Economia/Política/Vida

A imprensa contra todos nós

A tentativa de pintar Eduardo Cunha como estadista é um crime contra todos nós que acreditamos em liberdade, e falo aqui em liberdade no sentido mais amplo possível.

Eduardo Cunha é exatamente tudo o que repelimos politicamente no Brasil, representa precisamente o modelo do que gostaríamos de eliminar da cena política, e ainda assim só se fala dele – e não para criticar, o que faria pelo menos algum sentido.

Acusado dos mais variados malfeitos, fanático-religioso, autoritário, moralista, machista, misógino — nada disso é surpresa a respeito de Cunha. Por que, então, a imprensa nacional está dando tanto palco para um homem como ele? Por que elevar Cunha à categoria de salvador mesmo sabendo de quem se trata, e quais são suas crenças e valores?

Dar asas a Cunha é chamar para o estrelato pessoas como Malafaia, Bolsonaro e Feliciano, e até os paralelepípedos entendem que tipo de mal ao país fariam homens como esses tendo mais poder em mãos. Mesmo aqueles que defendem coisas como o neoliberalismo e outras direitices sabem que os valores humanitários de Cunha e amigos não cabem em nações socialmente desenvolvidas.

Não há como abrir um jornal, um portal ou ver o noticiário na TV sem encontrar neles alguma manchete com o nome de Cunha – e todas beirando o elogioso. Já é uma temeridade que alguém como ele, aliado a valores retrógrados e discriminatórios, seja tão noticiado, mas deixar de lançar um forte olhar crítico sobre tudo o que ele diz e pensa é fazer o trabalho de assessoria de imprensa e, assim, promover seu nome e ideias e valores; é fazer do Brasil um lugar socialmente miserável e humanitariamente desprezível.

Os Zés e Marias que estão em casa vendo esse homem ser tratado pela imprensa nacional como pessoa séria, submetidos diariamente aos mais variados fragmentos de suas ideias e sabendo que a crise é feia e pode piorar não terão outro recurso a não ser deixar que Cunha entre em suas configurações-padrão como um político de respeito que pode ser alternativa para toda a miséria que nos cerca.

A história mostra que é em épocas como essa, de insegurança e medo coletivo, que nascem os piores monstros que a humanidade já viu; sempre, num primeiro momento, elevados à categoria de salvadores da pátria e com o amplo apoio da imprensa. O perigo do fascismo é que ele se disfarça em muitas coisas, e assim conquista muitos desatentos, antes de se mostrar pelo que realmente é.

Se querem falar de Cunha deveriam fazê-lo em plataformas que, dado o século em que nos encontramos, melhor abrigam seus ideais, como Zorra Total, The Piauí Herald, O Sensacionalista etc etc etc, mas jamais em veículos que se pretendem coerentes e jamais sem olhar crítico.

Foi o que a imprensa americana, que não é assim tão melhor que a nossa, fez com Sarah Palin quando a republicana destrambelhada e também equipada com valores sociais de baixíssima frequência achou que tinha chance de ser figura nacionalmente representativa.

As comediantes Tina Fey e Amy Poehler ficam com os maiores créditos por terem dado a Palin a única coisa que ela de fato merecia: o ridículo.

Claro que sempre haverá uma Fox para tratar alguém com graves limitações sociais e humanitárias de forma honrosa, mas se os demais veículos fazem o papel que se espera da imprensa – que é olhar criticamente para o momento social, econômico e político e para as figuras que o habitam – o personagem cai em ostracismo, como aconteceu com Palin, e isso é bom para todos, especialmente para o futuro da nação.

Não se pode levar a sério políticos com ideias tão absurdamente intolerantes e tradicionalistas. Fazer isso é ferir a pátria e a liberdade de cada um de nós, inclusive aquelas já conquistadas.

