Comportamento/Economia/Vida

O livre mercado e outras ficções

Recentemente o Uber, um sistema de serviço privado de transporte que funciona via aplicativo de celular e concorre com os taxis nas maiores cidades do mundo, foi temporariamente proibido de operar em São Paulo.

Os que defendem o direito de existir do Uber dizem que a beleza do serviço é que se trata de empresa criada por uma necessidade de mercado, e, como tal, regulada de forma natural pelo mercado, ao contrário dos taxis, que são regulados pelo estado, que, entre outras chatices, impõe regras e tarifas.

Todos aqueles que ainda acreditam que existe de fato um troço chamado livre mercado e que ele é uma das coisas mais eficientes do mundo esparramam-se de amores por argumentos como esse – e eu um dia fui uma dessas pessoas até resolver começar a estudar o tema e virar a casaca. Mas uma análise nem tão profunda faz a gente ver as coisas sob outro ângulo.

Quem joga luz na questão é o doutor em economia pela Universidade de Yale, Richard Wolff, que explica como o mercado nessa caso do Uber funciona:

“Se numa dada ocasião existir uma demanda urgente por transportes em uma cidade o que o Uber faz é subir os preços da viagem” diz Wolff explicando que, como sabemos, é assim que mercados funcionam, nesse dueto oferta/demanda: sem carros suficientes para atender todos os pedidos, fica com o serviço quem pagar mais por ele. “Portanto, se os preços sobem aqueles que não podem pagar pela tarifa mais cara ficam sem o serviço”.

Wolff dá um exemplo: num certo fim de tarde chove torrenciamlente e a demanda por carros aumenta. Quem pode fazer uso do sistema nesse caso? Os ricos. Nesse dia, quem tem mais dinheiro chegará em casa, quem não tem terá que batalhar um meio de voltar. “É dessa forma que mercados funcionam: eles excluem aqueles que não têm dinheiro suficiente. E, por contraste, o sistema de taxi funciona assim: todos pagam a mesma coisa. Não se exclui os de menor renda”.

Esse é apenas um exemplo atual de como a regulação feita pelo estado é bem-vinda e necessária se ela for capaz de proteger o mais fraco do mais forte.

Mas o que temos hoje na maioria dos casos é o estado protegendo o rico do fraco – como aconteceu quando o dinheiro do contribuinte salvou da falência bancos milionários e, nos Estados Unidos, a indústria automotiva.

Imaginemos, portanto, se, como pedem alguns, o estado sair de todos os serviços básicos que servem uma comunidade e que, nessa hora, o Deus Mercado domine e comece a se auto-regular. É esse o mundo que queremos? Certamente não, mas é esse o mundo que estamos criando.

Um outro exemplo há décadas exposto por Noam Chomsky e semana passada discutido por Wolff em seu programa semanal de rádio (link para o programa no final desse texto).

“Cada vez mais pessoas começam a se dar conta dos enormes benefícios que corporações levam ao se utilizarem do resultado de pesquisas financiadas e organizadas pelo estado”, diz Wolff antes de dar alguns poucos e conhecidos exemplos: o computador, a Internet, vários componentes-chave do Iphone etc; todas essas conquistas de agências estaduais e universidades que fizeram uso do dinheiro do governo – do contribuinte, portanto -, para bancar cientistas, laboratórios e material.

Ou seja: o público paga por pesquisas caras e importantes que são depois entregues a corporações que lucrarão com elas. No capitalismo verdadeiro, e não nessa versão plutocrática que temos hoje, aquele que investiu o dinheiro fica com o lucro se houver um. Chomsky se refere ao atual sistema como uma economia que funciona privatizando o lucro e socializando o risco.

“Se o governo usa nosso dinheiro para subsidiar empresas privadas vamos chamar isso pelo nome correto: assistência social a corporações”, diz Wolff.

Até uma tonta como eu consegue perceber que se o estado entra no jogo econômico para beneficiar corporações em detrimento do interesse público ele tira a palavra “livre” do tal “livre mercado”, não?

O absurdo da situação é que os mesmos que se opõe ao subsídio aos mais carentes vilanizando programas como o Bolsa Família não veem nenhum problema quando o estado dá uma força para os ricos.

Outro exemplo contundente é o fato de todos os cientistas sérios do mundo terem alertado para que paremos de extrair combustíveis fósseis do solo.

