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Qual o nosso problema?

No dia em que no Brasil a Câmara dos Deputados aprovou a redução da maioridade penal a Hungria anunciou que vai construir um muro para evitar que sérvios entrem ilegalmente no país.

De comum, o governo Húngaro e a atual Câmara dos Deputados brasileira têm uma faceta ultra-nacionalista e conservadora (a Hungria é liderada hoje por um partido que Noam Chomsky chama de “virtualmente neonazista”, o Jobbik), características que quase sempre levam a atitudes que flertam com o fascismo.

Mas há outros muitos muros sendo erguidos pelo mundo com o objetivo de evitar migrações, e embora tenhamos comemorado como irmãos e cidadãos de um mesmo planeta a queda do muro de Berlim não fazemos nada em relação às notícias de muros sendo erguidos.

Qual o nosso problema?

O primeiro deles é o de nos deixar conduzir como gado pelas corporações, mídia entre elas.

Comemoramos a queda do muro de Berlim porque fomos doutrinados a acreditar que ela significava o fim do maléfico comunismo, esse sistema que, também fomos disciplinados a acreditar, come criancinhas (uma alegoria tão pobre quanto falsa, mas que colou durante muito tempo, e ainda cola. Já sobre o capitalismo escravizar e levar criancinhas à morte nada se fala).

O muro caiu e, com ele, avisaram, ia junto a Guerra-Fria e o risco de um apocalipse nuclear; acontece que o risco de uma guerra nuclear, dizem especialistas, ainda é altíssimo, talvez mais do que nunca — outro tema-tabu sobre o qual só se fala reservadamente.

Russia e Estados Unidos estão em conflito, China e Estados Unidos flertam com um, o Oriente Médio é um caldeirão, a Europa está a cada dia mais dividida, a Arábia Saudita bombardeia o Iêmen todos os dias, a Síria está se auto-destruindo incentivada pelos Estados Unidos, Israel, também com amplo apoio americano, se separa da Palestina erguendo muros e aprisionando a população de Gaza, Obama criou uma campanha terrorista de drones que sai pelo mundo assassinando qualquer um que o governo americano considere suspeito de um dia talvez fazer alguma coisa contra os Estados Unidos, e como rastro vai matando centenas de inocentes, crianças entre eles, até porque suspeitos são também inocentes até que se prove o contrário… O que exatamente acabou com a queda do muro de Berlim?

A África, explorada e devastada depois de séculos de exploração e guerras financiadas pelos Estados Unidos e aliados, vê parte de sua população tentar escapar para a Europa, e centenas morrerem afogados na tentativa. Trata-se de uma tragédia humana, de uma história de puro horror.

E embora muita gente acredite que uma pessoa queira entrar no país rico para ter direito a uma vida de iPhones e luxo é importante saber que pessoas só deixam suas casas e suas nações quando inundadas de desespero e movidas por instinto de sobrevivência.

Como e por que ocorrem movimentos migratórios em massa então? Vamos entender alguns.

Em 2009, os Estados Unidos apoiaram um golpe em Honduras e o país mergulhou numa crise. Hoje, centenas de hondurenhos tentam fugir e entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Por lá, chamam isso de crise imigratória porque colocam o foco, claro, no país rico. A crise é humanitária e o foco deveria estar no país oprimido e devastado pelo imperialismo americano.

Na década de 90 Estados Unidos, Canadá e México firmaram acordo comercial – o NAFTA – que ajudou a oprimir ainda mais a população miserável do México. Na mesma época, e não a toa, as fronteiras americanas foram reforçadas e militarizadas porque era apenas sabido que os mexicanos tentariam escapar da dureza que um acordo comercial que favoreceria empresários, corporações e o poder do capital.

E assim criamos um mundo com 60 milhões de refugiados, ou 1 em cada 122 pessoas, segundo dados mais recentes divulgados pela ONU.

A Itália, que anda resgatando os africanos que se afogam durante tentativa de deixarem seus países avisou que não pode mais lidar com isso. E União Europeia lava as mãos, e a tendência é que outros horrores aconteçam e que essas pessoas sejam esquecidas para morrerem em alto mar.

Pouco se fala também do tipo de desespero que leva alguém a largar tudo para trás e tentar escapar de algum lugar. O drama humano não importa, o que vale é erguer muros e impedir que pobres entrem.

Estamos assistindo o escalonamento do racismo, do fascismo e de todo o tipo de separação entre cidadãos do mundo.

Como chegamos a esse ponto já tendo testemunhado horrores como o nazismo, a escravidão, os apartheids, os genocídios africanos… ?

