Comportamento/Economia/Política

O som do medo

Eu não estou satisfeita com Dilma e se um instituto de pesquisas viesse saber minha opinião escutaria coisas horrorosas. Eu, portanto, entraria no grupo dos que “rejeitam” a presidente. O problema de pesquisas é que elas não contextualizam nem analisam o número e sem isso um número diz muito menos do que pode e deve dizer.

Falemos do meu caso porque certamente há outros como eu.

Estou frustrada com Dilma porque vejo sua administração tomar medidas de austeridade – essas que chamam por menos e menos investimentos sociais – e esperava que ela fizesse justamente o contrário. Me lancei em campanha contra Aécio porque além de julgá-lo um dândi sabia que seriam essas as medidas que uma administração psdbista adotaria. Portanto, Dilma tem me decepcionado, para usar uma palavra leve.

Mas é apenas natural que Dilma, tendo vencido com uma margem tão pequena de votos, apresente rejeição tão alta – Aécio teria rejeição alta também porque se encontraria na mesma situação. E se, fora isso, Dilma é eleita e em seguida começa a tomar atitudes que descontentam o seu eleitorado, é evidente que vai alcançar número recorde de rejeição.

Só que entre a frustração e essa bateção panelas existem muitos universos.

Me parece que batendo panela estão basicamente os eleitores de Aécio numa relação “nem todo mundo que votou em Aécio bate panela, mas todo mundo que bate panela votou em Aécio”, e entre esses existem dois grupos: aqueles que votaram nele porque gostariam de ver mais austeridade na forma de governar e aqueles que votaram nele porque odeiam o PT desde sempre.

Em relação ao primeiro grupo, justamente quando Dilma dá ao país o rumo que o neoliberal adoraria essas pessoas se enchem de fúria e saem batendo em panela; tem alguma coisa errada com essa reação se a presidente está agindo de forma a deixar Margaret Thatcher, onde quer que ela esteja, orgulhosa.

“Ah, mas estamos protestando contra a corrupção”, dizem.

Não estão não. Se estivessem, protestariam sempre que um pmdbista, um demista, psdbista etc aparecece na TV, especialmente Aécio, que construiu aeroportos particulares com grana do povo, e FH, que era o chefe da nação durante os anos da “privataria” e da “noticiada mas nunca investigada” compra da reeleição. Se fosse contra a imoralidade política não fariam partidarização da corrupção que varre o Brasil há décadas e espancariam panelas para Sarneys e Renans.

Não estão também batendo panela porque partidos que pregam políticas desumanas e preconceituosas sequestraram o Congresso, porque se fosse isso bateriam sempre que Cunha ou Bolsonaro aparecessem na TV.

Por que batem então? Por que o Brasil vai mal? Mas não bateram quando durante os anos FHC o país estava mergulhado em desemprego, crises e dívidas.

Batem porque estão com medo.

O som que sai pelas janelas é o do pavor que sentem porque, apesar de todos os escândalos que envolvem o PT (e os demais partidos, embora a mídia destaque o PT) Dilma foi reeleita com mais de 50 milhões de votos. E se esses caras, mesmo depois de tantos escândalos, não perderem a próxima eleição?

Essa possibilidade apavora e não há nenhuma tentativa de se entender como e por que um partido que todos os dias aparece nas manchetes envolvido em escândalos se mantém no poder.

Como explicação sugerem que as urnas estão viciadas – as do Brasil inteiro, menos as de São Paulo, que funcionam bem – e, isolados em suas certezas, não sabem do ProUni, da revolução social promovida pelo Bolsa Família, de como funciona o Minha Casa Minha Vida etc etc etc (e nem poderiam saber se tiram suas informações exclusivamente a mídia corporativa, que não tem interesse nenhum em manter no poder um partido que tenta efetivar a democratização dos meios, que acabaria com o monopólio e diminuiria a fabricação de consenso).

Apenas como exemplo, vou colocar no final desse texto um link para matéria do World Bank de 2013 sobre o Bolsa Família cujo título diz o que nossa imprensa nunca disse: “Bolsa Família: Brazil’s quiet revolution”.

