Economia/Política/Universo/Vida

A Terra é mais importante do que a humanidade

Outro dia recebi um email com essas palavras no campo do assunto e fiquei um pouco ofendida, mas não se passaram nem dois minutos para que eu, ainda tiquinho transtornada, percebesse que de fato a Terra é mais importante do que a humanidade.

Antes de mais nada, a Terra existe há 4,5 bilhões de anos, e nós descemos de suas árvores há apenas 10 mil. Depois, se conseguirmos completar a missão de nos extinguir, uma à qual estamos entregues ferozmente, a Terra continuará vivíssima e, triste dizer, bem melhor do que está hoje, comandada pela fúria do lucro a todo o custo e em curtíssimo prazo. Já se ela morrer, morreremos também. Diante dos fatos, engoli minha ofensa e li a mensagem.

Entre outras coisas ela dizia que a Terra está morrendo. Ou, mais exatamente, que a única chance que o planeta tem de não morrer é a humanidade se extinguir antes de devastar tudo.

Não é preciso fuçar muito para entender que é verdade. Os cientistas sérios do mundo inteiro falam a mesma coisa: se nada mudar, não temos três ou quatro gerações pela frente. Alguns poucos discordam radicalmente porque acham que não chegaremos sequer a duas gerações.

Só que esse recado não alcança você sem muito ruído, e todos os cuidados são tomados para que, diante das evidências de que estamos acabando com a vida na Terra, pelo menos algumas dúvidas sejam plantadas em nossas cabeças.

Sempre que um discurso alarmista como esse vaza até a imprensa um outro conservador é publicado ao lado. O “não é bem assim” é financiado pelas corporações e pretende basicamente gerar uma desorientação; a estratégia do “se não pode convencê-los, confunda-os”.

Por exemplo: recentemente, depois que revistas de ciência alardearam o fato de que as geleiras da Antártica estão em colapso e que se elas derreterem muitas cidades sumirão do mapa, os principais jornais americanos publicaram textos dizendo que a Terra não está na verdade aquecendo, mas resfriando (te los juro).

A preocupação para que a mensagem alarmista não ganhe apoio popular é tão forte que existe nos Estados Unidos uma instituição que cuida de plantar a dúvida na cabeça de crianças: se chama ALEC: American Legislative Exchange Council, um conselho que trabalha junto a escolas (com turmas de zero a 12 anos) para não deixar que os cientistas deem o recado sem que haja uma voz contrária, mais ou menos como os criacionistas fazem com o darwinismo.

Sem poder mais negar o óbvio a única saída era mesmo tratar de doutrinar a dúvida na cabeça da população, e o ALEC foi criado para promover esse “ensino equilibrado”. Se soa como uma distopia é porque é uma distopia, e estamos existindo dentro dela há algum tempo. Vejamos.

Vivemos um sistema no qual sete bilhões de seres humanos dependem do petróleo – seja para abastecer o carro, o avião ou para fazer o plástico que a tudo embala ou o adubo químico que prepara o solo ou para qualquer outra coisa. Olhe em volta: tudo tem petróleo. Esse mesmo sistema ultra-dependente de petróleo autoriza que apenas 20 corporações, talvez nem isso, controlem o mercado do petróleo.

Somos, como repete o economista Richard Wolff, reféns de um sistema que concentra a riqueza em forma de petróleo em 20 mãos. Se explicássemos essa realidade a uma criança de oito anos ela saberia que um sistema que faz isso está muito doente.

Esse mesmo sistema faz com que acreditemos que quem não emagrece é preguiçoso e quem não enriquece é porque não trabalha o suficiente.

A mídia de massa, que tão bem serve ao capitalismo, dá o recado todos os dias – e nos intervalos conta histórias comoventes daqueles poucos que saíram do lado de lá: emagreceram ou enriqueceram a despeito de tudo o que se opunha. O ser humano é fascinante e consegue mesmo feitos extraordinários, mas a verdade é que a mídia trata essas histórias como a regra que ilustra a beleza do sistema, quando elas são apenas as exceções que provam a crueldade dele.

