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Pelo fim do #calaboca

Eu estava trabalhando quando escutei os gritos vindos da rua: “gay é tudo doente! Vão dar o rabo, seus cornos”. Na hora minha reação foi correr para a janela e começar a xingar o homofóbico que discursava, mas alguma coisa me conteve.

Claro que eu poderia ter iniciado uma artilharia verbal com o pedestre que gritava obscenidades, e eu teria não apenas razão mas também muitas coisas para gritar para ele, só que por outro lado eu tinha também um deadline – já há muito ultrapassado – e precisava correr. Tudo isso cruzou minha cabeça em questão de segundos e, ponderadas as coisas, decidi voltar a trabalhar e deixar o homofóbico seguir seu caminho.

O que me fez refletir? Noam Chomsky, sempre ele.

“Se a gente não acredita em liberdade de expressão para as pessoas que desprezamos, então não acreditamos em liberdade de expressão de forma alguma”, escreveu Chomsky. E aquele era o maior dos testes para mim porque tratava de um assunto que me é bastante fundamental, um que envolve minha sexualidade.

“É bastante fácil defender a livre expressão daqueles que não precisam de nenhuma defesa”, argumenta o linguista e intelectual Noam Chomsky. E de fato seria bastante simples defender a liberdade de expressão de, por exemplo, Jean Wyllys, o deputado federal que é gay e pensa mais ou menos como eu politicamente, ou Chico Buarque, outro com quem me afino, ideologicamente falando.

Já defender a liberdade de expressão de Rachel Sheherazade, Danilo Gentili, Rodrigo Constantino, Jair Bolsonaro… meu Deus, que esforço.

Mas até Stalin era capaz de defender a liberdade de expressão de quem concordava com ele, e como não gosto de me sentir fazendo coisas que até Stalin fazia me obrigo a tentar ser diferente.

Por tudo isso a hashtag #calaboca me incomoda. E falo de qualquer cala a boca, mas especialmente desses que dizem respeito a calar a boca de Sheherazades porque é nessas ocasiões que meu respeito pela liberdade de expressão é testado. E a verdade é que existe sempre uma atitude anti-democrática quando mandamos alguém calar a boca.

Hoje em dia me parece que a maioria defende o direito inviolável à liberdade de expressão e de opinião desde que a expressão e a opinião sejam bastante parecidas com as suas, e quase nunca quando a expressão e a opinião enojam e causam calafrios.

Mas uma outra discussão que parece importante é saber como se forma uma opinião e tentar entender que tipo de manipulação está por trás disso.

Daí podemos fazer a pergunta: existe liberdade de expressão na mídia?

É razoável supor que, se determinada mídia pertence à iniciativa privada e tem, portanto, um dono, ela não vai exatamente trabalhar com liberdade de expressão porque vai acabar traçando um retrato do mundo que reflete os interesses de seus donos e anunciantes, marginalizado o interesse da população.

Vamos tomar como exemplo o que aconteceu na redação da revista francesa Charlie Hebdo: dois homens entraram armados e mataram meia dúzia de jornalistas que faziam uma reunião de pauta. Um crime horroroso e chocante.

Minutos depois do atentado, canais de TV do mundo inteiro estavam na porta da Charlie Hebdo cobrindo o ocorrido, e algumas horas depois alguém havia lançado a hashtag Je Suis Charlie em defesa da liberdade de expressão, já que o crime se deu porque a revista ridicularizava Maomé, entre outros profetas, e os terroristas muçulmanos se sentiram ofendidos.

Por todos os lados, de jornais impressos a portais de internet e notiários de TV, sabíamos de tudo sobre o caso: os assassinos eram muçulmanos e tinham feito aquilo para calar a boca de uma imprensa livre e destemida.

O recado chegava alto e forte: muçulmanos são crueis e apenas no mundo ocidental existe liberdade de expressão. Não houve quem, nesse canto ocidental do planeta, tivesse deixado de saber do atentado, e sido informado da religião dos assassinos.

Na mesma semana em que os terroristas entraram na redação da Hebdo, um outro grupo terrorista conhecido como Boko Haram matou, segundo a Anistia Internacional, duas mil pessoas na Nigéria. Outra vez: em um dia, duas mil pessoas.

Testemunhas disseram que eles chegaram atirando e continuaram atirando até vilarejos inteiros desaparecerem; mulheres, crianças, idosos e quem quer que se metesse no caminho.

Se a morte de seis inocentes em Paris é chocante, o que dizer da morte de dois mil nigerianos, também vítimas de terrorismo?

Como a mídia cobriu isso? O que chegou até a gente?

As vítimas eram em sua maioria muçulmanas, mas também não saberíamos disso porque a religião só é tema quando o assassino é de uma religião que valha ser vinalizada. O maluco cristão norueguês que matou dezenas de estudantes não foi chamado em nenhum momento de “terrorista cristão” pela mídia, uma mídia que tampouco se preocupa em lembrar que todas as religiões têm fanáticos terroristas capazes dos piores crimes.

Como George Bush, um fanático cristão que dias antes de invadir o Iraque e iniciar a matança de milhões de iraquianos inocentes, declarou: Deus me disse para acabar com a tirania no Iraque.

Também não ficamos sabendo do imigrante muçulmano do Mali que salvou reféns judeus escondendo-os no freezer enquanto os terroristas do episódio da Charlie Hebdo tentavam se encobrir da polícia. Ou do policial muçulmano que confrontou os assassinos e foi morto por eles. Ou dos mais de 50 institutos muçulmanos que foram depredados nos dias seguintes em território francês.

