, mas os do poder corporativo. Não acho certo bajular, assim como não acho certo agredir. Criticar sempre.
        2) Não posso falar por todos os jornalistas então falo por mim. Não defendo presidentes, defendo ideologias. Se der uma fuçada no blog vai encontrar muitas críticas à nossa Presidenta, aliás. Podemos lutar por uma causa, mas o olhar deve ser sempre crítico.
        Abraço

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  8. Oi, Milly!
    Muito verdadeiras suas palavras.
    Parabéns!
    Quanto ao texto sugerido, gostaria de fazer um pequeno comentário (lembrando que sou um simples professor de História da rede pública estadual, numa pequena cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro, convertido e militante da Teologia da Libertação desde a década de 70 e fundador do Partido dos Trabalhadores em minha cidade, embora atualmente não muito militante localmente).
    Não pretendo nem ouso contestar tão gabaritada jornalista, quero deixar claro. Só desejo expor uma fração do que senti.
    Bem, apesar das muitas verdades ali expostas, me deu uma grande tristeza ao ler o texto. Acho que a decepção, a angústia e o pessimismo tomaram conta dela de uma maneira muito forte, daí minha tristeza. Penso que esses sentimentos a levaram a se esquecer de certas características do povo e da alma do brasileiro, prejudicando um pouco sua análise.
    Mas, compreendo e respeito.
    Um grande abraço

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  9. Milly, tudo bem? Li todo o seu texto e também todas as mensagens dos outros participantes. Tenho duas perguntas:

    você acha sinceramente que uma faixa “Dilma filha da puta, devolve meu dinheiro” é mais grave que ser um assaltante de padaria ? Isso não me parece ter o menor sentido. Primeiro você tem que contextualizar o xingamento e o momento político. Você tem que entender que muitas dessas faixas foram escritas com a indignação de quem está sendo assaltado! Indignação de pessoas que trabalham duro e estão vendo seus impostos sendo desviados. Sinceramente, pedir educação numa hora dessa é o cúmulo. Achar a pessoa que escreveu a faixa mal-educada ou tosca, ok… eu provavelmente não escreveria esse xingamento também. Mas colocá-la numa escala onde ela é moralmente inferior a um assaltante que muitas vezes MATA, aí você passou do limite completamente.

    você diz defender ideologias. Mas como pode uma ideologia estar certa 100% do tempo? Como pode o mesmo remédio (a sua ideologia de esquerda) ser a solução para todos os males, independente da doença? Eu sinceramente acho que todos que agem por ideologias, sem analisar a situação, são os que mais atrapalham a política. Eu queria muito ouvir uma resposta sua sobre isso: como alguém que age ideologicamente pode estar sempre apresentando a melhor solução?

    Um beijo e obrigada mais uma vez por me deixar participar da discussão.

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    • Oi, Fabiana. Obrigada pelo comentário e por me dedicar esse tempo.
      Eu acho sim que uma faixa que ofenda à presidente da nação é pior do que o cara que assalta a padaria. Minha humildezinha opinião, claro.

      Acho que delinquências cometidas por aqueles que estudaram e tiveram chaneces na vida são maiores do que aquelas cometidas pelos excluídos e que tiveram pouca chance.

      As duas são delinquências, naturalmente, e minha crítica é que reconheçamos apenas a segunda como tal, nunca a cometida pelo rapaz bem cuidado, bem vestido e supostamente educado. Esse pode sair por aí gritando “ei, dilma, vai tomar no cu” que ninguém o reconhece como delinquente.

      Acho que uma ideologia nem sempre vai apresentar a melhor solução para tudo, e ideologias podem ir se ajustando e incrementando.

      A anarquia sindical, por exemplo, é, para mim, uma evolução do marxismo.

      Acho também muito vago que definamos as coisas como “esquerda” e “direita” porque ambas as correntes já produziram tiranos e ditadores, mas se me perguntam não tenho dúvida em dizer que sou “de esquerda”, ainda que seja necessário explicar de “qual esquerda” porque, por exemplo, o socialismo de estado não me interessa já que para mim ele tem os mesmos defeitos do capitalismo neo-liberal. Muda apenas a cara do chefe: um é o empresário, o outro o comissário

      Enfim. Espero ter pelo menos tirado algumas de suas dúvidas. Mas acho importante que não caiamos na tentação de julgarmo-nos certos e errados uns aos outros – tentação à qual me rendo com impressionante facilidade – porque tudo o que temos é a chance de parar, ler, pensar, refletir. E fazer isso já é muita coisa.

      Beijo

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  10. Milly, minha esperança é que a sua “escala da delinquência” esteja afetada pelo fato de você não morar mais no Brasil.

    Com relação a minha “escala da delinquência”, como ainda moro no Brasil e vivo com medo, latrocínio, sequestro relampago e etc… ainda são “piores” do que cartazes com palavrões e o nome da presidente.

    Aliás, se ao invés do nome da presidenta, estivessem nos cartazes os nomes do presidente da Câmara e do presidente do Senado você iria sugerir que é uma “grande delinquência”?

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    • Você lembra de, em protestos contra o Collor, ver placas “Collor vaganundo”, “Collor piranho”, “Collor vaco”? Uma faixa chamando Cunha e/ou Renan de qualquer uma dessas coisas me levaria a char que quem a fez é sim um delinquente. Mudar a latitude não altera o pensamento, Bruno. E a delinquência por aqui é exatamente a mesma que aí. A crise é mundial. O capitalismo está agonizando e enquanto não entendermos que esse é o problema real continuaremos a nos digladiar. Passar um ano longe do Brasil, indo e voltando, não afeta a análise. Apenas amplia.

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      • De fato não lembro, provavelmente nem você. Aliás, duvido que alguém se lembre (sem a ajuda das fotos e do google) de qualquer cartaz escrito àquela época. Porém lembro diariamente do trauma causado por um sequestro relâmpago que sofri em 2012. Posttraumatic stress disorder o nome disso. Por isso que o nível de delinquência é maior. O dano causado é maior. Um cartaz de um alucinado, ninguém lembra. Um tiro na cara do padeiro da esquina e a teoria da janela quebrada explica como a história desanda.

        Com relação à crise. Estamos vivendo em tempos que requerem mudanças, é fato. Mas não acredito que nem a Presidenta, muito menos o PT, muito menos ainda a figura de qualquer presidente seja a solução para a “crise”. Afinal, se o caminho é, na sua opinião, para a esquerda, o governo anterior da Presidenta já mostra que o rumo dela é outro.

        De qualquer forma, foi um bom debate.

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      • Valeu, Bruno! São tempos para debates e reflexões. Que bom que fomos capazes de discordar amigavelmente.
        Abraço e obrigada.

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