Eles dizem que se não deixarmos, a partir de já, 80% dessas reservas no solo a Terra será inabitável em pouco tempo. Diante da notícia o que fazem as corporações, estimuladas pelo Estado? Cavam mais rápido e mais fundo em nome do lucro, do bônus, do dividendo.

Era a hora de governos interessados em proteger o bem-estar da população dizerem ‘basta’ a essas corporações e começarem a buscar alternativas. Mas eles se calam porque o que temos hoje são estados-corporativos, uma parceria diabólica que, todos os dias, protege a concentração de capital do interesse da população, e nada mais do que isso.

Noam Chomsky deixa tudo ainda mais claro quando mostra que as 100 empresas listadas na Fortune 100, que relaciona as maiores corporações do mundo, já foram beneficiadas por políticas intervencionistas, e que muitas nem existiram mais se não tivessem sido tiradas da falência com a ajuda do dinheiro do contribuinte. Que tipo de ‘livre mercado’ é esse então?

Por isso, quem ainda chama o sistema atual de ‘livre mercado’ não percebeu – ou já, mas prefere ignorar porque se trata de uma coisa difícil de não ser percebida – que de ‘livre’ esse mercado nada tem. Ou é mais ou menos como o saci-pererê: talvez o ‘livre mercado’ até exista, mas até hoje nunca foi visto.

Se você conseguiu chegar até aqui pode cair na tentação de imaginar que se trata de uma defesa pela ampla participação do estado na economia. Não é. Todos sabemos o que acontece quando o estado passa a ser a única força de uma sociedade: ele se torna tirânico, controlador e ditatorial; assim como é tirânica, controladora e ditatorial uma sociedade regida por corporações, como é a nossa hoje.

O que falta, portanto, é encarar a situação: o sistema pifou e é preciso parar de fingir que ficções como o ‘livre mercado’ existem e vão nos salvar. Estamos indo para o abismo e se não começarmos a buscar soluções não duraremos muitas gerações mais.

A alternativa é a completa deterioração do meio-ambiente e da sociedade, dividida entre muitos miseráveis, alguns poucos remediados e um porcento de milionários; e na qual o estado se tornou uma instituição que protege o rico do pobre, o incluido do excluído, o opressor do oprimido.

A situação no epicentro do capitalismo, os Estados Unidos, pode ser ilustrada pelo diálogo entre a jornalista americana Amy Goldman, do canal Democracynow.com, e uma menina negra de 13 anos que protestava nas ruas de Long Island contra o assassinato de Eric Garner, também negro, pela polícia.

“O que você esperar alcançar com esse protesto?”, Goldman perguntou.

“A chance de viver até fazer 18 anos”, a menina disse.

Trata-se do novo ‘sonho americano’, Goldman conclui.

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O programa de rádio de Richard Wolff aqui

Democracynow

23 pensamentos sobre “O livre mercado e outras ficções

  1. Magnifico, como sempre, Milly. Obrigado por expor a verdade oculta por trás de mais uma assertiva falaciosa que a pregação neo-liberal quer implantar em nossas mentes. E obrigado também por outro motivo: Não precisei ter que estudar a fundo como você para chegar as mesmas conclusões, embora devesse ter feito. Triste mundo em que vivemos. Não temos tempo para pensar em nossa própria vida e no mundo que em vivemos. Estamos sempre esgotados demais do trabalho e das preocupações. Enfim…

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    • É, Jonner. O fato de não termos tempo de parar e pensar é uma das belezas do sistema. Se ele nos permitisse pensar, já teria sido derrubado. Mas estamos sempre exaustos, e temos contas para pagar e amanhã é dia de trabalho… e assim o sistema injusto se perpetua. Obrigada pelo comentário.

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  2. O estado tem benefiado muito mais as corporações que a população em si, desde os tempos dos Reis e seus poderosos Cleros! O estado é uma espécie de banco financeiro para todo o cartel. A população financia indiretamente as instituições privadas e falidas! Você citou bem a questão dos combustíveis como fontes não renováveis! Deveria ser prioridade hoje no mundo PArar o Mundo na questão consumo e produção de supérfluos ( desde modelitos de roupas, de novos carros, embalagens e cacarecos) para uma grande tomada de consciência urgente ou vamos nos auto extinguir em décadas, exaurindo o planeta de lixos poluentes!!!! Há uma crescente ideia filosófica de se extinguir o estado em muitos países periféricos, pela sobrecarga de assistencialismos, de ministérios e etc. Eu ainda não li o livro Carregando O Elefante, quando soube o prefácio é do horroroso Fraga, mas vou mandar buscar do Brasil e ler para melhor compreender esta lógica capital, cada vez mais enojada por mim! E viva as outras formas alternativas socialistas e comunistas de sociedade!

