Comportamento/Economia/Política/Vida

Quem ganha quando a gente tira?

O episódio “podemos tirar se achar melhor” vale alguma reflexão.

É altamente suspeito que um repórter sugira a retirada de um parágrafo que acabaria sendo o único a levemente contra-argumentar o texto. Quando o repórter da Reuters diz ao editor, de forma doutrinada, que pode tirar do texto a parte que explica que as investigações da Lava Jato apontam para 1997 como o ano em que o esquema de desvios começou ele deixa a forte impressão que o entrevistado – FHC, ou o presidente do Brasil em 1997 – poderia ser poupado do mico da exposição.

Por que perguntar ao editor se ele prefere deixar ou tirar um fato que ajuda a informar e esclarecer, que é a missão do noticiário? Que interesses estão sendo protegidos? O nosso, que é o de ser informado? Não parece. Então quais? Vale pensar um pouco sobre isso.

Se o noticiário quisesse real e verdadeiramente informar estaríamos falando não exclusivamente de Petrobras e de como Dilma é culpada pelos desvios, mas também, e muito, de Renan e Cunha, e tentando entender como exatamente chegamos ao ponto de ter esses exemplos de tudo o que não queremos para o Brasil no comando das duas Casas. Mas não estamos falando deles (não para criticar pelo menos).

Estaríamos também lendo todos os dias a respeito de aquecimento global, e de como as corporações estão conduzindo a humanidade para o fim dos tempos em nome do lucro. Saberíamos de coisas como a seguinte: o nível de espécies sendo extintas hoje é igual ao da época em que um asteroide se chocou com a Terra e acabou com os dinossauros.

Falaríamos sobre a histórica desigualdade social que assola o mundo, e tentaríamos entender por que o capitalismo não está mais funcionando — e sem fazer uso de discursos doutrinadores e emburrecedores que sugerem que aqueles que dizem que o capitalismo não funciona mais estão em missão de implementar o comunismo.

Saberíamos que a crise econômica é mundial e está estagnando não apenas o Brasil mas também o resto do mundo.

Falaríamos da militarização das polícias do mundo inteiro, uma militarização que deixa bastante claro que o inimigos somos nós, a população, e não o país ao lado.

Falaríamos também sobre como o Estado e as corporações, num dueto maquiavélico, nos espionam a todos os instantes: emails, telefonemas, rastreamentos, câmeras por todos os lugares públicos. E debateríamos o fato de eles alegarem fazer isso em nome de nossa segurança, mas não encontrarem justificativa para a segurança não ter aumentado e, muito mais grave, negociarem entre si nossos dados pessoais, assim como nossa privacidade, com fins comerciais.

Tudo está provado, há livros e documentarios, há vazamentos, e, claro, há herois tratados como vilões pela mídia corporativa, como Snowden, Assange e Manning. Mas nada disso está no noticiário. Os fatos só podem ser conhecidos por quem estiver a fim de fuçar e explorar canais independentes de comunicação. E isso requer tempo e esforço.

A genialidade do capitalismo que está em pratica hoje é exatamente essa: ninguém tem tempo.

Você trabalha muito mais horas do que é saudável porque ganha pouco e gasta muito para poder adquirir tudo o que os publicitários, felizes agentes das corporações, dizem que temos que ter, chega em casa exausto e quer apenas tomar uma cerveja, ver alguma coisinha na TV e dormir.

A emissora de TV, uma corporação, está nesse jogo mas não para servir você, embora esse seja o discurso dela – mais uma pegadinha publicitária. O mercado dela são os anunciantes, ou outras corporações, para quem ela vende audiências, e de preferência audiências privilegiadas — os tais formadores de opinião.

Para entender o que acontece basta pensar o seguinte: um negócio, qualquer negócio, se curva ao seu mercado, que é quem compra o produto que ele vende, e não a outra coisa qualquer.

O que pode sair dessa equação? Uma corporação vendendo audiência privilegiada a outra corporação?

Ela vai querer falar de aquecimento global e frear o ritmo em que a corporação-cliente dela pode lucrar? Vai querer falar da militarização da polícia que protege o interesse do poder privado – ou seja, o poder da corporação que é cliente dessa mesma mídia?

Vai querer glorificar Assanges e Snowdens que prestaram enorme serviço ao mundo expondo toda a hipocrisia e crueldade desse sistema que corporações e Estados corporativos comandam? Vai querer falar do rombo que as contas suiças do HSBC podem representar aos cofres públicos?

Vai querer contar a você que a sonegação fiscal cometida pelo empresariado é 25 vezes maior do que a corrupção? Claro que não porque ela não quer prejudicar nem sua clientela nem o poder corporativo que ela mesma representa.

A mídia corporativa jamais jogará luzes sobre a podridão do universo corporativo, que dá as bases do capitalismo atual, porque ela faz parte desse mundo. E a tragédia disso é que os interesses deles se opõe aos nossos porque de um lado estão os que oprimem e do outro os que são oprimidos, e os interesses de um são essencialmente opostos ao do outro.

