Comportamento/Política/Universo/Vida

O capitalismo é imoral

Vivemos em um mundo no qual 7 bilhões de pessoas dependem do petróleo. Existe petróleo em quase todas as coisas que usamos – plásticos, resinas, nylon, algodão, poliéster, jeans, joias, carros, aviões, cosméticos, protetores solares etc etc etc – e nas coisas que comemos, porque ele é também usado nos mais variados adubos. É realmente muito difícil olhar em volta e não ver alguma coisa que dependa do petróleo para existir e ser consumida.

Vamos deixar de lado o fato de o petróleo ser um bem escasso, extraído através de um estupro à natureza, e tentar entender a parte econômica da situação.

Apenas como ilustração, e antes de entrarmos na economia do troço, cientistas do mundo todo dizem que se não paramos de extrair petróleo imediatamente e deixarmos tudo o que resta de reservas fósseis no solo alcançaremos em pouquíssimo tempo aquele ponto de “não há mais retorno”, e a possibilidade de vida decente sobre a Terra se esgotará em duas ou três gerações. Sabendo disso o que fazem as corporações que extraem petróleo? Furam ainda mais rapidamente.

Mas vamos a outras imoralidades.

Uma dúzia de corporações – se tanto – controlam o petróleo no mundo: extração, distribuição, cotação.

Essas corporações são administradas por um corpo diretor de, no máximo, 20 homens (brancos, se posso chutar). São eles que decidem o destino de um bem escasso do qual 7 bilhões de pessoas dependem.

Numa conta burra, somos reféns da vontade de 200 homens brancos que estão onde estão porque, acima de qualquer coisa, sabem gerar lucro para eles mesmos e os acionistas de suas empresas – e às custas de nossa dependência.

Não é exagero dizer que somos viciados em uma droga que é controlada apenas essas duas dezenas de homens.

Em que situação se encontram as 7 bilhões de pessoas hoje? Algumas estão muito bem.

Existem, segundo a Forbes, 1.826 bilionários no mundo (eram 322 no ano 2000). Sessenta e sete desses bilionários são os felizes proprietários de metade da riqueza do mundo.

Vou escrever outra vez para que não achem que foi um erro de digitação: 67 bilionários têm a mesma riqueza de 3.5 bilhões de seres humanos.

A previsão é que, se nada mudar, em 2100 nosso planeta abrigue 11 trilionários. Onze.

Vamos para o outro extremo.

Um bilhão de pessoas vive com menos de dois dólares por dia. Em 2050 seremos 10 bilhões de almas nesse planeta, sabe-se lá quantos de nós na mais completa miséria já que, por essa época, 11 pessoas concentrarão em suas mãos mais da metade da riqueza do mundo.

O que nos trouxe até aqui? Um sistema econômico feito da promíscua parceria entre governos e corporações, que não se importa em explorar a natureza e seres-humanos em nome do lucro máximo e a curto prazo.

Hoje, o “deus-mercado” tudo pode. Compra-se desde uma cela melhor em algumas prisões (por U$ 82 por noite em Santa Ana, Califórnia), o direito de imigrar para os Estados Unidos (por U$ 500 mil), o direito de atirar em um rinoceronte negro (por U$ 150 mil) e o número do celular de um médico (por U$ 1500 por ano).

“Mercados se desconectaram da moral e precisamos reconectá-los”, escreveu o professor de filosofia Michael Sandel. E foi, aliás, de seu livro – “What Money Can’t Buy” (O Que o Dinheiro Não Pode Comprar) – que tirei todos esses exemplos.

É hora de entendermos a extensão da imoralidade do sistema que nos embala.

Não se trata de pregar o comunismo ou o socialismo porque não sabemos o que pode substituir o capitalismo, mas de perceber que o que temos hoje está esgotando a possibilidade de uma vida minimamente decente sobre a Terra.

Se nada mudar, acabaremos nos extinguindo; o que, na história do mundo, é apenas natural porque espécies nascem e morrem. O grande problema, acho, não é acabar com a vida humana – essa tão rica e cheia de possibilidades – mas acabar com a Terra. Somos, afinal, menos importante do que esse planeta tão exuberante. Existimos há 40 mil anos, e a Terra está onde está há 4 bilhões.

É hora de enxergar que o capitalismo é uma imoralidade. Um pouco de humildade para aceitar esse fato e buscar uma alternativa nos faria prevalecer, e, de quebra, deixar que o único planeta que, até onde sabemos, foi capaz de gerar vida continue a existir.

20 pensamentos sobre “O capitalismo é imoral

  1. Milly, vc é sempre precisa. Acho que esses números devem ser esfregados em nossa cara para que a gente tenha a mínima noção. Muitas vezes nos sentimos impotentes contra essas grandes corporações “e o poder da grana que ergue e destrói coisas belas”, mas somos muitos. Temos só que nos lembrar disso.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Eu discordo, respeitosamente, de ti.

    “O vício inerente ao capitalismo é a distribuição desigual de benesse; o do socialismo é a distribuição por igual das misérias”. – Winston Churchill.

    O que precisa ser feito é um capitalismo mais consciente e que não ultrapasse os princípios da imoralidade.

