Economia/Política/Vida

Tempos esquizofrênicos

Não chega a ser escandaloso saber que um blogueiro recebe dinheiro do governo do estado de S.Paulo e edita um blog que fala bem do estado e do PSDB, e mal, muito mal, dos adversários políticos; mas talvez seja escandaloso que não tivéssemos ideia da ligação entre blogueiro e estado – e falo aqui de forma ampla também: qualquer blogueiro e qualquer estado.

Não vejo problema em receber uma grana para defender aquilo que eu defenderia de qualquer forma, ganhando ou não por isso — embora o dinheiro a tudo corrompa, só que esse assunto é para outro texto.

Mas uma das delicadezas que o envolvimento monetário confere à relação nesse caso é que me parece claro que, mesmo querendo eventualmente criticar o governo de Alckmin ou elogiar o de Dilma, Fernando Gouveia, que eu conheço tuiticamente com @gravz, não poderia por causa da ligação contratado/contratante com Geraldo Alckmin. Uma que até hoje não sabíamos que existia, e que acaba comprometendo a independência de opiniões fortes que a gente vê no blog e nos tweets.

Claro que esse tipo de relação faz parte de nossas vidas. Eu por exemplo não me sentiria bem criticando a Trip Editora, com quem me afino editorial e ideologicamente e que, por sorte, me paga por mês — e com a qual, portanto, vivo essa relação contratada/contratante. Até aí, nada que escape ao ordinário ou que flerte com o ilegal. A diferença é que não é segredo que eu recebo da Trip para escrever, então o jogo fica limpo.

Mas, num cenário hipotético, ficaria estranho se ninguém soubesse que presto serviços para a Trip e eu mantivesse um blog que elogia tudo o que a Trip faz e detona tudo o que a concorrência faz. E por estranho eu digo: não seria ilegal, mas flertaria pornograficamente com o imoral.

E seria ainda mais bacana e justo se o uso do dinheiro público fosse justificado em detalhes porque não me parece ser do interesse da população que determinado governo, qualquer governo, gaste secretamente com empresas de relações públicas e mídias sociais a fim de trabalhar em campanhas que enalteçam suas façanhas e demonizem o rival sem fazer uso de critérios justos — a venenosa máquina da propaganda que cria cidadãos desinformados que tomam atitudes irracionais; uma máquina que trabalha para fazer com que o mercado atue no sentido oposto do que se espera de qualquer mercado maduro, que é feito de cidadãos bem informados capazes de tomar decisões racionais.

Aqui talvez seja legal dizer que o @gravz sempre me tratou elegante e decentemente, embora discordemos de forma brutal no que diz respeito à política, mas concordemos integral e calorosamente a respeito da beleza arrebatadora de Robin Wright.

Lembro que quando Dilma foi anunciada vencedora contra Aécio ele foi dos poucos que teve atitude digna de reconhecer a vitória e pedir que seus colegas não se entregassem ao chororô. Foi um nobre perdedor, e isso me deixou bem impressionada (assim como me impressionam os pratos de comida que ele faz, fotografa e tuíta – são mesmo lindos).

O que tem que ser debatido, tanto quanto “esse ou aquele recebem desse e daquele para escrever”, é o comportamento de boiada ao qual temos nos submetido nas redes sociais e na vida.

A Cynara Menezes, blogueira independente e de esquerda, é achincalhada há anos por gente que insinua que ela recebe do governo do PT – uma mentira  – para escrever.

Ok, as pessoas têm direito de achar que seria uma leviandade escrever a favor de um governo ou contra outro sem revelar que você está fazendo isso porque, além de ser afinado com a ideologia, recebe mensalmente desse governo (o preciso motivo pelo qual vociferam contra a Cynara — e, diga-se, de forma machista, misógina e covarde na imensa maioria das vezes).

Só que ao contrário do que seus perseguidores dizem, Cynara não está ligada a nenhum partido ou a nenhuma administração e é apenas alguém que defende uma linha ideológica, embora alguns ainda tenham dificuldade para engolir mulheres cheias de opinião, especialmente se as opiniões que escapam do que prega a classe dominante.