Não falo aqui nem de todas as acusações que já foram feitas contra ele, nem do fato de ter sido citado na Lava Jato, nem de valores políticos; até porque nossa classe política, tiradas algumas poucas exceções, não se desgruda muito de Cunha nessas áreas. Quero me concentrar em seus valores humanitários, que são de fato o que me chocam e apavoram.

Não quero viver em um país que coloca uma religião sobre todas as coisas e sobre todas as demais. Não quero viver em um país que considera a homossexualidade uma doença, que reza antes de sessões parlamentares, que acredita que o poder do homem branco é superior a todos os outros, que despreza negros e outras minorias, que acha que família é pai, mãe e filhos e nada além desse arranjo, que reprime com gás-pimenta manifestações populares legítimas. Quero uma sociedade menos injusta e não mais intolerante.

As coisas já são difíceis como estão hoje, com as minorias tentando conquistar os mesmos direitos sociais de todos os demais, mas pelo menos estamos melhores do que jamais fomos.

A saída para a crise é a ampliação de direitos e ações sociais, e não o poder ainda mais concentrado nas mãos de empresas dominadas por homens brancos-fanáticos-religiosos que tão bem representam o interesse corporativo, esse baseado em lucrar cada vez mais e cada vez mais rápido a despeito do que se faça com o meio ambiente ou com a vida humana.

13 pensamentos sobre “A imprensa contra todos nós

  1. Muito interessante seu posicionamento, Milly. O curioso que na pós-graduação do meu irmão houve uma discussão sobre isso na semana passada. Ele disse que se posicionou pelo grupo que prefere ignorar figuras como Cunha e seu bando. Disse a ele que achava mais interessante desconstruí-lo em cima de seu próprio discurso. Mas confesso que a sua ideia de ridicularizá-lo seria mais abrangente. Parabéns! Adoro acompanhar seu blog. Bjos
    PS: Mandei o link para o meu irmão ler também.

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    • Pois é. O que vi Fey e Poehler fazerem com Palin foi muito interessante porque algumas coisas merecem mesmo apenas o deboche. E hoje Sarah Palin, muito por conta disso, já não mete mais medo em ninguém. Beijo e obrigada pelo comentário.

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  2. Bom texto, acho que essas pessoas do naipe do Cunha, deveriam ter a religiosidade atacada com mais força. O que nos separa de um mundo são, é justamente a religiosidade (fé no inexistente), em qualquer grau.

    Eu entendo seu ponto de vista de tolerância, mas a religião precisa ser exterminada para conseguirmos algo próximo a isso. Não deve haver tolerância com quem é intolerante, por mais incoerente que isso possa parecer.

    Abrs

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  3. Oi Milly, muito boa noite! gostei muito deste seu artigo, realmente esta figura que diz “representar” nosso congresso como Presidente é muito retrógrado e além do que, quer junto com forças de extrema direita destruir um país para simplesmente pegar umas “migalhas”(propinas e pagamentos pelos “serviços” prestados a eles) que os representantes das empresas internacionais, estas por sua vez aliados de poderosos países do ocidente que querem saquear nossos recursos naturais sem a devida contra partida como qualquer negócio de compra e venda. Estamos vendo através da nossa lamentável mídia (termo que uso apenas para não falar algo pior) um apoio sistemático contra nosso país, apenas e tão somente porque o governo que ora está no poder vai contra tudo que eles querem tanto no sentido econômico como político, este apoio implícito que as redes nacionais dão a esta figura mostra bem como estamos hoje em termos de mídia, temos um democracia de eleições gerais para todos os cargos, porém infelizmente não temos ainda uma democracia da informação pois todos nós que sabemos pensar independente, conseguimos ver que nos falta ainda muita democracia, mas democracia de informação, pois acredito que democracia temos tanto no sentido de sufrágio como no sentido individual de ainda poder manifestar nossas opiniões, salvo quando tentamos opinar livremente nesta midia corporativa. Infelizmente estou muito pessimista quanto aos rumos do nosso país se estas figuras como você citou em seu texto ganharem mais poder e mais apoios (mesmo que sejam apoios momentâneos e induzidos), se assim acontecer caminharemos certos para o fim da democracia como nos acostumamos nos últimos 30 anos, espero sinceramente que a população esteja amadurecida e acorde o mais rápido possível para evitar uma tragédia muito semelhante (senão pior) quando da ascensão do Nazismo na Alemanha.
    abraços e beijos.

