Comportamento/Economia/Universo/Vida

Tempos muito estranhos

“A combinação de patriarcado, patriotismo e capitalismo acaba em fascismo”, disse há 100 anos a americana Emma Goldman. “O fascismo é a trajetória extrema de um sistema assim”.

“Fascismo”, escreveu Virginia Woolf, “é a derradeira expressão de uma hierarquia patriarcal”.

No estado americano do Kansas o governador Sam Brownback acaba de assinar uma legislação que proíbe aqueles que necessitam de ajuda do governo para comprar alimentos (pessoas de baixa renda inscritas em um programa federal conhecido como Food Stamps) de usar o recurso para – atenção – “frequentar o jockey clube, comprar bebida alcólica, ver filmes pornográficos e realizar cruzeiros marítimos”. Vou dar um tempo aqui a você para que as últimas linhas sejam lidas outra vez.

É uma forma de demonizar o pobre e a pobreza, disse o economist Richard Wolff.

Mas Brownback explicou: “Não quero punir o pobre, mas essas pessoas estariam melhor se tivessem um emprego e não precisassem da ajuda do governo”.

O que ele sabe e não disse, mas que o Wolff lembrou, é que a maioria das pessoas que está no programa Food Stamps já tem um emprego, só que ganha tão mal que não consegue sequer comprar os alimentos que precisam.

A legislação, e a explicação para ela, são monstruosidades, claro, e a ideia de que um monte de gente muito pobre que necessita de ajuda para comer vá trocar o “vale” por idas a cruzeiros – a despeito de não haver um oceano perto do estado de Kansas — e páreos no Jockey é tão absurda quanto idiota. Ainda assim, proibir essas pessoas de fazerem o que bem entenderem é flertar com o fascismo — para não escrever que já é fascismo.

Fascismo que hoje se manifesta no ódio por imigrantes, no descaso com os naufrágios do mediterrâneo, no ativismo histérico contra o amor entre duas pessoas do mesmo sexo, no fanatismo pela pátria, nas insensíveis campanhas pela diminuição da maioridade penal que colocaria crianças pobres – e apenas elas – dentro do deplorável sistema carcerário brasileiro, nos selfies com uma polícia que bate em quem protesta passivamente e atira em inocentes pelas costas.

Fascismo que pode ser sentido na exigência por governos que pratiquem a austeridade, essa que clama por cada vez menos investimentos sociais, e nos leva a ver gente apoiando discrepâncias como a seguinte:

Nos Estados Unidos, pesquisa divulgada há alguns dias mostra que desde 2008 (ou seja, depois da crise), 500 mil novas crianças passaram para o sistema de ensino público. No mesmo período, todos os estados americanos juntos cortaram 300 mil cargos de professores. Alguns desses estados, como Arizona, Kansas e Oaklahoma, ao mesmo tempo diminuíram os impostos de suas corporações e milionários. Estados corporativos, por regra, beneficiam o rico o punem o pobre.

Uma forma de pré-fascismo é conseguir entender o cenário distópico mostrado acima.

Estamos cercados de novos-fascistas, gente que até ontem era apenas normal e cordial, mas que hoje, amedrontada porque vê o mundo ao redor desmoronar, tenta se agarrar a uma tábua de salvação, nessas horas sempre oferecida por conservadores extremistas.

Historicamente é assim. Foi num cenário parecido que Hitler alcançou o estrelato, prometendo união e segurança. Quantas pessoas até então lúcidas acabaram aceitando o que ele pregava e apoiando os piores crimes e preconceitos e horrores em nome de uma certa hegemonia que supostamente os salvaria? Mussolini, Franco, Stalin, Mao. Todos nasceram e cresceram em ambientes parecidos com o que vivemos hoje.

O que falta é entender por que estamos nos ofendendo e matando uns aos outros em doses diárias, e o que todos esses acontecimentos têm em comum, que é serem gerados pela imoral desigualdade social que demonstra o colapso do sistema econômico que nos rege.

Um mundo no qual 75 homens têm a mesma riqueza de 3.5 bilhões não pode funcionar harmonicamente, e revoltas e implosões sociais serão a cada dia mais comuns.

Para contê-las, é necessário que os donos do planeta – Estados e corporações – montem policias altamente militarizadas, tratem a população como “o inimigo” e impeçam qualquer início de manifestação e de conscientização coletiva.

Quem e o que essa polícia, a cada dia mais violenta pelo mundo todo, está protegendo? É preciso fazer essa pergunta, e pensar sobre ela.

Para manter o estado das coisas é também importante criar leis que impeçam os muito pobres de tentarem escapar para lugares menos miseráveis, como a Europa está fazendo agora. Passa a ser vital controlar a mídia para que o recado de que há cada dia mais insatisfeitos não seja alardeado, e tratar cada acontecimento como coisa isolada e não relacionada.