Somos vítimas de um mercado publicitário cuja missão única é dar vida a consumidores desinformados para que, iludidos, tomem decisões irracionais. Trata-se da total inversão da regra do livre mercado que diz que ele deve ser feito de cidadãos informados capazes de tomar decisões racionais – porque se não for assim o mercado, naturalmente, deixa de ser livre.

Mas há quem consiga defender a ideia de que governos subsidiem monstruosidades como a Monsanto e salvem bancos enormes e seus executivos milionários da falência, mas não aceitam que esse mesmo governo se meta na cantina da escola ou no tratamento de canal do miserável.

Quem o sistema está protegendo?

Nos Estados Unidos, por exemplo, revendedoras de carros usados não são obrigadas a fazer o conserto de carro que teve recall da montadora e, pior, não precisam avisar o comprador que o carro teve um recall por defeito. Se a gente pensar quantos milhões de automóveis tiveram recall nos últimos anos vai entender o risco que muitos estão correndo e perceber exatamente quem o sistema está agasalhando afinal: Você e eu, ou o poder corporativo, formado aqui pela concessionária e pela montadora? Uma legislação para mudar isso está travada há tempos no congresso americano pelo lobby financiado pelo empresariado.

Em um sistema assim, para quem as leis são feitas?

Nas palavras do professor inglês Terry Eagleton:

“Fortunas são erguidas na confecção de alimentos que nos deixam gordos, doentes, e diminuem nosso tempo de vida. E o capitalismo coloca isso na conta do crescimento, incluindo aí os colossais gastos extras com assistência médica. O aquecimento global [resultado da emissão descontrolada de C02] é responseavel por mais acidentes naturais, como furacões, que destroem cidades e vidas. Ainda assim, as atividades econômicas usadas na reparação dos danos acabam entrando na conta do crescimento também”.

O capitalismo é o sistema que quebrou o mundo em 1929 e, menos de 100 anos depois, quebrou o mundo outra vez. Um sistema capaz de gerar a maior desigualdade social já vista e que coloca nas mãos de 70 pessoas a mesma riqueza de 3,5 bilhões. Um sistema cuja recompensa pelo trabalho é o direito de consumir e cuja chave central se chama “corporação”.

Obviamente é também um sistema melhor do que os que ele sucedeu – escravidão e feudalismo – muito por vender a ideia (ou a ilusão) de que somos livres.

Mas, ok, não resta dúvida de que houve melhora em relação à escravidão e ao feudalismo, e que o capitalismo representa alguma evolução. Só que daí a aceitá-lo como derradeiro e deixar de tentar encontrar uma forma menos desumana de vida é ignorância ou esperteza — Ignorância se você não faz parte da elite, esperteza se faz.

Certamente deve ter havido aqueles que durante o feudalismo pensavam: esse sistema não me parece lá muito justo, mas como não há outro vamos ficando com ele mesmo. Mas havia outro e ele se mostraria bastante melhor, olha que loucura.

Diante das colossais evidências de que o sistema está esgotado, de que gerou uma desigualdade imoral e inaceitável e está perto de destruir a vida na Terra, uma elite formada por menos de 5% da população do planeta tenta desesperadamente manter o capitalismo vivo porque, afinal, trata-se do melhor sistema para eles e para todo o acúmulo de riqueza e capital com que foram abençoados. Um acúmulo que, de tão enorme, não pode ser gasto nem se esses uber-bilionários passarem cinco mil anos vivendo la vida loca.

E como essa elite é uma minoria avassaladora ela precisa conquistar o apoio da classe média e não deixar que acordemos da ilusão de que o “mercado” tratará de resolver todas as questões, esperem só mais um pouco enquanto acumulamos um tico mais aqui.