Então vamos falar de corrupção desse e daquele, mas não daquele outro porque aquele outro é o político que melhor defende os interesses do poder corporativo. Vamos deixar ele fora disso porque ele nos representa.

Nesse jogo imundo vale até tentar enfiar Eduardo Cunha como estadista, porque ele defende os interesses do poder privado a despeito de ser um homem com valores sociais do século passado e de ser acusado de dezenas de malfeitos.

Não que Dilma tenha tentando combater o excesso de poder das corporações; basta que olhemos a negligência dela para direitos indígenas e investiguemos os horrores de Belo Monte para saber que ela também joga o jogo do poder corporativo.

Mas Dilma representa uma certa ameaça ao poder corporativo porque se olharmos como o Brasil mudou nos últimos anos é inevitável concluir, por exemplo, que pela primeira vez na história o Nordeste tem voz, as domésticas têm direitos iguais, os negros começam a conseguir penetrar no sistema de ensino superior graças a ações de inclusão, as classes mais baixas têm alguma noção de vida decente.

Quando Dilma diz que é a favor de uma lei que regule os meios de comunicação ela comete um sacrilégio aos olhos do poder corporativo porque é mexer com o poder midiático, e ninguém quer perder monopólios.

Enquanto a economia ia bem, Dilma era até suportada pelo poder corporativo, mas quando começou a ratear abriu-se uma portinha para tirar do poder essa gente que dá uma certa bola para os interesses do povo.

Só que para saber dessas coisas é preciso investigar porque a mídia corporativa não vai falar sobre isso, nem sobre como o Bolsa-Família revolucionou algumas comunidades no Brasil, ou sobre como a ONU o usa como exemplo para o mundo inteiro.

Podemos e devemos avaliar Dilma, criticar, reclamar, espernear, ir às ruas, e assuntos não faltam, mas deveríamos ficar no mínimo suspeitos quando toda a mídia corporativa insiste em contar uma história que agora sabemos não é bem assim.

Dilma não inventou o esquemão na Petrobras. Nem Lula. Mas, até os paralelepípedos sabem, ambos são igualmente responsáveis por não terem acabado com ele, ainda que não o tenham parido.

Como não inventaram o Mensalão – embora Lula seja igualmente responsável por não ter acabado com ele.

Não é preciso nem de muito esforço para saber que o valerioduto que ficou marcado como uma invenção petista foi cria do tucanato mineiro – que jamais foi punido por ele. Por que a mídia corporativa não fala disso?

É hora de tentarmos entender por que exatamente a mídia quer, de forma desesperada, pintar apenas um partido como pai e mãe de todas as mazelas do país, ainda que esse partido seja co-responsável por muitas delas. Sabemos exatamente o que o PT tem de podre e de igual aos demais partidos, mas não é normal que, convidados pela mídia, apenas ignoremos os avanços sociais que chacoalharam o Brasil desde que Lula foi eleito.

Não é suspeito que essa mesma mídia reverencie até hoje o Plano Real (que foi de Itamar, mas o entregam a FH) e ignore tudo o que de certo fez o PT?

Qual o interesse? O que está por trás de tantas omissões? Por que continuar a usar FHC como fonte-única para o caso Petrobras quando depoimentos indicam 1997 como o ano em a roubalheira começou?

São perguntas que devemos nos fazer todos os dias, e que não dependem de sermos contra ou a favor disso ou daquilo. Dependem apenas de sermos movidos pela vontade de entender por que algumas notícias ganham destaque e outras não, por que alguns são poupados e outros fuzilados.

Uma introdução que George Orwell fez para 1984 e foi suprimida da obra dizia mais ou menos o seguinte:

O livro fala de uma sociedade totalitária, mas na Inglaterra livre e democrática as coisas não são assim tão diferentes. Ideias podem ser silenciadas sem o uso da força. O fato dessa introdução ter sido eliminada é a maior prova que ele tinha razão.

Estados totalitários reprimem usando a força; estados corporativos reprimem usando a propaganda, e a propaganda nada mais é do que a campanha de relações públicas que a mídia corporativa faz em nome de seus parceiros e a campanha de vilanização que faz contra seus inimigos.

Eu não sei você, mas a ideia de que posso estar sendo doutrinada me arrepia e por isso vou atrás de quem possa me informar dignamente.

Seja como for, se não servir para mais nada o episódio do “podemos tirar se achar melhor” já terá servido para deixar escancarada a manipulação – e, assim, abrir alguns olhos. E isso já é de alguma forma bom.

8 pensamentos sobre “Quem ganha quando a gente tira?

  1. Mily, e o mundo apresentado pela mídia, recortando daqui, omitindo dali, jogando holofote no que lhe interessa,forma seguidores rasos do mesmo sistema que os oprime.

    Volta e meia eu faço um exercício: aumento e diminuo a lente do meu olhar, do meu preceber, do meu sentir. E no ampliado vejo o grotesco, bem como vejo as linhas gerais de tudo q me cerca.