A destruição do povo palestino nada tem a ver com a opressão policial em Ferguson ou Baltimore, ou com a tentativa desesperada de milhões de pessoas de fugir da devastação na Síria e da fome na África central. Vamos fingir que são coisas isoladas e que nada tem a ver com a colossal desigualdade de riqueza e, portanto, também de forças e de poder no mundo.

Obrigatório não relacionar o imperialismo americano, esse que tem como melhor cliente Israel, para quem, em nome do lucro, vende bilhões e bilhões em armas e munições e depois faz vista grossa quando bombas made in USA são jogadas de forma calculada sobre hospitais e abrigos em Gaza e assassinam crianças.

A monstruosa campanha de de drones-assassinos do outro lado do mundo também tá fora da equação e é vendida como “guerra contra o terrorismo”, quando é, na verdade, apenas terrorismo contra o miserável. Mas se nossos aliados fazem não podemos chamar de terrorismo, devemos chamar de contra-terrorismo.

A atuação criminosa e covarde do Isis também não é uma resposta ao terrorismo/imperialismo americano, é muito importante não relacioná-los e fingir que essa aberração chamada Isis nasceu do ar rarefeito.

Em nome da manutenção do poder concentrado passa a ser indispensável mostrar que a fúria pelo lucro máximo no menor espaço de tempo nada tem a ver com a nunca antes vista altíssima concentração de CO2 na atmosfera, com o aumento da temperatura do planeta e com o derretimento de geleiras que podem fazer o oceano subir e afundar cidades inteiras. Capitalismo e aquecimento global não podem ser relacionados jamais, e a mídia obedece.

Fundamental também tratar Assange e Snowden como criminosos, e não como corajosos que trombaram com o sistema para reveler ao mundo quanto exatamente estamos sendo espionados e investigados e enganados sem nada termos feito.

O ato de espionar é, por princípio, dirigido apenas ao inimigo, e pela quantidade de sistemas de vigilância que estados-corporativos estão disponibilizando sobre todos nós fica claro quem é o inimigo: você e eu.

Precisamos nos perguntar por que e tentar consolidar todos esses acontecimentos.

Fomos ensinados, para fins de doutrinação, que em “1984” George Orwell escrevia sobre o comunismo, mas a verdade é que ele escrevia também sobre o capitalismo, e agoras as coisas estão claras (embora já estivessem para quem leu “Homenagem à Catalônia”, também de Orwell, e a introdução que ele fez para “1984” e que foi censurada pelos editores).

Se soubéssemos da profunda e inseparável relação entre capitalismo/desigualdade/aquecimento global e todas inquietações sociais e misérias humanas que estamos testemunhando haveria uma revolução, então é importante jogar uns contra os outros e, diante do clima de insegurança, vender a necessidade de proteção porque todos se curvarão a ela.

Mas uma hora teremos que sair da ilusão de que somos nós que estamos sendo protegidos; não somos. Quem está sendo protegido é apenas a concentração de riqueza, e nada além dela.

Então, ou a gente começa a falar sobre o colapso do capitalismo e a buscar alternativas, de forma coerente e não infantilizada, ou dias muito piores virão porque, como alertaram Goldman e Woolf, a evolução do capitalismo é o fascismo.

Por outro lado, a alternativa ao capitalismo não é o comunismo como dizem os que têm preguiça de pensar, mas a chance de continuarmos a existir, de nos importar com o sofrimento do outro, de viver decentemente e de não destruir o planeta – e deem ao próximo sistema econômico o nome que bem entenderem.

21 pensamentos sobre “Tempos muito estranhos

  1. Não há nem o que comentar, muito menos a acrescentar. Todos deveriam ter acesso a esse post. Que texto ! Irretocável ! Esplêndido !

    Curtir

      • Bom texto, apesar de tocar apenas superficialmente em muitos temas que nos atinge na atualidade. Eu gostaria de deixar aqui apenas uma pequena observação: já é sabido que o ISIS é um grupo terrorista apoiado por debaixo dos panos pela CIA e Israel. Os interesse dos mesmos é desistabilizar politicamente o Oriente Médio criando caos e facilitanto assim a extração de recursos minerias dos paises afetados pelo ISIS. Essa estrategia foi utilizada da mesma fprma pela CIA nos anos 80 na época do governo Reagan durante a guerra do Afeganistão, dando apoio ao Mujahidins contra a Russia. Mais tarde surgiria o Al Quaeda (made in CIA).