Por ele a gente tem uma pequena ideia de como essas ações sociais — que passam pelas cotas e são tão criticadas por uma elite que não se importa de ser ajudada pelo governo mas detesta ver pobres recebendo incentivo — mudam para melhor a cara de uma nação e oferecem dignidade a quem antes não tinha nada.

“A experiência brasileira está mostrando o caminho para o resto do mundo”, diz o texto do World Bank. Lendo a pequena mas impactante análise a gente tem uma ideia de como não somos atingidos pelas boas notícias, e de como é preciso consumir informação através de meios alternativos se quisermos entender o que está acontecendo.

E me parece que batendo panela estão também aqueles que sempre odiaram o PT e Lula, muito antes de o partido ter seu nome relacionado a escandâlos. Sei disso porque cresci em uma família que dizia coisas do tipo: “não sabe falar, como quer ser presidente?” Hoje entendo a quantidade de preconceito que existe na frase, mas por anos não entendi.

Lembro do orgulho que sentiam na minha família quando FH ia à França e dava uma palestra em francês, e da vergonha que era ver Lula falar em português capengo para gringos. Mas é preciso que se quebre o preconceito para entender a beleza e a força que existem quando alguém que nasceu em Garanhuns, que trabalhava em chão de fábrica, vai à gringa palestrar e tem executivo e chefe de estado se estapeando para escutar o que ele vai falar, a despeito de precisarem de tradutor. É preciso distanciamento para entender que quando FH escolhe não falar a língua pátria em uma palestra que dá como presidente de uma nação ele passa o recado de “somos menores e piores que vocês, mas eu sou fodão e falo essa língua chique”.

Só que, com a crise, esses que sempre odiaram o PT agora finalmente encontram uma forma de manifestar a raiva coletivamente. Não podiam fazer isso quando o país crescia e tirava 40 milhões da linha de pobreza, não podiam fazer isso enquanto seus negócios lucravam mais e mais justamente porque a gente que saía da miséria começava a consumir. Mas agora, diante da parada econômica, têm uma fenda de oportunidade. E o preconceito sai pela janela na forma de ondas metálicas e desafinadas.

Nessa hora, os mesmos que exigem mais educação chamam a presidente de tudo o que é nome, escancarando o que fazem e por que fazem.

Mas é impossível não ver o óbvio: o Brasil vai mal e, na minha humildezinha opinião, a austeridade adotada por Dilma sinaliza dias muitíssimo piores.

Se sua primeira administração deixou a desejar em relação a políticas ecológicas, em relação a reformas essenciais, em relação ao direito dos povos indígenas etc é de se esperar que, nessa segunda rodada, o corte de investimentos sociais e em infra-estrutura e os ajustes que favorecem o empresariado em detrimento de direitos do trabalhador levem o Brasil para uma fase de letargia e desigualdade social ainda maior.

Nessa hora, os batedores de panela, ignorando que a coisa vai piorar porque a austeridade que eles tanto queriam está sendo adotada, se encherão ainda mais de ódio, expondo a esquizofrenia do sentimento que resolveram extravasar.

A coisa está tão com cara de torcida organizada que quando anunciam o corte de investimentos sociais os eleitores de Aécio ridicularizam e os de Dilma justificam porque não mais refletem e analisam; apenas reagem.

Tudo tão esquisito que vi o programa do PT na Internet e fiquei com a impressão de que se trata de um partido de oposição, e nessa hora entendi que estamos sós. Talvez não tão sós quanto está Dilma, mas definitivamente sós.

Se parássemos um pouco de torcer e de gritar e prestássemos mais atenção no que está acontecendo a esquerda estaria protestando na rua e a direita aplaudindo Dilma do sofá.

Mas o que esvazia a bateção de panela para mim, mesmo que haja entre os paneleiros gente que não pertença a esses grupos e esteja apenas inspirada pela onda de ódio que está no ar, é que não é possível acreditar em quem hoje grita “Fora PT” por causa da Petrobras, mas não gritou “Fora FHC” quando as notícias da compra da reeleição começaram a aparecer na mídia. Não é possível levar a sério quem agora bate panela, mas não bateu quando o jornalista Amaury Ribeiro Jr. lançou A Privataria Tucana, um livro tão revelador quanto demolidor sobre as privatizações da era FHC. Não é possível acreditar em quem fala de mensalão do PT, mas não fala de mensalão tucano. Não é possível se afinar com quem fala da “roubalheira do PT” mas jamais menciona o escândalo do metrô em São Paulo.