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  3. Um exemplo simples e prático:Tinha um conhecido que trabalhava numa estatal,a CELESC,(Centrais elétricas de SC)num setor que era responsável pelas linhas de transmissão.Falava das dificuldades e os custos que era levar energia eletrica a lugares de dificil acesso,e com quase zero de retorno de investimentos para atender poucas casas.Nenhuma empresa de “livre mercado” atenderia a lugares assim,sem retorno imediato.
    Só pra completar,alguém ainda não viu “Obsolescência Programada”?

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  4. Quem socorreu e salvou a GM aí nos States depois da crise de 2008? Foi o livre mercado ou o Estado americano com o dinheiro do contribuinte? É a velha máxima do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, como sempre.

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  5. Concordo com o necessário envolvimento LIMITADO do estado para a não segregação. Mas em relação ao Uber, serviço que não uso nem nunca usarei (já acho o taxi comum suficientemente caro), discordo .
    Esse argumento de “no dia chuvoso em que faltar taxi, os mais ricos é que vão se dar bem” é no mínimo fraco, para não dizer simplista.
    No dia que faltar taxi, Milly, e por essa eu já passei, vai ser uma bença existirem serviços alternativos. Uns usarão este e outros aquele, com maior oferta para uma demanda extremamente ineficiente.
    Td mundo se beneficia. E no resto do ano, existirão os 02 (ou 03, ou 04) serviços para quem quiser escolher.
    O livre mercado vai dizer se o uber vai fazer sucesso no médio ou longo prazo. Enqto for novidade, obviamente haverá o mimimi de quem atende mal e perdeu mercado (pq os taxistas, em véspera de feriado fim de tarde paulistana, atendem muito mal e escolhem clientes que fazem corridas que melhor lhes convém).
    E se um dia os tais “chocolatinhos e mimos” não forem suficientes para justificar uma tarifa ainda maior que a do taxi, o uber sumirá.
    Não precisamos do estado e nem da magistratura dando canetada nisso.
    O medo dos taxistas é a população descobrir que dá para chegar em Cumbica sem gastar 200 paus, e ainda andando em carros melhores que os deles.

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    • Oi, Martin. Acho que a intenção não era usar um argumento simplório mas dar um exemplo simples para ilustrar uma situação complexa, e o caso do Uber é bom para que a gente entenda o que acontece quando só o mercado atua. O ideal seria que transportes públicos estivessem ao alcance de todos e funcionassem, e que houvesse uma frota de taxis que pudesse atender com largo alcance e de modo menos sofrível. Obrigada por ler e comentar. Abraço.

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      • Olá Milly. O exemplo que você utilizou é fragil pois apresenta uma situação de concorrência monopolística no curto prazo e “reveste” a situação como livre mercado.

        Seu exemplo ignora a teoria dos retornos anormais e Schumpeter que explica que, o mercado ganha eficiencia no longo-prazo. Isto é, no curto-prazo aparece o inovador (estamos falando do Uber, mas no passado já foi a Ford, a IBM, a Dell, a HP, a Underwood Typewriter Company e etc…) que, por trazer um produto ou processo novo, acaba por “monopolizar” um mercado por ser a única empresa no mercado que consegue se aproveitar da vantagem competitiva.
        Como a empresa que tem a vantagem competitiva tende a produzir lucros anormais (lucros superiores aos atingidos por produtos substitutos ou concorrentes), inicia-se o processo que Schumpeter chama de “Swarming”. Nesse processo, outros empreendedores e empresas com capacidade de adaptação, acompanham (imitam, melhoram) a inovação proposta pela empresa que, até então tirava proveito de tal vantagem competitiva. Desses novos entrantes, alguns terão sucesso equivalente à empresa pioneira, outros não terão sucesso e outros ainda, terão mais sucesso que a empresa pioneira.
        O terceiro estágio ocorre quando a nova tecnologia já não é mais nova porque muitos já imitaram. Nesse estágio os lucros deixam de ser anormais e todas as empresas dividem um mercado competitivo e que tende a competir por preços mais baixos.