Há muitos outros exemplos como esse, mas vamos falar de Edward Snowden.

O americano de 28 anos sacrificou a vida para mostrar ao mundo como o governo de seu país construiu uma máquina de espionagem usada contra seus próprios cidadãos e também contra população e líderes políticos de outros países.

Espionar inocentes é uma das marcas registradas de estados totalitários, mas os documentos revelados por Snowden ganharam pouca atenção da mídia, que prefere se referir a ele como traidor, ou lembrar que é considerado um fugitivo.

Por causa dessa triste parcialidade, passou quase desapercebida a informação de que no período de um mês, entre 8 de fevereiro e 8 de março de 2013, a NSA – a agência de segurança nacional dos Estados Unidos – coletou 125 bilhões de dados de ligações telefônicas e 97 bilhões de dados de computadores no mundo todo.

Em qualquer civilização realmente democrática uma informação como essa seria considerada escandalosa, o responsável pelo crime de espionagem seria punido e quem correu risco de vida para revelar ao mundo o crime seria condecorado.

Mas a nossa não é exatamente uma sociedade democrática e a mídia prefere noticiar apenas a versão da assessoria de imprensa do governo dos Estados Unidos, que diz que a espionagem sem precedentes é necessária para que vivamos em segurança e sem atentados terroristas.

Nessa hora uma imprensa livre não faria eco ao que diz a assessoria de imprensa de Obama, lançaria sobre ele um olhar crítico e revelaria a todos nós que a justificativa dada não cola porque desde que essa colossal espionagem secreta começou nenhum atentado foi evitado.

Ou, para ser justa, a máquina americana de espionagem conseguiu interceptar uma transferência bancária no valor de US$ 8.500,00 que um taxista americano faria para um grupo supostamente terrorista na Somália. E foi isso.

Ficaríamos sabendo também que a campanha de drones de Obama já matou milhares e milhares de inocentes no Iemên e no Afeganistão, para citar dois países, e que se formos levar a definição de terrorismo ao pé da letra trata-se da maior campanha terrorista da história.

Uma que aliás ajuda a formar terroristas porque é apenas natural que, vendo parentes e amigos serem assassinados todos os dias, alguns sobreviventes jurem vingança (o terrorismo de estados ricos é executado por exércitos e drones; o de estados pobres por malucos que se vestem de bombas).

Então de um lado o recado da mídia corporativa é: espionar vocês é importante para que possamos progetê-los contra o terrorismo. E do outro ela simplesmente omite que a mesma instituição que dá esse recado está, com suas campanhas terroristas, formando outros terroristas.

É uma grande piada, mas não conseguimos sequer saber disso porque não temos acesso a todas as informações.

Como formaríamos nossa opinião se a mídia nos desse todos os fatos? Será que pensaríamos como pensamos hoje? Teríamos a mesma ideologia que temos hoje? Votaríamos em quem estamos votando? Lutaríamos as mesmas lutas diárias? Que tipo de opinião está sendo formada por uma imprensa que, por exemplo, omite alguns massacres e rotula outros?

Se o direito à livre expressão é inviolável, o acesso à informação também é. E no mundo atual não somos examentente informados, mas manipulados a pensar da forma como as grandes corporações, empresas de mídia entre elas, querem que pensemos.

Enquanto a morte de uma criança no Iêmen ou na Nigéria for menos chocante do que a morte de uma criança em Tel Aviv ou em Nova York não conseguiremos evoluir.

“O ser humano é parte de um todo que chamamos de universo, uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experimenta a ele mesmo, seus pensamentos e sentimentos, como coisas separadas do resto, um tipo de ilusão de ótica de sua consciência.

“Essa ilusão é uma forma de prisão para todos nós, restringindo-nos a nossos desejos e a afeição a algumas poucas pessoas próximas. A tarefa é nos libertar dessa prisão alargando nosso circulo de compaixão para abranger todas as criaturas vivas e toda a natureza em sua beleza” – Albert Einstein.

7 pensamentos sobre “Pelo fim do #calaboca

  1. Felizes somos nós, fiéis seguidores de todos os avessos que vc nos mostra com precisão. Obrigada por jogar luz nas periferias que não conseguimos enxergar, ou que somos manipulados a ignorar.

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  2. Segundo o mesmo Einstein: “Existem 2 coisas infinitas no Universo, uma é o próprio Universo, a outra é a estupidez humana”.
    E assim, vida que segue…
    P.S. Curto demais ler os seus posts, sempre um oásis de lucidez no deserto.

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  3. Oi Milly, considerando que vc é apaixonada por futebol e expert no assunto (embora, talvez, nem tanto, uma vez que torce por aquele time da ZL) gostaria de saber a sua opinião, do ponto de vista daí dos States, sobre essa blitz do FBI na Fifa.
    Embora esse pessoal da Fifa, da CBF, Conmebol, Concacaf et caterva sejam todos uns salafrários que deveriam estar na cadeia há muito tempo, penso que há tb uma ação dos EUA meio suspeita. Ou eles, USA, querem minar o “soccer” por concorrer com os outros esportes mais populares por aí ou estão vendo uma oportunidade para entrarem pra valer no negócio dada as vultuosas quantias que movimenta o ‘negócio futebol’. Além, é claro, da questão geopolítica, com Rússia, Catar etc. Me parece que esse assunto tem várias camadas.
    Enfim, se vc puder, gostaria de saber a sua opinião.
    Abraços.

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