Por tudo isso – e pelo fato de Cunhas e Bolsoraos estarem batendo essa mesma panela e impossibilitarem, por dever moral, qualquer alinhamento de gente séria com movimentos aos quais pertençam – não tenho empatia com quem até aqui panelou, e acho que a história tratará de colocar tudo em seu lugar: a péssima administração que Dilma faz e essa desafinada percussão que vem da Casa Grande e não tem nada a ver com o que Dilma faz ou deixa de fazer.

Mas também acho que se Dilma continuar sequestrada pelo espírito de Thatcher e não deixar o da guerrilheira voltar a bateção de panela vai chegar às comunidades e, nessa hora ganhará ritmo, harmonia e autenticidade.

O texto do World Bank sobre o Bolsa Família aqui

14 pensamentos sobre “O som do medo

  1. Parabéns pela lucidez. É isso mesmo, sem por nem tirar. Vc é dessas pessoas que lançam luzes onde há escuridão. Não me canso de elogiar e divulgar as suas ponderações. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Texto perfeito,como sempre.Na minha simples opinião,o programa de inclusão social Bolsa Familia e seus anexos é muito mal divulgado,esclarecido (talvez o governo devesse “desenhar”) é impressionante a “iguinorancia”e o preconceito dos mais abastados.Sou proprietario de um pequeno negócio,e lido com todas as classes sociais,desde o beneficiario do BF até dona de loja de grife.
    Essa ultima,gosto dela,(nao é metida)o marido é dono de uma rede de supermercados na cidade e região e nao sei mas talvez eles nem saibam que o primeiro destino do subsidio do governo seja o estabelecimento do grande empresario,pra comprar comida.
    abs

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  3. Prezada Milly,

    FHC comecou a ferrar com o Brasil quando instaurou a reeleição comprando votos no Congresso.
    Pois bem Lula e o PT foram eleitos para mudarem esse tipo de coisa.
    Entao nao encontro justificativas em dizer, mas olha o que eles fizeram.
    Po foram eleitos no anseio de mudar as coisas no Brasil, mas olha o que deu mais do mesmo, ou ate pior porque roubaram muito
    Outra coisa achar que o LULA e o Jesus Cristo da periferia ou dos pobres ???
    Esta muito longe disso.
    Nao diferencio o Lula do Paulo Maluf e Cia na Politica.
    E mais um ladrao, pobre do Brasil.

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  4. Eu não bati panela nem fiz protesto. Não sou de esquerda (muito muito longe disso – o conceito de utilidade marginal me parece mais adequado ao mundo do que o tvt), mas estou decepcionado com a presidenta e com o partido pelo mesmo motivo que você. Você diz que “esperava que ela fizesse justamente o contrário”. Eu digo o mesmo, só que da forma que eu interpreto é “chuva de mentiras para conseguir votos”.

    Por que é que todos nós esperávamos que ela fizesse justamente o contrário? Seria porque durante a campanha ela disse pro povo não votar no opositor porque o partido dele “plantava inflação para colher juros”? Porque durante a campanha dela ela prometeu que nemqueavacatussa ela “mexeria” nos direitos dos trabalhadores? Porque ela e o ex-ministro da fazenda passaram anos mentindo para a população quando falavam de “inflação sob controle” (por favor, todo mundo que compra comida sabe que os preços estão absurdos). Porque ela tentou destruir a reputação da Marina Silva, tentando vincular a Marina a escandalos financeiros que nada tem a ver com a ex-senadora (essa foi baixa demais… padrão Fidélix de argumentação)? Pior ainda, fez tais acusações à Marina, tendo sido financiada por esse monte de empreiteras picaretas?

    Resumindo, essa campanha de mentiras que levou a eleição da presidenta. E, a minha interpretação dos fatos é que, isso sim atrapalha a popularidade da presidenta.