        Antes de sugerir que o avanço tecnológico destroi postos de trabalho, por favor veja: https://www.youtube.com/watch?v=71t_iGhZvXo

        “The scholarly evidence, as shown by several overview studies, supports the idea that technological change does not lead to fewer jobs, and in some cases may increase employment.” http://www2.itif.org/2013-are-robots-taking-jobs.pdf

        Você não respondeu, no passado minhas sugestões de Stiglitz e McCloskey (que agora também pode ser complementada por Rognlie: http://www.brookings.edu/about/projects/bpea/papers/2015/land-prices-evolution-capitals-share e
        http://www.mit.edu/~mrognlie/piketty_diminishing_returns.pdf) quando você disse que a proposição de Piketty era “irrefutável”. Então acredito que a regra dos dois desvios esteja fazendo cada vez mais sentido. Espero que você não continue confirmando a regra.

        Até!

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      • Nossa, Bruno, que coisa mais complicada. Já me perdi no começo (“Seu exemplo ignora a teoria dos retornos anormais e Schumpeter que explica que, o mercado ganha eficiencia no longo-prazo”). Como não sou economista e tenho enorme dificuldade para entender economês, preciso ler e reler muito antes de fazer um texto. Por isso exemplos simples como esse do Uber me pegam. Mas também porque acho que mesmo as coisas mais complicadas têm explicações bastante simples. O exemplo da Uber não é meu, aliás. É de Richard Wolff, um economista americano de mais de 70 anos e com bacharelados, mestrados, doutorados etc. Gosto dele porque Wolff explica economia para antas como eu. Mas verei seus links. Obrigada por ler e comentar. Abraço.

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  6. Gosto muito do livro ‘What Money Can’t Buy: The Moral Limits of Markets(Michael Sandel)’ que trata exatamente disso, de como o mercado foi tomando conta da nossa vida em sociedade e hoje é a principal régua que nos guia (no mundo e principalmente nos USA).
    Aqui um resumo que ele faz do livro:

    Creio que vai gostar.

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    • Gosto muito também, Rafael. Gosto de tudo o que escreve e fala o Sandel. Ele fala dessa imoralidade sem muito alarde e dá exemplos e exemplos. O curso dele em Harvard é também muito bom. Obrigada pelo link 🙂

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  7. Temos um sinal bastante claro de que o capitalismo corporativo está doente e precisa ser contido. Beneficiando pouca gente e destruindo a biosfera.
    Uma das táticas dessas corporações é fazer o lobby para desregular um mercado e depois acusar o governo pelas ações desregulatórias que ele mesmo promoveu.
    Precisamos diminuir as externalidades negativas que esse monstro sem alma está nos causando. Nisso, até os libertários devem concordar.

    Nesse curto vídeo o Chomsky, com toda a sua tranquilidade, fala um pouco sobre as grandes e reais inovações financiada pelo estado. Sem dúvida um dos maiores intelectuais do sec.XX.

    “Noam Chomsky – iPhones e propriedade intelectual”

    Outra pessoa que sempre merece ser ouvida é Naomi Klein. O livro This Changes Everything cobre a questão da mudança climática e como isso poderá ser utilizado para criar um sistema econômico alternativo.

    http://www.theguardian.com/books/2014/sep/22/this-changes-everything-review-naomi-klein-john-gray

    Mais um ótimo texto, parabéns, Milly!

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  8. Pingback: O livre mercado e outras ficções « Associação Rumos

  9. Milly, Chomsky chegou a mim pelo seu lado de linguista. Como ativista político e pensador , ele me veio em 2001, logo depois dos atentados de 11 de setembro.
    Assim como você, sou fã das ideias e do pensamento consistente dele.
    Gostaria de lhe propor que lesse um outro cara, dessa vez um brasileiro fantástico: o geógrafo Milton Santos. Acho que um complementa o outro. Para introduzi-lo, caso realmente ainda não o conheça, assista ao documentário O mundo global visto do lado de cá, do cineasta Sílvio Tendler. Beijos

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  10. Infelizmente seu argumento não tem nenhum sentido, pois você deixou escapar um ponto simples: Se os preços e os lucros sobem, o resultado é que o mercado se ajustará até ter mais “uber1s” circulando em dia de chuva, pois a oferta é maior.

    O mesmo vale em estádios de futebol: Veja o preço de estacionamentos ao redor em dias de jogo ou dias normais: em dias de jogo é mais caro. Entretanto não são absurdos, porquê senão os concorrentes levam, isso se não for preferível ir de “uber”, bicicleta, ou deixar o carro na rua.

    Capas de Chuva: Em dias que chove, o preço sobe, porquê, obviamente, o valor é maior. Mas a concorrencia mantem os preços factíveis e compráveis.

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