Mas diante da revelação que a empresa do @gravz tem contrato com a administração Alckmin, as mesmas pessoas que viviam de ofender as inexistentes “ligações secretas de Cynara” e de aplaudir a independência e a coragem do blog editado por @gravz passam a achar que é natural que seja assim agora; tudo bem, ele ia dizer essas coisas mesmo se não fosse contratado, segue o jogo.

De duas, uma; ou essas pessoas não veem a encruzilhada moral e acham que é normal, e nesse caso devem desculpas a Cynara — e desculpas duplas: pela moralidade unilateral e porque ela simplesmente não é remunerada pelo governo Dilma –, ou então não é normal e eles devem uma crítica ao @gravz (que nunca será feita no mesmo tom nem com as mesmas doses de preconceito e violência porque ele é homem).

Esse comportamento de boiada, essa covarde moralidade de duas faces, é que tem nos levado para o fundo do poço.

Já não importa mais pensar ou refletir, buscar uma ideologia, falar de propostas e planos; o que vale é contratar boas equipes de relações públicas, de preferência que atuem forte e secretamente em mídias sociais, e sair idealizando um partido, difamando o outro, intimidando simpatizantes desse partido, colhendo likes e RTs, e doutrinando a massa. O que meu amigo, o jornalista Maurício Savarese, chamou criativamente de “bolsa-troll”.

Todos fazem, e a única vantagem entre Dilmas Boladas e os demais é que pelo menos no caso dela sabemos quem está por trás (e seria interessante que Dilma Bolada, por exemplo, recebesse do PT e não do governo federal porque, outra vez, não me parece ser de interesse da população que o dinheiro público seja usado para esses fins). Mas, ainda assim, saber que Dilma Bolada recebe um “por mês” para ser quem é, e para escrever o que escreve, é uma enorme vantagem em relação a todos os que fazem a mesma coisa secretamente.

O que falta é a decência de aplicar a nós mesmos, e a nossos aliados e amigos a moralidade que exigimos tão rigorosamente do outro.

No meu caso, não me importo de ser chamada de maluca, desequilibrada, burra ou ridícula porque todas essas coisas são, dado o momento, dimensões de mim mesma.

Tenho enorme propensão a ser ridícula e desequilibrada em doses diárias, mas se me chamam de vendida eu enlouqueço porque me custa formular uma ideia, refletir até formar uma opinião própria. Custa tempo para ler e estudar, custa esforço metal para pensar, mais esforço para escrever, então respeito muito minhas crenças, ainda que elas possam ser outras amanhã – até por isso não poderia receber grana de administração alguma, o que é uma enorme infelicidade porque pelo visto eles andam pagando muitíssimo bem.

Não é a crítica que incomoda, embora sempre doa um pouco, mas sim ser xingada, ofendida e demonizada em série, e sempre pelas mesmas arrobas-macho (ainda que algumas sejam fêmeas) e, mais covarde ainda, sabendo que o movimento pode estar sendo orquestrado por algum executivo de mídias sociais. É com esse tipo de vulgaridade que governos andam gastando nossa grana?

O comportamento “na boiada já fui boi”, ou “uma moral para você, outra para mim e meus amigos” também leva a outras esquizofrenias, como a que determina que o dinheiro do contribuinte pode sim ser usado para financiar blogs que falem bem daquele governo com o qual eu concordo, mas não blogs que defendam coisas com as quais eu não concordo, muito menos financiar casa e comida para pobre. É o absurdo fascista que aumenta de tom a cada dia de “governo pode ajudar rico porque rico é gente que faz, mas não pode ajudar pobre porque pobre é preguiçoso e bandido”.

Então é provável – apenas provável – que quando começarmos a aplicar a nós mesmos todo o rigor moral que exigimos dos outros consigamos sair desse lodo ético no qual nos metemos – um que é capaz de xingar, agredir e ofender em série, mas não alcança a coragem de pedir desculpas, ou sequer de dizer “foi mal aí”.