Com esse objetivo, passa a ser importante fingir que vivemos numa democracia e, nela, é fundamental não usar a força para dar o recado. Em falsas democracias – ou em plutocracias corporativas como a nossa – o convencimento é feito por doutrinação: propaganda. E quem doutrina por ela é a mídia que, afinal, é também uma de suas propriedades.

Como se conquista o apoio daqueles que estão no meio da pirâmide, que não são elite, mas tampouco estão na base?

“Medo, racismo, fundamentalismo: essas são as formas de se conquistar apoio das massas para a criação de políticas concebidas para oprimi-las”, ensina Noam Chomsky.

Funciona há séculos. Cria-se um inimigo imaginário (um país, uma etnia, um grupo, uma religião, uma cultura, um gênero – e os exemplos de onde essa história vai dar são os mais doloridos) e une-se a massa em torno da necessidade de defesa e de proteção para que o inimigo seja derrotado. Amedrontada, a classe média se entrega sem perceber que quem está sendo combatida é ela, e mais ninguém.

E se você conseguiu chegar até aqui, uau, parabéns e obrigada porque era um puta texto cabeçudo da porra.

Mas o que queria dizer mesmo é que tudo isso era para falar do Brasil, hoje um país entregue ao poder corporativo que é representado politicamente por fundamentalistas ultra-conservadores.

Os inimigos imaginários estão sendo criados – o dessa terça-feira 31 de março foi a criança de 16 anos que comete um delito e que pode passar a responder por ele como um adulto – e multidões unem-se em torno do poder corporativo que grita “não se preocupem, vamos salvá-los de tanta insegurança, vamos protegê-los de tanta roubalheira, mas para chegar lá precisamos do seu apoio incondicional”. É assim que esses seres-humanos super especiais pretendem fazer com que nada de fato mude para que possam seguir dividindo, reinando e acumulando.

O que eles não contam para a gente é que o custo que isso tem e que, afinal, envolve nossos bens mais valiosos, fundamentais e divinos: a liberdade e o direito a uma vida decente e socialmente justa nesse planeta tão rico e improvável.

Mais sobre o ALEC aqui, num texto de Noam Chomsky

7 pensamentos sobre “A Terra é mais importante do que a humanidade

  1. Milly, adoro os seus textos longos.
    Confesso que antes de ler os seus textos pela primeira vez, tinha uma certa resistência, por causa do episódio do Rogério Ceni.

    Curtir

  2. Olá, Milly.

    Concordo com toda a teoria, mas e na prática?

    As pesquisas parecem indicar que mais de 90% apoia a redução da maioridade penal. Vejo textos de gente de esquerda que parecem viver no mundo da lua, pois nenhum coloca esse número em perspectiva. Se você reparar os argumentos só colam com o próprio público de esquerda. Já a direita fala para o grande público – não a toa tivemos um mihão nas ruas no mês passado.

    Sabemos que é a mídia que leva a discussão para esse único ponto dos menores infratores, quando sabemos que o problema é estrutural.

    Mesmo que num mundo perfeito o Brasil colocasse para funcionar projetos de educação adequados as nossas necessidades, os frutos disso só viriam em médio e longo prazo. Mas a sociedade exige – com toda a razão – respostas imediatas para os problemas de segurança.

    Vejo muitos dizendo que reduzir a maioridade é entregar jovens para o crime organizado. Pode ser, mas se essa não é a solução, qual seria? Isso que o público quer ouvir. Soluções rápidas.

    Abraço!