    Grande abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    • Não, absolutamente.

      A imoralidade não é acumular capital, mas sim permitir que uns fiquem à deriva da miséria.
      Diante dessa realidade inegável, Milton Friedman (um Chicaguista, veja só) apoiou os programas sociais, mesmo sendo um liberal.
      É possível, sim, fazer um capitalismo consciente, aonde os benefícios ao trabalhador transformem-se em frutos para quem os paga. E que permita, por meio de programas sociais, que indivíduos se recuperem e possam desenvolver-se meritocraticamente.

      Curtir

  3. Eu, desde a adolescencia, já via com profundo pessimismo nosso futuro nesse sistema capitalista. Milly é perfeita em suas colocações. E a realidade está aí para comprovar tudo o que ela escreveu, basta que olhemos com atenção.

    Vou ali beber uma tacinha de vinho enquanto posso.

    Curtir

    • Pois é, na minha opinião, desde que os EUA deixaram emitir dólar de acordo com as reservas de ouro a coisa toda começou a ir pro saco. Hoje vivemos no mundo do crédito e essa bolha uma hora vai estourar. Todas as nações, incluindo os EUA, tem dívidas impagáveis lastreadas em papéis. Isso não pode dar certo, é uma tragédia anunciada.
      P.S. vou seguir o teu exemplo e tomar um uisquinho básico.

      Curtir

  4. Pingback: O capitalismo é imoral « Associação Rumos

  5. Milly, muito bem lembrado sobre a “universalidade do petróleo”, e claro sempre em benefício daqueles que o exploram e o transformam numa infinidade de produtos que consumimos, pois fomos educados para isso – segundo os ditames do “deus mercado”, infelizmente a realidade é esta. Mas, aproveitando a tua boa lógica, da mesma forma este “deus mercado” nos educa para comer o trigo com glutem, vide o livro do Willian Daves (Barriga de Trigo), aonde ele confirma que estamos nos envenenando com esta gramínea trangênica e que tomou conta dos nossos alimentos, porque vamos ficar obesos diabéticos e cadíacos, e muitos outros “padrões” como a moda, a cultura, os meios de comunicação, o transporte, etc. etc. etc. Então Milly, concordo que estamos com o modelo errado, e nisso até o Papa Francisco está alertando e já estão apontando-o como comunista só por discordar dos banqueiros abutres, assim nos resta amar, comer e rezar!!!

    Curtido por 1 pessoa

  6. Agora sério: não adianta o Piketty alardear à crescente desigualdade social e acúmulo de riqueza, nem David Harvey provar a ligação das crises econômicas à especulação e boom imobiliário, nem a Grécia votar contra a austeridade. Somos completamente reféns de indústrias globais que fazem governos, por melhor intencionados que sejam, atropelarem qualquer resquício democrático, moral, legal e ambiental. Acho que já chegamos ao ponto de “não tem mais volta”.

    Como questiona o Safatle em um curso que aborda a esquizofrenia como limite do capitalismo: por que mobilizar categorias clínicas no interior da crítica social?

    Resta-nos, literalmente e figurativamente, sermos loucos ou malucos!

    Parabéns Milly, continue nos inspirando! um beijo

    Curtir

  7. Milly,
    Depois de acompanhar a polêmica “Adam Smith” e ler este texto, sugiro fortemente que repense os textos que publica sobre economia e afins; a ideia pode ser até boa, mas a execução dela tá bem ruim.
    Espero que leia este comentário como de uma pessoa que pensa que você pode fazer melhor que isso.

    Curtir

    • Deixa ver se entendi: você acha que eu farei melhor que isso quando passar a escrever coisas com as quais você concorda? Um pensamento meio stalinista esse seu, não? Tudo bem não concordar com o que escrevo, não concordar com a forma, com o conteúdo etc etc etc, mas daí a me aconselhar a repensar para, finalmente um dia, ter as mesmas ideias que você é meio estranho eu acho

      Curtir

  8. Não, Senhora. Acho que você não entendeu. Não precisa ser nada do meu gosto. Não pretendo que as pessoas rezem pela minha cartilha. Minha sugestão é apenas para que melhore o conteúdo do que escreve sobre economia/capitalismo para que não pareça conversa de boteco, o que acredito que não é a sua intenção.

    Curtir

    • Ah, são dicas para melhorar a qualidade do blog, que você evidentemente acha ruim. Mas, nesse caso, por que não largar euzinha aqui e ir ler pessoas de mais gabarito, tipo Tio Rei e Constantino?

      Curtir

      • Não acho teu blog ruim (o que não quer dizer que ele é bom).
        Não leio Reinaldo e Rodrigo porque meu espectro político não é de centro e nem de direita.
        Também creio que certa esquerda precisa de muita (auto)crítica e aprimoramento de ideias e fundamentos.
        Eis que te deixo largada.

        Curtir

      • Noooosssaaa! Tem gente que se acha. O ideal seria esse Rodrigo Silva fazer o seu próprio blog e ter seus seguidores. Assim viveria feliz para sempre sem correr o risco de ter o fígado dilacerado. Cada um que aparece!

        Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s