    Ao diminuir a lente, cá estou na rotina e na vida fio a fio.

    Fazendo isso me parece que crio um modo automático de questionar pra me posicionar.

    Mas nem sempre é fácil. Às vezes me vejo com atitudes tão mesquinhas e umbiligológicas.

    Então, se cada um faz o seu exercício de olhar o mundo com outros olhares já é difícil ter lucidez, imagina se olhamos sob a ótica da mídia e da propaganda???

    Manter-se lúcido e coerente com valotes próprioS não é tarefa fácil. Exige esforço e sobretudo coragem.

    Obrigada pela leitura. Ativa aS minhaS lentes.

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    • É isso mesmo: um esforço diário. E é preciso tomar alguma distância e buscar informações de fontes mais seguras. Não tem outro jeito. Requer dedicação, algum isolamento.
      Obrigada por ler e comentar.
      Abraço

      Curtido por 1 pessoa

  2. Teus textos,como sempre,sensacionais!Só tem uma coisa que nunca entendi:
    Porque esse governo que apanha de tudo o que é maneira dessa midia podre,nunca revidou,criando e bancando também um jornal ou uma revista como A carta Capital,para dar resposta a essas barbaridades.
    Porque não criar uma,argh,Veja de esquerda?
    Fazer por exemplo,uma Carta Capital menos intelectualoide,mais palatável para uma classe media que se diz bem informada lendo aquele lixo semanal.
    O que tu acha,é muita “viagem”?
    P.s .Conheci teus textos não faz muito tempo,mas a primeira coisa que faço desde entao é procurar teu blog e ver o que “saiu”.
    bjs

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    • Oi, Preto. Obrigada por ler e comentar. O Governo tenta promover uma ou outra coisa, mas tudo vai sempre soar chapa-branca e não alcançar muita gente. Caberia à imprensa divulgar o bom e o ruim, e assim informar e manter o olhar crítico, mas o que a gente vê é o foco apenas no ruim e em nada mais. E uma revista como a Carta, que consegue fazer as duas coisas, fica com fama de ‘pró-Governo’, o que é uma pena porque é uma revista boa e informativa.
      Muito obrigada por frequentar esse espaço.
      Beijo carinhoso

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  3. Milly,

    O grande problema é que na nossa imprensa, não temos ninguém em quem podemos confiar. TODOS estão comprados ou são de alguma maneira, influenciados pelas corporações, sejam elas capitalistas ou Estadistas. Não consigo enxergar uma imprensa livre. TODOS são parciais e defendem tão somente aquilo/aqueles que lhe financiam de alguma maneira. Dinheiro ou favores.

    O que me revolta é que Lula e Dilma tiveram uma grande oportunidade de mudar tudo isso que está aí, mas se ou se envolveram ou foram omissos e lenientes com a corrupção. E diferente do PSDB, esperávamos muito deles. Criamos uma expectativa muito grande de que com eles, as coisas seriam diferentes. Mas não foram.

    Mas lembro que a imprensa na época do FHC, caía em cima dele também. Na minha opinião, independente de quem esteja no poder, a mídia irá cozinhar em banho Maria os primeiros dias pra saber se estão de acordo com os seus interesses. Caso não, diariamente irão massacrá-los até não poder mais.

    De saco cheio de assistir televisão por isso. É um jogo de tudo pelo poder que dá nojo!

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    • Oi, sr. Confuso. Obrigada por ler e comentar. Estamos mesmo todos meio zonzos com tudo isso. Acho que tem gente muito boa e muito séria fazendo jornalismo. Sempre cito a Eliane Brum, do El País, porque o trabalho dela é comovente. Mas tem mais gente, e ler pessoas como o Safatle e Xico Sá ajuda a acreditar que tem gente vendo as coisas como elas são. Desligar a TV é sempre uma boa (a menos que o Corinthians ou a Fernanda Lima estejam em cena). E, quem tem facilidade para ler em inglês, pode se entregar a Noam Chomsky e se deixar emocionar com tanta lucidez.
      Não desista porque o amor vai vencer 😉
      Abraço

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  4. “Os problemas vão se ajeitar,ou com a maturidade eles não pareceram tão graves como agora.” Como jovem gostaria de escutar a frase anterior ou algo simular.Nós temos tantos problemas e parece que eles só vão se acentuar.Com as coorporações cada vez mais fortes e a vontade de ter acesso as notícias cada vez mais rápido e já com uma conclusão embutida,será possível um jornalismo responsável e diferente sobreviver?:/

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    • Pois é, Micaela. Acho que tem muita gente bacana fazendo jornalismo responsável. O trabalho da Eliane Brum, do El País, me comove. Mas tem bastante gente sim. A questão é que as corporações têm poder em excesso e ditam as regras do jogo – inclusive do jogo político. Temos a ilusão de vivermos uma democracia, mas é, como diz Chomsky, uma plutocracia. Só nos resta ir fazendo nossa parte. Obrigada por ler e comentar.
      Beijo

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