    A situação fiscal do país atualmente é caótica (estão aí todas as declarações do Joaquim Levy para confirmar). Mas a situação não se tornou caótica da noite pro dia. A Dilma candidata sabia que teria que realizar o ajuste fiscal, sabia que teria que aumentar os juros, sabia que teria que segurar o FIES. Então por que ela não foi honesta em suas promessas?

    O PT tem muitos méritos pela melhoria distribuição de riqueza (ainda que exista muito por ser feito). Assim como o PSDB tem muitos méritos pela implementação do Plano Real e da estabilização da economia nacional (qualquer um que acompanhou a avalanche de planos anteriores ao Plano Real sabe a importância que o mesmo tem). Mas esses dois fatos não conferem à nenhum dois dois partidos ou aos seus representantes a credibilidade eterna.

    Se um candidato não consegue apresentar suas propostas reais para um país e se sustenta em mentiras e difamações para se eleger, como confiar nele após eleito?

    Se a argumentação for “mas o PSDB também fez” não melhora em nada o debate.

    Acho importante que haja uma reflexão de todos do por que CRISE? Não é possível analisar a atual crise pela qual o país esta passando, sem vinculá-la as decisões de política econômica tomadas pela primeira gestão da presidenta. Durante a campanha, quando falava-se de crise, a candidata-presidenta Dilma, respondia falando da crise economica mundial. Ora, a crise economica mundial, que seria uma marolinha no Brasil, seguida pela crise na Europa não servem como justificativa para as manobras fiscais do governo, não servem como justificativa para o incrível caso dos financiamentos do BNDES (que toma dinheiro do contribuinte pagando 9,5% ao ano e empresta o mesmo dinheiro à Vale, JBS, Petrobrás, BRF, Odebrecht, Engevix, Gerdau e etc.. a 3,5% ao ano. Depois o tesouro de novo cobre o rombo no BNDES mas isso é assunto pra outra hora), não servem de justificativa para a péssima adminstração da Petrobras – não estou falando nem dos supostos devios de recursos – muito menos para alta da inflação e para a recente destruição em massa de postos de trabalho. Isso tudo é consequência de uma administração péssima, não da “crise internacional”.

    Aliás, “o corte de investimentos sociais e em infra-estrutura e os ajustes que favorecem o empresariado em detrimento de direitos do trabalhador”. Não existe corte de investimentos sociais e infraestrutura que favoreça empresariado. A péssima infraestrutura no Brasil e o baixíssimo nível educacional são dois dos principais componentes que fazem o Brasil perder competitividade com o resto do mundo. Agora pensa como é difícil para um dono de um pequeno frigorífico competir no mercado com a JBS que tem apoio político do governo, financiamento do BNDES a 3% (será que eles acham que convencem alguém com esse papo que a decisão não é política?) e uma série de benesses propiciada só aos “amigos do poder”.

    Por fim, existem descontentes à direita e à esquerda. Mas convém à esquerda classificar toda a “direita” ou melhor, todas as pessoas que não estão à esquerda do PT e da Dilma, como “coxinhas” ou “batedores de panelas”. Espero que no futuro a “direita” e as pessoas que não estão à esquerda do PT não sejam todos estereotipados como o Aécio ou como o Bolsonaro.

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    • Correção na dubiedade no final do texto:

      Espero que no futuro a “direita” e as pessoas que não estão à esquerda do PT não sejam todos estereotipados como “o Aécio” ou como “o Bolsonaro”.

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  5. Sempre votei no Lula e era hostilizada entre meus amigos e minha família pelos mesmos motivos: falta de cultura, como um presidente não sabe nem falar português corretamente? E assim por diante. Insistia no fato do valor de um trabalhador que chegou ao poder pela inteligência, carisma, capacidade de empatia com os mais necessitados.Mas o PT acabou com toda a minha ideologia com algo pontual: Lula apertando a mão de Paulo Maluf num gesto aparentemente banal mas revelando toda a mudança de paradigmas, os conchavos, a sede de poder, as barganhas podres que se revelaram comuns nos escândalos de corrupção que agora estão vindo á tona. Me senti traída por um partido que pregava a igualdade, que lançou sim, programas sociais importantíssimos… Mas não me representa mais.

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