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    • Oi, Marcos. Obrigada pelo comentário. O momento é delicado, muito mesmo, mas não tenho medo de aparecer alguma coisa pior do que o nazismo. Acho que jamais veremos outra vez um horror tão grande. Mas, claro, a coisa pode ficar feia sim, por isso temos que continuar atentos. Vamos juntos 🙂

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  4. Tanto quanto você estou ansioso para ver Eduardo Cunha ( também Renan Calheiros) na cadeia, fazendo companhia a André Vargas ( ex-vice-presidente da Câmara e que já está em cana) e Marco Maia( ex-presidente da Câmara). Não espero que concorde comigo, pois acho que nunca escreveu nada a respeito dos dois últimos.

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  5. Hoje, com a aprovação na Câmara do projeto da Maioridade Penal numa manobra política desse cidadão Eduardo Cunha, fica mais evidente o cenário perigoso que se delineia no nosso País, sob o comando de radicais religiosos e sem escrúpulos. Dilma segue sem projetos claros de governo ou de como controlar a crise que se instalou nesse segundo mandato. Deveria pelo menos vir à público compartilhar sua preocupação e fazer um “mea culpa” honesto e sem metáforas ridículas ás quais a têm colocado em situações cada vez mais delicadas. Vc nos ajuda, Milly, a entender melhor tudo isso e divulga um lado dos fatos que nos permite repensá-los. Obrigada.

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  6. Eu penso que pelo fato de termos vivido, até recentemente, uma ditadura em que havia naturalmente um autoritarismo exacerbado, o governo atual vem abdicando de sua autoridade com receio de ter suas ações confundidas com o autoritarismo de então. Isso abre espaço para que fanáticos imbecis possam agir impunemente, manipulados que são por uma mídia que visa apenas os seus interesses. É preciso dar um basta nisso e fazer apenas o óbvio que é cumprir a lei. Os constrangimentos (assédio moral) pelos quais tem passado o Mantega, entre outros, os adesivos estúpidos contra a Dilma; policiais federais, portanto servidores do Estado, praticando tiro com fotos da presidente como alvo e coisas do gênero devem ser tratados no rigor da Lei e esses idiotas devem responder penalmente por isso. Simples assim. O que não se pode é ficar calado e omisso diante dessas situações. O prof. Assiz Ab’Saber costumava dizer que a estupidez deve ser sempre contestada. E deve.

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  7. Ops. complementando: Na minha opinião o que esse sujeito, Eduardo Cunha, vem fazendo é puro diversionismo. Ele visa desviar o foco de outras questões fudndamentais, inclusive das investigações em que ele é o alvo. O cara é muito safo.
    Ainda, parodiando Samuel Jonhson, penso que a religião é o último refúgio do hipócrita.

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  8. Esse é mais um louco…mas, infelizmente, todos seus atos implicam em temas em que a maioria da opinião pública está com ele.
    Agora, por que diabos vc se meteu em jornalismo esportivo e por que vc odiava a torcida do SPFC?

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  9. Pingback: O capitalismo é imoral « Associação Rumos

  10. Eduardo Cunha é determinado e vem recebendo apoio e agindo à vontade apenas porque a opinião pública e mídia vêem nele oposição ao PT. Se vai causar um revés ao governo federal, total apoio… E assim vamos regredindo e desarticulando todos os movimentos no sentido de modernizar nossa sociedade. A solução é o PT passar a apoiar toda iniciativa de Cunha. A opinião pública não o perdoaria… hehehe

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