29 pensamentos sobre “Tempos esquizofrênicos

  1. Milly, a sua indignação com o recebimento de dinheiro por parte do citado blogueiro é justa e justificada. Mas não vi a mesma indignação com o recebimento de dinheiro público ou do PT (nestes últimos tempos, confesso que não consigo diferenciar um do outro…) por parte de outros tais como Sakamoto, Nassif, Brasil 247, Diário do Centro do Mundo, Boulos, etc e tal. Como diz o adágio popular: “Pau que dá em Chico dá em Francisco…”, senão nos tornamos maniqueístas, correto? Confesso que sinto falta de seus comentários de futebol… São BEM melhores do que suas incursões pela política…

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      • Até onde sei o Nassif presta serviços à TV Brasil. Qto ao Sakamoto e DCM desconheço qq vínculo deles com o Governo ou PT. Alguns blogs que costumo acessar como o Tijolaço e o Viomundo declaram peremptoriamente (e eu acredito) que não são financiados pelo Governo ou PT. Vc poderia explicitar as suas fontes para que eu possa me informar melhor? Obrigado.

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      • Continuo sem entender, Celso. O fato de eles terem uma opinião que parece não ser a sua faz você achar que eles são contratados pelo PT ou pelo governo federal? Então eu seria também? Não acho que você tenha lido o texto inteiro porque nele eu falo justamente sobre esse ‘achismo’ e sobre o que fizeram com a Cynara, que é o que você está fazendo aqui. Você pode elaborar seu pensamento?

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      • Ora, Milly, em qualquer pesquisa no Google você vê mais de um referência destes blogs recebendo dinheiro do governo federal, inclusive com cifras. Não citei seu nome, portanto não vista esta carapuça! E o link que um colega anexou como comentário, cita o valor do dinheiro que a Cynara recebeu também do governo federal. Volto a dizer: Sinto sinceramente falta de lhe ouvir comentando futebol! Você manda muito bem!

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      • Celso, repito, gostaria que vc citasse explicitamente as fontes de informação que vc tem, com dados concretos. Possivelmente vc seja uma pessoa mais bem informada do que eu. Essa história de dizer “li em algum lugar…”, “ouvi dizer…” é apenas a maneira que existe de boatos se espalharem assassinando reputações. Esse é um fato bem objetivo e que deve ser tratado com objetividade. Se existem evidências que elas sejam mostradas. Simples assim.

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    • A pedidos, segue uma prestação de contas da ONG Repórter Brasil que mostra que a mesma recebe verbas federais. O presidente da mesma é o Sr. Leonardo Moretti Sakamoto.

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  2. Parabéns pelo bom senso e pela clareza e lucidez na abordagem desses tempos de “moralidade seletiva” e “honestidade de conveniência” em que estamos vivendo, que nos levam a discussões que em nada colabora com a jovem democracia brasileira ou para a solução dos problemas do país e menos ainda em incluir na discussão politica todos os brasileiros (as) da forma mais diversa assim como o próprio Brasil o é. Apenas têm dado voz e caracteres aquilo que a humanidade tem de pior preconceitos, xenofobia, misoginia,violência gratuita, incivilidade, ódio barbárie e escrotidão e sabemos que a médio e longo prazo a história sempre nos mostrou a tragédia de comportamentos como esses sendo estimulados. Tempos sombrios!

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    • Eita, vc Wagner bem que poderia explicar o que é “empenho” e que isso não confirma pagamento, e que não ha confirmação porque não houve prestação de serviço pela Cynara. Mas, é claro, nao é este o objetivo. Vc esta interessado em agir de forma calhorda, disseminando mentiras por não respeitar quem simplesmente não pensa como vc.
      UAL, era justamente sobre esses comportamento que o artigo versava. Pelo menos temos um exemplo prático agora.

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      • Luana, empenho de verba pressupõe que houve ou haverá pagamento. Caso você leia o link com atenção verá que são fixados até prazos para pagamento após emissão de Nota Fiscal. Se o pagamento não foi efetuado, é irrelevante. O vínculo existe. Para comprovação do pagamento, só exibindo o extrato da conta bancária do recebedor ou do emitente, o que só pode ser feito mediante ordem judicial. Caso contrário, configura crime.

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      • Sim, pressupõe que haverá mas não confirma.
        A comprovação não é apenas com a Cynara mostrando extrato bancário não. No setor publico existe todo um tramite legal em que um empenho precisa ser liquidado e depois pago. Tudo isso é verificável sim e você nem ninguém conseguiu essas informações porque não existem.