Quantos inocentes mais terão que morrer para que entendamos que o problema é o sistema, que a crueldade é a fúria pelo lucro e pelo acúmulo de capital e bens, que a desumanidade é darmos a corporações a honra de serem tratadas como seres-humanos e tratarmos seres-humanos como commodities que podemos avaliar, recusar e jogar fora?

Vivemos dentro de um sistema no qual países ricos devastam, escravizam e exploram países pobres e depois fecham as portas quando seres humanos desesperados tentam escapar das distopias criadas pelo explorador.

Um sistema que marginaliza, discrimina e exclui pessoas de baixa renda enquanto vende a noção de que só o consumismo justifica uma vida plena e depois lida com isso encarcerando crianças que acreditaram no recado.

Um sistema baseado em capital, exploração e acúmulo e que criminaliza a pobreza não vai nos elevar a um lugar de mais significado; não vai nos elevar a lugar nenhum na verdade.

“As paredes protegem, mas também limitam”, escreveu a inglesa Jeanette Winterson. Ao aplaudirmos a criação de muros e  grades estamos nos limitando e separando e apenas isso.

A cada muro erguido um pouco de todos nós morre; e se houver anjos e uma fonte de amor única eles estão, nesse instante, chorando.

13 pensamentos sobre “Qual o nosso problema?

  1. Milly, saindo um pouquinho só do tema, mas ao mesmo tempo ficando…
    Se entendemos que homens e mulheres são feitos (quase…rsrsrsrsrs) da mesma substância, se defendemos que não há razão NENHUMA para QUALQUER tipo de discriminação entre homens e mulheres (não faz mais nenhum sentido não haver maior participação feminina no parlamento, não faz mais sentido mulheres sendo pior remuneradas que homens, e por aí afora…) por que raios ao promulgar uma medida provisória temos que concordar com a diferenciação de aposentadoria para homens e mulheres (regra 85/95) ??? Não é institucionalizar um “muro” ??? Não consigo entender a lógica….

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    • Caro Marco, boa tarde! A igualdade é um princípio de desigualdade. Isto é, para igualar você deve usar critérios diferentes. Por essa razão a mulher deve, e com justiça, aposentar após um periodo menor, comparado ao do homem, porque em tese a mulher tem a função maternal. Fato que acarreta, para algumas, as que optam por ser mães pelo menos, uma carga extra de trabalho me benefício da sociedade. Mas é, também, verdade que algumas não tem esta carga extra, embora tenham optado por ser mãe. Assim fica evidente, ao menos em relação àquelas que, embora não suportando a extra jornada, se beneficiam do critério.
      Um abraço.

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      • Antxarino,
        Muito obrigado pelo esclarecimento. Mas ainda pensando em igualdade e/ou desigualdade, não deveria a maternidade gerar uma carga de trabalho adicional para o “par” (seja qual for o genero dos integrantes desse par…), ao inves de supor uma carga adicional somente para a mulher ??? E como explicar que essa diferenciação ocorre basicamente somente no nosso país ??? Um grande abraço !

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  2. Mandou bem! Termino de ler seu desabafo e tenho vontade de sair pelas ruas gritando contra tudo o que nos está posto nesta ordem do dia! Vontade de sair com uma faixa ou cartaz enorme, e como bonsais 89-90, nosso desabafo eram as ruas em passeatas! Naqueles anos lia-se muito B Brecht , “Que tempos são esses” é nossa utopia nos levava a crer que chegaria os anos 2 mil e tudo haveria de ser diferente, íamos revolucionar a sociedade, o pais! Essa questão da migração de gentes buscando apenas um lugar e comida para viver eh pesada demais para não refletirmos!!!!! Ninguém pode dormir de touca, temos ainda que clinicar nosso bloco na rua!!!!

    Curtido por 1 pessoa

  3. “Como chegamos a esse ponto já tendo testemunhado horrores como o nazismo, a escravidão, os apartheids, os genocídios africanos… ?”
    Resposta: Aprendendo com os erros aprendemos a errar mais.

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  4. Oi, Milly!
    Que comunista “come criancinha” ainda está por se provar, mas que o capitalista “come a comida das criancinhas”, não resta a menor dúvida.
    Muito forte o seu texto.
    Parabéns!

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  5. Olá Milly!

    Decidi escrever porque sou leitor assíduo do blog, e há mais de 10 dias não vejo nenhum post novo.

    Você acha justo cativar o público com as suas reflexões e depois sumir por tanto tempo??? Rs

    Beijos

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  6. Pingback: O capitalismo é imoral « Associação Rumos

    • Tendência não é exatamente isso, Rodox. Acho que você quer dizer que eu não tenho opinião e que só uso as de Chomsky, o que não chega a ser um problema, eu acho. Mas se é o que pensa sugiro ir direto à fonte: Chomsky certamente sabe uns oito universos mais do que eu. Abraço.

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