        Curtir

  2. Pingback: Tempos muito estranhos | Blog da Milly | COTIDIANO FC

  3. Diante de reflexão tão complexa e ampla pergunto: haverá saída? É tremenda a angústia de quem, recebendo esse choque de realidade, se pergunta se podemos ter esperanças. Acredito em idéias e ideologias mas acho que o ser humano é um projeto divino fracassado. Com raras exceções. A partir do momento em que apenas o interesse financeiro importa, a desigualdade é tão avassaladora e nos deparamos com o conservadorismo retrógado que nos rodeia,tudo parece tão impossível de reverter….. Ou não, como diria Caetano. Vc faz a gente pensar demais, Milly. Meus neurônios estão se suicidando….

    Curtir

      • revolução? prefiro evolução, sociedade que não preza pelos seus tem o rumo do extermínio. acredito muito que iremos nos preocupar sim cada vez mais com cada um e assim retornamos nosso caminho que começou por amai-vos uns aos outros!

        Curtir

  4. Boa noite Milly.
    Tomei conhecimento do seu blog a partir do Tijolaço, blog do Fernando Brito e achei o seu texto muito bom.
    Pra mim, o próximo, não tão próximo assim, sistema a ser adotado pela população restante após uma hecatombe natural, obviamente provocada pela ganância intrínseca ao capitalismo, será o “solidarismo”; sistema onde teremos que forçosamente aprender a dividir o que temos com o outro e viver sob uma outra ótica, diferente da atual que é egoísta e insensível.
    A propósito, salvei o endereço do seu blog em meus favoritos e o visitarei por vezes.

    Curtir

    • Oi, Alexandre. Muito obrigada por ler e comentar. Gostei do “solidarismo”, e acho que é de verdade nossa única chance de continuar a existir. Ou a gente entende que é tudo uma coisa só, ou a gente vai acabar. Espero revê-lo aqui 😉
      Abraço.

      Curtir

  5. Milly,
    Seus textos são incríveis, leio todos.
    Muito obrigada por escrever 🙂
    Acredito que textos assim nos incentivem a parar de pensar somente no nosso umbigo e a construir uma sociedade mais justa e menos cega. É difícil, pois muitas vezes sentimos que nadamos contra uma maré muito forte, mas saber que existem pessoas que também se preocupam com o rumo que as coisas estão tomando nos dá um pouco de fôlego.
    Parabéns.

    Curtir

  6. Adorei o seu texto,ele conseguiu exemplificar bem as conexões das coisas,sem virar teoria da conspiração.Aliás,depois desse texto,to refletindo se as coisas são mesmo teoria da conspiração,ou se é um jeito de fazer as pessoas ficarem quietas..
    Falando sobre outro texto seu,que bom que sua mulher se curou e da sua narrativa de como foi lidar com isso

    Curtir

  7. Adorei o seu texto,ele conseguiu exemplificar bem as conexões das coisas,sem virar teoria da conspiração.Aliás,depois desse texto,to refletindo se as coisas são mesmo teoria da conspiração,ou se é um jeito de fazer as pessoas ficarem quietas..
    Falando sobre outro texto seu,que bom que sua mulher se curou e parabéns pela sua narrativa de como foi lidar com isso.

    Curtir

  8. Maravilhoso texto!!! Explica todas as conexões que tentamos mostrar e nos chamam de loucos, doidos por teorias da conspiração. Compartilhei, porque achei necessário! É de tão fácil compreensão!

    Curtir

  9. Muitas falhas no texto. Apesar do esforço da autora em ser “nem de esquerda nem de direita” em seu posicionamento. Bem vamos lá:
    Hitler, Mao, Stalin nada tinham a ver com conservadorismo ou com a direita. Essa parte eu dei umas risadas muito boas. Você sabe que fascismo é uma palavra bem difícil de definir? Enfim, após escreveu que o Estado de Israel e o imperialismo norte americano estão matando crianças palestinas e sírias.. Sim, isso acontece, mas você já estudou um pouco a respeito? O outro lado da história? Porque pelo jeito você só se informa pela mídia ou revistas “independentes”. Vou deixar um link para você expandir seus conhecimentos. Espero que veja! https://www.youtube.com/watch?v=daLF1AFs5AM . E quando citou o aquecimento global + capitalismo, ai eu não aguentei HAHAH. Em pleno ano de 2016 anda tem gente que acredita em aquecimento global. Novamente deixarei mais um vídeo auto-explicativo https://www.youtube.com/watch?v=tpvpiBiuki4 . E se você acha que terrorismo é uma falácia capitalista, bem, respeito sua opinião. Mas pense comigo: Imigração em massa, do Oriente Médio para a Europa. Baixa taxa de natalidade europeia. Imigrantes em sua maioria muçulmanos (islâmicos radicais em TODA a sua totalidade https://www.youtube.com/watch?v=X8TNIIhiaEY), com tradição de famílias grandes (+8 filhos), politicamente correto, unidos a governos de esquerda e atitudes anti-nacionalistas. Se você quer o fim do capitalismo, ele vai chegar em algumas décadas. Estimo meio século. Mas não adianta chorar depois !

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s