        De qualquer forma, ter vínculos com setor publico não é crime, não é imoral ou mesmo é prova de ter “vendido sua opinião”. Porém o que você afirma direta ou indiretamente é uma mentira grosseira tipica de quem não preza pela honestidade intelectual. A Cynara não recebeu dinheiro público, este é o fato e você não pode confirmar o contrário. Se a Cynara tivesse prestado o serviço descrito no empenho e recebido pelo trabalho, tudo estaria ai para qualquer um averiguar, não estava sendo feito na surdina, ilegalmente.

        Não jogue casos diferentes no mesmo balaio.
        A Carta Capital recebe dinheiro público pelos mesmos mecanismos que Abril, Globo e Folha recebem. Não há nada de ilegal ou imoral nisso.
        O Sakamoto tem uma ong reconhecida, que presta serviço relevante de forma transparente para quem quiser questionar.

        O caso relatado pelo post da Milly que surgiu nos últimos dias não tem nada haver com isso.

        Ao que tudo indica, o senhor Fernando Gouveia criou uma empresa para receber grana publica, com a participação societária de uma agente pública e usava isso para criar blogs cujo único objetivo era difamar impiedosamente adversários politicos do governo atual de SP.

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  3. Não adianta, por mais que fale, diga, demonstre, tem pessoas que só enxergam o que querem enxergar. O pessoal que está dizendo que o DCM, Sakamoto, Cynara, recebem dinheiro do PT, apenas repetem o que viram ou ouviram ” por ai”, não vi até agora uma fonte clara, segura, concreta de que as alegações deles procedam. Realmente, estamos vivendo tempos difíceis, onde os boatos prevalecem frente a realidade.

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    • Caro Cláudio, acima anexei links que comprovam quem recebe verbas federais. Nele estão citados o Sakamoto e o Brasil 247 que eu citei. Não se trata apenas de “ouvir por aí”. Quanto à Cynara, um outro comentarista acima citou uma fonte de empenho de verba para a mesma.

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  4. Milly, adorei teu texto. Escrevi posts contra as manifestações que pediam o impeachment da presidenta Dilma e logo de cara fui atacado por pessoas que, sinceramente, não parecem estar em sã consciencia. Elas acreditam que todos aqueles que não querem a morte da Dilma, estão sendo pagas pela mesma.

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  5. Milly, como sempre você acerta em cheio e rasga o véu que muita gente persiste e insiste em manter para acomodar melhor suas conveniências. Tempos sombrios!!

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  6. Olá Milly .
    Inicialmente vamos falar coisas que realmente interessam …
    Até que não foi ruim , embora dolorida ,a derrota do nosso timão contra o time da vila sonia . Enfrentaremos o Guarany do Paraguai.
    Seu texto é ótimo e merece reflexão .
    Porém lamento que nossa “esquerda”continua com as bandeiras da década de 60 .
    Passados mais de meio século , 55 anos , e continuo ouvindo as mesmas baboseiras dessa elite esquerdista que assim como os reaça , adora verba publica .
    Estou de saco cheio de ver propaganda do governo na Espn por exemplo .
    O rabo preso fica intrinseco .
    Gostaria de ver essa elite , que tem o patrimônio exclusvo de defender os pobres , ser de fato moderna e contemporânea , com novas bandeiras e causas .
    O mundo mudou , a ineficiencia do Estado de gerir seu negócio está diretamente atrelado ao benefício próprio dos governantes .
    Estado enxuto , privatizações , flexibilização das relações de trabalho , não ao fundo partidário , são formas de respeitar e administrar com eficiência o dinheiro que é nosso .
    abs. do amigo

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    • Oi, Pericles. Obrigada pelo comentário. Pois é: a derrota acabou nos presenteando com o Grarany paraguaio. Tomara que seja tão fácil quanto soa 😉
      Tem razão em relação à esquerda. Infelizmente.
      Abraço.

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  7. Outro aspecto do comportamento de boiada que me assusta é o “guarda-chuva” de pautas que as pessoas aceitam sem pensar. É difícil ver, por exemplo, alguém que se alinhe com uma política econômica mais ligada ao liberalismo e que ao mesmo tempo seja a favor da descriminalização do aborto e não o considere uma prática abominável. Ou, por exemplo, alguém que é a favor de um estado forte, com programas sociais, etc, mas não vem com cinco pedras na mão à mera menção da palavra “terceirização”, etc… Esses espécimes existem, mas são minoria.

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