Economia/Política

Por que sou contra o Uber

Usei uma vez o serviço de um Uber. Estava em Nova York, era sexta à noite, chovia e não havia taxis disponíveis. Estava cansada, queria chegar em casa e dormir e então minha mulher abriu o aplicativo de seu celular para pedir um carro. Em menos de dez minutos me vi dentro de um SUV com bancos de couro, um motorista vestido como se estivesse saindo de Wall Street e garrafinhas d’água como cortesia. Chique, pensei. Pela corrida pagamos, se lembro bem, uns 50% a mais do que pagaríamos por um taxi e, embora o preço fosse alto, ainda assim tinha valido à pena porque meu objetivo foi alcançado e eu cheguei em casa rapidamente.

Dias depois estava numa aula de economia do professor Richard Wolff e ele começou a explicar como exatamente funcionava o Uber.

Vamos supor que numa determinada noite chova ou neve demais e você precise chegar em casa ou em qualquer outro lugar com segurança, ele disse. Nessa noite, porque haverá muita gente querendo um carro, o Uber, que não é regulado pelo governo e apenas pelas leis de mercado, aumentará a tarifa e você terá que pagar mais pela corrida. Dependendo da procura e da oferta, terá que pagar muito mais pela corrida. Quem, nessa situação, poderá chegar em casa com segurança? Os que têm mais dinheiro.

É assim que mercados funcionam, Wolff explicou, sempre em benefício de quem tem mais dinheiro.

Por outro lado, quando o governo intervém e regula um mercado, impondo tarifas, leis de seguraça e proteção ao trabalhador, ele atua em benefício do consumidor de todas as classes e do trabalhador.

Quem usa o serviço de taxis vai ter sempre a mesma chance de usar um carro a despeito das leis de oferta e procura. Pobres e ricos terão oportunidades iguais de, dada uma nevasca ou tempestade qualquer, chegarem em casa com segurança se optarem por usar o serviço de um taxi, que só pode operar se preencher certos requisitos, como ter seguro, e usar a tarifa estabelecida pelo estado.

O mesmo mercado que funciona sem regulação federal e beneficia os que têm mais dinheiro acaba deixando o trabalhador desprotegido, e não à toa, um serviço novo como o Uber já enfrentou muitas greves e vários protestos de motoristas que reclamam de condições de trabalho, de comissionamentos que mudam da noite para o dia e conforme o humor do empregador, de suspensões descabidas, de demissões injustas. O trabalhador do Uber, um terceirizado, não tem garantia de trabalho.

Em São Paulo noto que existe uma elite que agora só usa Uber porque o serviço é considerado chique. Todos os que conheço que vão preferencialmente de Uber têm os aplicativos de taxis em seus celulares e sabem que um taxi vai chegar tão rapidamente quanto um Uber, mas, gente, Uber foi criado por gringos, os carros são pretos e elegantes, americanos usam, então esse troço é bem mais sofisticado do que um taxi capenga. Vamos chamar um Uber.

O curioso é que essa galera que vai de Uber faria melhor uso do verbo se fosse de taxi e pudesse passar o trajeto concordando com o motorista a respeito de como o Brasil vai mal, como o PT afundou o país, como deveriam ser todos presos e como Haddad está transformando São Paulo num reduto comunista, sem falar nessas ciclovias ridículas e, pior, vermelhas. Aumenta aí o som, seu motorista, e vamos ouvir a Pan.

Já se tentar puxar um papo com um motorista Uber, esse que a cada dia parece ser mais explorado achatado pelo empregador e que já faz greves e protestos lá fora exigindo condições de trabalho, talvez o passageiro rico-revoltado não encontre tanto eco para um papo sobre como é bacana mercados que se auto-regulam e protegem o usuário rico a despeito das condições de trabalho do empregado. Só algumas das contradições de um sistema econômico injusto e moribundo.

Aos taxistas que protestam o Uber seria bacana se entendessem que, fazendo isso, estão na verdade se opondo às nocivas praticas neoliberais que tanto defendem em seus discursos caretas, conservadores e retrógrados.

Um serviço que faz uso das tão celebradas práticas do livre mercado e, por isso, não é regulado — como é o caso do Uber — vai sempre privilegiar os mais ricos e o empresário, em detrimento dos mais pobres e do funcionário.

Ou seja, os taxistas estão, na prática, negando o que vomitam em nossos ouvidos a cada corrida. Se abrissem suas cucas, olhassem mais para o social e para a necessidade de aumentarmos o espaço público e diminuirmos o privado mudariam a narrativa, entenderiam de que lado estão e transformariam as corridas em eventos mais aprazíveis.

Tudo isso não quer dizer que o serviço de taxis no Brasil seja uma maravilha. Não é, e está longe de ser. Por isso batalhar e fazer textão pela melhoria do serviço de taxis, em nome do usuário e do trabalhador, tem minha simpatia. Já batalhar em nome de um serviço de transporte que beneficia os mais ricos e explora o trabalhador não vai ter minha simpatia.

100 pensamentos sobre “Por que sou contra o Uber

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