    Curtir

  3. Estou devorando os seus textos à medida que vou descobrindo e, sinceramente, é uma das coisas que mais estão me dando prazer, um grande prazer. Qto à questão do Homem X Planeta, penso que o Homem é arrogante mesmo. Veja vc que a maior parte da humanidade acredita na existência de um Deus todo poderoso, onipresente, onisciente, que tudo sabe e tudo pode e se acha “feito à sua imagem e semelhança”. Nos achamos!
    Penso que seríamos muito mais felizes se aceitássemos as limitações da nossa condição humana. Aproveitaríamos muito melhor o pouco tempo de vida que temos. Seríamos, no mínimo, mais solidários e, possivelmente, mais produtivos.
    P.S. Provavelmente vc já conhece, mas relembrando…

    Curtir

  4. Parabéns pelo texto Milly, muito interessante.

    Acho que a humanidade, em sua grande maioria, deseja o bem ao próximo, convivo e convivi em minha curta vida, com pessoas incríveis, que ajudam o próximo, respeitam o próximo, excelentes seres humanos, e acredito que a maior parcela da população é assim, por isso tenho a esperança, que mesmo com os grandes problemas atuais (guerras, intolerância religiosa, horrível distribuição de renda, homofobia, tráfico de drogas e etc…) houve uma evolução em relação à tolerância ao diferente, ao respeito mútuo, como por exemplo, criação de direitos humanos universais, organizações humanitárias internacionais, maior liberdade religiosa, comparado ao mundo de 300, 400, 1000 anos atrás.

    Concordo que o capitalismo seja uma evolução aos sistemas anteriores, mas ainda assim com grandes problemas. Infelizmente, acho que não conseguiremos chegar ao comunismo que acredito seria o ideal, igualdade a todos, o povo sendo dono dos meios produtivos, liberdade de expressão, distribuição quase que igualitária de renda, porque apesar de ter convicção que a maior parte das pessoas querem o bem geral, basta um, ou poucos que não pensem assim terem acesso ao poder, para desvirtuarem o sistema, e manipularem pessoas com discursos bem construídos, enganando-as, com interesses apenas no benefício próprio, na manutenção pura e simples do poder.

    Me considero mais de esquerda, acho a esquerda mais humana, com ideais de igualdade, de pensar no próximo mais presentes (pelo menos os ideais de esquerda, e de forma alguma demonizando alguém que se declare de direita). Porém, me assusta ler notícias, com depoimentos como de pessoas presas em campos de concentração, morrendo, sem saber o motivo de uma punição injustificável como essa, dizendo ter ocorrido tudo isso na Coréia do Norte, um país que se diz comunista, mas que se pratica isso, é uma monstruosidade sem tamanho, e o que me acalma, é saber que a enorme maioria das pessoas que se consideram comunistas, condena isso de forma veemente, como também acho que a enorme maioria das pessoas de direita, por exemplo, condena de forma incisiva os horrores e tragédias humanas da consequência de alguns atos de gananciosos e inescrupulosos em nome do capital.

    Acho que tenha um sistema, híbrido talvez, não sei, mas alguma forma de a humanidade ser mais igual (no sentindo de necessidades atendidas), mantendo a liberdade, tolerante, democrática, e tenho a esperança que, nos “trancos e barrancos”, o mundo esteja se aproximando disso, com retrocessos perigosos (como o estado islâmico por exemplo, grandes potências ignorando problemas em países pobres, como pobreza, fome, guerras), mas com mais avanços que regressos.

    Desculpe se me estendi demais, se não fui claro, às vezes eu fico confuso comigo mesmo, nem sei se merece ser publicada, mas é apenas minha humilde opinião.

    Abraço.

    Curtir

    • Oi, Rafael. Obrigada pelo comentário bacana. Concordo com tudo e acho que agora o importante é a gente começar a falar que o capitalismo deu em um lugar ruim e buscar alternativas. Assim como o feudalismo era menos pior do que a escravidão e o capitalismo melhor do que o feudalismo podemos buscar um sistema melhor. Que nome daremos a ele? Não sei, mas comunismo não será porque as pessoas morrem de medo da palavra 🙂 Você leu meu texto sobe o comunismo? Está aqui no blog mesmo. Escrevi para tentar esclarecer algumas coisas.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s